quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 DE ABRIL

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domingo, 25 de abril de 2010

REVOLUÇÃO

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A LIBERDADE SAÍU À RUA




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sexta-feira, 24 de abril de 2009

25 DE ABRIL





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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

OS PALHAÇOS

Há uma grande diferença entre respeito e respeitinho.
O respeito funda-se na autoridade moral, o respeitinho no autoritarismo.


O que se passou na Assembleia Regional da Madeira, com um deputado a chamar fascista ao presidente do governo regional, ao mesmo tempo que desfraldava a bandeira do partido nazi, seria impensável suceder no Congresso ou no Senado dos Estados Unidos da América, apesar de este ser o país do mundo onde existe maior liberdade de expressão.

Nem o comportamento do deputado do PND que desfraldou a bandeira nazi, nem o comportamento dos sociais-democratas madeirenses que o suspenderam de funções, o impediram de entrar na Assembleia e apresentaram queixa no tribunal.


E para ser franco, choca-me mais a reacção social-democrata do que a actuação do deputado do PND. Na verdade, ao reagirem da forma como o fizeram, os sociais-democratas da Madeira acabaram por justificar e legitimar a atitude do deputado do PND. Com efeito, só uma sociedade totalmente avessa aos mais elementares princípios da democracia e da liberdade pode reagir da forma violenta como os sociais-democratas madeirenses reagiram a uma palhaçada daquelas.

Até parece que lhes enfiou a carapuça. Sem esquecer que, como diz o povo, na terra onde fores viver, faz como vires fazer.

E estando nós tão habituados a tiradas semelhantes dos presidentes do governo e assembleia regionais, ninguém compreende por que razão os sociais-democratas da Madeira se sentem agora tão ofendidos e melindrados com uma simples brincadeira de mau gosto.


No Senado e no Congresso dos EUA, isto seria, no entanto, impensável de ocorrer porque os americanos têm o cuidado de eleger congressistas e senadores, em vez de palhaços. Em Portugal, pelo contrário, as assembleias da República, regionais e municipais só muito raramente se conseguem distinguir dum circo, a não ser pelo número de palhaços que, nos circos, é, em regra, bastante mais reduzido.

Nos EUA, basta uma simples notícia fundamentada que ponha em causa a honorabilidade do congressista ou do senador para este colocar, de imediato, o lugar à disposição. Em Portugal, a falta de vergonha é tanta que, quanto mais atascado estiver na lama, mais se agarra ao lugar, protegido pelas leis que ele próprio ajudou a aprovar e pelos apaniguados cujos tachos e favores comprou com o dinheiro dos contribuintes. E como o nosso povo se revê nesta gente, têm sempre o seu voto garantido. Isto é que me revolta e escandaliza.

Não se pense, no entanto, que o circo está confinado à Madeira. Aquilo é circo pobre. A quem eu nunca achei qualquer graça é ao palhaço rico, não é ao palhaço pobre.

O palhaço rico é aquele que se escandaliza com as palhaçadas do palhaço pobre, mas, depois, é capaz de aprovar leis inconstitucionais ou rejeitar leis, contra a sua consciência, para não perder votos em eleições regionais ou nacionais.

E sobretudo não acho qualquer graça a quem faz de nós palhaços, como é o caso do nosso primeiro-ministro e do ministro das Finanças que, num dia, chamam de irresponsáveis a quem apresenta determinada proposta e, no outro, aprovam precisamente as propostas que, no dia anterior, classificaram de totalmente irresponsáveis. Mas, como o povo português adora o circo, esta gente tem sempre a eleição garantida.


REXISTIR

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terça-feira, 3 de junho de 2008

HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE DIZ NÃO

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.


Manuel Alegre

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sexta-feira, 23 de maio de 2008

ESTA GENTE NÃO DIZ NADA DE NOVO

A dr.ª Manuela Ferreira Leite não voga em ondas amenas. No seu partido, as divisões, dissensões e embaraços, além da intriga, são assinaláveis. Em público, o extraordinário Santana Lopes diz que a senhora é deprimente.

A afirmação não só é dura: é rude e cruel, mais pelo que insinua do que pela qualificação psicológica. Santana ainda acrescenta umas picardias, acaso movido pelo ressentimento e na busca de uma espécie de acerto de contas. Não consta que José Pacheco Pereira, tão lesto em criticar os primeiros planos da candidata, na excelente entrevista que Judite de Sousa lhe fez, na RTP, tenha manifestado a sua assanhada insurgência contra a crítica de Santana.

Por outro lado, começam a surgir dúvidas acerca dos méritos da dr.ª nas suas passagens ministeriais. Ao que se infere, quando ministra da Educação foi deplorável; e, na pasta das Finanças, um malogro. Os factos estão aí; os números provam-no. E os mais apetrechados nas matérias afirmam-no e reafirmam-no.

Mas perdemos um tempo incalculável com as ninharias de um processo político centrado no já visto e ouvido. Nenhuma das candidaturas à chefia do PSD suscita a curiosidade activa da população.

Parece um jogo em que a participação se movimenta num círculo fechado, ou numa redoma através da qual se movem sombras turvas. Que desejam estes senhores, e a senhora, bem entendido, para o País? Qual o projecto político e, decorrentemente, cultural e social que, cada um a seu modo, prevê para Portugal?

Bem pode Marcelo Rebelo de Sousa agitar a sua preferência: já poucos admitem que Manuel Ferreira Leite seja a salvadora. Mas também Santana Lopes (pobre Santana!, chega a ser comovente) e Pedro Passos Coelho ou quem quer que seja dos outros logram conquistar a adesão sincera das pessoas.

Nenhum deles possui capacidade, competência e talento para resolver os cada vez mais graves problemas nacionais. São maçadoramente vulgares, bocejantemente ineptos, catastroficamente medíocres. Quando Manuela Ferreira Leite inflecte o discurso para o social, o que diz e a forma como o diz torna-se penoso por inconvincente. Poderá, acaso, vir a ser presidente do PSD. Porém, não atrasa nem adianta. Ela e os outros representam tudo o que de pior acalenta a Direita dos interesses.

Numa entrevista que o dr. Campos e Cunha, antigo ministro do Executivo Sócrates (de que fugiu espavorido), concedeu ao Diário de Notícias [18. Maio, p.p.], não escamoteou a perplexidade causada por esta democracia, que considera imperfeita e coxa.

A diatribe toca a todos. A mediania da sociedade portuguesa alastra como endemia. Preocupa-me muito quase a exigência de um cartão partidário para se conseguir um negócio, afirma. Todos conhecemos a verdade; poucos a denunciam. Faz-me lembrar o episódio ocorrido entre Bertoldt Brecht e um actor que se lhe apresentou no Berliner Ensemble, ostentanto o cartão do Partido Comunista como referência. Brecht, que não era nada para graças, indicou à criatura a porta de saída. Mostra-me o teu talento, não me mostres o cartão do partido!

Se as coisas fossem mais claras, os desígnios mais transparentes, os objectivos mais definidos e a honra não fosse, constantemente, sovada - creio que se registariam melhorias substanciais no nosso viver quotidiano. Porém, olhamos em volta e assistimos a factos, cenas e acontecimentos que não só mancham de indignidade os seus protagonistas, como ferem de morte uma democracia sem raízes fundas.

Deixou de haver o pouco debate público (social, político, cultural, económico) que, de vez em vez, lá emergia da trivialidade. Não há crítica literária, nem artística, nem cinematográfica, nem política, nem nada. O maior crítico português, João Lopes, continua sozinho em campo, no exercício de uma actividade que, nele, assume a grandeza do espírito de missão. O que, neste sector, é publicado claudica por ignorância dos seus trôpegos autores.

Há por aí, creio que quinzenário, um Jornal de Letras dirigido por um poeta menoríssimo, simultaneamente réplica do Conselheiro Acácio e clone do Gouvarinho, que pratica a omissão e a rasura de nomes, entre os quais o meu, porque o escarmentei em público.

Quem chefia a Redacção foi um truculento militante da UDP, profeta de todas as liberdades e agitador emérito. Interpelei-o, certa manhã, na Casa da Imprensa: Não tens vergonha de ser cúmplice desta pouca-vergonha? Rouquejando, deu-me a seguinte ignominiosa resposta: O jornal não é meu. Conto este episódio, por exemplar.

O caso de eu ser um dos protagonistas é meramente circunstancial. Torno-o público porque me cansei destes democratas instantâneos como o pudim flan. E se me chateiam, conto mais. Sei que omissões a outros autores, manigâncias de promoções e de esquecimentos deliberados acontecem em outras instâncias ditas de comunicação. Ninguém se queixa e os novos Torquemadas gozam de total impunidade.

Estes incidentes revelam até que ponto a existência democrática em Portugal está seriamente avariada. Nos diversos territórios de actividade as perseguições, os favoritismos, as influências partidárias tornaram-se comuns. O que está a dar, por exemplo, é zurzir em Hugo Chávez, e em Evo Morales, agora que foi dada uma trégua a Fidel de Castro. Não se trata de negar o direito de quem quer que seja a criticar quem quer que esteja. Mas a unilateralidade do requisitório alardeia a falta de substância crítica.

Os estipendiados cobrem-se de lama, mas isso que importa se as benesses são amplas? O exemplo de El Pais poderia favorecer uma melhor identificação com a realidade. O grande diário espanhol tem uma tiragem superior a 2 milhões e 500 mil exemplares. Defendendo, embora, uma ideia de progresso e de liberdade e de justiça social, El Pais não se coíbe de criticar os líderes que prevaricam e de os elogiar quando o merecem.


B.B.

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domingo, 18 de maio de 2008

SÃO COISAS DA VIDA

1.- Que o primeiro-ministro fuma (ou fumava...) às escondidas dos olhares públicos era um segredo de polichinelo. Julgo que todos ou quase todos os jornalistas políticos o sabiam e eu também. Nunca me ocorreu denunciar tal crime, primeiro porque não tenho vocação para bufo, e depois porque não tenho nada a ver com os hábitos privados dos outros. Mas claro que sempre achei que um primeiro-ministro que faz questão de fazer jogging em viagens oficiais para os jornalistas divulgarem a imagem de um desportista na política - coisa que vende muito bem junto dos eleitores - só podia, de facto, fumar às escondidas, para não estragar essa imagem. Depois de ter decretado o bloqueio económico a Cuba, também Kennedy fumava, numa sala íntima da Casa Branca e a seguir aos jantares oficiais, os seus puros, que havia mandado comprar em doses industriais em Havana, antes de assinar a ordem de bloqueio. São das tais contradições a que o ofício obriga.

Mas sem dúvida que há uma grande dose de hipocrisia à vista quando o primeiro-ministro e dois ministros de um governo que fez aprovar uma lei fundamentalista contra os fumadores aproveitam a excepção privilegiada de um voo fretado para fumarem discretamente atrás de uma cortina. Não tivessem eles andado a apregoar virtudes de saúde pública contra os fumadores, não tivessem instituído regras de perseguição policial e moralista contra os criminosos dos fumadores, e a coisa ainda poderia passar como mordomias comuns aos poderosos. Assim, passou apenas por uma descarada manifestação de públicas virtudes, vícios privados. Mas também digo que é preciso ter um estômago à prova de vómitos para, sendo jornalista convidado a bordo do avião do Governo, aproveitar a oportunidade para denunciar as fraquezas íntimas dos governantes. Sim, já adivinho a justificação: interesse público na notícia. Talvez sim, mas não é a mensagem que está em causa, mas os métodos do mensageiro. Eu, se fosse o primeiro-ministro, da próxima vez dizia-lhes: Agora vão em voo comercial e paguem os vossos bilhetes. Mas eu, se fosse primeiro-ministro, não teria aprovado esta lei nem me esconderia para fumar. É claro, também, que assim nunca conseguiria ser primeiro-ministro: Churchill, a menos que se dispusesse à hipocrisia de esconder as suas fraquezas e vícios - coisa para que nunca revelou vocação - jamais conseguiria ganhar uma eleição nos tempos gloriosos que vivemos.

Mas o que mais me impressionou nesta história que se tornou a notícia da viagem de Sócrates à Venezuela é que o sentido único de todos os comentários foi o de que o primeiro-ministro era um hipócrita porque não cumpria as leis que ele próprio mandava fazer. A enxurrada foi tanta que, com a hipocrisia já registada no cadastro (e os juros vão ser-lhe cobrados por muito tempo…), Sócrates ainda se dispôs à humilhação pública de pedir perdão à nação e jurar que ia deixar de fumar. Tal qual o menino apanhado pelo papá a fumar às escondidas na casa-de-banho. É sinal dos tempos que a ninguém tenha ocorrido outra hipótese: se os próprios membros do Governo - os legisladores - não se aguentam sem fumar durante oito horas, porque não tiram daí a conclusão de que a lei que aprovaram está para lá do razoável?

2.- Outra marca indelével dos tempos que vivemos, da confusão deliberada entre interesse público e direitos individuais, está nos fóruns de discussão dos blogues da net - esse território mitificado como de absoluta liberdade de expressão. Sempre me fez espécie que se possa defender para isto o estatuto de liberdade de expressão. Como pode haver liberdade se, a coberto do anonimato, dos pseudónimos ou da insuficiente identificação do autor, qualquer um pode dizer o que quiser sobre outrem, sem haver forma de o responsabilizar? Porque é que eu, ao escrever aqui, estou sujeito, e bem, a todo o tipo de escrutínio e responsabilização profissional, penal e cível, e o tipo que escreve na net as maiores calúnias e falsidades passa incólume, em nome da liberdade de expressão?

Como é óbvio, o sistema permite manobras perfeita de assassínio de carácter, porque dá roda livre ao anonimato e à cobardia, que são a arma atómica dos boateiros e caluniadores e, praticamente, não consente defesa. Ciclicamente, sou alvo de boatos e falsidades a meu respeito, nestes territórios de absoluta liberdade - sobre a minha actividade profissional ou a minha vida pessoal, sobre o que fiz e o que não fiz, mas me atribuem (até já me inventaram uma peixeirada a bordo de um avião da TAP, por supostamente querer fumar a todo o custo). Dizem-me que é o preço a pagar por ser figura pública - o único alvo que, por razões evidentes, interessa aos boateiros profissionais. Fraco consolo...

Recentemente, no meio das polémicas entre os professores e a ministra da Educação, coloquei-me basicamente ao lado dela para defender duas medidas: a avaliação e as aulas de substituição. Parece que foi mais do que os professores estão dispostos a suportar. Eles, que tanto exigiram a demissão da ministra por discordarem da sua política, aparentemente não consentem que os outros discordem das suas opiniões; eles, que desfilaram nas ruas com cartazes e palavras de ordem insultuosos para com a ministra, consideram um insulto colectivo que alguém se atreva a pôr em causa as suas razões. Uma senhora professora do Minho colocou um post sobre mim num site de Educação, que começava assim: Conforme é do domínio público, o Miguel Sousa Tavares declarou que os professores são os inúteis mais bem pagos deste país. Daí e sem nunca discutir um só dos meus argumentos, seguia com considerações acerca da minha lastimável pessoa, terminando com a sugestão de que, se a minha mãe fosse viva, teria vergonha do filho. O texto da senhora pegou como fogo na pradaria: não houve, por exemplo, um único familiar ou amigo meu que o não tivesse recebido por mail ou fotocópia; de norte a sul do país fui abordado por pessoas indignadas com as minhas palavras e até do estrangeiro me chegou a interpelação de um jornalista. Depois, comecei a receber autos-de-fé de professores: um grupo deles, da Região Centro, enviou-me um abaixo-assinado a informar que, como forma de protesto, nunca mais dariam a ler aos seus alunos os meus livros infantis, recomendados pelo programa Ler; um outro grupo do Norte fez-me chegar um livro meu devolvido com dezenas de assinaturas e a declaração solene de que nunca mais leriam um livro da minha autoria.

Acontece, porém, um pequeno pormenor: eu nunca disse, nunca escrevi e nunca me ocorreu pensar tão estúpida frase. É absolutamente falsa, de fio a pavio. Quem a inventou sabia bem que a melhor forma de atingir um adversário não é discutindo as razões dele, mas atacando-lhe o carácter. E quem a adoptou logo como verdadeira e do domínio público, sem nunca, pessoalmente, a ter escutado ou lido, mostrou como é fácil conduzir um rebanho de ovelhas nesses fóruns tão democráticos da Internet. E pensar que é assim que hoje se forma largamente a opinião pública!


Miguel Sousa Tavares

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sábado, 10 de maio de 2008

10 DE MAIO DE 1958 - 10 DE MAIO DE 2008


Obviamente demito-o


Em 1958, acedendo ao convite da oposição democrática, apresentou-se como candidato independente às eleições presidenciais.


O mote da campanha eleitoral foi lançado pela célebre frase Obviamente demito-o, numa conferência de imprensa no Café Chave D'Ouro em Lisboa , a 10 de Maio de 1958, em resposta a um jornalista da France Press que lhe pergunta qual o destino que daria a Salazar no caso de ganhar as eleições.


A vasta movimentação popular que se seguiu permitiu criar pela primeira vez em três décadas de ditadura uma dinâmica de unidade da oposição contra o regime salazarista.

O carisma do General sem medo surgiu como um fenómeno inesperado, bem como a erupção de massas no processo eleitoral.
O candidato da oposição anunciou o então facto inédito de não desistir da ida às urnas.
O povo do norte de Portugal concentrou-se numa gigantesca manifestação no Porto - a fim de o receber poucos dias após a sua declaração contra o ditador. Esta jornada a 14 de Maio de 1958 reacordou um velha tradição de liberalismo que a ditadura de Salazar não conseguira extinguir após mais de trinta anos de ditadura. Receando que a popularidade de Delgado se espalhasse de Norte a Sul do país, Salazar proibiu a deslocação deste a Braga - um baluarte do catolicismo e berço da revolta militar do 28 de Maio de 1926 que instaurara a ditadura militar. A cidade foi ocupada por cinco mil membros da Legião Portuguesa - medida preventiva de intimidação e de exibição do poder que todavia não impediu vastas concentrações de pessoas pela região aclamando o candidato da democracia.


Apanhadas de surpresa pelo levantamento espontâneo do entusiasmo popular por todo o país, o regime tomou medidas de emergência destinadas a evitar mais demonstrações em Lisboa. Assim, após a chegada de Delgado à estação de Santa Apolónia a 16 de Maio de 1958 as forças da Guarda Nacional Republicana e os agentes da PIDE exerceram repressão sobre a população lisboeta que acorrera em massa para receber Delgado. As notícias dos tumultos e dos ataques das forças para-militares contra a população de Lisboa apareceram na imprensa estrangeira que começou a dedicar mais atenção a Portugal, país habitualmente pacato.


Após os incidentes e tumultos ocorridos no Porto e em Lisboa, a 14 e 16 de Maio, a polícia política (PIDE) aumentou a repressão contra a população que participava espontaneamente na campanha apelidada de "subversiva" pela imprensa controlada. Apesar do mecanismo eleitoral ser manipulado desde o recenseamento, apesar das dificuldades intransponíveis na cópia dos cadernos eleitorais e na distribuição por parte da oposição dos boletins de voto, ainda assim o Estado Novo, temendo um enorme desaire eleitoral, decretou a proibição da fiscalização do escrutínio por parte da oposição. Os números oficiais deram quase 25% dos votos a Humberto Delgado, contra 75% do candidato oficial, Américo Tomás, não sendo possível ainda hoje apurar os resultados reais dada a amplitude da fraude.
Com medo de no futuro passar por um outro "golpe constitucional" que representava a possibilidade de a oposição voltar a lançar-se numa campanha eleitoral como a de 1958, Salazar promove, em Agosto de 1959 uma revisão constitucional na qual se suprime o sufrágio directo sendo substituído por sufrágio indirecto proporcionado por um colégio eleitoral de total confiança do Governo.


Que linda foi a campanha em Ponte de Sôr...
Passados estes anos todos não poderiamos esquecer os homens e mulheres livres de Ponte de Sôr que participaram na campanha eleitoral do General Humberto Delgado, para eles o nosso obrigado pela vossa luta em defesa da LIBERDADE.

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

O ANO DOS SONHOS TORNADOS POSSÍVEIS

A década de 60 pôs em causa a ordem das coisas.
Os dois sistemas de mundo equilibravam-se no terror, e o compromisso dos intelectuais estabelecia-se na admissão de uma das partes e na negação da outra.
Não há terceira via, nem outra escolha.

A neutralidade é cobarde.
Na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, a agitação não propõe outra coisa senão que tudo seja virado do avesso.

Direitos dos negros, assunção das responsabilidades morais e cívicas dos professores, dos escritores, dos cineastas, por aí fora.
Uma mistura de Marcuse com Camus, de Marx com Rimbaud.

Sartre escreverá que algo de surpreendente está a registar-se no outro lado do Atlântico.

A eclosão dos movimentos nacionalistas africanos é a lógica decorrência do explorado contra o explorador [Franz Fanon], e o renascimento da dignidade sufocada pelo peso do imperialismo [Henri Aleg].
Um pouco por todo o lado a contestação a um mundo velho, ao eurocentrismo, ao capitalismo norte-americano e à esfera soviética, atingem aspectos por vezes violentos.
Todas as manifestações sociais e artísticas possuem um fundo – se não político, pelo menos politizado.

A América Latina está em polvorosa.
Cuba é a medalha inoxidável de uma esperança à altura do homem.
Um pacto estratégico, designado pelo acrónimo Pacto ABC (Argentina, Brasil e Cuba) põe em sobressalto a Administração dos Estados Unidos, cuja política externa é semelhante, estejam no poder Republicanos ou Democratas.

Países cujos governos foram democraticamente eleitos, mas que questionam a hegemonia do vizinho do Norte, são alvo de golpes de estado patrocinados pela CIA.
A lista de invasões subtis [Darcy Ribeiro] é impressionante, como impressionantes são os assassínios, as torturas, as perseguições a quem se lhes opõe.

Em nome da liberdade, os serviços secretos e as agências de espionagem dos EUA jugulam qualquer tipo de antagonismo à sua imperial vontade.

Os levantamentos populares em países da esfera soviética suscitam apreensões das mais graves.

Os processos políticos movidos contra dissidentes atingem proporções inauditas.
Começam a surgir livros testemunhais, depoimentos terríveis, polémicas assanhadas, revelações acerca dos goulags, denúncias feitas por nomes respeitadíssimos.
O relatório Krustchev é o culminar de um período e o patamar para o nascimento de outro.

Em 1962, a academia portuguesa manifesta-se.

Em 1969 a agitação adquire outras dimensões.
O esquerdismo ambiciona destituir os partidos comunistas tradicionais, demasiado enfeudados às estratégias de Moscovo.
Mas em Portugal, os ecos dessas convulsões são muito ténues.
A censura aperta a vigilância e as cadeias estão repletas de presos políticos.
Para fugir à guerra colonial.

Milhares e milhares de portugueses fogem clandestinamente ou desertam. Fixam-se em França (a maior parte), em Inglaterra, na Suíça e na Suécia.
A emigração legal é discretamente estimulada por Salazar, que beneficia dos envios de dinheiro.


O Maio de 68, em Paris, não obtém, em Portugal, a expressão que a sua grandeza justifica, devido às draconianas limitações de informação e de liberdade.
A censura chega a cortar, literalmente, páginas inteiras de Le Monde;
Le Figaro, diário de Direita, é, amiúde, proibido de circular em Portugal; L’Express é tido como revista afecta aos comunistas!


É-nos ocultado o que, realmente, ocorre na guerra de África.
A morte de soldados é atribuída, amiudadas vezes, a acidentes de viação.
Os serviços cartográficos do Exército filmam episódios terríveis, situações dilacerantes, severamente ocultados aos portugueses.

A Imprensa dá maior ênfase à guerra do Vietname (e, mesmo assim, com as restrições que o regime impõe) do que aos conflitos africanos.
Nos cafés discute-se o que se escuta em rádios clandestinas, o que se lê nos jornais ilegais, as novidades trazidas por quem foi a Paris ou a Londres.
Viajar não é fácil.
Primeiro porque o dinheiro não abunda; depois, porque a obtenção de passaportes torna-se cada vez mais difícil.
Conhecemos de nome e de obra os cantores da Resistência, exilados no estrangeiro.
Pouco mais.



O Maio de 68 traz, no bojo, um projecto de transmutação cultural [Edgar Morin] e uma espécie de bandeira desfraldada no seguinte conceito: Quando se critica radicalmente, constrói-se.

A guerra de Argel é, para os contestatários da Sorbonne, o despertar de uma particular consciência política.
Evidentemente, as ondas provocadas pelos estudantes reflectiram-se, amenamente embora, pelos motivos atrás aduzidos, na contestação portuguesa de 1969.
De súbito, havia a presciência de que algo de novo existia sob o imediatamente visível.
Tem-se aqui conhecimento de que Cohen-Bendit não só enfrenta a polícia (há fotos famosas) como insulta Aragon, por cumplicidade com os crimes de Estaline.
As razões da cólera poderão, eventualmente, possuir, neste caso, um reflexo importante.
As reflexões e interpretações que possamos fazer revelam a riqueza do movimento, que provocou as maiores perplexidades nos intelectuais aparentemente mais qualificados para o esclarecer.

Quarenta anos volvidos que resta do Maio de 68?
A noção de que tudo é possível e de que o impossível não existe quando a força da liberdade se ergue sem temor.

A Imprensa, por exemplo, nunca mais foi a mesma: seria impensável voltar atrás.
Mesmo os jornais mais conservadores tiveram de acertar o passo pelo novo figurino.
Claro que há algo de inacabado e um certo gosto a cinzas no paladar dos que esperam sempre mais do que o mais.
Mas valeu a pena.
Uma geração teve a coragem de negar o que lhe era rudemente imposto. Uma geração fabulosa, numa época que a desafiou a criar uma aventura fabulosa.
Aprendemos que, por debaixo do pavimento, havia praias.
Foi a década de todos os sonhos e o ano de todas as esperanças.


B.B.

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sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 DE ABRIL , POQUE HOJE É...

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quarta-feira, 23 de abril de 2008

O FUTURO É HOJE

Trinta e quatro anos depois, continuo a viver no refúgio das minhas esperanças. É muito difícil separar-me dessa ideia de comunidade que foi a moral da resistência, e do conceito de que a História caminha no sentido da libertação do homem. Mas também aprendi a não me acomodar a essa espécie de vocação para o desencanto, reduto onde se lastimam homens e mulheres da minha geração e da seguinte. A festa acabou. Vivemos um instante em que protagonizámos um apólogo presumidamente dialogal, porque, na realidade, havia, e sempre houve, dois países, com compromissos inconciliáveis e linguagens opostas. A existência de classes não é uma falácia, embora queiram inculcar a sua ausência a fim de impedir que as julguemos.

A festa acabou. Não terminou, porém, a definição daquilo que possui a faculdade de reavivar o que pretendem fazer-nos esquecer: os sonhos, a teimosia da vontade, a obstinação da esperança. Chamam-lhe utopia, e condenam-na como fautor de destruição do outro e, portanto, de si próprio, em benefício de uma verdade suspeita. A cada um a sua idiossincrasia, as suas possibilidades, a sua área de agir. Pessoalmente, sou incapaz de viver sem palavras, sem livros, sem o ajustamento desses livros e dessas palavras a uma ética que respeite o leitor, para nunca me extraviar do princípio das convicções mútuas.

Apesar de tudo, creio que não há motivos para extensas decepções. Uma releitura do que éramos e do que somos permite verificar as diferenças reais mas, também, as artificiais, registadas na sociedade portuguesa. Desejávamos mais. Esquecêramo-nos, porém, da pesada tutela exercida por uma Igreja extremamente conservadora, que exaltava a tradição e execrava a simples ideia de a questionar; e por uma classe dirigente, composta de cem famílias, que reivindicava privilégios inatacáveis.

O panorama foi muito bem exposto na melhor telenovela portuguesa de sempre: Chuva na Areia, de Luís de Sttau Monteiro, realizada pelo excelente Nuno Teixeira. Seria óptimo que a RTP a reexibisse.

É exacta a afirmação segundo a qual Abril ambicionava fazer da revolução uma máquina social, política e cultural influente. As fragilidades começaram na falta de análise das superestruturas, e no dogmatismo (natural no bulício da época) que contrariou a possibilidade de a "revolução" se compreender a si mesma.

Há um fenómeno que não esgota a claridade emocional eclodida há 34 anos: a renovação de uma bela utopia, revelada no número, cada vez mais elevado, de gente nova, atraída pelos prestígios de uma data feliz.

Venha o que vier, nada justifica o niilismo contido no desencanto. Há uma História que nos pertence, um património moral inesquecível - e um outro país que reaviva o eterno projecto de um outro futuro.


B.B.

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quinta-feira, 17 de abril de 2008

A MINHA GERAÇÃO

Ontem, num grande salão de um alto dignitário do regime, fingindo que ali estava, compreendi que o problema não estava nos aparelhos e na boa gente que tem a ilusão de os servir.


O problema está na circunstância de o Estado-Aparelho começar a perder comunhão com o Estado-Comunidade e de todos sofrermos com esse rebaixamento de fins e a consequente confusão de valores e inversão da hierarquia, com os pés na cabeça, a cabeça nos pés e o coração como simples máquina de batidelas e com o corpo todo deixando de ser suporte para a procura do infinito.


Para quê viver por ter de ser, para executar ordens anónimas de um colectivo anónimo ou servir um obedecer?
Porque tempo de espera é tempo de esperança, é tempo de viajar pela distância, tempo de redescobrir quem sou, tempo de não temer quem sou.



Minha geração perdeu-se em crenças e descrença.
E sem vozes que nos congregassem, sem termos raiva nem esperança, cobardes nos fomos perdendo nas sombras longas da invernia.

Agora, os fáceis vencedores, em vingança vão crescendo, arreganhando seu desdém.


E sem versos que nos despertem, eis-nos dispersos, minguando à sombra doentia das montanhas a que subimos no passado.

Minha geração perdeu-se na crença de só haver descrenças.

Feitos folhas sem destino, fomos ao sabor do vento sem norte que nos desse rumo.
Já não sabemos inventar mar nem madrugada nas horas mais amargas.
Já não sabemos suster o peso do sonho, erguer as mãos ao sol, ou saudar o criador.

Por isso, não resistimos à ventania que da rota segura nos desviou.



E há dias que passo a pensar em meu país antigo, em meu país perdido.
E nas trovas vou procurando sinais de nevoeiro que nos livrem dos receios.
Mas as novas desesperam.

Apenas sou um português perdido no presente, sem esperanças no futuro.
Que estas mãos cansadas já não sabem construir catedrais nem caravelas.


Quem traiu o sal das lágrimas de Portugal?
Quem roubou o sonho ao meu povo universal?
Quem fez do meu país ser aquilo que não quis?

Há muitos desses dias antigos de futura saudade, quando as coisas simples da vida ainda tinham sentido e o todo acalentava cada parte.
Os navios sabiam que em suas velas havia voos de pássaro.
Que as cordas nos davam sonhos.
Que os mastros saudavam abstractamente o peso do infinito.



Quando a esfera ainda tinha contornos de esperança.
Quando havia o sonho de procurar um lugar onde, no próprio lugar da pátria.
Porque o mar ainda nos unia.
Porque o mar ainda era princípio de viagem para o outro lado do mar.


Importa, mais uma vez, chegar ao entusiasmo e ao amor só a pensar. Libertar-me dos braços abstractos da tenaz que me limita.
Mesmo que não apeteçam poemas de poetas de génio, consagrados, porque, mais do que substantivos, precisamos de um predicado.
Pode ser que voltemos a ser voz activa, capaz de convocar num só instante, todas as alegrias do passado.
Poder ser que voltemos a ser linha recta que toque em Deus.


JAM

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sexta-feira, 4 de abril de 2008

O DEVER DA MEMÓRIA

Dos que se antigamente mais prezaram
todos os que escreveram, foy honrar
a própria língua, e nisso trabalharam

António Ferreira - Liv. I. Cart. 3.ª


A amnésia história é uma estratégia ideológica dos poderes que, apenas, se reclamam do presente – e o impõem como normativa.
Pouco ou nada se sabe daqueles que, nos períodos mais negros da nossa História, desenharam a fisionomia moral e intelectual do País.
É um rol onde figuram nomes admiráveis de uma cultura que nenhum tirano conseguiu aniquilar por completo: cientistas, prosadores, poetas, cineastas, dramaturgos, jornalistas, pintores, actores, médicos, investigadores de múltiplos ramos.

Apenas por terem, no final da II Grande Guerra, assinado petições e protestos, manifestos da Oposição democrática ou, simplesmente, manifestado incompatibilidade com a política de Salazar, centenas de intelectuais foram demitidos dos seus cargos, presos, perseguidos. É um inominável crime de lesa-pátria.
A Resistência cultural portuguesa foi, no dizer do grande jornalista republicano Carlos Ferrão, uma demonstração de grandeza moral incomparável na Europa dos fascismos.
Mas o apagamento dessa virtude maior tem sido sistemático.
A pedagogia da História não interessa a quem não está interessado na questionação das origens do seu próprio poder.

Sobre este e outros temas afins discorri, há dias, com o meu velho e querido amigo Fernando Paulouro, director do Jornal do Fundão.
Para quem não saiba, o Jornal do Fundão é uma honra da Imprensa portuguesa, e o seu director um dos maiores jornalistas contemporâneos. Manejando o idioma com a destreza e o amor de quem frequenta os clássicos, e neles recolhe o poder da sua magnitude, Fernando Paulouro publica, semanalmente, textos raros, pela dignidade, pela coragem, pela ética – e pela gramática.
Falámos sobre a necessidade da memória.
Admitindo, a seguir, que a memória está a ser dissolvida pela falsa memória do computador e da Internet e para quem é incómoda.
O déspota abomina a memória, pela ameaça que representa. Milan Kundera disse-o [O Livro do Riso e do Esquecimento], acaso melhor do que qualquer outro: A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.

Já poucos sabem quem foi (é) José Gomes Ferreira, o autêntico, um dos poetas fundamentais do século XX. Aquilino, Tomaz de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Nemésio, Miguel Torga, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, José Cardoso Pires, Nuno Bragança, Augusto Abelaira, Mário Dionísio, João José Cochofel, Joaquim Namorado, Antunes da Silva, Garibaldino de Andrade, Sebastião da Gama, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves, João Apolinário, João Gaspar Simões, Domingos Monteiro, João Pedro de Andrade, Álvaro Salema, Joel Serrão, Vitorino de Magalhães Godinho, Vitorino de Magalhães Vilhena, Manuel Valadares, Bento de Jesus Caraça, Abel Salazar, Alexandre Pinheiro Torres, Alexandre O’Neill, Ruy Belo, Branquinho da Fonseca, José Régio, Adolfo Casais Monteiro, Armindo Rodrigues, Irene Lisboa, Maria Archer, Natália Correia, Fernanda Botelho, Maria Judite de Carvalho, Ary dos Santos. Se alguns destes persistem na lembrança delida é, sobretudo, pelas suas eventuais excentricidades, por características que nada têm a ver com a literatura, com a herança legada, com a dimensão da sua entrega.

O rol dos nossos esquecimentos elabora as omissões à nossa própria História.
Aqueles que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo.
A citação, agora, pertence a George Santayana, e permite que reflictamos sobre as nossas negligências culturais e políticas, dando ensejo à destruição sistematizada do inventário colectivo e à criação de um monstruoso sistema de domínio.

Fernando Paulouro não se cansa de nos alertar para as perversões de uma sociedade extraviada na mercantilização dos próprios sentimentos.
Aqueles que referi, e de que falámos, propunham o conhecimento, a paixão e a vontade como criadores de uma sociedade de tolerância, em oposição ao salazarismo.
O fundador do Jornal do Fundão, António Paulouro (tio do Fernando) fora, a princípio, simpatizante do Estado Novo.
Cedo se lhe opusera, sem jamais se arrogar a presunção de que dispunha de verdade única. E abriu as colunas do semanário a todas as correntes de opinião: de José Hermano Saraiva a José Saramago.
A lista de colaboradores do jornal é impressionante, e creio que incomum, pela quantidade e pela qualidade dos nomes.
Estão lá todos os melhores da cultura portuguesa.
E António Paulouro pagou caríssimo o destemor de ser um homem livre. Livre, talentoso, culto, honrado e de extrema generosidade.
O sobrinho herdou-lhe as virtudes.
Nunca, como o tio, desejou possuir o monopólio da razão das razões.
Mas também, como o tio, nunca abdicou das convicções, continuando o magistério irrefutável contido na essência do Jornal do Fundão – combatendo o esquecimento, nunca omitindo aqueles que ergueram os marcos das nossas construções morais, e sem nunca perder de vista as exigências e os prestígios da modernidade.

A amnésia história é (repito) um projecto ideológico para a sustentação de um programa de poder reaccionário.
Há muito para saber, e o homem pode e tem o direito de saber.
Como poucos periódicos portugueses o Jornal do Fundão consigna o princípio de considerar a razão do outro, porque reconhece que o outro pode estar convencido de dispor de outra razão, cujo testemunho deseja prestar. E enquanto a chamada grande Imprensa promove a mediocridade resultante da sua própria, as páginas do semanário da Beira Interior continuam, galhardamente, a batalha contra o esquecimento.

A simples enunciação das derivas da ignorância, e o lembrete daqueles que integraram as nossas configurações éticas, estéticas e ideológicas reenviam-nos às origens dos pessoais relaxamentos.
Conversámos, o Fernando Paulouro e eu, pela tarde fora, com o tempo suficiente para o não perdermos.
O esquecimento traz a incivilidade e desemboca na incoerência social.
A época em que vivemos é propícia ao desaparecimento do lugar simbólico, e o poder tem a tendência de diminuir e de apagar os nossos registos.
Que este artigo fique, pois, e somente, como um voto de homenagem a um semanário e a um jornalista por igual honrados e livres.

B.B.

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quinta-feira, 20 de março de 2008

A VIA LIOFILIZADA PARA O SOCIALISMO



Portugal caminha, a passos largos, para se tornar a maior sucursal de uma multinacional que quer liofilizar o mundo.
Deseja que sejamos todos clean e Sócrates é o seu apóstolo no sítio.


Já não bastava o cerco da ASAE ao que comemos (um amigo que costumava viajar pelo país e que ia comer a todas as tascas onde existia os melhores pitéus nacionais, diz que tem agora um problema: muitas delas foram fechadas pela ASAE por questões de limpeza – e eu respondi: estamos a ser encaminhados para a fast food, sob o manto de quererem a nossa saúde), à militância das corridas saudáveis do primeiro-ministro, e das múltiplas políticas light do Governo (só na Arrábida é que se pode continuar a fazer poluição, mas como é um local único, não há problema?).
Agora uma luminária do Partido Socialista decidiu que é preciso erradicar os piercings e as tatuagens do corpo dos jovens.


É a via liofilizada para o socialismo no seu esplendor.


Quem pensou nesse projecto de lei nunca deve ter sido jovem, nunca fez parte de uma tribo urbana e deve ter passado rapidamente dos bancos da escola primária para uma Jota e daí para o hemiciclo parlamentar.


F.S.

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segunda-feira, 17 de março de 2008

É CRIME... FALAR, ESCREVER, PENSAR...

O homem é o único animal que discursa, tal como é o único animal que sabe rir...
Dizia-se isto no tempo em que não havia teleponto, telemóvel e televisão, quando discurso ainda tinha a ver com a dimensão logos, isto é, com a razão, com a palavra posta em comunicação, onde a complexidade dos músculos que permitem a gargalhada até levava Bergson a concluir que não há nada de cómico fora do que é propriamente humano.
É que o cómico nasce quando os homens reunidos em grupo voltam a sua atenção para um deles, calando a sua sensibilidade e exercendo só a sua inteligência.


Assim, tenho de recordar José Ortega y Gasset, para quem quando a paixão invade as multidões, é crime de lesa-pensamento o pensador falar.
Porque para falar tem que mentir. E o homem que aparece antes de mais entregue ao exercício intelectual não tem o direito de mentir.


Não, não estou a pensar no Dalai Lama e nos actos de policiamento dos chineses sobre o território Tibetano, sob a soberania de Pequim.
Não vou continuar a dizer que a perestroika, que nos dá lojas de trezentos, jogos olímpicos, comércio, diplomacia, casinos e fundações do Oriente, pode ser interrompida pelos incómodos da glasnot.


Os mil e duzentos metros quadrados do pavilhão bem ginasticado não são um salão do Portugal dos Pequeninos, onde se prometia a baixa dos impostos, a redução das prestações sociais, o aumento da carga fiscal. Abaixo os sindicalistas, os funcionários públicos, os professores, os magistrados, os farmacêuticos, os médicos, os notários, os enfermeiros. Estamos contra todos, mas não estaremos contra todos ao mesmo tempo, nem deixaremos de comprimir os chamados direitos adquiridos.

Prefiro convidar os portugueses a espreitar para o hall da minha casinha, que não foi desenhada quando eu apenas era desenhador na autarquia da Serra da Estrela.
Esqueçam o espelho com moldura dourada, esqueçam que não vos apresentei os meus pais, os meus filhos e a minha namorada, como fez o outro.
Nem sequer vos convido para se sentarem no sofá da sala.
Apenas uma biquinha no café da esquina, que os meus assessores de comunicação hão-de pagar.


Não estou para aturar intelectuais que não aceitam reconhecer o Pinto Ribeiro como nomeador, os tais que recordam os actos de tirania dos mitificados príncipes perfeitos e que continuam a dizer que as luzes da iluminação especulativa não devem assentar na rotina do despotismo.
O Charrua que se lixe.
A tipa de Vieira do Minho que se esqueça, o Balbino que gaste o dinheirinho com o Zé Maria Martins.
Um reformador como deve ser pode continuar a ter os muitos pés de barro dos muitos directores-regionais do Norte e do Sul, essses aparelhismos verbeteiros dos micro-autoritarismos sub-estatais, com direito a advogado e a avençado pago pelas verbas do orçamento de Estado contra os protestantes, huguenotes e quejandos.


Qualquer João Figueiredo sabe para que servem as meras rodas dentadas do anónimo mecanismo do Leviathan e do PRACE.
O Estado é isto, meus senhores, a abstracção de um discurso de estadão, no tempo da folle du logis e da teledemocracia.
Os indivíduos, infelizmente, são meros elementos fungíveis de uma tabela estatística que suporta as regras das sondagens e dos estudos de opinião pública.


Aliás, quanto mais à esquerda se pensa o poder, mais ilusão têm os detentores do mesmo quanto à bondade dos meios que utilizam, dado que se deixam elevar pela altitude dos fins que julgam prosseguir.
Os tais instrumentos ditos inquisitoriais, com excessos ditos purgas, porque os chefes e engenheiros de almas, abrasados pelos fins dos superiores interesses do país, se desleixam das correias de transmissão e das rodas dentadas do Estado-Aparelho.


Se os chefes têm, com eles, a doutrina, nenhuma parcela da força do estadão lhes pode fugir, e todos os opositores que não queiram comer à mesa do orçamento passam à categoria de filhos das trevas.
E este é o país do rigor, da competência, de mais qualidade, de mais qualificações, de modernização, onde, infelizmente, até nos acusam de irmos depressa demais.
Quando o país estava atrasado demais, parado demais, sem compreender a urgência da mudança.
O mundo está a mudar e os país tem de mudar com o mundo.


Nós, chefes, somos a força da modernização, o futuro que precisamos de construir e não somos dos que vão para onde sopra o vento, atrás de qualquer protesto.
Nem sequer somos dos que alimentam a descrença e fomentam o pessimismo, como dizia Marcello Caetano, antes de ser metido na Chaimite. Somos o partido progressista de Portugal.

Temos connosco o Jorge Coelho, que bem sabe fazer oposição à oposição, sem se comprometer com apoios à Maria de Lurdes.
Temos o principie Almeida Santos, que sempre apoiou a Ota por causa das pontes que podem ser dinamitadas por terroristas e que ainda é capaz de juntar cem mil pessoas na rua.


Nós somos o novo estado, o rigor, a modernidade, a Europa, o mundo, a competência, o aborto, a luta contra os berloques na língua, o Lemos de Castelo Branco, o Teixeira dos Santos, o Mariano Gago, o Santos Silva, mesmo que já não sejamos o Campos Cunha, a SEDES, o Freitas do Amaral. E até podemos vir a ser o Vital Moreira, o José Miguel Júdice e o Pedro Mexia.
Somos como sempre fomos, o Costa Cabral, o Fontes Pereira de Melo, o Afonso Costa, o António de Oliveira, o Cavaco Silva, mesmo sem uma ideia de Portugal e sem uma ideia de Europa.
Mesmo sem qualquer ideia de ideias.


Por mim, voltando a Ortega, apenas repito: reivindico inteiramente o direito de me manifestar tal como sou. Ingresso na política, mas sem abandonar um átomo da minha substância...
Reclamo o pleno direito de se fazer uma política poética, filosófica, cordial e alegre.
Outra coisa seria coarctar-me injustamente.


JAM

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sexta-feira, 14 de março de 2008

O PODER DA "RUA" [ II ]

As impressionantes manifestações registadas
A descida à rua de milhares e milhares de manifestantes irritou alguns articulistas com pigarro, para os quais a existência do facto moral é um anacronismo absurdo.
Um deles, que se diz historiador, chega classificar de ausência da razão as demonstrações de pura repulsa dos professores, cercados pelas imposições precipitadas.

A artigalhada apareceu num matutino fundado para resistir à l’air du temps, e, agora, ideologicamente neoconservador, com assinalável quebra de credibilidade – e de tiragem.

Na verdade, os professores não contestam as avaliações, sim o que lhes subjaz de improviso e de ligeireza.
Os velhos mestres da suspeita estabeleceram as confusões habituais a fim de enxovalhar uma profissão admirável e tão vilipendiada.
O poder da rua foi (tem sido, é) de tal modo persuasivo que o Governo tem vindo a alterar decisões até agora inabaláveis.
É razoável que assim proceda.
A nossa História próxima recente está pontuada de episódios de idêntica natureza, que nobilitam os políticos e engrandecem a substância da democracia.

A imponente manifestação dos cem mil assinalou, de novo, à luz das urgências contemporâneas, a consciência moral de uma população, preocupada com as derivas políticas mas que age impulsionada por motivos cívicos. E quando alguns preopinantes estipendiados e ex-trotsquistas convertidos aos prestígios do capitalismo declamam um anticomunismo protozoário, como justificação das próprias debilidades de carácter, a atoarda já não cola.
O que os obsidia é ver como os ofendidos se revoltam e como a sua revolta os qualifica de indignos de um combate que lhes não pertence.
Afinal, esses ex, que estavam à esquerda de tudo, constituíram-se como ponte de passagem para a organização da sua própria vidinha. E não são tão poucos quanto isso.

A rua foi, no fascismo, a explicação veemente e extremamente corajosa da indignação de um povo, perante um Governo ilegal porque não saído do voto. É uma história exaltante.
Nos dias 5 de Outubro (comemoração da República) e 1.º de Maio (Dia do Trabalhador) grupos de pessoas iam-se juntando, concentrando-se nas praças e nos largos principais das cidades.
Em Lisboa, no Rossio. Fui espectador e até protagonista de alguns episódios dramáticos.
Quando o Rossio apresentava um aspecto significativo, pela quantidade de gente, agentes da PSP e da PIDE/DGS tapavam as ruas circundantes.
Os manifestantes começavam, então, aos gritos de Abaixo o fascismo!, Viva a Liberdade!, Viva a Democracia!
Eram violentamente espancados por polícias à paisana e por legionários espalhados por aqui e por além.
Entendiam, os resistentes, que o acto de estar possuía uma forte componente moral. E era verdade. O antifascismo não representava nenhuma corrente ideológica: era uma posição moral; por isso reuniu republicanos, monárquicos, socialistas, comunistas, anarquistas, católicos.

Contra o delírio histórico, a barreira de homens honrados e livres, independentemente de serem de Direita ou de Esquerda.
O regresso da Democracia, com a II República, advinda do 25 de Abril, recompôs o tecido político, e cada qual foi para o partido que correspondia às suas convicções.
Quando, há tempos, alguém disse que os antifascistas dispunham de excesso de memória histórica, a afirmação estava certa: evocava o horror que se viveu, e que, até hoje, se não restituiu, na sua totalidade, à pedagogia do conhecimento.
Como se fez em França, e está a fazer-se, por exemplo, em Espanha. E a rua foi o local exacto (como, em Democracia, o é também) para a exposição dos nossos desagrados.

Quem tem medo da rua?
Os que desprezam a evidência dos factos.
Aqueles que o decurso da História aponta à execração popular.
A sociedade do silêncio e da traição.
É instrutivo verificar que aqueles dos governantes saídos da abdicação e do perjúrio, outrora inflamados gritadores, deixaram de comemorar, na rua, a data que nos reentregou a liberdade.
Há, nesta gente, uma estranha e doentia mortificação, que a impele ao insulto, à injúria, à mentira e à calúnia.
Claro que, quando saem do Governo, são alojados em lugares seguros com salários chorudos; porém, estão ferrados com a ignomínia e repelidos pelo nojo que causam.

Os jornais dizem que o Governo tem recuado.
Não será a palavra mais rigorosa.
Diria que o Governo tem reflectido melhor e emendado a mão.
As opiniões críticas que se têm registado em alguns jornais, não em todos, em alguns, conseguiram atenuar e, até, abafar, o alarido de comentadores obedientes ao solfejo do suserano.
A rua, na sua trivial realidade, é consequência e concentrado de todas as vozes.
O individualismo teatral sempre foi contrário à vontade de felicidade e ao cuidado de coerência testemunhados por aqueles que não andam na vida com esfuziante leviandade.
Dentro de pouco tempo, esses que tais ajeitar-se-ão às modalidades do momento.
Como na invasão do Iraque, os que a apoiaram já tentam remanejar o que afirmaram. A conivência, neste último caso, atinge territórios malditos. Porque o que aconteceu e acontece no Iraque configura as dimensões dos crimes de guerra.

Num belíssimo verso de um belíssimo poema, Vitorino Nemésio escreveu: A hora do extensível força a possibilidade.
Nada mais certo.
A possibilidade das coisas torna extensível as infinitas possibilidades do nosso querer. E o homem, quando quer, consegue tudo quanto quer.


B.B.

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quinta-feira, 13 de março de 2008

A LIBERDADE DA DRE DO ALENTEJO

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quinta-feira, 6 de março de 2008

A PIDE NO GOVERNO DE JOSÉ SÓCRATES CHAMA-SE AGORA PSP

Marcha da Indignação

PSP visita escolas para recolher informação sobre manifestação



Agentes da PSP estiveram, esta quarta-feira, em duas escolas de Ourém para saber quantos professores irão à Marcha da Indignação do próximo sábado em Lisboa. Marcha da Indignação

A Escola Secundária de Ourém e a Escola Básica 2,3 D. Afonso IV receberam, esta quarta-feira, a visita de dois agentes da PSP.

Vieram vestidos à civil, sem farda, e disseram que queriam saber quantos professores iriam à manifestação [de sábado, em Lisboa]», contou ao SOL um elemento do conselho executivo da Escola Secundária de Ourém.

Perante a estranheza dos docentes daquela escola, os dois polícias justificaram o pedido de informação com a necessidade de controlar o trânsito.

SOL

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sábado, 23 de fevereiro de 2008

JOAQUIM PINTO DE ANDRADE (1926 - 2008)

Em 5-1-63 completava eu 177 dias de prisão preventiva e sem culpa formada.
Faltavam três dias para o máximo permitido por lei.
Fui posto em liberdade, mas… preso imediatamente a seguir à porta da cadeia do Aljube e transferido para Caxias!


No dia 8-1-63, conduzido à sede da P.I.D.E., fui ali informado de que fora posto em liberdade três dias antes e preso de novo à porta da cadeia… porque novas actividades subversivas haviam sido desenvolvidas dentro da cadeia ou à porta da cadeia. […]

Não fui submetido a nenhum interrogatório durante esta 4.ª prisão, nem me foi nunca fornecida qualquer explicação para ela.

E assim se foi arrastando a minha 4.ª detenção, que, ultrapassando o que a lei permite, se prolongou por mais sete meses.
E todavia, ao completarem-se 180 dias, eu tinha uma carta de protesto ao director da P.I.D.E. e cópias da mesma aos ministros do Interior e da Justiça.
Nenhuma resposta obtive.

O meu advogado, dr. António Alçada Baptista, apresentou então um requerimento de «Habeas Corpus».

A 14-8-63 […] fui posto em liberdade (?), mas com residência fixa na vila de Ponte de Sor, distrito de Portalegre.



Fiquei sob custódia da GNR.
Dois guardas à paisana e armados vigiavam dia e noite a porta da pensão A Ponte em que me encontrava alojado e seguiam-me a dez metros de distância em todas as deslocações pela vila, cujos limites estava proibido de ultrapassar.
[…]
Correspondência censurada e telefone vigiado.
[…]
Proibição de usar qualquer meio de locomoção que não fossem as próprias pernas, nem mesmo uma bicicleta.
Proibição de pregar e de ouvir confissões, sob pena de prisão.

Em 24 de Janeiro de 1964 sou preso pela 5.ª vez, quando me encontrava a almoçar na pensão "A Ponte"em que estava obrigado a residir em Ponte de Sor, distrito de Portalegre.

Conduzido para Lisboa, sou encarcerado de novo nas masmorras do Aljube.
Ali permaneço durante dez dias, sem qualquer interrogatório, sem qualquer acusação formal.
Entretanto sou chamado a direcção da P.I.D.E., e o inspector Sachetti obriga-me a escrever pelo próprio punho e assinar uma declaração comprometendo-me a aceitar nova residência fixa e não abandonar o local de residência em que fosse fixada «sob pena de suspensão de ordens sacras e impossibilidade de celebrar missa, conforme o acordo firmado entre o Ministério do Ultramar e a Nunciatura Apostólica de Lisboa».

Recuso-me a escrever a declaração, cujos termos considerava inaceitáveis.
O inspector Sachetti responde-me se não escrevo tal declaração, terei de ficar definitivamente na prisão.
Mantenho a minha recusa e ponho mesmo em dúvida a existência de tal acordo.
[...]
Insisto finalmente em falar com o Núncio Apostólico ou com algum secretário da Nunciatura.
Quando o secretário da Nunciatura chega à P.I.D.E., o inspector Sachetti roga-me que não fale mais na questão do pretenso acordo entre a Nunciatura e o Ministério do Ultramar.
Insisto em levantar a questão e exponho o caso ao secretário da Nunciatura, monsenhor Rotuno.
Este afirma-me, na presença do inspector da P.I.D.E., que tal acordo nunca existiu!

Em 3 de Fevereiro de 1964 sou posto em liberdade (?), mas conduzido a Vilar do Paraíso (concelho de Vila Nova de Gaia), ficando com residência fixa no Seminário da Boa Nova, dos Padres das Missões Ultramarinas.

Movimentos limitados ao concelho de Gaia.
Telefone vigiado, correspondência censurada e visitas controladas.
Agentes da P.I.D.E. e outros colaboradores vigiando dia e noite as portas do seminário e seguindo-me os passos aonde quer que eu fosse.
Nestas condições permaneço em Vilar do Paraíso durante três anos (1964-1967).

Em consequência de uma intervenção pessoal do Papa Paulo VI junto do Presidente da República Portuguesa, aquando da sua peregrinação a Fátima, sou finalmente autorizado a circular livremente por todo o País, sendo-me todavia vedado o regresso à minha terra ou a saída para o estrangeiro.



Joaquim da Rocha Pinto de Andrade

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