terça-feira, 30 de novembro de 2004

LIBERDADE EM SEGURANÇA




Os réus entraram. Três. Fardados de azul. De escudo a tiracolo e
viseira erguida.
O juiz pôs a touca com um pequeno jeito de mão direita. Afirmou
- Levante-se o queixoso.
O queixoso estava deitado. Não se levantou.
- Tem alguma coisa a acrescentar quanto à sua arguição contra os
réus? - insistiu o juiz, dando outro pequeno jeito na touca.
O queixoso nada disse. Continuava deitado.
- Dadas as circunstancias atenuantes e outras, declaro os três réus
inocentes. O queixoso demonstra à sociedade ser provocador. E
silencioso. Revolucionário alterante de ordem estabelecida.
Destabilizador da liberdade em segurança. Que os réus, absolvidos, se
retirem. Em segurança e liberdade.
Os três réus perfilaram-se. Fizeram a continencia com a mão direita.
E sairam. Pela porta da direita.
Sairam os meirinhos. Pela porta do fundo.
E também o juiz. Já sem touca. Pela porta da frente.
Sairam todos.
O queixoso não. Estava deitado, como já tive oportunidade de
informar. Com cinco tiros no baixo-ventre. E morto.

MÁRIO HENRIQUE LEIRIA

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1 Comments:

At 2 de dezembro de 2004 às 16:34, Blogger Zé da Galinha said...

O escritor têm razão.
A foto é a indicada para o texto do saudoso Mário H. Leiria.
Por vontade do pinto estava tudo preso... em especial aqueles que o criticam.

Olha o Século, o Diário de Noticias, o Novidades.
Olha o República

 

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