A FORÇA DA PALAVRA...
Salazar consumia, a redigir os seus discursos, nunca mais de quarenta horas e nunca menos de 36.
Quando lhe escasseavam as palavras, manuseava os Sermões do Padre António Vieira, uma das suas leituras estremecidas, a par das de Manuel Bernardes.
O ditador improvisava mal e porcamente.
Mas escrevia com elegância.
Augusto de Castro, diplomata e director do Diário de Notícias, simpatizante eficiente do regime, murmurava que Salazar era demasiadamente influenciado pela retórica de Vieira.
Por vezes, a influência era tamanha que plagiava o Mestre, no lançamento da locução e, até, na vigilância da ideia, segundo a rude afirmação de Rodrigues Lapa.
O que abonava em favor do tirano, diga-se de passagem.
Faz falta o estudo linguístico das afinidades estilísticas entre muitos dos grandes clássicos com muitos dos escritores portugueses.
Não falo nos actuais: pouco ou nada têm a ver com essa vigilância fundamental, que corresponde ao diálogo que se pede emprestado aos que fundaram a nossa literatura e conferiram, à pátria, a sua mais nobre e digna fisionomia.
Sabe-se, pois, que Salazar era leitor, de mão diurna e nocturna, do famoso Padre.

Porém, era-lhe antagónico no progressismo, na luta pela liberdade e contra os déspotas e os opressores.
Vieira pagou bem caro esse gosto e essa verticalidade moral.
A Inquisição mordeu-lhe as canelas e ele sacudiu-lhes a dentuça com a firmeza da razão e a coragem da palavra.
Faz imensa falta, aos políticos portugueses que por aí andam, a leitura de António Vieira.
Há quatro séculos que o homem nasceu.
Viveu 89 anos inquietos e inquietantes, dos quais dedicou mais de vinte a bolear os sermões que proferia dos púlpitos, a limar as esquírolas das frases, na procura obstina de uma perfeição que (segundo ele próprio dizia) lhe escapava com afã.
Há dias, no Centro Cultural de Belém, e a convite de António Mega Ferreira, fui ler um excerto do Sermão de Santo António aos Peixes.
Um excerto, porque mais seria fastidioso para quem ouvia e extremamente fatigante para quem o iria ler.
Outros camaradas de escrita disseram os textos previamente por si escolhidos.
Uma sessão agradável para mim, sobretudo por escutar os outros e reavivar a memória do grande Vieira, mas, igualmente, por me lembrar de um excelso professor que me ministrou o prazer da leitura dos antigos.
Chamava-se Emílio Menezes, goês, gramático, homem de bem e de inexcedível paciência para com os alunos, a maioria procedente dos bairros pobres, de famílias pobres.
Recupero uma das frases do professor Menezes: Vão gostar de António Vieira, porque ele fala de vocês, sem que directamente se vos dirija.
É uma síntese admirável.
Ao contrário do que se tem dito, o Padre não é um Quixote nem um antiherói.
Ele sabe muito bem o que quer e a quem se dirige.
Conhece, como poucos, o seu tempo, e os perigos que enfrenta.
Basta ler as biografias a ele consagradas por Hernâni Cidade ou João Lúcio de Azevedo, para se compreender a extraordinária dimensão da sua existência e da sua obra.
Utiliza a metáfora e a analogia para escapar ao varejo dos inquisidores e dos bufos.
Tal qual os melhores de nós (e os mais apetrechados culturalmente) o fizeram, para driblar o olho desorbitado das censuras.
O Sermão da Sexagésima, outro prodígio de beleza literária e de argúcia temática, institui a dúvida, condena a dogmática, provoca a reflexão, interpela a duvidosa omnipotência dos homens e a omnipresença de Deus.
Se a palavra de Deus é tão eficaz e poderosa, como vemos tão pouco o fruto da palavra de Deus?, interrogava-se, e aos outros, no século XVII, tempo de assombros, de superstições, de sombras e de ameaças.
E é, ou não, aplicável à nossa época estas frases, lacradas com a leveza do espírito e a elegância do verbo?
- Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras ou, ainda, esta: A restituição do respeito é muito mais dificultosa do que a do dinheiro.
Não duvido de que, neste tempo português, o efeito António Vieira fosse apodado de populista, demagogo, excessivo, incontinente, ansioso de protagonismo, exacerbado - e outros agitados epítetos desqualificantes, aliás nas últimas semanas dirigidos, por exemplo, ao bastonário da Ordem dos Advogados (tomando, naturalmente, as comparações com todos os cuidados e toda a prudência devidos), cujas declarações sobressaltam as bem-pensâncias nacionais.
Vieira faz-nos crer no fabuloso, na possibilidade do aparentemente impossível porque acredita numa sociedade sã de homens tementes, gratos, mas pensantes e árduos.
Ele põe em causa a secularização das coisas, tidas e aceitas como imutáveis e indiscutíveis.
Combate a escravatura, coloca-se ao lado dos índios, verberando, em frases de uma beleza incomum, o latrocínio e o genocídio.
Ele conclama a razão contra o nada, porque se admite o nada como uma espécie de impunidade.
O Padre reafirma que não.
O nada não obedece ao império da verdade.
O nada é a justificação dos amos para dominarem os mandados.
E os mandados são criaturas de Deus, com alma e coração, com amor e com mente.
Ele contraria as evidências abstractas, opondo-lhes o verbo dos argumentos, a experiência transformada em consciência.
No Sermão de Santo António aos Peixes, ei-lo que esclarece: Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se os pequenos comerem os grandes, bastará um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
No Padre António Vieira restabelece-se e reafirma-se a força poderosa da palavra que, mesmo ameaçada, é livre - porque o é e sempre será.
Quando lhe escasseavam as palavras, manuseava os Sermões do Padre António Vieira, uma das suas leituras estremecidas, a par das de Manuel Bernardes.
O ditador improvisava mal e porcamente.
Mas escrevia com elegância.
Augusto de Castro, diplomata e director do Diário de Notícias, simpatizante eficiente do regime, murmurava que Salazar era demasiadamente influenciado pela retórica de Vieira.
Por vezes, a influência era tamanha que plagiava o Mestre, no lançamento da locução e, até, na vigilância da ideia, segundo a rude afirmação de Rodrigues Lapa.
O que abonava em favor do tirano, diga-se de passagem.
Faz falta o estudo linguístico das afinidades estilísticas entre muitos dos grandes clássicos com muitos dos escritores portugueses.
Não falo nos actuais: pouco ou nada têm a ver com essa vigilância fundamental, que corresponde ao diálogo que se pede emprestado aos que fundaram a nossa literatura e conferiram, à pátria, a sua mais nobre e digna fisionomia.
Sabe-se, pois, que Salazar era leitor, de mão diurna e nocturna, do famoso Padre.

Porém, era-lhe antagónico no progressismo, na luta pela liberdade e contra os déspotas e os opressores.
Vieira pagou bem caro esse gosto e essa verticalidade moral.
A Inquisição mordeu-lhe as canelas e ele sacudiu-lhes a dentuça com a firmeza da razão e a coragem da palavra.
Faz imensa falta, aos políticos portugueses que por aí andam, a leitura de António Vieira.
Há quatro séculos que o homem nasceu.
Viveu 89 anos inquietos e inquietantes, dos quais dedicou mais de vinte a bolear os sermões que proferia dos púlpitos, a limar as esquírolas das frases, na procura obstina de uma perfeição que (segundo ele próprio dizia) lhe escapava com afã.
Há dias, no Centro Cultural de Belém, e a convite de António Mega Ferreira, fui ler um excerto do Sermão de Santo António aos Peixes.
Um excerto, porque mais seria fastidioso para quem ouvia e extremamente fatigante para quem o iria ler.
Outros camaradas de escrita disseram os textos previamente por si escolhidos.
Uma sessão agradável para mim, sobretudo por escutar os outros e reavivar a memória do grande Vieira, mas, igualmente, por me lembrar de um excelso professor que me ministrou o prazer da leitura dos antigos.
Chamava-se Emílio Menezes, goês, gramático, homem de bem e de inexcedível paciência para com os alunos, a maioria procedente dos bairros pobres, de famílias pobres.
Recupero uma das frases do professor Menezes: Vão gostar de António Vieira, porque ele fala de vocês, sem que directamente se vos dirija.
É uma síntese admirável.
Ao contrário do que se tem dito, o Padre não é um Quixote nem um antiherói.
Ele sabe muito bem o que quer e a quem se dirige.
Conhece, como poucos, o seu tempo, e os perigos que enfrenta.
Basta ler as biografias a ele consagradas por Hernâni Cidade ou João Lúcio de Azevedo, para se compreender a extraordinária dimensão da sua existência e da sua obra.
Utiliza a metáfora e a analogia para escapar ao varejo dos inquisidores e dos bufos.
Tal qual os melhores de nós (e os mais apetrechados culturalmente) o fizeram, para driblar o olho desorbitado das censuras.
O Sermão da Sexagésima, outro prodígio de beleza literária e de argúcia temática, institui a dúvida, condena a dogmática, provoca a reflexão, interpela a duvidosa omnipotência dos homens e a omnipresença de Deus.
Se a palavra de Deus é tão eficaz e poderosa, como vemos tão pouco o fruto da palavra de Deus?, interrogava-se, e aos outros, no século XVII, tempo de assombros, de superstições, de sombras e de ameaças.
E é, ou não, aplicável à nossa época estas frases, lacradas com a leveza do espírito e a elegância do verbo?
- Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras ou, ainda, esta: A restituição do respeito é muito mais dificultosa do que a do dinheiro.
Não duvido de que, neste tempo português, o efeito António Vieira fosse apodado de populista, demagogo, excessivo, incontinente, ansioso de protagonismo, exacerbado - e outros agitados epítetos desqualificantes, aliás nas últimas semanas dirigidos, por exemplo, ao bastonário da Ordem dos Advogados (tomando, naturalmente, as comparações com todos os cuidados e toda a prudência devidos), cujas declarações sobressaltam as bem-pensâncias nacionais.
Vieira faz-nos crer no fabuloso, na possibilidade do aparentemente impossível porque acredita numa sociedade sã de homens tementes, gratos, mas pensantes e árduos.
Ele põe em causa a secularização das coisas, tidas e aceitas como imutáveis e indiscutíveis.
Combate a escravatura, coloca-se ao lado dos índios, verberando, em frases de uma beleza incomum, o latrocínio e o genocídio.
Ele conclama a razão contra o nada, porque se admite o nada como uma espécie de impunidade.
O Padre reafirma que não.
O nada não obedece ao império da verdade.
O nada é a justificação dos amos para dominarem os mandados.
E os mandados são criaturas de Deus, com alma e coração, com amor e com mente.
Ele contraria as evidências abstractas, opondo-lhes o verbo dos argumentos, a experiência transformada em consciência.
No Sermão de Santo António aos Peixes, ei-lo que esclarece: Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se os pequenos comerem os grandes, bastará um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
No Padre António Vieira restabelece-se e reafirma-se a força poderosa da palavra que, mesmo ameaçada, é livre - porque o é e sempre será.
B.B.
Etiquetas: Cultura, Padre António Vieira



