Estava eu a ler o jornal quando dei com uma notícia estranha, tão estranha que a li uma segunda vez para ver se não me tinha enganado.
Mas não, de facto era tal e qual a li da primeira vez: o Tribunal de Contas multou os partidos políticos em mais de trezentos mil euros.
Como o que faz o Tribunal é julgar em face da lei e como quem faz a lei são os partidos, quer dizer que os partidos andam a fazer leis que não são capazes de cumprir.
Isto coloca então uma questão interessante: por que razão fazem os partidos leis que os fazem pagar as malditas multas?
Foi ao ponderar esta questão que me lembrei (e revi) no livro de Kucich sobre a sociedade britânica colonial do século XIX, quando o autor relacionava a política imperial com as classes sociais e a hierarquia social. Para este autor merece particular atenção a complexidade da hierarquia social e as tensões sociais que aí se desenvolvem e as implicações que daqui resultam para a formação da identidade social, com as múltiplas características e facetas que a definem.
Não pretende Kucich com isto dizer que as identidades social ou imperial devem ser explicadas por uma disciplina de psicologia colectiva, mas sim que há elementos com paralelo na psicologia que conhecemos que ajudam a compreender e descrever o discurso e a práxis social da Grã-Bretanha de finais do século XIX, tese que aliás sustenta no seu livro Imperial Masochism.
Preparava-me eu para aprofundar a matéria quando me dei conta de que já as minhas ilustres colegas argentinas Eva Cinada e Eva Porosa, da Universidad Datanga, já a tinham estudado longamente, trabalho que deram a conhecer no seu magistral livro Kiss Me or Kick Me: Social Institutions in Tomorrow’s World.
Dizem as Evas que também nas organizações sociais em qualquer país as tensões sociais internas e externas que se acumulam podem levar a desvios ou patologias sociais semelhantes aos que conhecemos da Psicologia para os indivíduos.
A aplicação dos trabalhos destas minhas colegas ao nosso caso concreto é muito simples: na sociedade portuguesa de hoje os partidos políticos sentem o descrédito e a desconfiança de que são alvo por parte do cidadão comum e, incapazes de reconquistar essa confiança, estão progressivamente a desenvolver uma patologia social que lhes permite racionalizar e compensar: o masoquismo social.
Com efeito, o masoquismo social e a vitimização que se lhe segue são um mecanismo que constitui factor de aproximação social na sociedade portuguesa de hoje – uma sociedade dos coitadinhos, entre os modelos de sociedade tipificados pelas Evas.
Os nossos partidos esperam, pois, ao serem castigados por terceiros (neste caso, o Tribunal de Contas), captar a simpatia dos cidadãos eleitores, que assim já não sentem necessidade de os castigar – pelo contrário, apelam até ao instinto de defesa dos fracos.
Por outro lado, o Tribunal de Contas, ao punir deliberadamente e com violência e publicidade a torto e a direito, enquadra-se no que as nossas Evas designam de uma organização social sádica.
Isto revela, pois, uma faceta da organização social, política e administrativa do Portugal de hoje: o seu sadomasoquismo social.
Uns gostam de ser repreendidos e castigados, outros estão muito felizes com o papel de agentes vingadores, castigando os prevaricadores.
Não pensem, meus queridos leitores, que isto de vivermos numa sociedade sádicomasoquista é mau e que nos devemos preocupar.
O que nos deve preocupar é outra coisa, que as Evas bem documentam com evidência histórica: é que qualquer organização social masoquista numa sociedade sadomasoquista, na ausência de qualquer facto externo que o contrarie, evolui inexoravelmente para uma organização social esquizofrénica e os nossos partidos políticos já começam a dar sinais disto.
F.B.
Etiquetas: BE, CDS/PP, Partidos, Portugal, Portugal o Grande Circo, PPD/PSD, PS