sábado, 13 de setembro de 2008

HOMEM COM "H" GRANDE


Etiquetas: , , ,

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

NENHUM SILÊNCIO É INOCENTE

Diz-se que Manuela Ferreira Leite vai quebrar o silêncio. Diz-se que esse magno acontecimento ocorrerá no domingo, no encerramento da Universidade de Verão do PSD. Diz-se, numa amarga perturbação, que a calada senhora, a fim de manter a estratégia da inaudibilidade - apenas sussurrará.

Esta atmosfera espectral, que o previsível Pacheco Pereira designa de necessária pausa para meditação, não tem sido, propriamente, aplaudida de pé. As dúvidas erguem-se, como puas, nas almas perplexas dos militantes. E a conspiração alastra como eczema. Menezes, feroz e irado com a mudez obstinada da dr.ª Manuela, ameaça com um congresso devastador. Marcelo manifesta-se incomodado e, até, aflito, com a cruel ausência da presidente. Santana Lopes, apesar de primo da dr.ª, não descansa um mísero segundo sem a fulminar com impiedosos comentários. Ângelo Correia abandonou a efusão das metáforas. Proclama que este rumo absurdo conduzirá o partido às profundezas do abismo. A dr.ª usa a retórica do desdém (moita, carrasco!) que deixa os adversários desatinados.

Mas já não são, exclusivamente, os barões a criticar as águas palustres onde, penosamente, se move o PSD da dr.ª Manuela Ferreira Leite. As bases começam a embaciar o fascínio sentido pela senhora. Circula um abaixo-assinado no qual se pede uma sacudidela à abulia e à inércia do partido. As palavras são aprimoradas; mas não deixam de ser rudes.

A Universidade de Verão parece, na lógica deste panorama, a contra-regra do Pontal; digamos: um sinédrio intelectual e grave, destinado a inculcar em cem ansiosos moços o breviário da social-democracia à portuguesa. A coisa é notoriamente confusa. E a identidade dos professores uma barafunda pegada, repleta de narcisismos perversos e de nervosas ambições.

Não sei se os meus pios leitores imaginam a natureza dos discursos de Pacheco e de Leonor Beleza, de António Borges e do general Garcia Leandro, sem omitir, claro!, o inimitável António Vitorino, socialista e tudo, sobretudo nos dias ímpares. Quase todos os nomeados são directamente responsáveis pelo estado a que chegou o País. Parte do descrédito da acção política a eles se deve. O nosso desalento deixou de ceder a qualquer apelo cívico, e as nossas emoções mais asseadas foram letalmente atingidas.
A casta que tomou conta da Pátria devia ser condenada por indignidade nacional. Chega a ser infame a lista das prebendas, das reformas sumptuosas, das funções acumuladas, dos duplos e triplos vencimentos auferidos por uma gente desprezível, que entre si partilha o bolo, num macabro trânsito de interesses.

Os cem jovens que assistem ao conclave de Castelo de Vide vão, com aqueles professores, aprender - quê?
Os exemplos não são virtuosos.

B.B.

Etiquetas: , , ,

quarta-feira, 14 de maio de 2008

OS DOIS DISCURSOS

Há muito que nos ausentámos do exercício da moral e da prática do civismo. Não prestamos atenção ao que vemos e ouvimos, como se tudo ocorresse longe do nosso quotidiano banal. A desordem, a picuinha, a confusão interior campeiam e parecem situar-se para lá da razão. Há dias, um enfatuado guru da direita causticava, severamente, a RTP, pela circunstância de, numa entrevista de Judite de Sousa a Manuela Ferreira Leite, o realizador ter filmado grandes planos da senhora, cujo rosto estava (naturalmente) sulcado de rugas. A recriminação seria grotesca se não assumisse a insinuação inquietante de que tudo aquilo configurava um preconceito de ordem política. Entende-se o que subjaz à delação; mas entramos nos domínios da indecência.

A pretensa exigência ética de certos preopinantes corresponde, afinal, à sua negação e apenas merece um registo de repulsa. Aplausos, sim, devemo-los a Fernando Nobre, presidente da AMI, pelo magnífico artigo publicado no Notícias Magazine [11. Maio, p.p.], no qual verbera a indiferença com que assistimos ao genocídio pela fome, designado de tsunami silencioso, e afirmando a irreversibilidade dos danos já causados. Assumo a minha especial admiração por este homem de carácter, que nunca se fechou sobre as grandes tragédias do nosso tempo, num compromisso moral admirável.

Há tempos, no Jornal das Nove, da SIC Notícias, foi exibida parte do programa 60 Minutos, sobre o sistema de saúde norte-americano, no qual se narrava a história de um indivíduo sem recursos, que percorrera centenas de quilómetros a fim de ser assistido por um médico generoso. Não dispunha de seguro de saúde, o seu rosto exprimia um atroz infortúnio. Fernando Nobre, entrevistado por Mário Crespo, não calou a indignação que a história lhe causara. É isto que não quero para o meu país!, numa clara referência ao empreendimento de destruição do Serviço Nacional de Saúde, programado pelo sr. Correia de Campos.

Não há equivalência entre o discurso que propõe, como princípio essencial, a conciliação da verdade com a liberdade, e aquele que corresponde a uma ausência de norma civilizacional, em nome de meras estratégias partidárias. A regra do jogo democrático reclama-se de uma cultura política e cívica, cuja formação pode ser entravada por um processo de intriga permanente, que retira ao cidadão toda a possibilidade de o pensar e rejeitar.

O fosso entre os graves conflitos do nosso tempo e a indiferença que por eles demonstramos não se coloca, unicamente, em termos de generalidade. É uma questão crucial do debate democrático - que não fazemos. E o ruído sonega o essencial e impõe a fatuidade como norma. O insistente discurso de Fernando Nobre constitui um paradigma. O outro somente retém o acessório.


B.B.

Etiquetas: , , , , , , ,

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O PORTUGAL DA DESAFRONTA

Há dias, Maria José Nogueira Pinto serviu-se da expressão Portugal Oculto para designar a pobreza que alastra, endemicamente, pelo País; a perplexidade angustiada que nos envolve, num abraço letal; e a ausência de perspectivas que o turvo horizonte nos revela. Já o disse: tenho por ela a admiração que sempre a inteligência activa me suscitou, independentemente da ideologia que a sustenta.
Estou nos antípodas políticos dela, mas próximo de um sistema cultural que talvez se traduza pela atenção às urgências contemporâneas.

Ela é católica; eu, ateu. Ela disse, um dia, que combatia a Direita dos interesses e defendia o compromisso com o ser. Eu, batalho o esquematismo da Esquerda, os seus desvios e as suas traições. Ela, vitupera a Esquerda; eu, desaprovo a Direita. E ambos sabemos que uma não existe sem a outra. Depôs, claro!, há os desentendimentos essenciais: eu acredito em que a História caminha no sentido da libertação do homem; ela, na imutabilidade e na conservação das possibilidades.

O Portugal Oculto é, também, aquele cujos contornos permitem a promiscuidade entre a política e os grandes empresários. Salazar colocava ex-membros do Governo como delegados; agora, altos dirigentes políticos dos partidos de poder (PS e PSD), mas não apenas estes, transitam para o lado do dinheiro com inaudita desfaçatez. Maria José está no direito de defender ou de amenizar a relação de causa e efeito que estas movimentações reflectem. Porém, contradiz o princípio de ter, que reprova, e o do ser, que aplaude. Não há elaborações próprias da moral e da ética. Estas constituem aquilo que cimenta o edifício da integridade. Há quem escolha os dias pares da semana para ser digno, e os outros dias para cometer tropelias a seu bel-prazer.

O que vai restando das nossas esperanças de uma sociedade mais justa está a ser seriamente danificado. Não é de mais repeti-lo. E as frases bem boleadas, as declarações de princípio cheias de bons sentimentos não chegam para ocultar o que exalta, indigna e fere o tal outro Portugal.

Esvaziou-se de conteúdo político algumas das questões fundamentais do nosso tempo, como, por exemplo, a do emprego, a da mobilidade, a da precariedade, e a das escolhas estratégicas que determinam o desenvolvimento económico. O primado da finança sobre o político ainda não encontrou resposta drástica dos dirigentes, não só portugueses mas, de um modo geral, ocidentais. A inexistência de debate propiciou a ascensão de uma mediocridade ávida, que tomou conta dos órgãos decisórios. Todos os sectores da sociedade foram atingidos. Desarmou-se o Estado dos seus meios fundamentais, e criou-se o expediente de que o privado absoluto é a solução substitutiva. A repartição dos rendimentos atinge expressões abjectas: a parte do capital aumentou substancialmente e a do salário diminuiu escandalosamente. O tema das reformas sumptuosas foi mansamente, cautelosamente, medrosamente abordado na Imprensa: as Rádios e as Televisões entraram em indiferente mutismo.

O reagrupamento de uma classe que finge inquietar-se com os dois milhões e meio de pobres portugueses, é a mesma que, levemente atingida com o 25 de Abril, nunca enriqueceu a paleta das suas sensibilidades com as cores da solidariedade social, que tripudiou sobre as mais elementares noções de atendimento e relação com os mais desprotegidos - a não ser com a caridadezinha. Como, há semanas, numa lúcida entrevista ao Expresso disse Abel Pinheiro, o Pia sempre esteve entregue às decisões de cento e cinquenta famílias.

O Portugal Oculto representa a síndrome mais elevada da crise da sociedade portuguesa. Um povo rejeitado que, pouco a pouco, perde a razão da identidade pátria e se dissolve na exacerbação de uma angústia tenaz, desprovida de horizontes, afastada do futuro porque este está desaparecido das perspectivas.

Que motivações pode ter um jovem com contrato a prazo, precariedade no emprego, inaproveitado nas suas habilitações, despejado dos seus sonhos? O fim do Estado de Direito está à vista. Os mercados financeiros não actuam de maneira drástica para resolver estes gravíssimos problemas porque essa não é a sua função. A sociedade aberta, de Popper, talvez explique a hora do desencantamento, de Weber. Não são meus autores de cabeceira; mas são releituras a que procedo com frequência. Como a Marx ou a Keynes – e a muitos outros mais. Talvez todos e cada um deles, à sua maneira e com as ideologias próprias, se tenham enganado, fornecendo-nos, embora, importantes pistas para a readaptação dos nossos conhecimentos. E talvez tenham acertado, porque não há outra razão para que a História ocorresse de outra maneira.

No entanto, creio que o estado a que as coisas chegaram é assustador. A fragmentação social indica-nos que a experiência do mercado não contém, em si, a panaceia para resolver a pobreza, nem é o único processo de desenvolvimento. Nunca o mundo possuiu tamanho grau de conhecimento. Nunca o conhecimento consentiu tamanho grau de miséria, desolação e sofrimento. O mercado, ao contrário do que proclamam os seus turiferários, não estruturou uma economia pública, nem estimulou um crescimento mais aberto. No caso português, então, a soma é pavorosa, e chega, até, à degradação.

O Portugal Oculto existe como uma chaga dos desamados e cresce com o ressentimento dos excluídos contra aqueles que só têm criado obstruções e alimentado um clima de violência – que deixou de ser latente para constituir uma ameaça e uma desafronta.

B.B.

Etiquetas: , , , , , ,

quinta-feira, 20 de março de 2008

ELOGIO DA INTELIGÊNCIA

Já se chegou longe de mais na barafunda política portuguesa. E a invocação constante dos méritos do dr. Cavaco como primeiro-ministro revela que o recurso flébil ao passado envolve, quase sempre, uma doentia nostalgia acrítica – como é o caso. No entanto, temos de reconhecer a incomodidade por ele nunca dissimulada relativamente à pessoa e à acção de Santana Lopes.

Só a lembrança de que esta criatura chegou a dirigir um Governo causa arrepios. E a actual evidência da sua ressurreição permite considerar que é capaz de haver vida para além da morte.

O descrédito da sociedade política provém das insistentes malfeitorias de sucessivos Executivos, apoiados por bancadas servis de parlamentares com os quais nos não identificamos, cujo trabalho ignoramos porque não sabemos, rigorosamente, o que estão ali a fazer.


No sábado, 16, p.p., Maria Filomena Mónica esteve na SIC-Notícias, e, com a veemência própria de quem estuda, reflecte e analisa, esclareceu o que está em causa nesta questão dos professores.

Leio, com interesse e proveito, o que esta mulher tem escrito, em jornais e livros.
O registo polémico, o ardor com que defende causas e a variedade dos seus interesses atraem a minha curiosidade.

Há, nela, um ímpeto complexo e uma procura de informações capitais que sobrelevam a superficialidade de muitos comentadores do óbvio.
A intervenção dela, naquele sábado, foi um admirável momento de instigação à nossa inteligência. E a intensidade latina fez esquecer aquele toque oxfordeano com que, ocasionalmente, sublinha o que diz e irrita quem a escuta.


Maria Filomena Mónica discorreu não só acerca da oposição entre a ministra da Educação e os docentes, mas também, e sobretudo, sobre o deplorável estado em que a democracia portuguesa se encontra.

Clarificou, com meia dúzia de frases claras, o que no-lo tem sido inculcado em nebulosa sintaxe. E não hesitou em colocar-se ao lado dos professores, sem deixar de revelar que Maria de Lurdes Rodrigues não estava a proceder bem.
Revelou que a ministra fora sua aluna; disse-o sem pesporrência ou soberba, apenas para colocar as coisas no seu sítio.

O problema não surge isolado do contexto mais alargado da sociedade portuguesa, notoriamente enferma – e cada vez mais.

Insistiu num fundamento irrefragável: o da urgência em se modificar a estrutura das leis eleitorais para se compreender a necessidade dos círculos uninominais.
Disse: não sabemos sequer o nome daqueles senhores que se sentam no hemiciclo, indicados pelos partidos, de origem desconhecida, grande parte dos anos calados e quedos, afinal de duvidosa representatividade.

Atrasados, um pouco perdidos numa Europa que nos não conhece ou nos observa espevitada pela curiosidade benevolente de quem se lhe depara uma coisa exótica, vamos existindo entre o provisório e a resignação, entre a ausência de significado identitário e a miséria que mascara a impotência. Maria Filomena Mónica adiantou que esta democracia não está submetida ao perigo de um golpe de Estado (militar, supõe-se) porque pertence à União Europeia.
Estamos a deixar de ser um país para nos transformarmos em provérbio.

A presença desta mulher na televisão resgatou-me da mediocridade impante e das cassetes ideológicas, oportunistas ou preguiçosas, com tenores cujas vozes não só nos aborrecem como nos deprimem.

Que adiantam ou atrasam as opiniões de António Barreto, José Miguel Júdice, Jorge Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira, António Lobo Xavier, Miguel Sousa Tavares, António Vitorino, Luís Delgado?, outros, muito mais outros, uma infinidade de outros, certamente estimáveis, mas que somente falam – e nada dizem porque nada têm de novo para dizer.
O azebre da rotina, nas televisões, nas rádios e nos jornais favorece a conformação e a desistência dos cidadãos. Sabemos, de antemão, aquilo que vão dizer.
Conhecemos os seus verdetes, as suas paixões, as suas inclinações e os seus pequenos ódios.
Dêem voz aos mais novos.


Na política como na literatura, na crítica cinematográfica como na de artes plásticas.
A imposição de um gosto pessoal sem se aplicar à análise o paradigma do criador.
A mediocridade atrai a mediocridade.
E a ignorância é atrevida, como se sabe.

Insinua-se, não se nomeia.
Diz-que-disse, não se afirma.

O debate é inexistente.
O vazio cultural é assustador.
Os autores que a Imprensa promove devolvem a mentalidade dos promotores.


Maria Filomena Mónica suscitou, certamente, em numerosos espectadores, amplos motivos de reflexão.
No fundo, ela sugeriu que pensássemos.

Num discurso a que nunca faltou o sal da indignação e do confronto, a base da informação e do conhecimento, a socióloga demonstrou a necessidade de uma outra ética e a simpatia por quem exerce uma crítica implacável e íntegra à sociedade do abandono.
A legitimidade do julgamento deve sustentar-se na interpelação que cada um deve fazer a si mesmo. E, claro!, na paixão do estudo, na força da vontade, na consciência moral da cidadania.
Esta mulher tem de ir mais vezes às televisões.
É inteligente e, ainda por cima, bonita.


APOSTILA – Completaram-se cinco anos sobre a reunião, nas Lajes, que constituiu o acertar das linhas para a invasão do Iraque. É uma data vergonhosa.

Não só por Durão Barroso ter servido de sorridente e obsequioso mordomo dos senhores da guerra (Bush, Blair e Aznar), como pelo que comporta de criminoso. Recuperam-se as imagens desse dia da infâmia, enquanto alguns apoiantes fervorosos do sinistro acto procuram esgueirar-se às cumplicidades antigas. Um pouco por todo o mundo, os protestos contra a invasão fizeram-se ouvir.
Nos Estados Unidos, assumiram aspectos impressionantes.
Aqui se regista
.



B.B.


Esta música, de Kadhim Al-Saher, o mais popular cantor iraquiano (a viver no exterior) e um dos mais conhecidos cantores árabes, foi composta para o documentário My Country, My Country.
É um hino ao sofrimento dos iraquianos.


Oh meu país, que possas acordar feliz.
Reune todos; cura as tuas feridas.
Anseio por ver um dia o teu sorriso,
quando é que a tristeza te vai deixar?
Sunitas, xiitas e curdos,
Recebe-os debaixo das tuas asas.
És o seu pai; és a sua mãe.
Mantem-te firme, não interessa como sopram os teus ventos
Jesus e o profeta Maomé disseram,
A unidade deles é a tua arma,
Amor, paz, inteligência e construção,
Que Deus no céu abençoe o teu sucesso, meu país.
Oh meu amado Iraque; oh Iraque;
Oh meu amado Iraque

Etiquetas: , , , , , , ,

segunda-feira, 17 de março de 2008

É CRIME... FALAR, ESCREVER, PENSAR...

O homem é o único animal que discursa, tal como é o único animal que sabe rir...
Dizia-se isto no tempo em que não havia teleponto, telemóvel e televisão, quando discurso ainda tinha a ver com a dimensão logos, isto é, com a razão, com a palavra posta em comunicação, onde a complexidade dos músculos que permitem a gargalhada até levava Bergson a concluir que não há nada de cómico fora do que é propriamente humano.
É que o cómico nasce quando os homens reunidos em grupo voltam a sua atenção para um deles, calando a sua sensibilidade e exercendo só a sua inteligência.


Assim, tenho de recordar José Ortega y Gasset, para quem quando a paixão invade as multidões, é crime de lesa-pensamento o pensador falar.
Porque para falar tem que mentir. E o homem que aparece antes de mais entregue ao exercício intelectual não tem o direito de mentir.


Não, não estou a pensar no Dalai Lama e nos actos de policiamento dos chineses sobre o território Tibetano, sob a soberania de Pequim.
Não vou continuar a dizer que a perestroika, que nos dá lojas de trezentos, jogos olímpicos, comércio, diplomacia, casinos e fundações do Oriente, pode ser interrompida pelos incómodos da glasnot.


Os mil e duzentos metros quadrados do pavilhão bem ginasticado não são um salão do Portugal dos Pequeninos, onde se prometia a baixa dos impostos, a redução das prestações sociais, o aumento da carga fiscal. Abaixo os sindicalistas, os funcionários públicos, os professores, os magistrados, os farmacêuticos, os médicos, os notários, os enfermeiros. Estamos contra todos, mas não estaremos contra todos ao mesmo tempo, nem deixaremos de comprimir os chamados direitos adquiridos.

Prefiro convidar os portugueses a espreitar para o hall da minha casinha, que não foi desenhada quando eu apenas era desenhador na autarquia da Serra da Estrela.
Esqueçam o espelho com moldura dourada, esqueçam que não vos apresentei os meus pais, os meus filhos e a minha namorada, como fez o outro.
Nem sequer vos convido para se sentarem no sofá da sala.
Apenas uma biquinha no café da esquina, que os meus assessores de comunicação hão-de pagar.


Não estou para aturar intelectuais que não aceitam reconhecer o Pinto Ribeiro como nomeador, os tais que recordam os actos de tirania dos mitificados príncipes perfeitos e que continuam a dizer que as luzes da iluminação especulativa não devem assentar na rotina do despotismo.
O Charrua que se lixe.
A tipa de Vieira do Minho que se esqueça, o Balbino que gaste o dinheirinho com o Zé Maria Martins.
Um reformador como deve ser pode continuar a ter os muitos pés de barro dos muitos directores-regionais do Norte e do Sul, essses aparelhismos verbeteiros dos micro-autoritarismos sub-estatais, com direito a advogado e a avençado pago pelas verbas do orçamento de Estado contra os protestantes, huguenotes e quejandos.


Qualquer João Figueiredo sabe para que servem as meras rodas dentadas do anónimo mecanismo do Leviathan e do PRACE.
O Estado é isto, meus senhores, a abstracção de um discurso de estadão, no tempo da folle du logis e da teledemocracia.
Os indivíduos, infelizmente, são meros elementos fungíveis de uma tabela estatística que suporta as regras das sondagens e dos estudos de opinião pública.


Aliás, quanto mais à esquerda se pensa o poder, mais ilusão têm os detentores do mesmo quanto à bondade dos meios que utilizam, dado que se deixam elevar pela altitude dos fins que julgam prosseguir.
Os tais instrumentos ditos inquisitoriais, com excessos ditos purgas, porque os chefes e engenheiros de almas, abrasados pelos fins dos superiores interesses do país, se desleixam das correias de transmissão e das rodas dentadas do Estado-Aparelho.


Se os chefes têm, com eles, a doutrina, nenhuma parcela da força do estadão lhes pode fugir, e todos os opositores que não queiram comer à mesa do orçamento passam à categoria de filhos das trevas.
E este é o país do rigor, da competência, de mais qualidade, de mais qualificações, de modernização, onde, infelizmente, até nos acusam de irmos depressa demais.
Quando o país estava atrasado demais, parado demais, sem compreender a urgência da mudança.
O mundo está a mudar e os país tem de mudar com o mundo.


Nós, chefes, somos a força da modernização, o futuro que precisamos de construir e não somos dos que vão para onde sopra o vento, atrás de qualquer protesto.
Nem sequer somos dos que alimentam a descrença e fomentam o pessimismo, como dizia Marcello Caetano, antes de ser metido na Chaimite. Somos o partido progressista de Portugal.

Temos connosco o Jorge Coelho, que bem sabe fazer oposição à oposição, sem se comprometer com apoios à Maria de Lurdes.
Temos o principie Almeida Santos, que sempre apoiou a Ota por causa das pontes que podem ser dinamitadas por terroristas e que ainda é capaz de juntar cem mil pessoas na rua.


Nós somos o novo estado, o rigor, a modernidade, a Europa, o mundo, a competência, o aborto, a luta contra os berloques na língua, o Lemos de Castelo Branco, o Teixeira dos Santos, o Mariano Gago, o Santos Silva, mesmo que já não sejamos o Campos Cunha, a SEDES, o Freitas do Amaral. E até podemos vir a ser o Vital Moreira, o José Miguel Júdice e o Pedro Mexia.
Somos como sempre fomos, o Costa Cabral, o Fontes Pereira de Melo, o Afonso Costa, o António de Oliveira, o Cavaco Silva, mesmo sem uma ideia de Portugal e sem uma ideia de Europa.
Mesmo sem qualquer ideia de ideias.


Por mim, voltando a Ortega, apenas repito: reivindico inteiramente o direito de me manifestar tal como sou. Ingresso na política, mas sem abandonar um átomo da minha substância...
Reclamo o pleno direito de se fazer uma política poética, filosófica, cordial e alegre.
Outra coisa seria coarctar-me injustamente.


JAM

Etiquetas: , , , , , ,

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A PARTIDOCRACIA

CORRE O RISCO DE SE TORNAR NUMA FEDERAÇÃO ENTRE CACIQUES, LOCAIS E REGIONAIS, E UMA CASTA DE POLÍTICOS PROFISSIONAIS

Luísa Mesquita diz que, desde anteontem, deixou de ser comunista, só porque foi formalmente expulsa do PCP, isto é, continua tão comunista que até admite o monopólio da causa pela instituição de que se desligou.
António Costa ameaça demitir-se se os deputados municipais do PSD não apoiarem uma proposta que apresentou. Um novo acordo de regime parece concretizar-se, depois de um encontro entre um ex-chefe do governo e um ex-ministro da reforma do estadão, duas excelentes carantonas do regime a que chegámos, naquilo que parece querer retomar o estilo da ignóbil porcaria.

Isto é, para além do folclore das reivindicações e do apoios, um redivivo rotativismo decidiu entrar em ditadura sistémica, procurando feudalizar, em bipartidarismo, mas sem bipolarização, o monopólio da representação política, numa altura até em que o PS e o PSD são secções nacionais das principais multinacionais partidárias da Europa.


Por outras palavras, já não serão precisos mais golpes violentistas de chapelada para que, no futuro, tudo continue como dantes.
O anunciado gentleman's agreement do vira o disco e toca o mesmo vem, assim, garantir, através da lei, que todas as futuras mudanças eleitorais serão alternâncias sem possibilidade de alternativa.
Belém, naturalmente, lavará as mãos como Pilatos, dado que seria feio aplaudir.


Desta forma, os tradicionais inputs do sistema político ficam cada vez mais reduzidos ao situacionismo oficial e ao oposicionismo oficioso das duas faces do Bloco Central.
As outras forças políticas estão condenadas à residual dimensão de vozes tribunícias, cada vez mais prenhes de demagogia, para forçarem o agenda setting.

Todos vão deixar o campo do dinamismo interventivo aos grupos de pressão das velhas forças vivas, dado que se desiste da mobilização cívica de uma maioria de indiferentes e de abstencionistas.

Corremos assim o risco de a chamada sociedade civil perder as pontes de ligação à black box do sistema político, onde passa a circular, quase impune, uma classe política bipartidocratizada. E esta corre o risco de se tornar numa federação entre caciques, locais e regionais, e uma casta de políticos profissionais, face à qual apenas temos que referendar e plebiscitar as respectivas propostas.
Logo, as eleições, assim rigorosamente vigiadas, poderão ser limitadas às canalizações representativas de um sistema que parece temer a voz directa dos povos.

O ambiente é propício à criação de um mainstream que retome os vícios do rotativismo dos monárquicos liberais e da ditadura sistémica do afonsismo durante a Primeira República.

Não tardará que o mesmo caia na tentação de condicionar ou punir o dissidente ou de procurar estigmatizar a heresia.
Até pode acontecer que os serviços oficiais de espionagem comecem a comunicar, a grupos políticos, a lista dos infiltrados, ou que os partidos dominantes abram uma secção de renovação com blocos de bons desinscritos dos partidos marginais.

Aliás, se consultarmos um desses engenheiros de sistemas políticos e eleitorais, ele dir-nos-á, em termos técnicos, que o bipartidarismo é mau para os pequenos e médios partidos, mas que é bom para o sistema, até porque um parlamento ou uma assembleia municipal que fosse uma fotocópia do país, ou da autarquia, conduziria à ingovernabilidade.
Por mim, preferiria que os engenheiros sistémicos, representados por Alberto Martins e Santana Lopes, cedessem lugar aos repúblicos que se preocupam com a crescente falta de participação cívica, para todos tratarmos de reinventar a cidadania.
Por isso, continuo do contra!


J.A.M.

Etiquetas: , ,

domingo, 28 de outubro de 2007

DA MENTIRA COMO VIRTUDE POLÍTICA

Há os que sabem tudo e hoje dirão: "Os políticos sempre mentiram." Pode por isso parecer ingénuo ficar surpreendido com o modo como a mentira se instalou na vida política. Mas a verdade é que o hábito vem ganhando contornos inéditos. Quase todos a usam. Quase todos a perdoam. A mentira é corrente. Ganhou novas feições. É por vezes obrigatória. Recomendável, de qualquer maneira. Até sinal de esperteza. Nas relações humanas e familiares, a mentira é castigada. Nos empregos, condenada. Na justiça, apesar de o perjúrio ser olhado com complacência, é mal vista. Mas na política... Na política... É apreciada. Se um político mente para dar emprego aos seguidores, derrotar os adversários ou enganar parceiros, o seu gesto tem todas as probabilidades de ser festejado.

A mentira, a fria mentira transformou-se em instrumento de governo. Há muito que os políticos mentem, aqui e ali. Mas sempre com alguma má consciência. Ou desculpa. Ou sentimento de culpa. Agora as coisas mudaram: mentir é possível, simples e necessário. Sem remorsos nem correcção. Se a intenção é boa, qualquer meio serve e a mentira é necessária. Com a guerra do Iraque, ficou consagrado o direito dos governantes à mentira.

Há quem pense que a mentira é reservada às ditaduras. Sem imprensa livre, escrutínio parlamentar ou oposição legal, qualquer ditador mente quanto e quando lhe apetece. Isso é verdade. Com a democracia, tudo seria diferente. A liberdade de expressão e a imprensa seriam suficientes para conter a mentira. O Parlamento, os partidos e as associações de interesses obrigariam os governos a dizer a verdade. As eleições seriam um correctivo para os políticos mentirosos: exigentes, os eleitores castigá-los-iam. Infelizmente, nada disto é verdade. A democracia vive hoje da mentira. Sob todas as suas formas: ocultação, contradição, correcção, circunstância superveniente ou melhor ponderação. A política tem regras parecidas com as que vigoram no futebol, nalguns negócios e na guerra: o único critério importante é ganhar. Só são condenados os que mentem e perdem. Os que mentem e ganham são respeitados.

Não aumentar os impostos é uma mentira clássica. Criar emprego é outra. Tal como aumentar as pensões e os abonos de família. Durão Barroso e José Sócrates, por exemplo, oferecem-nos ilustrações inesquecíveis deste género de mentiras. Apesar de totalmente irresponsáveis, as promessas de criação de empregos teriam uma desculpa: as dificuldades económicas tê-los-ão impedido de concretizar tão gloriosas promessas. É demagogia, mas chama-se-lhe mentira piedosa. Com os impostos, a experiência é mais radical. Os candidatos a primeiro-ministro garantiram, um que baixava os impostos, outro que os não aumentava. Ambos decretaram sólidos aumentos dias ou semanas depois de tomarem posse. As desculpas não se fizeram esperar: não sabiam que a situação financeira do país era tão grave quanto a encontraram! É extraordinário como, para desculpar uma mentira, os primeiros-ministros não se importaram de se confessar ignorantes, incompetentes e irresponsáveis!

Durão Barroso prometeu, antes das eleições, "um choque fiscal" e garantiu que diminuiria os impostos, sobretudo os que incidem sobre as empresas. Não fez nada disso, antes pelo contrário. Mentiu. Mas as suas mentiras passam por ser outra coisa - correcções motivadas pelo conhecimento dos números e dos factos. José Sócrates garantiu, antes das eleições, que diminuiria o número de funcionários públicos em dezenas de milhares, que criaria 150.000 empregos e que não aumentaria os impostos. Não fez nada disso, antes pelo contrário. Mentiu. Mas as suas mentiras passaram por inocentes necessidades.

O PSD e o PS têm, a propósito dos referendos em geral e do referendo europeu em particular, uma longa folha de serviço de mentiras e negações. Já foram a favor e contra várias vezes. O critério é o das conveniências, não o do programa ou da convicção. Se o referendo incomoda o adversário, são a favor. Se correm riscos, são contra. Se a matéria causa mal-estar dentro do partido, são a favor. Se têm de submeter os seus projectos à vontade popular, são contra. Actualmente, está nos programas do PS e do PSD, consta das promessas eleitorais de um e de outro, faz parte do programa do Governo de José Sócrates. Nada disso tem qualquer importância. O PSD é agora contra. E os dirigentes do PS, incluindo alguns ministros, já são contra. Quanto ao primeiro-ministro, só se pode pronunciar em Janeiro, o que é uma desculpa infantil. A verdade é que esta é a mais frequente das variedades da mentira, mas que parece também ter o perdão da opinião pública e a desatenção da imprensa. Não fazer o prometido, deixar de o fazer ou fazer outra coisa é uma forma de sublinhar a mentira original. Mas também passa, na política, por benigno constrangimento.

Será esta mais uma triste sina portuguesa? Nem sequer. A mentira tem-se transformado, nestas décadas, na moeda comum das democracias ocidentais. A guerra do Iraque é, a este propósito, um caso para estudo. As mentiras de George Bush e Tony Blair, dos seus governos e serviços de informação, ultrapassaram tudo o que se conhecia. Sobretudo pelas consequências mortais para tanta gente. Ao lado, as mentiras de George Bush pai, sobre os impostos, de Nixon, sobre tudo, ou de Clinton, sobre o sexo, foram quase inocentes.

Quanto à União Europeia, nem precisa de mentir: os seus ministros usam e abusam do novo hábito. O ministro Manuel Pinho confirmou que a mentira tem vigorado com rigor na União Europeia. Diz ele, em artigo do Diário de Notícias (de que é co-signatário com dois comissários da UE): "A partir de agora, o que a Europa faz e o que a Europa diz são uma e a mesma coisa"! Ficámos a saber, por vozes autorizadas, que a União mentia. Só não sabemos é se esta declaração não passa de mais uma mentira.

Será possível contrariar esta nefasta tendência para a mentira? É difícil. Não há esperança nos deputados. Como estes se tratam sempre, uns aos outros, de mentirosos, já ninguém acredita. Se os nossos media escritos, falados ou televisivos, estivessem à altura, talvez a sucessão de mentiras não fosse tão rica. Mas também parece que, com frequência crescente, gostam do novo hábito. Que usam com volúpia. Ou perdoam com malícia.


António Barreto

Etiquetas: , , , , , ,

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

EQUÍVOCOS E MENTIRAS DO VIVER PORTUGUÊS


Luís Marques Mendes foi à ilha da Madeira proclamar que A. J. Jardim era o nosso [dele] querido líder.
A tolice não dispõe das normas do pudor; no entanto, parece-me superar todas as balizas da decência a circunstância de o singular presidente do PSD ter utilizado a hipérbole no mesmo local (Chão da Lagoa) onde é invariavelmente insultado pela criatura elogiada.

José Sócrates e o seu Executivo são maus.
A perspectiva de alternância reside em Mendes. Portugal sobrevive num lamaçal em cujo turvo horizonte não se divisa nenhuma tábua de salvação.
O que se passa no PSD corresponde a um reflexo da sociedade portuguesa.
Ninguém se entende. E demonstra-se um generalizado interesse pelas coisas e pelas causas públicas. A fragmentação no PSD não é muito diversa do que ocorre no PS, transformado num partido de tabeliães.
Tanto num como no outro os suspeitos do costume encostam-se a quem lhes parece ter maiores probabilidades de poder.

Recorde-se: os que apoiam Marques Mendes já apoiaram Durão e Santana, e qualquer destes e os outros todos sustentaram Cavaco e a sua época.
Os que aplaudem, fervorosamente, José Sócrates e o seu presente ampararam, no passado, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro & etc. Antes, claro!, os primeiros eram todos sá-carneiristas; os segundos, sem hesitação possível, babavam-se com Mário Soares.
Fazendo um retrospecto, constatamos que uns e outros, aqueles e aqueloutros entraram em conflito aberto, desfizeram-se as aparentemente mais sólidas amizades.
A pátria, perplexa, contempla estes ínclitos varões, enumera aqueles que enriqueceram não se sabe bem como, e cabisbaixa e resignada lá vai tropeçando no caminho.

O CDS, coitadinho!, julgava que rezava com Paulo Portas: estatelou-se, ainda não ao comprido, mas para lá caminha.
O Bloco de Esquerda utiliza o léxico da ironia; politicamente, está de acordo – não se sabe bem com quê, mas sabe-se com quem.
O PCP não esmorece; porém, vai perdendo influência.
Discorde-se ou não, é a única voz política que ainda serve de travão a outros desmandos. E assim estamos.

A questão essencial dos partidos advém do facto de estes não conterem as características identitárias exigidas pela sua natureza. O PSD nunca foi social-democrata: nele se misturam conservadores, liberais, reaccionários e democratas sem razão de o ser.
O PS foi socialista por um instantinho.
Quando, apoplécticos e emocionadíssimos, os seus militantes e simpatizantes gritavam, nos comícios: Partido Socialista, Partido Marxista!, a extraordinária frase bateu nos ouvidos sensíveis da Internacional Socialista. Willy Brandt mandou um recado: acabem lá com essa leviandade, estamos cá para outra coisa.
A Guerra Fria e o anticomunismo não foram equívocos, foram pretextos habilmente organizados para que a normalização da Esquerda moderada servisse a outros interesses. A causa da emancipação dos povos, tão cara aos teóricos do socialismo, foi, cedo, substituída por uma obscenidade:pragmatismo, cujo significado nada tem a ver com a perspectiva kanteana, antes oculta o espírito de conciliação, servilismo e traição.

Nenhum dos partidos de poder tem uma visão particular sobre o mundo que as circunstâncias históricas impuseram.
O modelo europeu de sociedade está a ser liquidado pelas estratégias das multinacionais norte-americanas. E a participação activa no acto social foi engenhosamente dissimulada entre responsabilidade colectiva e responsabilidade individual.
A cultura massificou-se, não na acepção democrática do termo, sim na interpretação de consumo quantitativo.
A economia de mercado impede o que fundamenta a cultura: a sua interpenetração, a sua mestiçagem.
Impõem-se modelos igualitários na prosa narrativa, no cinema, nas artes plásticas.

Revertamos ao caso português.
O apoio elogioso feito, em quase toda a Imprensa, a subprodutos literários chega a ser deprimente. Assim como é insultuoso o exercício do silêncio a certos autores, cuja ideologia não serve a corrente dominante.
Depois, há a falsa independência dos jornais.
Nenhum jornal é independente, imparcial, objectivo ou distanciado.
O cinismo ultraja a inteligência do leitor, que sabe muitíssimo bem a orientação editorial e noticiosa deste e daquele periódico.
O bacoquismo de alguns jornais faz-nos bocejar de enfado.
Sugerem estar acima do bem e do mal, quero dizer: que são neutrais, claramente um embuste. Basta percorrer a Imprensa estrangeira: ninguém oculta a ninguém a sua tendência. El Mundo, El Pais, The Guardian, La Reppublica, Le Monde, Corriere della Será, La Stampa não enganam os leitores: são o que são e, honestamente, o que entendem dever ser.

Na nossa terra, a normatividade em vigor é aldrabar, prestidigitar, iludir, defraudar, enganar. Somos obrigados a verificar, com desconsolo, que este tempo português parece o de demissões éticas, antes de serem capitulações ideológicas.
A cultura eugénica, com fins lucrativos, leva tudo à frente, de roldão e sem pejo.
Quando Sócrates minimiza e, até, deprecia, com humor indecente, o artigo sobre o medo que Manuel Alegre escreveu no Público, apenas reflecte o esvaziamento da sua pessoal perspectiva. Não vale a pena debater nada, comentar coisa alguma, discutir seja lá o que for.
Alegre não é um beócio. E a cultura, a liberdade e a política entendida esta como moral em acção, devem algo ao grande poeta de Senhora das Tempestades.
O paralelismo entre o que Sócrates disse e não disse, e o que Marques Mendes falou e não falou não pode deixar de se estabelecer.
De uma maneira ou de outra de um modo ou de outro, ambos representam o que de pior existe na sociedade portuguesa.

Podem crer, meus Dilectos, que não tenho prazer nenhum em escrever isto.


B.B.

Etiquetas: , ,

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

A POLÍTICA: A GRANDE PORCA

RAFAEL BORDALO PINHEIRO
Desenhador, ceramista: 1846 - 1905

POIS BONS-DIAS MEUS SENHORES...

Ainda não se deram bem conta da minha existência. E sou personagem importante, o meu nome é Zé Povinho.
Lá mais para o fim do século hei-de ser bem representado mas quem me vai dar vida ainda não nasceu.
O país anda às voltas. Parece que não se entendem. Isto do Rei ter fugido para o Brasil veio trazer grandes complicações. Ora uns, ora outros, todos querem o poder.
Como se não bastasse a política, juntou-se-lhe uma guerra de irmãos - D. Pedro (o Liberal) , D. Miguel (o Absolutista). E o poder vai saltando de mãos durante algum tempo até que as coisas se estabilizem.
No meio cá ando eu. Lá vou observando o que se passa. Não sou político, mas vou tirando as minhas conclusões. Não é que elas valham muito agora, mas há-de chegar um dia que todos encherão a boca com o meu nome. Aguento como posso, e quando as coisas me irritam, encho-me de força. Arreda que vai tudo em frente. Não acreditam?
Pois bem, eu vos conto.
Lá por volta de 1842, estava tudo mais sereno quando um camponês, vindo da Beira, faz um golpe de direita que o leva ao poder. Não, não é o tal, este chama-se Costa Cabral e é formado em Direito e o outro será em Finanças.
Só que às vezes, com homens da mesma laia, a história repete-se...
A ditadura não é do meu agrado.
Em 1846 vem a proibição de enterrar os mortos nas igrejas.
Mais me faz desconfiar a história dos registos de propriedades.
Só me faltava agora virem mandar nas nossas terras, e ao que consta querem vendê-las aos estrangeiros.
Eu rebento.
Pego nas forquilhas, nas enxadas, e vou em frente.
Não é o governo que se vem meter agora nos meus assuntos.
A revolta é geral.
Depressa se espalha pelo país.
Começo lá no Norte e vou descendo por aí abaixo.
Chamam-lhe Maria da Fonte.
Mas eu acho que sou apenas eu - o povo.
Repito: o meu nome é Zé Povinho, pois então!
Tudo se complica, depressa a revolta se transforma em guerra civil - é a Patuleia.


Etiquetas: ,

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

VIVERMOS E PENSARMOS COMO PORCOS

Filósofo e matemático de renome internacional, Gilles Châtelet ficou conhecido pela sua verve panfletária, e seguramente o seu documento mais incendiário é “Vivermos e Pensarmos como Porcos”, finalmente publicado entre nós (“Vivermos e Pensarmos como Porcos, Sobre o incitamento à inveja e ao tédio nas democracias-mercados”, por Gilles Châtelet, Temas e Debates, 2003).
Temos aqui uma visão crítica dos 30 anos que medeiam entre o fim da abundância, que acompanhou a idade de ouro do Estado-Providência e a consolidação da globalização e do consumidor-indivíduo.
A terceira vaga pós-industrial em que vivemos é dominada pelo tecno-populismo, a tirania da estatística, a “tartufice humanitária”, numa atmosfera da “Contra-Reforma” neoliberal em que “mercado igual a democracia igual a maioria de homens médios”. A nossa democracia já não está ao serviço da solidariedade, da autonomia da pessoa, mas do bom governo dos mercados. Governar bem é estar atento aos desejos do homem médio, mantendo em equilíbrio com o consumidor-cidadão-egoísta, o ciber-comunicador e o pobretana que se alimenta dos restos das indústrias do entretenimento com que as Sobreclasses anestesiam as Subclasses.
No essencial, o livro de Châtelet desmonta os mecanismos do discurso dominante, assente num colectivo de individualidades em que a “engenharia do consenso” faz o equilíbrio mágico da democracia dos mercados.
Se bem que ironizando em torno dos conceitos das classes médias, este libelo acusatório da pós-modernidade carnívora não esconde as suas raízes no pensamento de outro influente contestatário, Herbert Marcuse, pensador emblemático da agitação universitária do período revolucionário dos anos 60. É na linha deste pensador que Châtelet fala na “tripla aliança” (política, económica e cibernética) que é susceptível de auto-organizar as massas humanas, dando-lhes um simulacro de projecto: através do digital, cria-se a utopia de que todos os confrontos são ultrapassáveis; através da cidadania democrática aprende-se a tolerar um sistema de competitividade feroz em que o despojado já não se revolta contra o super-rico; através do consumo, estabelece-se o controlo social, gerando-se a ilusão do respeito pelas diferenças.
A denúncia da impostura, feita pelo autor, não introduz qualquer alternativa à mornidão do sistema controlado em que vivemos. O “homem médio” vive aprisionado na democracia-mercado, mas o filósofo diz que a este homem médio será possível opor o “homem-qualquer” capaz de reabilitar a excelência do político e de nos salvar num processo histórico que ultrapassa toda a rotina e todo o possível antecipado. A democracia do futuro só será válida se der uma oportunidade aos heroísmos do “qualquer um”. “Vivermos e Pensarmos como Porcos” é uma obra indispensável aos analistas da sociedade contemporânea, aos estudiosos do consumo, a todos os investigadores que estudam a articulação entre os diferentes pensamentos científicos e mesmo aos políticos confrontados com os sucessivos impasses a que nos conduziu a exaltação do ultraliberalismo. Este manifesto é uma provocação que pode contribuir para um outro mundo possível que transforme a globalização predatória numa globalização de solidariedades.
B.Santos

Etiquetas: