terça-feira, 3 de maio de 2011

OBRIGADO A TODOS...

Estamos a poucas horas de saber o quanto vamos ficar mais pobres, com a bênção e ajuda da comunidade internacional.
Mais pobres, no imediato e absolutamente miseráveis num futuro bem próximo.

É um aumento brutal na dívida a juros que um país a crescer 1%, jamais poderá pagar.
Nem sequer os juros, quanto mais o capital.


Se no plano que se espera não estiverem inscritas medidas para relançar a economia e isto passa essencialmente pela produção de bens exportáveis, resta-nos deitar a corda ao pescoço ou, emigrar para bem longe.

Batemos bem no fundo e deveremos ficar eternamente gratos à cambada de inúteis, oportunistas, vigaristas e incompetentes que transformaram este país, eternamente atrasado e rural, num oásis para as construtoras civis, banca, e um punhado de amigos encostados ao regime a quem foram vendidas a preço de saldo empresas estratégicas como a Galp, Edp ou a Portugal Telecom, património rentável, em nome da livre concorrência e do benefício que a privatização traria aos consumidores.
Viu-se.

Gratos igualmente a nós próprios, eleitores imbecis e idiotizados que legitimámos todas as trafulhices, que aceitamos a corrupção, o desleixo, o tráfico de influências sem que nos doa a coluna vertebral ou os tomates, porque não os temos. a nosso lado, nomes como Cavaco, Guterres, Ferro, Soares, Constâncio, Loureiro, Sócrates, e tantos outros, ficarão indubitavelmente guardados na caixa dos figurões que um dia integrarão o anedotário nacional.

Foram décadas de lapidação do património publico e privado. décadas durante as quais, impunemente, qualquer aldrabão roubou o que pôde, sem que nada lhe sucedesse.
Os escândalos fizeram as manchetes que a espuma dos dias rapidamente lavou.
Desde a vigarice do Bcp que emprestou dinheiro aos seus clientes para que estes comprassem acções daquele banco a 5€, valor nominal forjado por trafulhices, e que hoje valem 50 cêntimos, passando por golpes como o Freeport ou o aterro da Beira, às parcerias público privadas, às golpadas dos estádios de futebol, das auto-estradas paralelas, foi um período de oportunidades na nossa história.

As formiguinhas incansáveis das autarquias, dia e noite a cavar o buraco com empreitadas de betão, a desbravar rotundas, pavilhões polidesportivos, piscinas, tudo obras de grande impacto na formação moral e escolar das novas gerações já que as anteriores, estão solidamente embrutecidas e infantilizadas.

Portanto, muito obrigado também aos senhores autarcas que ajudaram à falência, por tão bem terem sabido dar os dinheiros públicos às colectividades locais, pródigas a manterem os mais novos eternamente crianças, pelas inúmeras festas que patrocinaram, pelos passeios e almoços dos idosos ali ao lado, pelos bonés, chapéus de chuva, cachecóis, esferográficas e sacos de plástico que lhes ofereceram em troca do voto, pelos parques de merendas, pela manutenção dos impostos nos mais altos escalões, bem hajam.

Amanhã, os credores apresentam-nos a factura.

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sábado, 22 de maio de 2010

ATÉ QUANDO?

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quarta-feira, 5 de maio de 2010

DE BURACO EM BURACO ...

Um dos mitos da política portuguesa chama-se obra feita.
A acreditar na lenda, ninguém ficará na história se não deixar o seu nome ligado a um fontanário, a um pavilhão ou a uma via rápida.
É a obra que pode ser tocada pelos comuns mortais que faz um político.
Antigamente as estátuas louvavam esta concepção da história.
Hoje são as obras de regime.
É esse o drama de José Sócrates: ainda não teve tempo para colocar a primeira pedra na sua obra de regime.
O seu sonho, acredita-se, é terminar a sua comissão de serviço no leme do sítio e ser recordado. Através da ponte José Sócrates, do aeroporto José Sócrates, ou da carruagem José Sócrates do TGV para Madrid.
Em vez de olhar para a crise e perceber que esta é uma época destinada ao bom senso, Sócrates dorme a sonhar com a obra que deixará.
É impossível que não escute a voz sensata de um grupo de ex-ministros das Finanças deste país, de diferentes sensibilidades políticas, angustiados com o autismo esclarecido de Sócrates.
Cavaco Silva vai ouvir as suas preocupações feitas de razões sólidas.
Sócrates, como sempre, coloca algodão nos ouvidos, finge que não é nada com ele e continua em frente, rumo ao abismo.
Todo o seu mundo vive hoje de equívocos: a Grécia não está salva e Portugal não está a salvo.
O próprio euro poderá não sobreviver à enxurrada.
Grouxo Marx dizia: A política é a arte de procurar sarilhos, descobri-los em todo o lado, diagnosticá-los incorrectamente e aplicar os remédios errados.
É este o marxismo de obras desfeitas que Sócrates quer aplicar ao País.

F.S.

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sexta-feira, 6 de março de 2009

SE NÃO FOSSE A CRISE...


Vá-se lá saber porquê, os lucros recorde da EDP e a diferença de 105 milhões que a GALP arrecadou com a lentidão com que foi descendo os preços dos combustíveis, não estão a merecer uma linha por parte dos mesmos que sempre negaram o impacto da especulação no preço dos combustíveis e defenderam que o défice tarifário era para compensar a EDP por vender a energia abaixo do custo de produção.
Compreende-se.
Ninguém gosta de ser roubado.



P.S.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O NOSSO AVÔ CANTIGAS

Teixeira dos Santos é o nosso Avô Cantigas. Com ele podemos confiar que, quando tudo parece mau, há sempre uma frase bondosa para ser dita e para nos acalmar.

A Teixeira dos Santos pode contar-se um segredo, por exemplo que o crescimento da economia portuguesa em 2008 foi zero, e ainda assim dele só se vê um sorriso nos lábios, porque ele já viu demasiadas vezes essa história para se surpreender.

Há alguns meses, todas as estimativas eram luminosas e a crise parecia-se com o anticiclone dos Açores: o bom tempo continuaria em Portugal, enquanto a Europa seria varrida por chuva e os EUA por tempestades tropicais.

Teixeira dos Santos contou essa história como se estivesse a recitar A Cabana do Pai Tomás.
Todos dormimos mais descansados, mesmo quando os números foram derrapando.
Só Teixeira dos Santos nos seria capaz de contar a história de embalar da economia portuguesa.

No fundo, às crianças, nunca se contam histórias de horror.


É essa a missão do ministro das Finanças: contar-nos histórias bonitas, em que o fim é sempre feliz.
É reconfortante termos um Avô Cantigas como ministro das Finanças, que canta: eu sou o Avô cantigas, todas as crianças são minhas amigas.
Pode-se substituir crianças por contribuintes, mas isso não muda a face familiar do ministro.

Ele ainda acredita que todas as crianças são suas amigas. E que todas as estatísticas são suas cantigas.
Por isso não surpreende que não tenha ficado surpreendido com os números do INE.
Se ficasse, não era o nosso orgulhoso Avô Cantigas.


F.S.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

MONOPOLY PORTUGUÊS

Durante a Grande Depressão os norte-americanos descobriram uma forma barata de se entreterem em casa: o Monopoly era um jogo que divertia e fazia esquecer a crise.
Em Portugal há vários Monopólios disponíveis, cada qual capaz de entreter os indígenas, mas que têm em comum um facto: reforçam a presença da crise.

O que se vai descobrindo no BPN é, por si só, um jogo sem regras, exercido até à exaustão dos seus responsáveis, perante a apatia de toda a classe de supervisores.
Daí subentende-se que, em Portugal, tudo é normal e desculpável.
Mesmo depois de ser público.
Já nada espanta num país que é um praticante exímio do porreirismo e do facilitismo. E onde a classe política continua a pensar que pode continuar a escorregar em sucessivas cascas de banana porque nada a pode levar a escorregar nas suas trapalhadas.

O exemplar caso do abate de sobreiros no Vale da Rosa, em Setúbal, fruto de uma decisão governamental tomada a um mês das eleições autárquicas de 2001 e horas antes de uma decisão do Tribunal Administrativo e as agora divulgadas relações entre o Vitória de Setúbal e o BPN, mostra como há um vírus instalado na sociedade portuguesa.

Há um Monopoly diferente em Portugal: quem tem conhecimentos ganha sempre o jogo.
Isto é o contrário da sociedade democrática, liberal e defensora da concorrência leal que se pretendia.
Há em Portugal um clube privado do Monopoly.
Que vence sempre. E que permite pouca concorrência.
Eça de Queiroz dizia que Portugal era um laranjal.
Mas hoje parece mais uma teia.


F.S.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

É SÓ "SUCESSO"?

Segundo a estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística, a economia portuguesa contraiu-se dois por cento no quarto trimestre do ano face ao trimestre anterior, o dobro das anteriores piores previsões. Em 2008 verificou-se uma variação nula do Produto Interno Bruto, explicado pelo INE com os contributos negativos do investimento e da procura externa líquida

Havia para aí muita gente a dizer aos sete ventos que, graças às políticas do actual Governo, a crise estava a ser mais meiga com Portugal do que com o resto da Europa.
Verifica-se que realidade é algo bastante distinto de desejo.
Na mesma onda, muita gente repete para aí o bordão de que há que apostar no sector exportador e manter a aposta dos últimos governos de uma competitividade baseada numa matriz de salários baixos e precariedade laboral.
Para quê, se o exterior não está comprador e se essa opção deteriora ainda mais o já débil mercado interno?
Para tornar a economia portuguesa ainda mais vulnerável e dependente da conjuntura internacional?
A crise internacional explica apenas parte da nossa crise interna.
O restante encontra explicações nas políticas seguidas internamente.
Pelo PS, pelo PSD, pelo CDS-PP.
Há que dinamizar o nosso sector exportador, sim, mas nunca sacrificando o mercado interno.
Ou então a consequência pode ser o descalabro que está à vista de todos.


F.T.

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domingo, 2 de novembro de 2008

SÓCRATES, AMIGO...




L.

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sábado, 1 de novembro de 2008

O FIM DE UM MUNDO FALSO

Durante quarenta anos ele acreditou na infalibilidade do sistema e na verdade intrínseca do mercado. E, de repente, o mundo que ele ajudara a construir e a impor como coisa inevitável e inquestionável desabou-lhe aos pés. O depoimento de Alan Greenspan, o mago da Federal Reserve, perante o Senado dos Estados Unidos foi um impressionante mea culpa, porque foi sincero e porque se percebeu que o velho guru do liberalismo estava verdadeiramente estarrecido com as consequências do seu erro decisivo.

Qual foi o erro de Greenspan, qual foi o erro do credo liberal? Foi, de certa forma, o erro inverso da teoria marxista. Marx, que foi um genial analista dos vícios do capitalismo, propôs o socialismo como alternativa, mas uma alternativa filosófica e moral, decorrente da crença de que a propriedade era um roubo. Mas as pessoas não se alimentam de teorias filosóficas nem convicções morais, e sim de coisas mais imediatas como a produtividade e a criação de riqueza. O socialismo, como doutrina económica, nasceu condenado ao fracasso, porque desdenhou o factor humano: a propriedade não é um roubo, é uma legítima ambição de qualquer homem, desde os especuladores de Wall Street até aos miseráveis dos guetos de Bombaim. Mudar a vida para melhor, ser mais rico, graças ao seu esforço, ao seu trabalho, à sua capacidade de inovação e de risco, faz parte da natureza humana e das suas ambições desde que o homem é homem. A livre iniciativa é o factor primeiro de produção de riqueza e de progresso económico. Num mercado aberto e concorrencial, cada um sabe que poderá, pelo seu esforço e pelo se mérito, melhorar a sua condição. Num mercado fechado, numa economia estatizada em que todos são funcionários públicos, não adianta fazer mais nem melhor, porque o Estado é dono de tudo e ninguém tem nada de seu.

Sobre as ruínas da crença socialista, que produziu milhões de deserdados e de miseráveis, os liberais acharam que tinha soado a hora de uma vingança histórica. O Estado mínimo, que Greenspan caucionou e Bush levou ao extremo do dogmatismo, descendo os impostos sobre os mais ricos, cortando nos programas de ajuda social e facilitando em tudo os negócios do grande capital, assentava numa outra pretensa verdade, de que Greenspan se fez eco: a de que o mercado saberia auto-regular-se, pois que era do seu próprio interesse, do das grandes empresas e do sistema financeiro, não criar as condições para a auto-implosão. Mais uma vez, o que ficou esquecido neste wishfull thinking foi o factor humano. Se a ambição de ser mais rico é o que faz aumentar a riqueza das nações, a ambição da riqueza desmedida, sem horizonte nem controlo dos meios usados, é o que conduz ao seu colapso.

O que falhou, então, não foi apenas a crença na desregulamentação do mercado, na concentração cada vez maior das empresas, nos lucros pornográficos distribuídos entre accionistas e gestores. O que falhou, antes de mais, foi a noção de ética nos negócios, a lembrança de que a criação de riqueza tem uma finalidade social, não podendo aproveitar apenas ao seu detentor, e que a riqueza fundada na miséria alheia (ou no endividamento de todos perante a banca) conduz, mais cedo ou mais tarde, à falência geral.

A loucura liberal montou um sistema económico à escala planetária fundado na iniquidade e na falta de escrúpulos e de sentido de serviço à comunidade. Pior ainda, permitiu que o sistema financeiro se apoderasse da economia, que os lucros fantásticos acumulados não correspondessem a riqueza efectivamente criada e que a economia real e produtiva fosse canibalizada pela especulação. Os mercados accionistas subiam e desciam, não em resultado do desempenho das empresas cotadas, mas das mais-valias realizados pelos especuladores - que depois corriam a canalizar os seus lucros para os off-shores, onde ficavam à espera, sem pagar impostos, de nova oportunidade de raide sobre o mercado. As pequenas poupanças foram assim devoradas pela especulação instalada, levando muitos a investir antes no consumo ou a endividarem-se no imobiliário, por não encontrarem melhor destino para o dinheiro.

Esta bebedeira colectiva vinha de trás e de longe, com sinais inequívocos de um fatal estoiro algures, e o que é incompreensível é que homens como Greenspan tenham assistido a tudo, confortados na sua crença de que o capitalismo em caso algum se devoraria a si próprio, ao contrário do que Marx escreveu há mais de um século. Entregue a si mesmo, aos seus instintos mais primários, o homem é um animal perigoso, quer ande pela rua a deambular de revólver na mão quer esteja sentado a uma secretária a gerir o destino de milhares de famílias. E o pior serial killer é aquele a quem foi confiado o poder de destruir, por simples ambição, os empregos e as pensões de reforma de tantos outros que trabalharam toda uma vida, confiados na honestidade do sistema. Não estamos apenas perante o falhanço de uma teoria económica, é mais do que isso: estamos perante um verdadeiro crime contra a Humanidade. Milhões de pessoas em todo o mundo estão já a sofrer as consequências da falta de pudor e de escrúpulos de alguns milhares de agentes económicos colocados em lugares privilegiados.

A esta luz, a tentativa - recentemente importada para aqui - de tentar explicar que o que falhou não foi a falta de regulação do mercado, mas sim o seu excesso, é quase uma nova forma de negacionismo. Dizer, como já vi escrito, que o que conduziu ao descalabro foi a legislação deixada por Clinton, que pretensamente obrigaria a banca a financiar negros e pobres sem capacidade de endividamento, sob pena de ser acusada de discriminação, roça as raias do insulto. Teriam sido os pobres, então, quem esteve na origem da crise, fazendo arruinar os ricos, os quais, coitados, só quiseram ajudá-los... O sr. Greenspan, afinal, não tem razões para se angustiar e viver os seus últimos anos atormentado pelos remorsos da sua extraordinária incúria!

Terça-feira que vem, o mundo pode começar a reencontrar o caminho da esperança, com a eleição de Obama como Presidente dos Estados Unidos. Não, ele não tem uma varinha mágica nem vai conseguir, por melhor que tente, tirar a América e o mundo deste atoleiro tão cedo. Mas representa outra gente, outra atitude, outra esperança. Seguramente que acredita numa economia menos iníqua, menos desonesta e menos entregue à lei da selva. E acredita na necessidade de uma América menos arrogante e menos egoísta. Cravará os pregos que forem necessários no caixão do liberalismo e, se tiver a lucidez suficiente para tal, trará a América de volta ao lugar da esperança que já foi seu e que perdeu com estes oito anos de pesadelo que foram os de George W. Bush.


Miguel Sousa Tavares

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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

QUE PODEREMOS FAZER POR NÓS PRÓPRIOS

A situação no País, e do País, é cada vez mais complicada, e os paliativos que o Governo vai aplicando surgem, aos olhos e ao entendimento dos cidadãos, como remendos mal alinhavados. Devemos dinheiro e não sabemos como cumprir a palavra. Ninguém confia em ninguém e a angústia apossou-se, endemicamente, da população.


Somos os mais pobres, os mais desguarnecidos, os mais injustiçados dos povos europeus. Entraram, em Portugal, oceanos de dinheiro comunitário, sobretudo na década cavaquista, e o País progrediu porque não havia remédio: até a inércia dispõe de forças desconhecidas. Cavaco não foi responsabilizado de coisíssima nenhuma, e até chegou a Presidente da República.

Esta democracia é o que é: um facto lamentável. Os grupos parlamentares, supostamente representantes de todos nós, cada cor seu paladar, obedecem às estratégias das direcções dos partidos, e a consciência da ética republicana, que devia gerir os actos e imperar sobre as conveniências, está quase totalmente aniquilada. Na terça-feira última, José Vítor Malheiros escreveu, no Público, um notável artigo, Disciplina de voto, arma de destruição maciça da democracia, no qual põe em causa a natureza peculiar dessa obediência. É um texto que deveria ser leitura obrigatória dos deputados. Diz: Todos sabemos que os partidos são indispensáveis à democracia e ninguém – dentro do quadro da democracia – põe isso em causa. Mas os partidos são indispensáveis à democracia porque permitem a corporização das livres opiniões, das diversas correntes de opinião. Os partidos são organizações políticas que reúnem pessoas que professam a mesma doutrina e que visam conquistar e exercer o poder, mas numa democracia a sua existência justifica-se por permitirem reforçar a acção pública dessas pessoas que partilham uma doutrina, não por constituírem um meio de reprimir a acção individual de cada uma dessas pessoas ou de reduzir a variedade de opiniões em confronto na cidade.

José Vítor Malheiros reduz a subnitrato as instâncias que transformam as contingências do momento numa indispensável necessidade política. Escreve: Os deputados que elegemos estão dentro de partidos, que nos oferecem um quadro político e ideológico de referência. Mas gostaríamos de pensar que são todos mulheres e homens livres e de consciência. Não são. E a degenerescência moral do Parlamento acompanha decadência da sua eficácia. Para que serve um Parlamento assim?

Esta mesma pergunta, com ligeiras variantes, formulou-a, no começo dos anos 20 do século passado, no Diário de Lisboa, um grande jornalista, Aprígio Mafra. Desempenhava as funções de chefe de redacção do importante vespertino, era monárquico, e marcava na agenda o seu nome para relatar as sessões no hemiciclo. São textos demolidores. Aprígio Mafra, independentemente de ser monárquico, fornecia aos leitores reportagens exemplares, por muito bem escritas e rigorosas. Não manipulava, não escamoteava, não omitia. Os deputados é que eram os protagonistas da salgalhada. Há quem atribua a Aprígio o descrédito do Parlamento. Nada mais errado. Foram os deputados os fautores da desconfiança. Aprígo Mafra somente estilhaçou o temor reverencial em torno da instituição. Ontem como hoje. Criticar a Assembleia e quem lá está parece um tema proibido sobretudo para certos sectores da Esquerda. Será, sempre e sempre, uma tarefa pedagógica, ética e cívica o exercício da crítica a todos os sectores da vida portuguesa. O texto de José Vítor Malheiros constitui uma grave advertência acerca dos perigos que ameaçam a democracia portuguesa, já de si tão frágil.

Como resistirá uma democracia a este vendaval de desemprego que nos devasta? Os alicerces nos quais assenta o equilíbrio social estão a ser seriamente sacudidos. Segundo o Diário de Notícias de anteontem [22. Outubro, p.p.] pelo menos 23 mil famílias portuguesas deixaram de pagar os empréstimos contraídos, para compra de casa, por absoluta indisponibilidade. A maioria dessas famílias recolheu-se à residência paterna ou abandonou a cidade pela aldeia, onde a vida é menos dispendiosa. Para memória dos factos, circula, na net, uma lista impressionante dos vencimentos de gestores, mordomias e prémios. Os números são obscenos, para citar a indignada qualificação do dr. Bagão Félix, quando foi tornada pública a reforma de um desses.

A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) informa, em relatório, que, em Portugal, o fosso entre ricos e pobres não pára de aumentar. Vem o ministro Vieira e afirma, calmo e grave, que as coisas não são bem assim. Não, claro que não: são piores. A falta de clareza não é pecha deste Governo. Porém, como se diz socialista (embora cada vez o diga menos), ele deveria assumir a responsabilidade ética de falar verdade. As decisões governamentais atêm-se a uma relativização dos valores, e as interpretações do Executivo são feitas à margem das evidências. Se não entendemos o que nos diz Sócrates, também não conseguimos descodificar o discurso de Manuela Ferreira Leite – quando ela resolve falar.

Creio, apesar de tudo, que algo se modificará nas estruturas do sistema, abalado por uma crise quase sem precedentes. Esse abalo irá reflectir-se em Portugal, como em todo o mundo. Saberemos colocar correctamente os problemas; aceitar a verdade, porque só a verdade é revolucionária (como dizia o outro); e recusar repetir aquilo que já não existe?
Que poderemos fazer por nós próprios?


B.B.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

AO ESTADO A QUE ISTO CHEGOU...

Várias vezes ao dia figuras do Estado e do sector privado desdobram-se a anunciar que Portugal está em óptima posição para enfrentar a tormenta.
O argumento é o mesmo.
O nosso sector bancário é do melhor que há.
Os gestores do passado e do presente tudo previram, até o imprevisível.
Podemos dormir descansados porque os nossos bens, tal como as G3 desaparecidas no 25 de Abril, estão em boas mãos.
Não é verdade.
Os nossos bens não estão seguros e nós não estamos em melhor posição do que outros.
Temos fundos de reforma públicos e privados aplicados em bancos estrangeiros que já faliram, e cujo futuro é incerto.
Para evitar a corrida aos bancos, quem nos governa e gere é obrigado a participar nesta farsa para nos serenar porque, como disse o poeta moçambicano Reinaldo Ferreira, Dancemos já que temos a valsa começada e o nada há-de acabar-se como todas as coisas.

Os primeiros acordes da valsa vieram de longe sob as batutas do Primeiro-Ministro Cavaco Silva e do Governador do Banco de Portugal Tavares Moreira que empenharam 17 toneladas de ouro num sonho de rendimentos fabulosos prometidos por um especulador chamado Michael Milken, dono da Drexel, na mais pura tradição da Dona Branca.
Investir na Drexel, era de facto o tal gato por lebre, que o Professor Cavaco Silva viria a denunciar na Bolsa de Lisboa, causando o grande crash no mercado em Portugal.
Pena é que essa sensatez não se tenha aplicado na Drexel.
Desse desastre de 1990, Portugal só conseguiu reaver uma parcela menor, esgravatada nas sobras da falência fraudulenta, já com Milken na prisão.
O que se recuperou foi ainda mais irrisório depois de abatidos os custos da acção movida em nome do Banco de Portugal pelos advogados de Wall Street da Cadwater, Wickersham & Taft, que foi o litígio mais caro da nossa história.

Há duas décadas havia evidência concreta que Portugal não tinha nem a regulação adequada nem o bom senso para aplicar medidas que evitassem investimento jogador e ganancioso com dinheiro público.
Não só não havia prudência como não havia vontade política de impor salvaguardas prudenciais.
O populismo sempre se sobrepôs ao bom senso.
Em Março de 1999 um governante veio a público anunciar aos portugueses endividados que o Governo tinha uma lei para equiparar as falências das famílias às falências das empresas, portanto com as mesmas garantias patrimoniais na administração de massas falidas.
Traduzido, o que isso dizia era: comprem o carro, a playstation e as férias em Punta Cana com o cartão, porque quando não puderem pagar o governo dá uma ajudinha.
Isto aconteceu há uma década e arauto deste maná era Ministro-adjunto no Governo de António Guterres e chamava-se José Sócrates.
É bizarro e preocupante que estes actores do passado e do presente, acolitados por executivos de uma banca em dificuldades, nos venham de hora a hora dizer que está tudo bem.
Não está.
Deviam dizer-nos para deitar fora o cartão de crédito.
Deviam obrigar os anúncios do Credito na Hora a ser exaustivos na explicação do que oferecem.
Deviam sugerir que muitos de nós não temos dinheiro para ter nem plasma nem carro.
Que, de facto, já não temos casa.
Que temos que fazer opções entre aceitar o canto dos prestamistas que, com ou sem fraque, nos virão cobrar, e fazer economias para a educação dos nossos filhos, porque só essa nos pode garantir algo de sólido no futuro.
E isso não vem com computadores à borla e garantias de segurança de quem nunca as assegurou.


M.C.

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domingo, 12 de outubro de 2008

NO "REINO" DA CORJA, A CRISE JÁ BATE NO FUNDO!


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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

É ECONOMIA?



Esta decisão faz mais pela saúde do sistema financeiro do que qualquer regulação que se possa introduzir, por mais perfeita que seja.



J.M.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

OS TROPEÇOS DO CAPITALISMO

Anda por aí grande alvoroço sobre a crise do capitalismo. A falência estrondosa do que se considerava instituições financeiras inabaláveis encontrou cândidas justificações em comentários cuja leviandade destrói o sentido das coisas sérias.
Enquanto George Soros acusa os arautos do neoliberalismo financeiros de mentirosos e manipuladores e assegura, no seu livro The New Paradigm of Financial Market que o sistema actual está a chegar ao fim [José Vidal-Beneyto, in El Pais], um comentador português garantiu que o acontecimento funcionava como revulsivo. Assim, o capitalismo saía mais forte porque limpo das escórias.

Creio que Soros sabe do que fala.
Pelo menos tem a obrigação disso.
Poderoso financeiro de ascendência húngara, especulador fadado para ganhar, sempre foi prudente nas afirmações. E esta, no-lo prova.
Realmente, ele não prevê a data do fim.
Está a chegar, diz. Não, agora; talvez daqui a muitas décadas.
O capitalismo entreajuda-se: a sua sobrevivência nasce dessa capacidade impressionante de renascer das tormentas históricas. E nunca esteve interessado em promover um novo laço social.
Como afirmou Saramago: A vantagem do capitalismo é que nada promete, enquanto o socialismo promete quase tudo.
Quer dizer: não embala esperanças.
O individualismo cria cumplicidades estranhas e inesperadas convivências. E a crise espoletada nos Estados Unidos revela que esse elo societário é, sobretudo, uma junção de interesses que nada tem a ver com princípios.
As coisas estão mal?, recorre-se ao Estado. Não é o capitalismo que falhou: tropeçou, uma vez ainda. Aquela é a sua natureza, reveladora da crença em si mesma, associada ao lugar da família. O capitalismo sempre se regenerará. Até à etapa final.
Como ensinou Marx, previu Lenine e assevera George Soros.

O inevitável acentuar dos problemas económicos e sociais aumentará todas as incertezas.
As generalizadas mudanças de temperatura e de clima, as secas, as chuvas torrenciais, cada vez mais generalizadas, os impressionantes fluxos migratórios, as interrelações culturais, também actuarão em favor de alterações substanciais no sistema.
As exigências do capitalismo podem permitir a evolução das formas e das fontes de financiamento, mas a omnipresença do mercado não é uma fatalidade.

A questão reside, actualmente, na aparente impossibilidade de alternativa. Dos onze governos socialistas ou sociais-democratas que havia, na Europa, em 2000, apenas subsistem três.
Por força das propostas da Direita?
Não.
Em razão de todos eles, de um modo ou de outro, terem deteriorado a sua específica identidade ideológica.
Não reconhecendo os antagonismos dos intervenientes socioeconómicos e culturais, para que serve esta Esquerda?
A crise fornece-nos a resposta: para nada.


B.B.

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terça-feira, 16 de setembro de 2008

QUE LINDO QUE É...


... ver as impressoras que trabalham às ordens da máfia dos bancos a vomitarem notas...


Adivinhem quem é que vai

pagar a factura...

L.

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