sexta-feira, 2 de agosto de 2013

AGORA, É TEMPO DOS CHACAIS...



Numa entrevista a Ana Sá Lopes, no jornal «I», Mário Soares disse que António José Seguro «o desiludira.» Este, numa resposta em que o desdém era apadrinhado pelo paternalismo palerma, afirmou que sentia por Soares «carinho» e «ternura.» 
Afinal, Soares confirmou o que se sabe, no PS e fora do PS e, ao reafirmá-lo, fê-lo com a sabedoria e o conhecimento de causa que faz dele o que Manuel Alegre designou (ao lado de Cunhal) por um dos dois últimos leopardos da política portuguesa. E Alegre acrescentou: «Agora, é o tempo dos chacais.»

Seguro não é o homem exacto para o momento dilemático em que vivemos. Desprovido de convicções, pouco culto, não possui estatura de estadista nem fibra para enfrentar a complexidade da situação actual. Mas ele é o reflexo actual do PS: sem grandeza nem estilo, sem leitura e sem desígnio a não ser o atabalhoado desejo de poder. Tony Judt, num livro a vários títulos extremamente estimulante, «Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos» [Edições 70, que tem publicado grande parte da obra deste autor], analisa o vazio ideológico da social-democracia, as suas debilidades éticas e as suas traições. Sem esquecer a quase total ausência de textos ideológicos.

Com a ascensão de Tony Blair a primeiro-ministro no Reino Unido, e a proclamada «terceira via», o «socialismo moderno» adquiriu um fôlego tão inesperado como patético. Recordo-me do entusiasmo delirante de António Guterres, cujas ideias também se respaldavam em… Bill Clinton, vejam só…, na paixão dele pela educação, e na fuga precipitada do «pântano» para o comovente lugar de comissário qualquer coisa dos refugiados. O meu saudoso amigo Fernando Lopes dizia que o «socialismo tinha chegado à pia de água benta», e chamava de beato António ao então primeiro-ministro.

Todas estas tropelias, embaraços e curvas apertadas formaram o PS que, notoriamente, deve ter muita força para aguentar com tanto. Votei uma vez no partido, exactamente no tempo de Guterres, atraído pela melodia do que ele dissera sobre educação. E tenho, entre os meus grandes amigos, militantes e dirigentes socialistas, alguns há mais de quarenta anos, como é o caso de João Soares.

Critiquei, por vezes duramente, José Sócrates. Apesar de tudo, o seu consulado possuía um objectivo e uma consistência que este Executivo de Passos Coelho está longe de alcançar. Passos trepou ao poder por um equívoco, e alicerçado em pequenos embustes e promessas que o tempo provou serem altamente perigosas. O poder pelo poder é algo que desprezo, pelo que comporta de malefício colectivo e pelas características de improviso que envolve. Durante este tempo todo, António José Seguro tirocinou na Jota, não se sabe em que trabalhou, e foi eurodeputado. Ganhou a vidinha, com reforma assegurada, e chamam-lhe «doutor». Enquanto o PS de Sócrates enfrentava as mais ferozes críticas de que há memória, Seguro estava de tocaia, aguardando, em silêncio cavo, uma oportunidade. Não tomou posição nem por um nem por outro. Caladinho que nem um rato, sabendo que o tempo corria a seu favor.

Antes, dissera, numa comentadíssima entrevista ao «Expresso», estar cansado da política e disponível para ir para o Parlamento Europeu. Move-se com movimentos estudados e ar grave. O grande jornalista Ricardo Ornellas dizia que, quem assim se exibe, é, somente, para impressionar os contínuos.

A subida de Seguro ao mais alto lugar do PS deve-se à desistência de outros, à negligência de alguns e à indiferença de muitos. Mas resulta de uma espera, cautelosa e paciente, minuciosa e astuta, deste homem de qualidades duvidosas e de «socialismo» imperceptível. O desconforto que se vive, no interior do partido, é semelhante à preocupação dos portugueses, com a possibilidade de Seguro chegar a primeiro-ministro. Mário Soares acreditou, inicialmente, neste homem que conhecia de rapaz, e agradava-lhe o tom cerimonioso e a educada reverência com que se lhe dirigia. Depois, o PS não dispunha de mais ninguém, logo que António Costa não estava inclinado a dirigir o partido. A crise era, e é, mais grave e aparentemente insolúvel do que se presume e presumia.

Chegámos a esta situação deplorável. Um vazio político que o PS não preenche porque não suscita credibilidade a ninguém, e um Governo de coligação PSD-CDS moribundo, sem hipóteses dse futuro, que arrasta Portugal e os portugueses para uma miséria irreparável.

Marcelo Rebelo de Sousa, com a graciosidade que se lhe reconhece, disse que «a quarta idade» de Soares não lhe obnubilara a intuição política. A deselegância está à vista, mas com um lado de verdade que se lhe não nega. Ao afirmar, a Ana Sá Lopes, que António José Seguro o desiludira, Mário Soares deu imagem e voz ao nosso comum desalento.

B.B.

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terça-feira, 9 de julho de 2013

BANDOS


No PSD, os elitistas, próximos de Cavaco, querem eleições legislativas no imediato. Arredados do poder pelo passismo, estão saudosos do acesso aos lugares de topo da administração pública, a que sempre estiveram habituados. Este grupo, liderado por Ferreira Leite, Rui Rio ou Pacheco Pereira, quer substituir Passos Coelho na liderança do partido, mesmo antes de eleições antecipadas. Neste cenário, terão até como aliados os caciques do aparelho mais cavernícola, os detentores dos sindicatos de voto interno. Os dirigentes ligados ao poder autárquico, que aclamaram Passos, serão os primeiros a despedi-lo. Pois não quererão ir a sufrágio nas eleições locais ligados à imagem do primeiro-ministro, à sua impopularidade e aos seus fracassos governativos.
Já no Partido Socialista, é o setor mais basista que quer a antecipação de eleições. O aparelho socialista de Seguro sabe que o equilíbrio interno é frágil e que os socratistas espreitam a primeira brecha para recuperarem o poder. Os herdeiros de Sócrates são hoje – pasme-se! – a elite socialista. Representam as ligações aos grandes negócios e à Banca, com quem o PS viveu em conúbio durante os governos de Sócrates. António Costa, Francisco Assis ou Vieira da Silva não querem eleições para já. São os melhores aliados de Passos Coelho.
Neste xadrez, o CDS hesita. O aliado de Portas será conjunturalmente Passos, num cenário de continuidade da coligação. Mas Seguro também será um bom parceiro, em caso de eleições antecipadas. Depende de quem der mais. O dilema do CDS está entre jogar pelo seguro e manter o enorme poder adquirido. Ou provocar a antecipação de eleições, apoiando Seguro... e arriscar um desaire eleitoral.
Todas estas fações partidárias desprezam os cidadãos que representam. Não passam afinal de bandos de assalto ao poder, que se organizam para aceder a negócios proporcionados pelo estado ou a cargos na administração. 

Como diria Bordalo Pinheiro, transformaram "a política numa porca em que todos querem mamar". 

Paulo Morais

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quinta-feira, 28 de março de 2013

ANDA UM GAJO A PAGAR A TAXA PARA ISTO?



 
Durante os últimos dias acendeu-se uma discussão que motivou petições, abaixo assinados, horas de justificações e contra justificações na comunicação social, nas redes sociais e em todos os lados onde se juntavam duas pessoas.

Tudo a propósito da contratação de um antigo secretário-geral de um dos partidos que costumam governar o país, para fazer comentário político na estação pública de televisão.

Não consegui perceber o porquê desta azáfama em torno desta contratação que não representa nenhuma novidade no panorama da comunicação no nosso país.

Basta olhar o espaço de comentário das televisões, generalistas ou vocacionadas para a área noticiosa, para se perceber que a principal (diria quase exclusiva) fonte de recrutamento para desempenhar a tarefa de comentar a actualidade política encontra-se em dirigentes ou ex-dirigentes dos dois partidos que, com bengala ou sem bengala, têm desgovernado o país nas últimas décadas.

O comentário político, forma cada vez menos subtil de nos porem todos a pensar pelas mesmas cabeças, é uma coutada exclusiva do PS e do PSD quer através dos seus barões, quer através de alguns serventuários com o rótulo de independência, desmascarada logo à segunda ou terceira frase atirada para o ar.

Por isso me espantou que em relação ao inominável se lançassem petições contra e a favor da sua presença na televisão pública, quando o que deveríamos peticionar era a abertura ao espaço de comentário político de gente de todas as tendências, em particular aquelas que têm representação parlamentar.

É claro que este espanto é relativo porque tenho consciência que o papel desempenhado pelos diversos profissionais do comentário foi de tal forma eficaz que a maioria já acha que ouvindo o Professor Marcelo e sua partner está a ter acesso a opinião independente e isenta, ou que ouvindo Marques Mendes e Augusto Santos Silva está realizado o saudável princípio do contraditório.

Esta discussão em torno do nome de um comentador é tão nova e interessante como a discussão sobre de quem foi a responsabilidade política pelo caminho que nos trouxe até ao empobrecimento e a desesperança.

Basta rever a história recente com atenção, para percebermos que a origem é exactamente a mesma onde as estações de televisão vão buscar os comentadores políticos que nos tentam formatar o pensamento.

É por estas razões que não assino petições contra a presença deste ou daquele na televisão, mas assinaria de bom grado uma petição que exigisse igual tratamento a todas as fontes de opinião política, fugindo a esta coisa cinzenta de ouvirmos as mesmas coisas saídas de bocas diferentes como se a mudança de rosto significasse diferença de pensamento.

Não faria sentido assinar uma petição contra a presença do inominável e não ter a mesma atitude para com Santana Lopes, por exemplo.

Eu quero lá saber quem diz. Interessa-me é o que diz. E quanto a isso, no espaço televisivo, dizem todos o mesmo, matizando com cor mais alaranjada ou rosada as palavras que lhes saem da boca.

Agora algo mais sério. 
Que tal uma petição que exija duas coisas simples? 
Que o governo se demita e que o António José pare de escrever cartas à troika onde jura fidelidade eterna ao memorando onde eles, fazendo-se de desentendidos, se entenderam, para nossa desgraça colectiva.

Eduardo

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ALTERAÇÃO DO LOCAL - AUTÁRQUICAS - PONTE DE SOR DEBATE ENTRE OS CABEÇAS DE LISTAS

Quarta - feira, dia 7 de Outubro, às 21 horas, no Teatro-Cinema de Ponte de Sor, debate com os cabeças de lista à Câmara Municipal de Ponte de Sor.
Este debate vai ter como moderador o jornalista João Ruivo e é uma organização do jornal A Ponte, Rádio Tempos Livres e Rádio Portalegre.
Vá conhecer as propostas dos candidatos ao vivo ou ouça nas rádios.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

AUTÁRQUICAS - PONTE DE SOR DEBATE ENTRE OS CABEÇAS DE LISTAS

Quarta - feira, dia 7 de Outubro, às 21 horas, no auditório da ex-fundação António Prates, debate com os cabeças de lista à Câmara Municipal de Ponte de Sor.
Este debate vai ter como moderador o jornalista João Ruivo e é uma organização do jornal A Ponte, Rádio Tempos Livres e Rádio Portalegre.
Vá conhecer as propostas dos candidatos ao vivo ou ouça nas rádios.

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A CAMPANHA DOS CROMOS

Após uma semana de campanha eleitoral para as Eleições Autárquicas do concelho de Ponte de Sor, apetece-me fazer um pequeno balanço daquilo que se passou até agora e que me foi dado observar.
E porquê? Porque me apetece, pronto!

Comecemos com a campanha da CDU.

Comparativamente aquilo que aconteceu noutras eleições, noto a campanha dos comunistas um pouco... direi triste. Falta-lhes aquela enchurrada de gente, fazendo do seu número uma força que impressiona.
A sua lista é formada por muita gente nova mas curiosamente essa juventude não se nota nas agora chamadas «arruadas» (que termo mais foleiro!). Claro que tentam passar a sua mensagem, o João Pedro Amante e o Vitor Morgado são bons oradores e esforçam-se por convencer. Distribuem os seus folhetos e esferográficas, tentando manter as pessoas interessadas.

Falemos agora da campanha do PSD/CDS:

Nota-se uma dinâmica de vitória, consubstanciada na juventude e na acutilância dos seus argumentos. A sua lista é formada por pontessorenses que toda a gente conhece, jovens e empreendedores, profissionais competentes nas áreas onde trabalham.
Joaquim Lizardo é o arquétipo de gestor competente, sempre disposto a ouvir e argumentar com quem conversa. Os folhetos que publicitam as listas são modernos, coloridos e convincentes, uma boa ferramenta para se iniciar verdadeiramente um Concelho Com Futuro. Os inevitáveis brindes são esferográficas, porta chaves e isqueiros.


A candidatura do PS:

Trabalha com ferramentas diferentes das restantes candidaturas. A começar com a famosa brochura de 48 páginas todas a cor, em papel grosso e brilhante, com inúmeras fotografias tiradas pelos serviços da Câmara Municipal.
Quem conhece a génese dessa revista, sabe que ela foi originária do mesmo gabinete de imagem que assessoria a nossa Câmara e que (e talvez isso não saiba, caro leitor) foi planeada e projectada para ser um boletim municipal. Mas como em período eleitoral não se podem publicar esses boletins, nada mais fácil: tira-se as partes onde tinha Câmara Municipal de Ponte de Sor e substitui-se por Partido Socialista!
Fácil, não?

E isto pode ser verificado nas actas da Câmara, onde todas as especificações da revista estão lá, todas escarrapachadas: o número de folhas, dois agrafos, páginas a cores...
Mas curioso: será que a Câmara é só o seu Presidente e o Vereador do Urbanismo? E as Juntas de Freguesias, algumas que até fizeram um trabalho meritório? Não existem? Ou será a tal história dos filhos e enteados?
Mas falemos em pormenor da campanha do PS, pois são ele o poder e por isso, merecem ser melhor escrutinados. Comecemos pelas viaturas. São algumas e todas elas mais... proletárias! Os velhinhos Visa lá saíram da garagem. Ah, mas também há jipes todo o terreno, que o PS não é só proletariado!
Distribuem, para gáudio das senhoras (talvez para compensarem o tal pecadilho da lei da paridade...) um estojo, misto de espelho de maquilhagem e apetrechos de costura! E as inevitáveis esferográficas, com um design mais moderno que os seus opositores.
Quanto à brochura de divulgação das várias listas, as capas são a cores mas as fotos dos candidatos a preto e branco. Teriam acabado a cor quando imprimiram a revista... perdão, o boletim municipal... perdão... nem sei como lhe chamar!
Tal como a campanha da CDU, também noto a candidatura do PS muito mortiça, sempre com as mesmas caras, sem renovação. A primeira vez que me cruzei com os socialistas, até pensava que eram trabalhadores da Câmara nalgum trabalho de inspecção!
Mas o mais curiosa que verifiquei, foi aquilo que deu o título a este post:


«A Campanha dos Cromos»!

Se o leitor vir bem, não há sinal de transito no concelho que não tenha os tais famosos rectângulos autocolantes. Fazem-me lembrar os cromos da bola, que coleccionei enquanto criança, só que menos modernos, pois não eam autocolantes. Eram os famosos cromos da bola, que comprávamos no Ti'Casimiro, ali na Rua Damião de Gois, em frente à igreja.
E será legal, esta maneira de propaganda política?
Quanto a mim, não sei, só demonstra que certas pessoas estão desesperadas por aparecer em tudo quanto é sítio. O importante é passar a forma, não o conteúdo. E sempre se pode alegar que quem fez essas colagens foram miúdos, ah esses malandros, demos-lhes os autocolantes e eles andaram a colar nos sinais de transito, esses malandros!
E pronto. Falta mais uma semana, falta convencer as pessoas que se se ganhar, a freguesia vai ter dois pavilhões gimnodesportivos, um campo de jogos para corridas de caricas, uma TAC toda apetrechada, viagens para os idosos até ao campo de golfe dos Saraivas, um autódromo para carrinhos de rolamentos, uma fundação de arte rupestre, um museu de ciências ocultas...



Pergunto eu:
se durante 4 anos não se fizeram grandes benefícios nas vossas freguesias, caros leitores, será que se convencem que para o ano é que é?


As obras falam por si, os pontessorenses não são burros e na hora certa, sei que irão votar naquilo que lhes der melhores garantias.

Quanto a mim, aposto no Futuro.

Quanto a mim, a candidatura certa para levar o nosso concelho para o século XXI, é a candidatura de Joaquim Lizardo. Essa foi a minha aposta desde o início, essa é a minha aposta para dia 11.
Nas eleições autárquicas, não é no partido A ou B que se vota.
Vota-se, isso sim, na escolha entre João Pedro Amante, Joaquim Lizardo e João Taveira Pinto!
E é isso que lhe aconselho, querido leitor: não veja o símbolo do partido/coligação.

Vote no nome. E tudo será simples!

E deixo-vos com esta citação de Otto von Bismarck:

«Nunca se mente tanto como em véspera de eleições,
durante a guerra e depois da caça.»


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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A VERSÃO DO CIVISMO

José Sócrates está perto de nova maioria absoluta leio, na prospectiva de um politólogo. É bem capaz de ser verdade. O que, para mim, tanto se me fez como se me faz. Há muito que se perdeu a noção de magistério. E todo aquele que denuncia esta grave amolgadela no tecido cultural português corre perigos vários.

O prof. dr. José Gil, num admirável artigo editado na Visão, revista que raríssima vez frequento, fala acerca do processo de domesticação da sociedade, por parte deste Governo. E diz: Como foi possível passar da contestação à obediência, da revolta à ‘servidão voluntária’, como lhe chamava La Boétie? Indiquemos um só mecanismo que o Governo utiliza: a ausência total de resposta a todo o tipo de protesto. Cem mil pessoas na rua? Que se manifestem, têm todo o direito – quanto a nós continuaremos a enviar-lhes directivas, portarias, regulamentos a cumprir, sob pena de … (existe a lei). Ausentando-se da contenda, tornando-se ausente, o poder torna a realidade ausente e pendura o adversário num limbo irreal.

É uma leitura devastadora da sociedade portuguesa. E a ameaça de nova maioria absoluta é muito presumível, e deve-se, substancialmente, à inexistência de alternativa. A dr.ª Manuela Ferreira Leite não possui compleição para exercer as funções de um terço do eleitorado do PSD lhe conferiu. Quando, nestas mesmas colunas, escrevi, há meses, o que dizem, agora, muitos barões do PSD, caiu o Carmo e a Trindade!

Luís Filipe Menezes, tão vilipendiado, torna público o que a maioria dos militantes sociais-democratas e numerosos outros portugueses têm reconhecido: a senhora reduziu-se ao silêncio porque, na verdade, nada tem a dizer. E o lento afundamento do PSD, como partido de poder, começa a ser preocupante. Há dias, numa inesperada aparição, ela rasgou, levemente, a cortina do mutismo, e ofereceu-se para colaborar com o Governo na solução da crise. Ficou tudo siderado. Porque o Governo (mal ou bem) já havia tomado decisões práticas. E porque, na assunção do seu papel de líder da oposição, deveria, isso sim, apresentar a sua solução, a sua proposta, o projecto de solução do PSD.

Não é, apenas, a crise geral que favorece o cimento no qual se baseia José Sócrates. Com ligeiro atraso, enfrentou a crise. Mais: promoveu aumentos aqui e ali, tranquilizou o desassossego nacional, lançou umas lentilhas, desguarneceu as críticas. Ele sabe muito bem utilizar as técnicas de marquetingue, a máscara austera da convicção, o discurso com ecolalia, repetitivo e, pelos vistos, extremamente eficaz. Por enquanto está tudo sob controlo, afirma ele e os outros eles que o compõem. Perante o que se vê em redor, o pessoal acredita.

Entretanto a dr.ª Ferreira Leite, quando se não envolve no manto do silêncio, embrulha-se em desastrosas contradições. A última das quais é a escolha de Santana Lopes para candidato ao Município de Lisboa. Não haveria outro, no PSD? Por exemplo: o engraçadíssimo dr. Morais Sarmento, ledo e brejeiro no falar de coisas sem nada dizer, como ficou testemunhado numa hilariante entrevista à revista Pública, salvo seja! Ou o dr. Pacheco Pereira, grande educador da alta burguesia; ou o dr. Arnaut, admirável figura de intelectual pós-moderno. Qualquer destas invulgares personagens faria a diferença – e a perplexidade. Rezam surdas confissões que a dr.ª Manuela Ferreira Leite nomeou o dr. Santana porque "ele é muito visível" e dispõe de muito carisma. Quer-se dizer: é um populista, categoria política que a chefe do PSD execrava, ainda há escassas semanas.

Devo dizer aos meus Dilectos que tanto se me faz o dr. Costa como o dr. Santana. E as razões nas quais se baseia a minha decisão são as mesmas, aplicáveis, por igual, a um e a outro. A obediência como servidão, de que fala o prof. dr. José Gil, foi em mim substituída pela indiferença raivosa. Será uma forma de protesto moral, de posição recalcitrante contra formas de governação que estão a ser rudemente sovadas em todo o mundo.

Porque o que está a acontecer no mundo prova o erro tamanho de uma ideologia laminar, fruto da obediência servil dos partidos de Direita e de Esquerda pouco inclinados a contrariar a tese da ganância e do desenfreado lucro pelo lucro que marcou as leis do mercado. Fala-se, agora, da resgulação, porque o mercado é muito bom: os seus executantes é que se desviaram do são caminho. Lembra a defesa do estalinismo, feita por áulicos, que atribuía aos desvios a degradação do sistema. Se há múltiplas razões para se criticar as estruturas do comunismo, muitas mais há para se analisar os meios e os fins da globalização – não já como uma estratégia económica perigosíssima, como um desígnio político totalitário.

Será demasiado pedir aos protagonistas mais directamente em causa, o PS e o PSD, um esforço teórico, uma explanação didáctica e pedagógica da situação do mundo e das coisas?

O problema é que a falta de preparação dos nossos políticos, a abdicação dos nossos intelectuais, a displicência demencial dos nossos jornalistas e o torpor dos nossos comentadores – levam-nos não só ao desgosto da palavra como à aversão a tudo. Até ao civismo.


B.B.

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sexta-feira, 9 de maio de 2008

É ESTE O PAÍS QUE TEMOS?

Estava eu a ler o jornal quando dei com uma notícia estranha, tão estranha que a li uma segunda vez para ver se não me tinha enganado.
Mas não, de facto era tal e qual a li da primeira vez: o Tribunal de Contas multou os partidos políticos em mais de trezentos mil euros.
Como o que faz o Tribunal é julgar em face da lei e como quem faz a lei são os partidos, quer dizer que os partidos andam a fazer leis que não são capazes de cumprir.
Isto coloca então uma questão interessante: por que razão fazem os partidos leis que os fazem pagar as malditas multas?
Foi ao ponderar esta questão que me lembrei (e revi) no livro de Kucich sobre a sociedade britânica colonial do século XIX, quando o autor relacionava a política imperial com as classes sociais e a hierarquia social. Para este autor merece particular atenção a complexidade da hierarquia social e as tensões sociais que aí se desenvolvem e as implicações que daqui resultam para a formação da identidade social, com as múltiplas características e facetas que a definem.
Não pretende Kucich com isto dizer que as identidades social ou imperial devem ser explicadas por uma disciplina de psicologia colectiva, mas sim que há elementos com paralelo na psicologia que conhecemos que ajudam a compreender e descrever o discurso e a práxis social da Grã-Bretanha de finais do século XIX, tese que aliás sustenta no seu livro Imperial Masochism.

Preparava-me eu para aprofundar a matéria quando me dei conta de que já as minhas ilustres colegas argentinas Eva Cinada e Eva Porosa, da Universidad Datanga, já a tinham estudado longamente, trabalho que deram a conhecer no seu magistral livro Kiss Me or Kick Me: Social Institutions in Tomorrow’s World.
Dizem as Evas que também nas organizações sociais em qualquer país as tensões sociais internas e externas que se acumulam podem levar a desvios ou patologias sociais semelhantes aos que conhecemos da Psicologia para os indivíduos.

A aplicação dos trabalhos destas minhas colegas ao nosso caso concreto é muito simples: na sociedade portuguesa de hoje os partidos políticos sentem o descrédito e a desconfiança de que são alvo por parte do cidadão comum e, incapazes de reconquistar essa confiança, estão progressivamente a desenvolver uma patologia social que lhes permite racionalizar e compensar: o masoquismo social.
Com efeito, o masoquismo social e a vitimização que se lhe segue são um mecanismo que constitui factor de aproximação social na sociedade portuguesa de hoje – uma sociedade dos coitadinhos, entre os modelos de sociedade tipificados pelas Evas.
Os nossos partidos esperam, pois, ao serem castigados por terceiros (neste caso, o Tribunal de Contas), captar a simpatia dos cidadãos eleitores, que assim já não sentem necessidade de os castigar – pelo contrário, apelam até ao instinto de defesa dos fracos.

Por outro lado, o Tribunal de Contas, ao punir deliberadamente e com violência e publicidade a torto e a direito, enquadra-se no que as nossas Evas designam de uma organização social sádica.
Isto revela, pois, uma faceta da organização social, política e administrativa do Portugal de hoje: o seu sadomasoquismo social.
Uns gostam de ser repreendidos e castigados, outros estão muito felizes com o papel de agentes vingadores, castigando os prevaricadores.

Não pensem, meus queridos leitores, que isto de vivermos numa sociedade sádicomasoquista é mau e que nos devemos preocupar.
O que nos deve preocupar é outra coisa, que as Evas bem documentam com evidência histórica: é que qualquer organização social masoquista numa sociedade sadomasoquista, na ausência de qualquer facto externo que o contrarie, evolui inexoravelmente para uma organização social esquizofrénica e os nossos partidos políticos já começam a dar sinais disto.


F.B.

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sábado, 19 de abril de 2008

"SES"

De como não tenho óculos que permitam notar, na presente crise, a dimensão oculta da verdade


Vejo Menezes a ser entrevistado pelo Mário Crespo. Leio no Expresso que Cavaco prefere Rui Rio. Dizem que Manuela Ferreira Leite espera pelo autarca do Porto. Que José Miguel Júdice observou que Rio é mau por causa do túnel de Ceuta, preferindo Aguiar Branco, o tal que Jardim teme por ser da grande burguesia do Porto, donde, aliás, terá vindo Francisco Sá Carneiro. Prefiro acreditar no Menezes e no choque psicológico que representou a festa dos oitenta anos da sua mãe, interrompida pelo voyeurismo de certa comunicação social. Prefiro acreditar que o autarca de Gaia é um gajo porreiro, um homem comum, apaixonado, sempre entre o tudo e o seu nada, odiando a sociedade de corte, que ele qualifica como um bando dos mandantes do centralismo.
Infelizmente, reparo que muitos dos que se identificam com a atitude de Menezes, no repúdio dos métodos da politiqueirice, são, agora, tentados a dizer que ele demonstrou não ter jeito para a pulhítica, e que até já sabia onde se iria meter. Apenas acrescento que, nesta encruzilhada, são tantos os ses que a análise corre o risco de não ser capaz de ver o objecto à distância.
Porque ainda não sabemos qual a verdadeira causa da demissão de Luís Filipe. Se foi mesmo uma questão privada, ou íntima. Se foi mesmo porque sentiu direito ao nojo no p'ra mim chega. Se foi mera manobra de maquiavelismo à moda do Norte, para uma posterior vaga de fundo, ou de preparação da candidatura de Pedro, o tal que tão bem sabe encenar ou que em Menezes me parece genuíno.
E os ses prosseguem quanto à eventual alternativa. Se Menezes vai acabar por recandidatar-se. Se Manuela deixa mesmo de ser um D. Sebastião de saias. Se o Rui Rio vai mesmo à luta. Se o Marcelo salta para a garupa do cavalo de poder. Se Pacheco Pereira concretiza em militância o seu corajoso pensamento.
Apenas acrescento o que tenho repetido: PSD e PS são as duas faces da esquerda moderna do Bloco Central que a direita dos interesses vai manipulando, nas teias da sociedade de corte que marca o ritmo da nossa decadência, onde abundam dossiers sobre a vida privada dos principais protagonistas da política profissional que eventualmente podem ser reabertos pelos grandes patrões da comunicação social, onde falta um Berlusconi enxertado em populismo, com o apoio dos pós-fascistas, mas onde falta uma neta de Salazar ou um césar que case com uma Carla Bruni.
Reparo também que os melhores líderes predadores dos nossos PS e PSD emergiram sempre em tempo de vésperas. De Cavaco a rodar o carro a caminho da Figueira da Foz, ou de Sócrates a chegar depois de Ferro Rodrigues. De Barroso a espreitar depois de Nogueira, ou de Guterres a aproveitar o desastre de Sampaio. Quem sempre fica são os Zeca Mendonça, as bases e os jotas, porque os mandantes continuam a querer uma direita que convenha à esquerda, bem como uma esquerda que convenha à direita, para se confirmar o sistema de mandantes, isto é, do que parte e reparte e fica sempre com a melhor parte, quando o jogo precisava de um new deal.
Hoje é o tempo dos senhores Silvas que são do olhanense e querem jogar no boavista. Tal como a política corre o risco de ser marcada pelos discursos de Pinto da Costa e dos jogos imaginativos dos palradores que preparam a substituição do Luís Filipe Vieira, onde, afinal, se fica a saber que o acordo na avaliação dos professores resultou de uma conversa de Carvalho da Silva junto do ministro do trabalho, com o presidente a apadrinhar, à imagem e semelhança do que pode acontecer com o regulamento da Concordata, quando o reitor da Universidade Católica, nas jornadas parlamentares do CDS, reclama tratamento igual ao que o Estado dá à correia sindical do PCP.
Neste sentido, o epifenómeno Menezes é sintomático. A crise é o normal dos anormais da presente infuncionalidade dos nossos principais e pequenos partidos. A actual crise apenas revela, sem mantos diáfanos da ilusão, a verdade da decadência, onde um qualquer senhor Silva pode levar-nos a confundir D. Sebastião com uma mala cheia de dinheiro fresco.
Apenas concluo com aquela eterna observação de Hegel: é nos momentos de crepúsculo que costuma levantar voo a ave da sabedoria. Já foi nos piores momentos da polis ateniense que surgiram as reflexões de Sócrates, Platão e Aristóteles, tal como foi pouco antes de Alcácer-Quibir que Camões e Fernão Mendes Pinto puseram os lusíadas em peregrinação.
Aconselho a todos que mergulhem no pensamento ou que exercitem a criatividade que um empregado de uma agência de publicidade nos legou diante de um interregno psicologicamente semelhante ao dos tempos que passam. Voltem a ler os textos de Pessoa, desliguem a televisão, reparem que, na noite de quinta-feira, Lisboa sofreu a maior chuvada desde 1864, e vão até à barra do Tejo ver nesgas de sol que rompem o nevoeiro. A ave da sabedoria pode transformar-se em esperança, quando nascer um novo dia. Bom fim de semana!


JAM

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O MEU SOCIALISMO É MUITO DIFERENTE DO TEU...PÁ!


Aumento das pensões em 200 euros, horários reduzidos para as mães com filhos até aos 12 anos, licença de paternidade até às quatro semanas, benefícios fiscais e 300 novas escolas primárias...
Este é o novo lema Ter ou não ter... direitos. As famílias na sociedade do bem-estar.

Se conjecturou que estas medidas seriam implementadas em Portugal, desengane-se...
Foi José Luis Zapatero, primeiro-ministro de Espanha, quem anunciou este sábado que irá aumentar as reformas mínimas dos pensionistas com cônjuge a seu cargo dos actuais 650 euros para os 850 euros, caso o seu partido vença as eleições de 9 de Março, escreve a Lusa.
O primeiro-ministro espanhol prometeu ainda subir o valor das pensões mínimas de viuvez e das pensionistas singulares dos actuais 497 euros para 700 euros.

Em 1974, no tempo dos caramelos do PREC, a peseta espanhola valia menos de metade do escudo português.
Actualmente, o euro, é moeda comum.
Mesmo assim, isto é porreiro, pá!
A boa vida é só para alguns, situados bem à esquerda e refastelados em sinecuras e prebendas variadas.

Os salários médios de cá e lá, nem se comparam e as regalias sociais, vão pelo mesmo caminho.


José

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

OS 'GÉNIOS' E OS OUTROS

As afrontosas injustiças sociais conduzem as pessoas a um cada vez maior afastamento do acto cívico e ao desprezo repugnante pelos políticos.
As estatísticas são reveladoras.
Nunca será de mais referir as evidências.
Está em marcha uma espécie de mexicanização do regime, em que apenas o PS e o PSD estão dotados da autoridade do poder.
A tentativa de se amordaçar a voz dos pequenos partidos destrói a tese segundo a qual, em democracia, as singularidades devem ser afirmadas, reivindicadas e, inclusive, estimuladas.
Aos homens da minha geração e àqueles que se nos seguiram causa calafrios a doutrina de que os outros não dispõem de bons argumentos.

Temos, talvez, excesso de memória, como disse a investigadora Irene Pimentel: possuímos o lastro de uma História cuja linguagem se choca com esta realidade, que serve de ligação a versões turvas da liberdade, da equanimidade e da justiça.

As perversões bradam aos céus.
Vão-se conhecendo as reformas obscenas [expressão de Bagão Félix] atribuídas a gestores de instituições públicas;
os salários indecorosos;
os privilégios e os prémios;
as mordomias e as sinecuras.
A soma das iniquidades causa ressentimento num país com dois milhões de pobres, elevadas taxas de desemprego, velhos a morrer nos jardins, jovens perplexos com o futuro.

A revista Visão publicou [10 de Janeiro, p.p.] um documento impressionante, no qual são reveladas as diferenças das folhas de ordenado em 25 grandes empresas.
Os números são revoltantes. Henrique Granadeiro, administrador-mor da Portugal Telecom, aufere, mensalmente, 185 590 euros [cerca de 37 500 contos], ou seja: 128 vezes mais do que a empresa gasta com 128 trabalhadores, na base de que cada um destes recebe 1449 euros [cerca de 300 contos] mensais.
O rol de disparidades não se limita a este caso.
E um tal Rui Luz, perito em recursos humanos, sustenta a indecência com a frase: A escassez de talento justifica os salários de directores de primeira linha.
Na interpretação deste cavalheiro, estamos perante Einsteins, Oppenheimers, seres incomuns, com elevados graus de genialidade.
Não é assim.
Conheço alguns dos indicados, cujas meninges deixam apreensivos todos aqueles que não escrevem samarra com cê de cedilha e polícia com U.

Mas este é o discurso do poder e os seus ecos mais condenáveis.
Perdeu-se o sentido das proporções, e a ética foi torpedeada por uma democracia administrativa que protege e premeia quem a defende e vitupera e persegue quem a critica.
Não há grande variação das formas da palavra.
Entre os que decidem, os que se submetem e os que reivindicam existe o domínio de classe que tende a confundir a generalidade e o interesse geral.

Quem nos acode?

B.B.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

DIÁRIO DE UM CLANDESTINO

Domingo, 6 de Janeiro - Chega ao fim a primeira semana após a entrada em vigor da Lei da Discriminação, também conhecida por Lei 37/07, ou Lei Antitabaco. Dois milhões de portugueses viram as suas vidas mudadas de um dia para o outro, sendo remetidos para a rua nos locais de trabalho, nos cafés e nos restaurantes, nos centros comerciais e nas lojas. Faz-me lembrar, irresistivelmente, os primeiros decretos antijudeus da Alemanha nazi. Será que aguentaremos o gueto sem nos revoltarmos?

Foi dito que a ASAE já está inundada de queixas de donos de restaurantes e bares. De que se queixam eles - de clientes que insistem em fumar? Não, queixam-se de concorrentes que, em sua opinião, optaram por terem espaço para fumadores, mas em condições contrárias à lei - cuja especificação ninguém entende, mas todos temem. Eis o que era de prever: uma lei fascista teria como consequência inevitável o despertar do espírito de bufaria, em que os portugueses se tornaram mestres durante cinquenta anos. Nas repartições públicas há contínuos a vigiar atentamente se os trabalhadores fumam ou não, instalam-se detectores de fumo, o país inunda-se de dísticos vermelhos, e um clima geral de vigilância, de delação, de guerra civil larvar cobre esta onda de modernidade e civismo.

E, subitamente, emergem dois heróis públicos, os polícias encarregues de fazer cumprir a lei: um é o director-geral de Saúde, aquele engraçado cavalheiro que, há tempos, nos ameaçava com a inevitabilidade da pandemia da gripe das aves e dezenas de milhares de mortos no Verão de 2007 e agora nos ameaça com dezenas de milhares de processos em nome da saúde pública dos não fumadores. É pena que não se preocupe antes com as urgências e os SAP que fecham, com as condições miseráveis de hospitais como o São José, o São João ou o de Faro, com os doentes que esperam dois anos por uma consulta urgente ou uma operação inadiável. O outro herói é o já célebre presidente da famigerada ASAE, o tal que declara que, se não quisermos viver nesta sociedade, podemos sempre emigrar.

Eu não faço tenções de emigrar, muito menos a mando dos ayatholahs que estão a tomar conta do país e das nossas sociedades. Até ver, a minha saúde é assunto meu, e a liberdade é assunto de todos e demasiado sério para ser confiado a dois directores-gerais que ninguém elegeu e cuja autoridade para decidir como é que devemos viver não reconheço.

Segunda-feira, 7 de Janeiro - A esplanada do café do bairro está cheia de gente, velhos incluídos, que tomam o pequeno-almoço e o café da manhã ao frio. É sabido que os velhos têm mais frio e vivem mais tempo pelos cafés. Agora, resta-lhes as esplanadas ou a rua.

Os jornais e os sindicatos fazem um grande alarido, porque parece que os casinos obtiveram, em negociação, um regime de semiexcepção para o fumo, invocando que 80% dos seus clientes são fumadores. A virtude pública indigna-se. Extraordinária indignação: nos casinos joga-se - muitas vezes não apenas a fortuna, mas a carreira profissional, o destino de famílias e a própria vida. Os jogadores são incentivados a beber, a jogar e a distrair-se de tudo o resto. O Estado agradece e cobra impostos. Chega mesmo ao ponto de aprovar uma lei de excepção para que o sr. Stanley Ho possa ter um megacasino em Lisboa - o primeiro em cem anos a ser autorizado dentro de uma cidade. Mas só fumar é que ofende...

Terça-feira, 8 de Janeiro - Do Minho chega mais uma extraordinária notícia, nesta cruzada cívica em que a nação está lançada: um grupo de escolas resolveu ministrar compulsivamente um curso aos seus alunos para que eles convençam os pais a não fumar em casa. O objectivo final do curso é que os alunos sejam capazes de trazer, devidamente assinado pelos pais, um certificado fornecido pelas escolas, onde eles se comprometem solenemente a não fumar em suas casas. Leiam bem: as escolas ensinam os filhos a darem ordens aos pais em casa. Para já, é a de não fumar. Que outras se seguirão?

Enfim, uma notícia reconfortante, para desanuviar. A quem se dispuser a fazer uma generosa contribuição para as obras de um convento de carmelitas, algures no interior, as freiras comprometem-se a dedicar-lhe em exclusivo as suas orações e preces, por tempo indeterminado. A facilidade com que os católicos resolvem alguns problemas complicados de consciência e de culpa nunca cessa de me espantar. Será que vão voltar a vender indulgências plenárias?

Quarta-feira, 9 de Janeiro - Em nome do PSD, Zita Seabra comunicou solenemente ao país que "a liberdade e a democracia estão em perigo". Às vezes também acho que sim, mas as razões dela são outras: O PS quer tomar o poder financeiro. No mesmo dia, o PSD, na pessoa de Faria de Oliveira, tomou posse da Caixa Geral de Depósitos - que reivindicou e obteve.

Dois quarteirões abaixo, Santos Ferreira, pelo PS, e Miguel Cadilhe, pelo PSD, foram fazer campanha eleitoral perante o descorçoado conselho superior do moribundo BCP. A eleição dos corpos gerentes dos Alunos de Apolo tem mais grandeza do que isto.

Quinta-feira, 10 de Janeiro - Diz o Tribunal de Contas que, em 2006, o Governo Regional da Madeira gastou 17 milhões de euros em estudos, consultadoria, pareceres e procuradoria. 28 mil euros, por ajuste directo, foram para o advogado da classe operária e eterno candidato a tudo o que mexa, Garcia Pereira. E 150 mil euros para o deputado e então líder da bancada parlamentar do PSD, Guilherme Silva. Não sei que mais admirar: se a liberdade funcional de que goza este deputado, se a indignação dos que se sentem ofendidos por o novo bastonário dos advogados, Marinho Pinto (que hoje tomou posse), ter dito que advogado e deputado não são coisas compatíveis.

Alcochete - Eis a escolha final do Governo. Satisfez a CIP, não satisfez nem os contribuintes nem o interesse nacional. Todos os que estão de boa-fé perceberam de há muito que a única opção de interesse público era a Portela+1 - a mais rápida, a mais eficaz, a mais barata. Mas há que satisfazer a clientela das obras públicas, porque é esse o paradigma de desenvolvimento em que vivemos. Visto à luz desta fatalidade, Alcochete é o mal menor.

Li há dias no Sol que o arq. Saraiva atribui a ele e ao seu jornal a glória de terem travado, sozinhos, o desfecho Ota. Não impede que também me sinta contente: em Julho de 2006, ainda o Sol não tinha nascido, eu publiquei aqui um artigo intitulado Foi você que pediu um aeroporto?, onde procurei explicar o embuste da Ota. Muitos outros fizeram o mesmo, contrariando interesses superiores e arrostando, por vezes, com as respectivas consequências. Às vezes vale a pena lutar, mesmo que depois não haja uma freira a rezar por nós.


Miguel Sousa Tavares

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domingo, 28 de outubro de 2007

DA MENTIRA COMO VIRTUDE POLÍTICA

Há os que sabem tudo e hoje dirão: "Os políticos sempre mentiram." Pode por isso parecer ingénuo ficar surpreendido com o modo como a mentira se instalou na vida política. Mas a verdade é que o hábito vem ganhando contornos inéditos. Quase todos a usam. Quase todos a perdoam. A mentira é corrente. Ganhou novas feições. É por vezes obrigatória. Recomendável, de qualquer maneira. Até sinal de esperteza. Nas relações humanas e familiares, a mentira é castigada. Nos empregos, condenada. Na justiça, apesar de o perjúrio ser olhado com complacência, é mal vista. Mas na política... Na política... É apreciada. Se um político mente para dar emprego aos seguidores, derrotar os adversários ou enganar parceiros, o seu gesto tem todas as probabilidades de ser festejado.

A mentira, a fria mentira transformou-se em instrumento de governo. Há muito que os políticos mentem, aqui e ali. Mas sempre com alguma má consciência. Ou desculpa. Ou sentimento de culpa. Agora as coisas mudaram: mentir é possível, simples e necessário. Sem remorsos nem correcção. Se a intenção é boa, qualquer meio serve e a mentira é necessária. Com a guerra do Iraque, ficou consagrado o direito dos governantes à mentira.

Há quem pense que a mentira é reservada às ditaduras. Sem imprensa livre, escrutínio parlamentar ou oposição legal, qualquer ditador mente quanto e quando lhe apetece. Isso é verdade. Com a democracia, tudo seria diferente. A liberdade de expressão e a imprensa seriam suficientes para conter a mentira. O Parlamento, os partidos e as associações de interesses obrigariam os governos a dizer a verdade. As eleições seriam um correctivo para os políticos mentirosos: exigentes, os eleitores castigá-los-iam. Infelizmente, nada disto é verdade. A democracia vive hoje da mentira. Sob todas as suas formas: ocultação, contradição, correcção, circunstância superveniente ou melhor ponderação. A política tem regras parecidas com as que vigoram no futebol, nalguns negócios e na guerra: o único critério importante é ganhar. Só são condenados os que mentem e perdem. Os que mentem e ganham são respeitados.

Não aumentar os impostos é uma mentira clássica. Criar emprego é outra. Tal como aumentar as pensões e os abonos de família. Durão Barroso e José Sócrates, por exemplo, oferecem-nos ilustrações inesquecíveis deste género de mentiras. Apesar de totalmente irresponsáveis, as promessas de criação de empregos teriam uma desculpa: as dificuldades económicas tê-los-ão impedido de concretizar tão gloriosas promessas. É demagogia, mas chama-se-lhe mentira piedosa. Com os impostos, a experiência é mais radical. Os candidatos a primeiro-ministro garantiram, um que baixava os impostos, outro que os não aumentava. Ambos decretaram sólidos aumentos dias ou semanas depois de tomarem posse. As desculpas não se fizeram esperar: não sabiam que a situação financeira do país era tão grave quanto a encontraram! É extraordinário como, para desculpar uma mentira, os primeiros-ministros não se importaram de se confessar ignorantes, incompetentes e irresponsáveis!

Durão Barroso prometeu, antes das eleições, "um choque fiscal" e garantiu que diminuiria os impostos, sobretudo os que incidem sobre as empresas. Não fez nada disso, antes pelo contrário. Mentiu. Mas as suas mentiras passam por ser outra coisa - correcções motivadas pelo conhecimento dos números e dos factos. José Sócrates garantiu, antes das eleições, que diminuiria o número de funcionários públicos em dezenas de milhares, que criaria 150.000 empregos e que não aumentaria os impostos. Não fez nada disso, antes pelo contrário. Mentiu. Mas as suas mentiras passaram por inocentes necessidades.

O PSD e o PS têm, a propósito dos referendos em geral e do referendo europeu em particular, uma longa folha de serviço de mentiras e negações. Já foram a favor e contra várias vezes. O critério é o das conveniências, não o do programa ou da convicção. Se o referendo incomoda o adversário, são a favor. Se correm riscos, são contra. Se a matéria causa mal-estar dentro do partido, são a favor. Se têm de submeter os seus projectos à vontade popular, são contra. Actualmente, está nos programas do PS e do PSD, consta das promessas eleitorais de um e de outro, faz parte do programa do Governo de José Sócrates. Nada disso tem qualquer importância. O PSD é agora contra. E os dirigentes do PS, incluindo alguns ministros, já são contra. Quanto ao primeiro-ministro, só se pode pronunciar em Janeiro, o que é uma desculpa infantil. A verdade é que esta é a mais frequente das variedades da mentira, mas que parece também ter o perdão da opinião pública e a desatenção da imprensa. Não fazer o prometido, deixar de o fazer ou fazer outra coisa é uma forma de sublinhar a mentira original. Mas também passa, na política, por benigno constrangimento.

Será esta mais uma triste sina portuguesa? Nem sequer. A mentira tem-se transformado, nestas décadas, na moeda comum das democracias ocidentais. A guerra do Iraque é, a este propósito, um caso para estudo. As mentiras de George Bush e Tony Blair, dos seus governos e serviços de informação, ultrapassaram tudo o que se conhecia. Sobretudo pelas consequências mortais para tanta gente. Ao lado, as mentiras de George Bush pai, sobre os impostos, de Nixon, sobre tudo, ou de Clinton, sobre o sexo, foram quase inocentes.

Quanto à União Europeia, nem precisa de mentir: os seus ministros usam e abusam do novo hábito. O ministro Manuel Pinho confirmou que a mentira tem vigorado com rigor na União Europeia. Diz ele, em artigo do Diário de Notícias (de que é co-signatário com dois comissários da UE): "A partir de agora, o que a Europa faz e o que a Europa diz são uma e a mesma coisa"! Ficámos a saber, por vozes autorizadas, que a União mentia. Só não sabemos é se esta declaração não passa de mais uma mentira.

Será possível contrariar esta nefasta tendência para a mentira? É difícil. Não há esperança nos deputados. Como estes se tratam sempre, uns aos outros, de mentirosos, já ninguém acredita. Se os nossos media escritos, falados ou televisivos, estivessem à altura, talvez a sucessão de mentiras não fosse tão rica. Mas também parece que, com frequência crescente, gostam do novo hábito. Que usam com volúpia. Ou perdoam com malícia.


António Barreto

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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

MÁRIO SOARES

Depois de ter andado meses a fio a prodigalizar apoio a Sócrates e aos seus régulos, Mário Soares vem agora dizer que é preciso "um pouco menos de arrogância". E que não, que não existe bufaria, coisa dos tempos do "Estado Novo" e que ele, como bom anti-fascista técnico-profissional que sempre foi, pode assegurar que, de facto, não existe.
Quando muito, uns "excessos".
De resto, são as mesmas inocuidades dos últimos tempos de regressão político-intelectual que constituem o acervo do texto.
Bush, já se sabe, é o demónio encarnado e Chávez gere "uma democracia".
Tenho saudades de outro Soares.
Mas, pensando bem, tenho saudades de muita coisa.
Como se diz em alemão - fica melhor - "alles ist vorbei".
Soares também.

J.G.

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O PSD

Quando os Governos se cansam está na hora de as oposições vencerem as eleições.
Em Portugal é isso que se passa desde a época da Monarquia Constitucional, com excepção dos períodos ditatoriais. Será o excesso de jogging que derrotará Sócrates.
Não a inércia de Marques Mendes ou a correria insana de Luís Filipe Menezes.


Sócrates pica-se quando os seus ministros se dedicam à nobre actividade de se deitarem numa cama de espinhos e, assim, pouparem o suor à oposição.
A guerrilha a que se assiste no PSD é como a que se tem observado no BCP.

Aparentemente é sobre a conquista de poder.
Na realidade tem a ver com os poderes e interesses que se movem na sombra.
O verdadeiro poder prefere o poder e o silêncio.
Quem fala muito serve, normalmente, para ter direito de antena e mostrar que tem músculos.
No PSD a fronteira é clara.

De um lado estão as elites que sempre o dominaram e que têm em Mendes um gestor capaz de, um dia, cair para dar o lugar a quem quiser ocupar a cadeira de Sócrates.

Do outro está Menezes, que fez o curso de populismo através de um concurso da farinha Amparo.
Se ganhasse, ficaria com as ruínas de um partido que emigraria para parte incerta.
Entre Menezes e Mendes o PSD com um palmo de juízo sabe o que lhe convém mais. Ou seja, Menezes está muito bem em Gaia a gerir o seu quintal.
A elite do PSD sabe que Sócrates só cairá quando estiver tão frágil que bastará um sopro para se espalhar no chão.
Não precisa de um Menezes para afugentar a classe média, que decide quem ganha e perde as eleições.


F.S.

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

CRISE DE REPRESENTAÇÃO [ parte II ]

1.

Em quem é que eu voto? É a pergunta que mais me fazem. É a pergunta que mais me faço.

2.

Já tive mais certezas do que as que tenho hoje. Há quem pense que é muito simples: critica Santana Lopes, não pode votar no PSD. (De passagem, a mesma crítica não é feita aos "renovadores" que dizem ir votar no PCP, ou aos socialistas que disseram cobras e lagartos de Sócrates e vão votar PS, ou aos bloquistas que vão votar PS. A economia da coerência como arma de critica ad hominem é sempre para os outros...) Mas eu estou em oposição a Santana Lopes e não ao PSD, cujo papel na democracia portuguesa continuo a considerar vital. Seria mau para Portugal que Santana Lopes voltasse a ser Primeiro-ministro, mas seria péssimo que o PSD perdesse o seu papel único no sistema político português. Continuo a pensar que, após a ultrapassagem deste epifenómeno, que não será fácil nem pacífica, o PSD pode reencontrar o seu papel de único partido por onde passam (e passaram) todas as reformas que Portugal precisa. O futuro do PSD diz-me respeito como seu militante e não conto alhear-me dele e por isso uma fina linha de navalha de decisão me pesa. Não se pode ficar de bem com todos. Acontece.

3.

Se Sócrates chegar ao poder - como um infeliz cartaz da JSD e múltiplas declarações de Santana Lopes e Miguel Relvas todos os dias nos dizem que vai acontecer - será o retorno ao adiamento medíocre e dourado. Todos sabem o que penso do guterrismo, não vale a pena repeti-lo. Mas convém ficar claro que se Sócrates chegar ao poder, o primeiro responsável é Santana Lopes. Não é único, Durão Barroso e os unanimistas do PSD que batem palmas a tudo para reservar o seu pequeno lugar, também têm responsabilidades. Mas nunca ninguém enterrou o PSD numa crise de credibilidade tão grande como Santana Lopes, nunca ninguém dividiu o partido tão esterilmente como Santana Lopes. Houve quem dissesse há muito tempo que ia ser assim, desde o tempo da Cadeira do Poder.

4.

Há também responsabilidade nos poucos que podiam pelo menos ter tentado fazer-lhe frente, há cinco meses e agora. A tese que, para derrubar Santana Lopes, é preciso que ele perca as eleições, pode ser boa para os candidatos à sua sucessão, mas é péssima para o partido e má para o país. Fique no entanto a saber-se que muito foi tentado, felizmente sem vir para as páginas dos jornais, para que tal acontecesse. Houve muita gente que não ficou sentada e que tentou. Falhou, mas também não é verdade que muitos militantes, entre os quais me incluo, não tenham tentado persuadir, convencer, sem sucesso.

5.

A favor dos que não avançaram antes, mas o vão fazer a 20 de Fevereiro, há que ter consciência das dificuldades, dos tempos demasiado curtos, dos momentos desfavoráveis, da aceleração com que tudo ocorreu, e da degradação de muitas estruturas do partido que, desde que não lhes mexam nos lugares dos seus dirigentes, aceitam tudo e perdem o sentido do interesse nacional. Neste ciclo de pressa, Durão Barroso tem muitas responsabilidades, porque podia ter sugerido uma sucessão pelo governo, dando tempo ao partido para encontrar uma solução sem ser sob pressão e encomenda.

6.

Dito isto, fique bem claro que o PS não é alternativo aos males do PSD. Isto está de tal modo rasteiro que convém também dizê-lo explicitamente. Lembro a alguns meninos sem memória que quando eles andavam em hotéis a fazer acordos com o engenheiro, ou quando no PSD muitos se acomodavam à inevitabilidade do estado de graça permanente de Guterres e actuavam como se estivessem em bloco central para os empregos, eu fui sempre um duro crítico do guterrismo muitas vezes solitário. Quem criticou a divisão entre PS e PSD dos lugares nos conselhos de administração de algumas importantes empresas, quem criticou a venda da Lusomundo à PT, quem criticou as re-nacionalizações por via das golden shares, quem criticou a passagem dos orçamentos do PS? Não foram alguns dos patriotas da camisola dos dias de hoje.

7.

Discordo por isso em absoluto da posição de Freitas do Amaral no plano político. Insisto: no plano político, porque quanto ao plano moral, os discípulos do dr. Portas são os últimos que têm autoridade para o criticar, dado que a sua casa é o melhor exemplo do oportunismo em estado puro, com a agravante de ser exibido com arrogância e hipocrisia. Freitas do Amaral tomou uma posição de consciência, pouco fácil para quem foi o que foi e é o que é. Merece respeito por isso e discordância política.

8.

Voltaremos aqui.
José Pacheco Pereira

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