Luís Marques Mendes foi à ilha da Madeira proclamar que A. J. Jardim era o nosso [dele] querido líder.
A tolice não dispõe das normas do pudor; no entanto, parece-me superar todas as balizas da decência a circunstância de o singular presidente do PSD ter utilizado a hipérbole no mesmo local (Chão da Lagoa) onde é invariavelmente insultado pela criatura elogiada.
José Sócrates e o seu Executivo são maus.
A perspectiva de alternância reside em Mendes. Portugal sobrevive num lamaçal em cujo turvo horizonte não se divisa nenhuma tábua de salvação.
O que se passa no PSD corresponde a um reflexo da sociedade portuguesa.
Ninguém se entende. E demonstra-se um generalizado interesse pelas coisas e pelas causas públicas. A fragmentação no PSD não é muito diversa do que ocorre no PS, transformado num partido de tabeliães.
Tanto num como no outro os suspeitos do costume encostam-se a quem lhes parece ter maiores probabilidades de poder.
Recorde-se: os que apoiam Marques Mendes já apoiaram Durão e Santana, e qualquer destes e os outros todos sustentaram Cavaco e a sua época.
Os que aplaudem, fervorosamente, José Sócrates e o seu presente ampararam, no passado, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro & etc. Antes, claro!, os primeiros eram todos sá-carneiristas; os segundos, sem hesitação possível, babavam-se com Mário Soares.
Fazendo um retrospecto, constatamos que uns e outros, aqueles e aqueloutros entraram em conflito aberto, desfizeram-se as aparentemente mais sólidas amizades.
A pátria, perplexa, contempla estes ínclitos varões, enumera aqueles que enriqueceram não se sabe bem como, e cabisbaixa e resignada lá vai tropeçando no caminho.
O CDS, coitadinho!, julgava que rezava com Paulo Portas: estatelou-se, ainda não ao comprido, mas para lá caminha.
O Bloco de Esquerda utiliza o léxico da ironia; politicamente, está de acordo – não se sabe bem com quê, mas sabe-se com quem.
O PCP não esmorece; porém, vai perdendo influência.
Discorde-se ou não, é a única voz política que ainda serve de travão a outros desmandos. E assim estamos.
A questão essencial dos partidos advém do facto de estes não conterem as características identitárias exigidas pela sua natureza. O PSD nunca foi social-democrata: nele se misturam conservadores, liberais, reaccionários e democratas sem razão de o ser.
O PS foi socialista por um instantinho.
Quando, apoplécticos e emocionadíssimos, os seus militantes e simpatizantes gritavam, nos comícios: Partido Socialista, Partido Marxista!, a extraordinária frase bateu nos ouvidos sensíveis da Internacional Socialista. Willy Brandt mandou um recado: acabem lá com essa leviandade, estamos cá para outra coisa.
A Guerra Fria e o anticomunismo não foram equívocos, foram pretextos habilmente organizados para que a normalização da Esquerda moderada servisse a outros interesses. A causa da emancipação dos povos, tão cara aos teóricos do socialismo, foi, cedo, substituída por uma obscenidade:pragmatismo, cujo significado nada tem a ver com a perspectiva kanteana, antes oculta o espírito de conciliação, servilismo e traição.
Nenhum dos partidos de poder tem uma visão particular sobre o mundo que as circunstâncias históricas impuseram.
O modelo europeu de sociedade está a ser liquidado pelas estratégias das multinacionais norte-americanas. E a participação activa no acto social foi engenhosamente dissimulada entre responsabilidade colectiva e responsabilidade individual.
A cultura massificou-se, não na acepção democrática do termo, sim na interpretação de consumo quantitativo.
A economia de mercado impede o que fundamenta a cultura: a sua interpenetração, a sua mestiçagem.
Impõem-se modelos igualitários na prosa narrativa, no cinema, nas artes plásticas.
Revertamos ao caso português.
O apoio elogioso feito, em quase toda a Imprensa, a subprodutos literários chega a ser deprimente. Assim como é insultuoso o exercício do silêncio a certos autores, cuja ideologia não serve a corrente dominante.
Depois, há a falsa independência dos jornais.
Nenhum jornal é independente, imparcial, objectivo ou distanciado.
O cinismo ultraja a inteligência do leitor, que sabe muitíssimo bem a orientação editorial e noticiosa deste e daquele periódico.
O bacoquismo de alguns jornais faz-nos bocejar de enfado.
Sugerem estar acima do bem e do mal, quero dizer: que são neutrais, claramente um embuste. Basta percorrer a Imprensa estrangeira: ninguém oculta a ninguém a sua tendência. El Mundo, El Pais, The Guardian, La Reppublica, Le Monde, Corriere della Será, La Stampa não enganam os leitores: são o que são e, honestamente, o que entendem dever ser.
Na nossa terra, a normatividade em vigor é aldrabar, prestidigitar, iludir, defraudar, enganar. Somos obrigados a verificar, com desconsolo, que este tempo português parece o de demissões éticas, antes de serem capitulações ideológicas.
A cultura eugénica, com fins lucrativos, leva tudo à frente, de roldão e sem pejo.
Quando Sócrates minimiza e, até, deprecia, com humor indecente, o artigo sobre o medo que Manuel Alegre escreveu no Público, apenas reflecte o esvaziamento da sua pessoal perspectiva. Não vale a pena debater nada, comentar coisa alguma, discutir seja lá o que for.
Alegre não é um beócio. E a cultura, a liberdade e a política entendida esta como moral em acção, devem algo ao grande poeta de Senhora das Tempestades.
O paralelismo entre o que Sócrates disse e não disse, e o que Marques Mendes falou e não falou não pode deixar de se estabelecer.
De uma maneira ou de outra de um modo ou de outro, ambos representam o que de pior existe na sociedade portuguesa.
Podem crer, meus Dilectos, que não tenho prazer nenhum em escrever isto.
B.B.
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