PONTE DO SOR
PONTE DO SOR, UM ESPAÇO DE LIBERDADE BANHADO PELO RIO SOR
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
domingo, 23 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
É AMANHÃ



Comunicado N.º5 – Resposta às medidas de austeridade do Governo:
14 de Outubro de 2011
Amanhã, a massa humana ocupará as ruas contra o retrocesso da democracia e dos seus direitos
De medidas de austeridade a medidas de brutalidade
Expansão do horário de trabalho em meia hora por dia, ajustamento do calendário dos feriados, aumento do IVA, cortes na Saúde e na Educação e corte dos subsídios de natal e de férias, nos próximos dois anos, a quem aufira mais de mil euros mensais. Foram estas as medidas de brutalidade anunciadas ao país, ontem, às 20h05, pelo chefe do governo, medidas que designou de «esforço adicional».
Perante estas declarações, a plataforma organizadora da manifestação internacional do 15 de Outubro declara que a convocatória dos portugueses para o sacrifício claro dos seus direitos representa um retrocesso de mais de 100 anos na história na vida das pessoas, como é o caso claro da conquista de oito horas de trabalho diárias, a 1 de Maio de 1890, depois de uma manifestação internacional com contornos similares à convocada agora; com a agravante do sacrifício dos subsídios de férias e de natal, conquistados há décadas, como sinal de que os seres humanos não são simples máquinas de trabalho.
Esta plataforma faz saber que os sinais claros de retrocesso civilizacional, democrático e dos direitos laborais vêem reiterar a necessidade de protesto por melhores condições de vida e de indignação «face ao actual modelo de governação política, económica e social» como refere o nosso manifesto. As declarações de Passos Coelho são a garantia de que este é «um modelo que não nos serve, que nos oprime e não nos representa».
No entanto, e à semelhança do que temos vindo a frisar, a plataforma organizadora da manifestação do 15 de Outubro, rejeita qualquer tipo de violência e demarca-se que qualquer tentativa de manipulação relativamente à responsabilidade por qualquer perturbação da ordem pública, decorrente do pedido de mais e mais sacrifícios aos portugueses.
Este colectivo sublinha ainda que repudia as repressões policiais sobre cidadãos pacíficos que se têm manifestado em todo o mundo por uma democracia representativa, justa e solidária.
Página Facebook do 15 de Outubro: https://www.facebook.com/
Site informativo: www.15deoutubro.net
E-mail: 15outubro2011@gmail.com
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terça-feira, 11 de outubro de 2011
domingo, 9 de outubro de 2011
terça-feira, 23 de agosto de 2011
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
OS MELHORES DE NÓS...
Os ecos da estreia do filme já se esmaeceram, mas o facto teve foros de acontecimento invulgar. Manuel Maria Múrias, jornalista do "Diário da Manhã", órgão oficial do regime, cobriu a película de insultos, num estilo caceteiro peculiar do autor.
Mas os nomes de intelectuais de Esquerda, que apoiaram a obra de Guimarães suplantaram as injúrias. Está por fazer, embora os documentos estejam publicados em revistas e jornais da época, a história da Resistência cultural ao fascismo, em especial no sector do cinema e dos cineclubes.
As relações entre o escasso e paupérrimo cinema português e a literatura eram o que podiam ser, embora existissem com participações muito valiosas.
Guimarães [1915-1975] era um artista plástico do Porto, que se estabelecera em Lisboa, e logo se juntara, nas tertúlias da convivência política e artística, aos grupos antifascistas.
Os cafés regurgitavam destes então jovens, e os locais de encontro eram conhecidos: Paladium, Café Chiado, Chave d'Ouro, as duas Brasileiras (a do Chiado e a do Rossio), e o Gelo, entre outros, numerosos e variados. Mário Dionísio, num estimulante prefácio ao livro "Poemas Completos", de Manuel da Fonseca, fornece um panorama geral da época, das tertúlias e das pessoas que as frequentavam.
Praticamente tudo o que é importante na cultura portuguesa passou pelos cafés referidos.
"Saltimbancos" integra-se no movimento geral de protesto e de resistência ao salazarismo.
É impressionante a extensão desse movimento, que se alia à estética e aos propósitos do neorealismo.
Se, hoje, alguém folheasse, com minúcia e seriedade, as revistas culturais, as páginas literárias e a acção do associativismo, certamente não deixaria de se surpreender com a energia e a força que se lhe depararia. Muitos dos nomes desapareceram, na voragem do esquecimento.
Quem lê Leão Penedo, Rogério de Freitas, Alexandre Cabral, Manuel do Nascimento, Egito Gonçalves, João Apolinário, Luís Veiga Leitão, Garibaldino de Andrade, Antunes da Silva - ou, mesmo, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Alves Redol, Cardoso Pires, José Gomes Ferreira, Augusto Abelaira, Alexandre Pinheiro Torres, tantos, tantos mais? E, no entanto, eram cimeiros na aventura cultural daqueles tempos.
O cinema despertava grandes atenções, não só pela popularidade que o cercava como pelo poder de infiltração que possuía.
Redol, Namora, Manuel da Fonseca foram atraídos pela sedução. "Saltimbancos", por exemplo, baseia-se num denso romance de Leão Penedo, "Circo", que obteve grande êxito de estima e de tiragem.
É talvez difícil imaginarmos, agora, a nomeada dessas pessoas, e da importância que tiveram, na divulgação dos problemas portugueses e das extremas dificuldades com que vivia o povo. Os livros dispunham de uma defesa, simultaneamente o seu pretexto: com mais de cento e vinte páginas eram dispensados de censura prévia. Mesmo assim, autores como Alves Redol e, posteriormente, Manuel da Fonseca (este, a partir de "Seara de Vento"), não publicavam sem o "nihil obstat" dos coronéis.
Os jornais, esses, eram, vistoriados linha a linha pelos militares encarregados de manter a ordem dos costumes e os costumes na ordem.
Foi assim, durante quase meio século. E as tendências para o esquecimento, manifestadas das formas e das maneiras mais diversas, não passam de infâmias.
A História é facilmente manipulável, mas a verdade dos factos acaba por ser conhecida. O Manuel Guimarães de "Saltimbancos" viveu com dificuldades extremas. Tido como comunista, trabalhava em artes gráficas e pintura, para suprir as necessidades. Pai de Dórdio Guimarães, que o ajudou em filmagens, nunca se lastimou, jamais se queixou das afrontas.
Eu era muito jovem, mas já participava nessas tertúlias memoráveis, pois concentravam o que de melhor havia na sociedade cultural portuguesa. E as relações entre jornalistas, escritores, músicos, cineastas, actores, arquitectos, pintores correspondiam a uma urgência e a uma necessidade epocais. Muitos desses homens e mulheres pagaram muito caro a decência de quererem ser livres e de não pactuarem com o fascismo.
Muitos, mas nem todos. E há histórias excruciantes de abandonos e de traições que também mereciam ser conhecidas. Não como julgamento e castigo, sim como conhecimento de uma época, cuja violência obrigava os portugueses a envolvimentos extraordinários. Mas valeu a pena.
Os melhores de nós são guardados em recordações e em memórias calorosas.
Os que os caluniam e difamam, servindo-se das sombras repugnantes do anonimato, não passam de vulgares canalhas.
B.B.
Etiquetas: Garibaldino de Andrade, Ponte de Sor, Portugal
sexta-feira, 15 de julho de 2011
TANTOS TACHOS, NUMA COZINHA TÃO PEQUENA!
A Maria partiu tudo…partiu a loiça toda!
Os cozinheiros vieram para a rua, com os tachos e as panelas. Juntaram-se às centenas, mas não conseguiram nada!
Pelo contrário!
As receitas foram mudadas, ficaram mais horas a “cozinhar”, a mexer os caldos, a rapar os tachos, amuados na despensa…
Depois, tinham que se espiar uns aos outros, sobretudo quando faziam “grelhados”.
Sim, porque as “grelhas” aumentaram.
Surgiu uma nova dieta, com menos calorias, não fossem os cozinheiros engordar!
Além disso, a Maria passava a vida a chamar-lhes “malandros”!
Tinham que estar a tempo inteiro na cozinha!
Se não era para cozinhar, então inventassem receitas, menus, com criatividade, porque o objectivo era pôr tudo em pratos limpos!
Da cozinha tinha que sair de tudo, mesmo que a qualidade não fosse grande coisa.
Tinha que se dar uma nova oportunidade aos nabos, tinha que se certificar a sua qualidade!
Claro que a despesa aumentou!
A Maria não parava, encomendava pareceres, pedia consultorias e até deu novas tecnologias a todos.
Aos cozinheiros e aos clientes, vejam só!
Até mandou renovar os estabelecimentos!
Tinha que ser perfeito, porque a sua reputação internacional estava em causa!
Apesar de tudo, as coisas não estavam bem. E, antes que o caldo entornasse, o “chef” substituiu a governanta pela Isabelinha.
A Isabelinha chegou de avental branco, de luvas, com um sorriso enorme estampado no rosto.
Ela sabia que era uma aventura difícil, talvez a maior aventura de toda a sua vida! E ria-se, ria-se muito!…
Os cozinheiros protestavam, mas ela ria-se muito. E, com paninhos quentes, lá foi puxando a brasa à sua sardinha, insistindo nos grelhados, com ligeiras variações, à sua moda…
Mas as sopas começaram a azedar.
Os clientes andavam zangados, as facturas aumentavam e o dinheiro escasseava.
O caldo entornou-se mesmo!
E mudou-se a governanta!
Desta vez seria um homem!
O homem chegou e, espantado certamente, pôs-se a olhar para os tachos! Tantos tachos, numa cozinha tão pequena!
Tanta gente a comer da mesma panela!
Tantas máquinas, tantos aparelhos!
Tanto desperdício, tanto lixo! E tantos pobres, à porta, com fome!
O homem pôs-se a fazer contas, que nisso é ele bom, e ainda não falou…

A equação é difícil de resolver!
Conceição Couceiro
sexta-feira, 10 de junho de 2011
É POSSÍVEL?
Tudo é novo. Sempre! Uma crise internacional inédita, um mundo globalizado, uma moeda comum a várias nações, um assustador défice da produção nacional, um insuportável grau de endividamento e a mais elevada taxa de desemprego da história. São factos novos que, em simultâneo, tornam tudo mais difícil, mas também podem contribuir para novas soluções. Não é certo que o novo enquadramento internacional ajude a resolver as nossas insuficiências. Mas é possível.
Novo é também o facto de alguns políticos não terem dado o exemplo do sacrifício que impõem aos cidadãos. A indisponibilidade para falarem uns com os outros, para dialogar, para encontrar denominadores comuns e chegar a compromissos contrasta com a facilidade e o oportunismo com que pedem aos cidadãos esforços excepcionais e renúncias a que muitos se recusam. A crispação política é tal que se fica com a impressão de que há partidos intrusos, ideias subversivas e opiniões condenáveis. O nosso Estado democrático, tão pesado, mas ao mesmo tempo tão frágil, refém de interesses particulares, nomeadamente partidários, parece conviver mal com a liberdade. Ora, é bom recordar que, em geral, as democracias, não são derrotadas, destroem-se a si próprias!
Há momentos, na história de um país, em que se exige uma especial relação política e afectiva entre o povo e os seus dirigentes. Em que é indispensável uma particular sintonia entre os cidadãos e os seus governantes. Em que é fundamental que haja um entendimento de princípio entre trabalhadores e patrões. Sem esta comunidade de cooperação e sem esta consciência do interesse comum nada é possível, nem sequer a liberdade.
Vivemos um desses momentos. Tudo deve ser feito para que estas condições de sobrevivência, porque é disso que se trata, estejam ao nosso alcance. Sem encenação medíocre e vazia, os políticos têm de falar uns com os outros, como alguns já não o fazem há muito. Os políticos devem respeitar os empresários e os trabalhadores, o que muitos parecem ter esquecido há algum tempo. Os políticos devem exprimir-se com verdade, princípio moral fundador da liberdade, o que infelizmente tem sido pouco habitual. Os políticos devem dar provas de honestidade e de cordialidade, condições para uma sociedade decente.
Vivemos os resultados de uma grave crise internacional. Sem dúvida. O nosso povo sofre o que outros povos, quase todos, sofrem. Com a agravante de uma crise política e institucional europeia que fere mais os países mais frágeis, como o nosso. Sentimos também, indiscutivelmente, os efeitos de longos anos de vida despreocupada e ilusória. Pagamos a factura que a miragem da abundância nos legou. Amargamos as sequelas de erros antigos que tornaram a economia portuguesa pouco competitiva e escassamente inovadora. Mas também sofremos as consequências da imprevidência das autoridades. Eis por que o apuramento de responsabilidades é indispensável, a fim de evitar novos erros.
Ao longo dos últimos meses, vivemos acontecimentos extraordinários que deixaram na população marcas de ansiedade. Uma sucessão de factos e decisões criou uma vaga de perplexidade. Há poucos dias, o povo falou. Fez a sua parte. Aos políticos cabe agora fazer a sua. Compete-lhes interpretar, não aproveitar. Exige-se-lhes que interpretem não só a expressão eleitoral do nosso povo, mas também e sobretudo os seus sentimentos e as suas aspirações. Pede-se-lhes que sejam capazes, como não o foram até agora, de dialogar e discutir entre si e de informar a população com verdade. Compete-lhes estabelecer objectivos, firmar um pacto com a sociedade, estimular o reconhecimento dos cidadãos nos seus dirigentes e orientar as energias necessárias à recuperação económica e à saúde financeira. Espera-se deles que saibam traduzir em razões públicas e conhecidas os objectivos das suas políticas. Deseja-se que percebam que vivemos um desses raros momentos históricos de aflição e de ansiedade colectiva em que é preciso estabelecer uma relação especial entre cidadãos e governantes. Os Portugueses, idosos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, merecem ser tratados como cidadãos livres. Não apenas como contribuintes inesgotáveis ou eleitores resignados.
É muito difícil, ao mesmo tempo, sanear as contas públicas, investir na economia e salvaguardar o Estado de protecção social. É quase impossível. Mas é possível. É muito difícil, em momentos de penúria, acudir à prioridade nacional, a reorganização da Justiça, e fazer com que os Juízes julguem prontamente, com independência, mas em obediência ao povo soberano e no respeito pelos cidadãos. É difícil. Mas é possível.
O esforço que é hoje pedido aos Portugueses é talvez ímpar na nossa história, pelo menos no último século. Por isso são necessários meios excepcionais que permitam que os cidadãos, em liberdade, saibam para quê e para quem trabalham. Sem respeito pelos empresários e pelos trabalhadores, não há saída nem solução. E sem participação dos cidadãos, nomeadamente das gerações mais novas, o esforço da comunidade nacional será inútil.
É muito difícil atrair os jovens à participação cívica e à vida política. É quase impossível. Mas é possível. Se os mais velhos perceberem que de nada serve intoxicar a juventude com as cartilhas habituais, nem acreditar que a escola a mudará, nem ainda pensar que uma imaginária "reforma de mentalidades" se encarregará disso. Se os dirigentes nacionais perceberem que são eles que estão errados, não as jovens gerações, às quais faltam oportunidades e horizontes. Se entenderem que o seu sistema político é obsoleto, que o seu sistema eleitoral é absurdo e que os seus métodos de representação estão caducos.
Como disse um grande jurista, “cada geração tem o direito de rever a Constituição”. As jovens gerações têm esse direito. Não é verdade que tudo dependa da Constituição. Nem que a sua revisão seja solução para a maior parte das nossas dificuldades. Mas a adequação, à sociedade presente, desta Constituição anacrónica, barroca e excessivamente programática afigura-se indispensável. Se tantos a invocam, se tantos a ela se referem, se tantos dela se queixam, é porque realmente está desajustada e corre o risco de ser factor de afastamento e de divisão. Ou então é letra morta, triste consolação. Uma nova Constituição, ou uma Constituição renovada, implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, de lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política. Uma nova Constituição implica um reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania, actualmente de muito confusa configuração. Uma Constituição renovada permitirá pôr termo à permanente ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis. Uma Constituição renovada será ainda, finalmente, o ponto de partida para uma profunda reforma da Justiça portuguesa, que é actualmente uma das fontes de perigos maiores para a democracia. A liberdade necessita de Justiça, tanto quanto de eleições.
Pobre país moreno e emigrante, poderás sair desta crise se souberes exigir dos teus dirigentes que falem verdade ao povo, não escondam os factos e a realidade, cumpram a sua palavra e não se percam em demagogia!
País europeu e antiquíssimo, serás capaz de te organizar para o futuro se trabalhares e fizeres sacrifícios, mas só se exigires que os teus dirigentes políticos, sociais e económicos façam o mesmo, trabalhem para o bem comum, falem uns com os outros, se entendam sobre o essencial e não tenham sempre à cabeça das prioridades os seus grupos e os seus adeptos.
País perene e errante, que viveste na Europa e fora dela, mas que à Europa regressaste, tens de te preparar para viver com metas difíceis de alcançar, apesar de assinadas pelo Estado e por três partidos, mas tens de evitar que a isso te obrigue um governo de fora.
País do sol e do Sul, tens de aprender a trabalhar melhor e a pensar mais nos teus filhos.
País desigual e contraditório, tens diante de ti a mais difícil das tarefas, a de conciliar a eficiência com a equidade, sem o que perderás a tua humanidade. Tarefa difícil. Mas possível.
António Barreto
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
A GRANDEZA DO JOSÉ

José Saramago foi um grande português, com duas pátrias amadas: Portugal e Pilar del Rio.
Não há metáfora nesta afirmação.
Pilar era a pátria redesenhada do seu próprio coração; e Portugal o desejo permanente, nunca apaziguado, da linguagem entendida como emoção e conquista.
Um português desta estirpe e desta grandeza jamais seria entendido pelo português minúsculo, sem dimensão e sem mérito - como é o dr. Cavaco. Saramago possuía a medida da pátria.
O dr. Cavaco não dispõe da altura exigida pelas suas funções.
Saramago amava o seu povo porque nos conhecia.
O dr. Cavaco despreza-nos por ignorância.
Ao ausentar-se das cerimónias nacionais ao falecimento do escritor (do grande escritor), dispensou-se de se associar ao respeito colectivo, e expôs-se como uma criatura ressentida, medrosa, escondida, cabisbaixa. Este senhor é o mesmo que recusou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia e premiou ex-agentes da PIDE, "por bons serviços prestados à pátria."
É aquele que inventou a existência de escutas em Belém, num dos episódios mais grotescos e farsolas da II República.
É o indivíduo que presidiu ao Ministério responsável pelo impedimento de José Saramago em se candidatar a um prémio literário europeu. Refiro-me, claro!, ao facto de ter silenciado sobre a decisão do subsecretário Sousa Lara, e do secretário Santana Lopes, ambos estes "governantes" da Cultura, em impedirem que o romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" fosse, sequer, admitido a concurso.
A nota oficial da Presidência da República, em que se pretende explicar a ausência do Chefe de Estado no velório de José Saramago, é um documento lamentável.
Corresponde, aliás, à ambiguidade e evasivas com que promulgou a lei do casamento de homossexuais.
O dr. Cavaco não enfrenta: evita.
As "explicações" que tartamudeou nos Açores são de molde a revoltar-nos pelo que comportam de divisão social, e pelo que exprimem de incompreensão relativamente ao significado cultural de Saramago, além da hipocrisia e do cinismo de frases como esta: "Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente o escritor, embora tenha lido os seus livros." Estamos mesmo a ver o dr. Cavaco, nos tempos livres, sentado num sofá e debruçado nas páginas de qualquer romance do autor.
Estamos mesmo a vê-lo.
É este cavalheiro de pouca estatura intelectual, minguada extensão de estadista, certamente o pior Presidente da República em democracia - é este homem sombrio e tíbio, vingativo e rancoroso que a Direita deseja manter em Belém.
Não há comparação possível, mesmo reclamando-nos de tolerância cristã e piedade sem peias, entre José Saramago e o dr. Cavaco. O primeiro orgulha-nos e enobrece-nos.
Levou o nome da pátria às sete partidas do mundo; pôs-nos a reflectir e exigiu que não nos submetêssemos, que fôssemos homens livres, que rejeitássemos e combatêssemos a servidão.
Nada devemos ao dr. Cavaco, a não ser decepções, arrogância, soberba, trapalhadas culturais.
Nada, neste homem hirto, pouco à vontade, irritadiço, colérico quando contrariado, o recomenda ao nosso respeito, consideração e estima.
E poucos gostam dele, inclusive os da sua área ideológica, se é que ele sabe, em rigor, o que isso significa.
O dr. Cavaco é um embaraço para os seus correligionários, e um pesadelo para os que admitem a democracia como uma instância de sabedoria, de compreensão, de complacência e de liberdade livre.
José Saramago esteve sempre onde devia estar.
O dr. Cavaco está a mais onde está.
APOSTILA 1. - Há uns anos largos, num programa de Margarida Marante, na SIC, foi apresentado um encontro aparentemente imponderável: D. Manuel Clemente, então reitor do Seminário dos Olivais, e José Saramago, já então muito conhecido e muito polémico. Foi um diálogo inesquecível. D. Manuel Clemente conhecia a obra do escritor, e este demonstrou uma atenção muito grande por tudo quanto o seu interlocutor dizia, sobretudo pelas interrogações sobre Deus e a religião que lhe formulava. Dois homens cultos, que se respeitavam e que expunham aos telespectadores uma forte dignidade nas suas opções essenciais e uma impecável decência nas suas interpelações e propostas. Ainda esperei que alguém, nos jornais e nas televisões, se lembrasse do acontecimento, e solicitasse a D. Manuel Clemente um depoimento, um artigo, um comentário sobre Saramago. Porém, a memória das Redacções parece estar irremediavelmente perdida. Na ausência desta grande figura da Igreja, perdemos todos, certamente, uma bela demonstração de pedagogia e de cultura. Paciência.
APOSTILA 2. - A hierarquia da Igreja Católica Portuguesa distanciou-se do Vaticano e do seu órgão, "L'Osservatore Romano", que, num artigo inconcebível, cobriu José Saramago de injúrias. Uma vergonha à qual os bispos portugueses recusaram associar-se, mantendo uma elevação moral que merece aplauso. Como aplauso merecem os padres Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça pelas declarações que prestaram publicamente.
B.B.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
POLÍTICA E SERIEDADE
Não é, pois, de admirar que indivíduos condenados, indiciados ou envolvidos em casos de corrupção, favorecimento pessoal ou abuso de poder continuem a ganhar categoricamente as eleições. Ou seja, a falta de honestidade dos políticos (de que os portugueses tanto se queixam) é fruto, afinal, de uma escolha consciente desses mesmos portugueses que consideram, no fundo, a falta de honestidade uma qualidade essencial para um político poder exercer condignamente o cargo para o qual foi eleito. Daí a expressão tantas vezes ouvida, relativamente a pessoas que a opinião pública tem por sérias e honestas: o senhor é demasiado sério para ser político.
Tudo isto tem uma razão de ser. Num país, onde toda a gente sobrevive à conta de cunhas, subsídios e favores, todos têm a consciência do perigo que seria serem governados por alguém que fosse sério. Lá se ia o emprego da filha, o subsídio para o pessoal e a adjudicação da obra. Todos sabem da aldrabice em que vivemos. Mas poucos conseguem imaginar-se a viver sem ser assim.
Para já não falar do estafado argumento da obra feita com que se quer justificar o voto num político menos escrupuloso. Como se, com tantos milhões de euros de fundos comunitários, alguém pudesse não ter feito nada. Mas até, neste campo, a questão deveria ser outra. Ou seja, se a obra se justifica, se está adequada aos seus destinatários e potenciais utilizadores e se é proporcional ao dinheiro que custou.
Mas qual é o eleitor que se preocupa se o dinheiro que se gastou no estádio, na rotunda ou na piscina dava para fazer três estádios, três rotundas e três piscinas? Ou com o mamarracho que lhe espetaram na rotunda à porta de casa?
Para o povo, o que interessa é que o estádio, a rotunda e a piscina estão feitos. Quanto ao seu preço, ninguém se preocupa com isso. E se o político e a sua rede de amigos se abarbataram com algumas centenas de milhar de euros, pouco importa… O que interessa é que a obra está feita.
Acontece que tudo isto é pago com dinheiro dos portugueses. O dinheiro que esta gente mete ao bolso é dinheiro nosso. O dinheiro gasto na obra inútil, desnecessária e no mamarracho é dinheiro nosso. O dinheiro desbaratado em subsídios, almoços, viagens e electrodomésticos distribuídos ao domicílio é dinheiro nosso.
É isto que os portugueses não conseguem entender. Porque ganham pouco ou estão desempregados ou beneficiam de algumas migalhas deste esbanjamento de dinheiros públicos, os portugueses são absolutamente indiferentes à forma como os políticos derretem o nosso dinheiro.
Dizia Pacheco Pereira, outro dia, ao meu lado, numa acção de campanha: um português que nasça neste momento já deve 15 mil euros. E eu olhava para a plateia e apercebia-me do que ia na cabeça daquela gente: Eu já estou a dever tanto e a tanta gente que mais ou menos 15 mil euros pouca diferença faz ou que me interessa a dívida do Estado se não sou eu que a vou pagar? Eu até só ganho o salário mínimo…
Os portugueses não percebem (ou não querem perceber) que a sua miséria resulta precisamente da forma como quem nos governa desbarata os recursos que são de todos nós. Se os portugueses valorizassem mais a seriedade na actividade política, hoje haveria menos obras faraónicas ou inúteis, menos cunhas e menos subsídios, mas viveríamos todos muito melhor e a diferença entre pobres e ricos não seria seguramente tão grande.
Santana Maia - Leonardo
REXISTIR
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domingo, 12 de julho de 2009
EDUCAÇÃO EM PORTUGAL

J.G.
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terça-feira, 7 de julho de 2009
CANTO DO "HOOLIGAN"

O dia de hoje é um manifesto da capacidade do Real Madrid em vender a sua imagem ao mundo, mas é também a prova de acefalia das televisões que vêem nesse negócio uma forma de lucrarem à custa da alarve disponibilidade das multidões para perderem minutos, horas, das suas vidas a seguir de perto qualquer banalidade quotidiana da vida de um ídolo.
Já ninguém pensa em remunerar com fama os cientistas, ou os músicos, até num país, como o nosso, que tem entre as suas poucas glórias o facto de eleger um poeta como símbolo do seu dia nacional. A vida não se faz apenas de altos desígnios, da grandeza da ciência ou da genialidade das artes. A vida faz-se também com paixões prosaicas como as que os grandes dribles ou remates de Ronaldo proporcionam. Mas uma coisa é exaltá-lo no seu palco, no relvado onde exprime o seu talento. Outra é pegar nesse talento para o transformar numa espécie de Deus vivo cujos gestos mais ínfimos têm de merecer a nossa atenção.
O que hoje se viu na multiplicação de directos de Ronaldo é o aproveitamento de um génio para chegar a uma criação artificial que rende audiências e, por causalidade, dinheiro. Muito dinheiro. Nada disto seria censurável se o peso do exagero não convertesse o desfile num episódio que suscita asco e lamento.
Ronaldo não tem culpa, nem o Real Madrid, ou, com alguma complacência, as televisões. Quem tem, afinal, culpa é a cultura dominante que cada vez mais relativiza o essencial e se deleita com a imbecilidade. Oitenta mil em Madrid para ver Ronaldo no Santiago Bernabéu e mais uns milhões a seguir pela TV o seu percurso até à sacralização? Pobre Espanha, pobres de nós.
M.C.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
segunda-feira, 9 de março de 2009
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
MONOPOLY PORTUGUÊS
Em Portugal há vários Monopólios disponíveis, cada qual capaz de entreter os indígenas, mas que têm em comum um facto: reforçam a presença da crise.
O que se vai descobrindo no BPN é, por si só, um jogo sem regras, exercido até à exaustão dos seus responsáveis, perante a apatia de toda a classe de supervisores.
Daí subentende-se que, em Portugal, tudo é normal e desculpável.
Mesmo depois de ser público.
Já nada espanta num país que é um praticante exímio do porreirismo e do facilitismo. E onde a classe política continua a pensar que pode continuar a escorregar em sucessivas cascas de banana porque nada a pode levar a escorregar nas suas trapalhadas.
O exemplar caso do abate de sobreiros no Vale da Rosa, em Setúbal, fruto de uma decisão governamental tomada a um mês das eleições autárquicas de 2001 e horas antes de uma decisão do Tribunal Administrativo e as agora divulgadas relações entre o Vitória de Setúbal e o BPN, mostra como há um vírus instalado na sociedade portuguesa.
Há um Monopoly diferente em Portugal: quem tem conhecimentos ganha sempre o jogo.
Isto é o contrário da sociedade democrática, liberal e defensora da concorrência leal que se pretendia.
Há em Portugal um clube privado do Monopoly.
Que vence sempre. E que permite pouca concorrência.
Eça de Queiroz dizia que Portugal era um laranjal.
Mas hoje parece mais uma teia.
F.S.
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sábado, 20 de dezembro de 2008
ELES JÁ NEM CRÉDITO CONSEGUEM...
Sucede que, apesar do admirável Sócrates e da não menos extraordinária banca portuguesa, Portugal não possui crédito (literalmente) externo.
Mesmo com o aval do Estado, a Caixa Geral de Depósitos - que até é uma coisa séria ao pé de outros tugúrios da especialidade - não conseguiu o empréstimo que solicitou e, mesmo assim, pagou uma batelada em spread que agora vai forçosamente reflectir nas famosas famílias e nas empresas que tanto preocupam o magnífico Sócrates.
Entretanto o Estado (com a indispensável ajuda dos mansos dos contribuintes) já meteu 1,5 mil milhões de euros na CGD, para, designadamente, financiar abortos como o BPN.
Traduzido em pechisbeque, isto quer dizer que lá fora não confiam em nós e não nos passam cartão. E quem não confia, não empresta dinheiro ou empresta-o mais caro.
Em compensação, nós por cá parecemos mais interessados em discutir o comportamento da irrelevante Assembleia da República e dos inúteis que a compõem do que em pensar no abismo que se aproxima.
Uma raça tão ignóbil merece tudo o que de mau lhe acontecer.
Só espero ter tempo para me poder sentar tranquilamente à beira do rio a ver passar o cadáver do regime rumo ao mar.
J.G.
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