terça-feira, 1 de dezembro de 2009

MAIS UMA TRAIÇÃO AOS PORTUGUESES



Este nem permitiu que os portugueses dissessem o que pensavam do Tratado de Lisboa, impedindo que eles manifestassem a sua opinião num referendo que tinha prometido realizar durante a campanha eleitoral em que foi eleito Primeiro-ministro.
Judas ainda se arrependeu de ter traído e recebido as 30 moedas, mas este nem nisso acredito
.

K.

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sexta-feira, 29 de maio de 2009

ESCOLHAS MORAIS E ACTOS PESSOAIS

O escrutínio de 7 de Junho talvez esclareça alguns equívocos. Durão Barroso não tem a vitória garantida, apesar do apoio de três valentes socialistas: Brown, Zapatero e, claro!, Sócrates.
A Direita, que manda na Europa, através de Bruxelas, torce o nariz quando ouve o nome.
O homem tem sido a encarnação de tudo e a representação de nada.
Não se apoia em convicções, nada fez que deixasse marca, segue a rosa dos ventos. E há quem lhe não perdoe o haver sido o mordomo da Cimeira da Guerra, nos Açores, quando Bush, Aznar e Blair decidiram bombardear o Iraque, enquanto Durão, numa esplanada, bebia um cafezinho.


A sagrada união, que funcionou para a carnificina, resultará, de novo, para a reeleição do português? Nada me move contra ele, a não ser a visão diferente que tenho das coisas e a concepção de carácter que aplico aos homens. Mas a circunstância de ele ter a minha nacionalidade, não obsta a que o não considere um inepto oportunista. Tudo o que ele defende e significa está nos antípodas do meu percurso e das minhas causas. O último Le Nouvel Observateur informa que ninguém defende o presidente da Comissão Europeia, e não encontra grandes simpatias entre a maioria dos deputados. No entanto, os jogos de bastidores, os interesses dos grandes grupos ali dissimuladamente simbolizados dispõem de um poder capital.

A Imprensa portuguesa não diz, por ignorância ou ocultação, mas o dinamarquês Poul Nyrup Rasmussen, o belga Guy Verhofstadt e o italiano Mário Monti são outras das possibilidades. E com muito mais capacidade e íntegra competência do que Durão Barroso. Daniel Cohn-Bendit, o rosto célebre do Maio de 68, e, como Barroso, ex-maoísta, hoje esfuziantemente abraçado às aventuras do mercado, não se cansa de martirizar o português, com qualificativos sulfúricos.

Aliás, lançou uma campanha, Stop Barroso, na qual as acusações de inépcia se associam a ditos e a anedotas devastadores.

Os candidatos dos partidos portugueses não se cansam de tentar despertar os eleitores, para que a abstenção (prevista e previsível) não atinja valores escabrosos. Mas o pessoal está embaraçosamente desligado. E os candidatos, eles próprios, pouco ou nada de esforçam para que amemos uma Europa completamente desconhecida de muitos de nós. De nós e dos outros.

Os europeus ignoram tudo, ou quase, da história, da geografia, da cultura, das línguas do seu continente. Não temamos, caros compatriotas, as comparações: somos tão ou mais informados do que os outros. É penoso assistir a uma vulgar sabatina aplicada aos diferentes povos. Ninguém sabe nada de nada. Então, para que serve a Europa?

A questão (ou uma das questões) reside nesse busílis. Com um peso decisório muito reduzido e limitadíssima capacidade de impor as suas razões, a Europa é uma organização meramente económica, dirigida pelo eixo Berlim-Paris, com Berlusconi a fazer birras porque também quer mandar. O sistema aplicado, o neoliberalismo, causou uma hecatombe de resultados imprevisíveis, mas cujas parcelas são, já, inquietantes. A Europa não é o que desejavam fosse os seus fundadores. É um território de operações para as grandes jogadas financeiras, para a flexibilização proletária, para as deslocações, consoante dita o mercado. A ideia generosa: uma Europa sem guerras, solidária, generosa e equitativa não passa de mito proposto à nossa candura - e não foi, unicamente, deturpada, foi espezinhada. O capitalismo predador, de que toda a gente fala e que pouca gente combate, sobre o qual escassamente se estuda e reflecte, campeia impante. O cortejo de misérias que consigo arrasta é quase inominável. E a Europa de Bruxelas é uma peculiar máscara do abandono e da servidão. Qual o poder de Bruxelas, ante esta impressionante ofensiva? Nenhum. A retórica não dispõe de energias nem de força para se impor ao ruído das castas vencedoras.

Nenhum destes problemas fulcrais suscitam grandes debates entre os candidatos a parlamentares europeus. O folclore da campanha, com distribuição de prendinhas, ou com a demagogia torpe de Paulo Portas, é nada, coisa nenhuma.

Claro que vou votar. Incrédulo, descrente, mas vou votar. Por exigência moral e por imposição de cultura. Levei metade da vida a defender e a pelejar por coisas tão aparentemente absurdas e inúteis como a liberdade de expressão, a liberdade de reunião, o direito ao voto e o dever de cidadania - que configuraria uma traição eu abstrair-me. Votarei sempre. Em desacordo ou em acordo. Reajo de igual modo quanto às decisões sindicais. Sou um dissidente; porém, se o sindicato decretar greve, lá estarei, na primeira linha, sem outro objectivo que não seja o de me representar na minha total liberdade.

Releio André Gorz, um dos grandes pensadores do nosso tempo: Temos de fazer com as nossas forças entendam o seu imenso poder. E o poder reside nas nossas mais pequenas opções. Ser livre é uma escolha pessoal; mas, antes de tudo, é um acto moral.


B.B.

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terça-feira, 18 de novembro de 2008

É SÓ COMPETÊNCIA



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domingo, 12 de outubro de 2008

NO "REINO" DA CORJA, A CRISE JÁ BATE NO FUNDO!


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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

É ECONOMIA?



Esta decisão faz mais pela saúde do sistema financeiro do que qualquer regulação que se possa introduzir, por mais perfeita que seja.



J.M.

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domingo, 28 de setembro de 2008

EUROPA E O PROBLEMA AMERICANO

O presidente da Comissão Europeia, o nosso Durão Barroso, descobriu agora os malefícios do unilateralismo americano no mundo de hoje. Arrependido, ex officio, dos tempos do seu americanismo militante, quando se curvava em mesuras perante o George na cimeira das Lages, jurando a pés juntos que o seu amigo George era incapaz de mentir e que ia atacar o Iraque porque tinha provas das armas de destruição maciça de Saddam Hussein - que ele, Barroso, havia visto com os seus olhos - o comissário-chefe dessa coisa difusa a que insistimos em chamar Europa resolveu agora escrever um dazibao aos dois candidatos à próxima presidência dos Estados Unidos, dando-lhe conta dos sentimentos actuais de um europeu.
A Europa, diz Durão Barroso, quer que o próximo Presidente americano perceba que não pode passar sem ela; que se renda ao multilateralismo, deixando de se comportar como o único actor global; que aceite a reforma das instituições que a Administração Bush tratou de tornar obsoletas e inúteis, como a ONU, o FMI, o Banco Mundial; que aceite a presença de outros players emergentes na cena mundial, com direito a audição e participação nas decisões, que reconheça que há problemas sérios à escala planetária que não podem continuar dependentes da agenda doméstica de um Presidente dos Estados Unidos.
Tudo coisas óbvias e consensuais e que agora são fáceis de dizer.
Há uma década, a ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright, classificava os Estados Unidos como a nação indispensável.
Oito anos de desastrada gestão de Bush encarregaram-se de nos ensinar amargamente que as coisas podiam mudar: os Estados Unidos tornaram-se hoje a nação dispensável - de bom grado dispensaríamos a contribuição que deram para o estado do mundo, nestes últimos tempos.
Em oito anos, a nação que a dupla Clinton-Gore havia deixado na prosperidade e no caminho de uma efectiva e inteligente liderança mundial transformou-se num dos problemas do mundo, ao lado da Al-Qaeda e do fundamentalismo islâmico ou do aquecimento global.
Os Estados Unidos que George W. Bush vai deixar em herança são o maior consumidor de energia e matérias-primas à escala global; o maior poluidor do planeta e o mais feroz adversário de todas as convenções e tentativas de inverter o caminho para o caos - tendo a Casa Branca chegado ao extremo de falsificar relatórios científicos para tentar provar que o aquecimento global não existia; são o principal factor de provocação do terrorismo islâmico e o maior destabilizador da paz no Médio Oriente, nos Balcãs, no Cáucaso; são o mais hipócrita defensor de um comércio global livre e justo, que defendem no papel e tratam de sabotar na prática, sempre que lhes dá jeito; e são, conforme se tornou agora exuberantemente exposto, o grande agente e exportador da crise económica mundial, graças à ganância dos amigos de Bush e à cumplicidade cooperante deste.
Eis a herança do amigo George.
Não admira que até Durão Barroso seja agora capaz de negar três vezes que o conhece. E, todavia, só se deixou enganar quem quis.
Os americanos, claro, e é por isso que a América é uma nação perigosa, porque tanto se podem entregar a um Roosevelt ou a um Clinton como a um Nixon ou a um Bush.
Mas não só os americanos: também essa geração de dirigentes europeus enfatuados, que parecem desprovidos de pensamento próprio, mesmo quando se trata de questões que tocam muito mais de perto à Europa do que à América, como são os Balcãs, o Médio Oriente ou as relações com a Rússia.
Toda a gente sabia que Bush era um completo ignorante em matéria de política externa, dotado daquela ignorância arrogante que se encontra no americano médio, que está convencido de que, fora dos Estados Unidos, nada mais conta e nada mais interessa, e que o mundo inteiro vive no desejo de poder imitar o estilo de vida e os valores americanos - os únicos justos e conformes à vontade de Deus.
Mas a ignorância é uma arma perigosa nas mãos de um homem poderoso, e dizem que o Presidente dos Estados Unidos é o homem mais poderoso do mundo.
Foi a ignorância de Bush que conduziu os Estados Unidos ao caos e fez do mundo um lugar infinitamente mais perigoso.
Tudo era por demais evidente que assim seria, mas a intelligentsia europeia que ditou moda nos últimos tempos havia decretado, qual fatwa, que duvidar da infalibilidade americana era crime de antiamericanismo primário - uma doença mental de diletantes ou órfãos do comunismo.
Corremos o risco de ter mais do mesmo.
A semana passada, durante uma entrevista à televisão espanhola, ficou a perceber-se que o candidato McCain - tido como um especialista em política externa - não sabia que Rodriguez Zapatero é primeiro-ministro de Espanha, o que equivale a dizer que não acha que a Espanha seja uma nação suficientemente importante para interessar um Presidente dos Estados Unidos. E a candidata a vice-presidente, a dona-de-casa do Alasca, Sarah Palin - que até ao ano passado nunca tinha pedido um passaporte para sair dos EUA - só terça-feira passada se encontrou pela primeira vez com um dirigente estrangeiro.
Puseram-na nas mãos do guru Kissinger para um brain-storming intensivo e trataram de introduzi-la à pressa ao resto do mundo, começando pelos amigos: os Presidentes da Geórgia, Ucrânia, Iraque e Afeganistão.
Graças a uma indiscrição da CNN, cujo repórter se conseguiu aproximar da senhora mais do que os seguranças consentem, ficou a saber-se que, na quarta-feira, Kissinger tratava de lhe explicar quem era Sarkozy.
A coisa promete...
O que está errado na carta de Durão Barroso aos candidates às eleições americanas é o tom de pedido: a Europa pede aos Estados Unidos que a levem em conta.
Dir-se-ia que a factura de Omaha Beach nunca mais está saldada...
Mas venha Obama ou McCain, não há mais tempo a perder nem mais desculpas para que a direcção política europeia continue eternamente a resguardar-se nos interesses da Aliança Atlântica para não assumir as suas responsabilidades.
A Europa tem de ter uma política externa e uma política de defesa autónomas, que não dependam da NATO nem da ignorância geopolítica dos presidentes americanos.
Tem de ter uma estratégia própria para as crises dentro das suas fronteiras e no seu perímetro.
Uma estratégia própria para os Balcãs, para o Médio Oriente, para o Magrebe, para o Irão. E, claro, para a Rússia, que é um dos seus principais fornecedores de gás e petróleo e um parceiro indispensável para a manutenção da paz e para a resolução de crises regionais onde os interesses estratégicos americanos só atrapalham.
A Europa não tem qualquer interesse em ver mísseis americanos a cercar a Rússia, nem em envolver-se, à sombra da NATO, em intervenções sem sentido e que, em última análise, apenas podem ressuscitar o espírito de guerra-fria sepultado em Berlim há quase vinte anos.
Desgraçadamente, toda a gente parece concordar num ponto: não é com esta geração de políticos europeus que a Europa se conseguirá afirmar e construir.
Precisamos de estadistas, de visionários, e só temos malabaristas da política e mestres da conjuntura e do vazio.
Uma geração muda-se de cima para baixo, começando por mudar as opiniões públicas.
É isso que se torna urgente fazer.


Miguel Sousa Tavares

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

OS TROPEÇOS DO CAPITALISMO

Anda por aí grande alvoroço sobre a crise do capitalismo. A falência estrondosa do que se considerava instituições financeiras inabaláveis encontrou cândidas justificações em comentários cuja leviandade destrói o sentido das coisas sérias.
Enquanto George Soros acusa os arautos do neoliberalismo financeiros de mentirosos e manipuladores e assegura, no seu livro The New Paradigm of Financial Market que o sistema actual está a chegar ao fim [José Vidal-Beneyto, in El Pais], um comentador português garantiu que o acontecimento funcionava como revulsivo. Assim, o capitalismo saía mais forte porque limpo das escórias.

Creio que Soros sabe do que fala.
Pelo menos tem a obrigação disso.
Poderoso financeiro de ascendência húngara, especulador fadado para ganhar, sempre foi prudente nas afirmações. E esta, no-lo prova.
Realmente, ele não prevê a data do fim.
Está a chegar, diz. Não, agora; talvez daqui a muitas décadas.
O capitalismo entreajuda-se: a sua sobrevivência nasce dessa capacidade impressionante de renascer das tormentas históricas. E nunca esteve interessado em promover um novo laço social.
Como afirmou Saramago: A vantagem do capitalismo é que nada promete, enquanto o socialismo promete quase tudo.
Quer dizer: não embala esperanças.
O individualismo cria cumplicidades estranhas e inesperadas convivências. E a crise espoletada nos Estados Unidos revela que esse elo societário é, sobretudo, uma junção de interesses que nada tem a ver com princípios.
As coisas estão mal?, recorre-se ao Estado. Não é o capitalismo que falhou: tropeçou, uma vez ainda. Aquela é a sua natureza, reveladora da crença em si mesma, associada ao lugar da família. O capitalismo sempre se regenerará. Até à etapa final.
Como ensinou Marx, previu Lenine e assevera George Soros.

O inevitável acentuar dos problemas económicos e sociais aumentará todas as incertezas.
As generalizadas mudanças de temperatura e de clima, as secas, as chuvas torrenciais, cada vez mais generalizadas, os impressionantes fluxos migratórios, as interrelações culturais, também actuarão em favor de alterações substanciais no sistema.
As exigências do capitalismo podem permitir a evolução das formas e das fontes de financiamento, mas a omnipresença do mercado não é uma fatalidade.

A questão reside, actualmente, na aparente impossibilidade de alternativa. Dos onze governos socialistas ou sociais-democratas que havia, na Europa, em 2000, apenas subsistem três.
Por força das propostas da Direita?
Não.
Em razão de todos eles, de um modo ou de outro, terem deteriorado a sua específica identidade ideológica.
Não reconhecendo os antagonismos dos intervenientes socioeconómicos e culturais, para que serve esta Esquerda?
A crise fornece-nos a resposta: para nada.


B.B.

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domingo, 21 de setembro de 2008

HONRA: ALGUÉM SE LEMBRA?

1.- Há apenas uns meses, o senador McCain, que em Janeiro se poderá tornar o próximo Presidente dos Estados Unidos, afirmava ainda que o governo federal se deveria manter fora dos assuntos que tinham que ver com o funcionamento do sector financeiro e do livre mercado capitalista. Embora já então fosse mais do que evidente que a chamada crise do subprime no sistema financeiro americano estava ainda longe de mostrar o fundo e que o fundo era um lamaçal onde alguns dos mais incensados colarinhos brancos dos Estados Unidos estavam atolados em práticas impensáveis de batota e especulação irresponsável, o velho senador mantinha-se ainda atado de pés e mãos à crença de que o capitalismo é conforme à vontade de Deus e que qualquer veleidade de vigilância sobre ele é um erro económico e um atentado aos valores da sociedade liberal. Mas esta semana, confrontado com a decisão do Tesouro de injectar 85.000 mil milhões de dólares na AIG para evitar a falência da maior seguradora mundial e o colapso de milhões de pensões de reforma de americanos que trabalharam toda a vida confiando no sistema, McCain teve de rever o seu discurso, embora talvez não as suas convicções. Agora, já veio falar na necessidade de regulação de um sector que revelou excesso de ganância e de irresponsabilidade. Com dezenas de milhões de votos de pensionistas a serem disputados em Novembro, com o dinheiro dos contribuintes americanos largamente empenhado para salvar a AIG, os dois maiores gigantes do crédito hipotecário e vários bancos entre os quais o sagrado JP Morgan, mesmo o mais doutrinário dos nefastos neocoms americanos não pode ignorar esta verdade vexatória: o capitalismo americano, o farol da terra, está a tentar ser salvo pelo Governo dos Estados Unidos com recurso a medidas que fazem lembrar o PREC português, dos anos 70. Só que, se então eram os comunistas que tratavam de nacionalizar a economia por questões ideológicas, agora são os próprios capitalistas a aplicar medidas comunistas para se salvarem a si próprios. Quem paga? Pagam os contribuintes, os que trabalharam em troca de um salário, enquanto os administradores do falido Lehman Brothers recebem milhões a título de prémio de boa gestão ou indemnização para se irem embora, depois de terem afundado o navio.

Anos e anos a fio, os liberais têm-nos explicado que as empresas têm de crescer, crescer sem limite, para ganharem dimensão estratégica numa economia global. E os governos tudo têm feito por isso: consentem e estimulam as fusões e aquisições, mesmo sabendo que tal diminui e falseia a concorrência - que é um dos pilares do mercado livre - e que, quando um gigante assim insuflado, como a AIG, tropeça na sua própria dimensão, são milhões de postos de trabalho de gente inocente que vão ser postos em causa e um efeito de cascata que se desencadeia, abalando toda a economia. Bem dizia Marx, que, entregue a si próprio, o capitalismo se devoraria.

O que falhou? Falhou a noção de honra dos capitalistas e a noção de dever dos governantes. Falhou a consciência da responsabilidade social do dinheiro, substituída pela simples ganância de mais e mais lucros, sem olhar sequer a regras de prudência elementares.
Vimos como, entre nós, um banco que era apontado como um case study de modernidade e inovação, onde mandavam os gestores profissionais e não os accionistas parasitários, se transformou num case study de tropelias de toda a ordem, em que o objectivo principal da gestão parecia ser, não o de servir os accionistas, os clientes, os trabalhadores do banco ou a economia nacional, mas sim a luxúria e o desejo de acreditação social dos seus gestores. No antigo faroeste americano, os que eram apanhados a fazer batota ao jogo eram despidos de tudo, pintados com alcatrão, cobertos de penas e expulsos da cidade. Hoje recebem milhões de indemnização para se irem embora e reformas vitalícias que são um escândalo público. Porque, quando a honra deixa de ser um valor na vida em sociedade, a vergonha não pesa nada.

2.- Consta que vamos mandar três polícias para a Geórgia. Não vão para dirigir o trânsito nem caçar multas por excesso de velocidade: vão, por mais ridículo que isto seja, para mostrar o nosso compromisso para com o objectivo da NATO de conter o expansionismo russo no Cáucaso. Ora, recapitulemos:


- a Geórgia é um dos países que se separaram da órbita da ex-URSS e que, em decorrência da perigosa estratégia de cerco à Rússia, logo recebeu a ajuda do imbecil do Bush para se tornar um satélite dos Estados Unidos, sob uma das três modalidades habitualmente propostas: receber mísseis americanos, aderir à NATO ou ser declarada protegida desta;


- entretanto, o novo país instalou-se sobre um poder formado por seitas mafiosas, totalmente corruptas e criminosas, autêntico paradigma do que é suposto não serem os valores morais do Ocidente;


- do novo país fazem parte as regiões autónomas da Abkhazia e Ossétia do Sul, de maioria russa, e que ficaram como enclaves da Geórgia, da mesma forma que o Kosovo, de maioria albanesa, ficou como enclave da Sérvia;

- quando, há meses, os Estados Unidos, a NATO e a UE promoveram a irresponsável declaração de independência unilateral do Kosovo, contra a ONU e com o único fundamento de que a maioria da sua população não era sérvia, Moscovo avisou que estavam a abrir uma caixa de Pandora e todos perceberam que sim e, todavia, foram em frente;

- escorada na protecção dos Estados Unidos e da NATO, a Geórgia resolveu romper o statu quo e forçar a anexação pela força das suas zonas russófonas: invadiu a Ossétia, matou indiscriminadamente, bombardeou, destruiu, provocou centenas de milhares ou milhões de refugiados: uma forma muito estranha de tratar o seu povo. Mas os EUA, a NATO, a UE, mantiveram-se calados. E só reagiram quando Moscovo enviou o Exército em defesa das populações russas e, obviamente, a seguir passou a promover a declaração de independência de ambas as regiões - tal qual como o Kosovo fez. Então, sim, as boas e idiotas almas que nos governam desataram a gritar: Socorro, que o urso está de volta!.

Andam a brincar com o fogo. E nós lá vamos, acompanhando galhardamente o esforço de conter o expansionismo russo, enviando três polícias para essa coisa que nos é tão íntima, que é o Cáucaso. Mais valia mandarmos três bombeiros.

3.- Uma lei especial e antiga estabeleceu que o general Eanes não poderia acumular a sua pensão de reserva como militar com a pensão de ex-Presidente da República. Uma lei estranha, num país em que as grandes figuras do regime acumulam tudo: pensões privadas com pensões públicas, pensões públicas com ordenados privados e pensões públicas com pensões públicas. Sentindo-se discriminado, o general recorreu à justiça, que, muitos anos depois lhe deu razão e mandou que passasse a receber ambas as pensões, mais os retroactivos, cerca de 1.300.000 euros. Eanes, porém, recusou receber os retroactivos. Num país em que tantos exigem e recebem do Estado o que podem e o que não deviam, ele recusou uma pequena fortuna. Não sei as razões, mas conheço suficientemente o homem para perceber a sua motivação. É uma questão de honra. E, nas questões de honra, não basta apregoá-la, é preciso tê-la.

Miguel Sousa Tavares

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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A DECOMPOSIÇÃO DA ESQUERDA

No ano 2000 havia, na Europa, onze governos socialistas ou sociais-democratas. Actualmente, subsistem três. Tomo as definições socialistas e sociais-democratas com a prudência suspeitosa que elas exigem. Historicamente, têm perdido a matriz original e os seus dirigentes, na esmagadora maioria dos casos, envolvem-se em escândalos, forjam alianças com as forças políticas mais tenebrosas, tripudiam sobre a ideologia, mandaram as convicções às malvas.


Nunca é de mais repetir estas verdades.

A geração socialista que tomou o poder a partir da década de 80 é uma desgraça. Mesmo Zapatero, apontado como exemplo quase único, tem dias. Em Portugal, a prática do PS é o que se sabe. E este Governo só não é escorraçado, porque o adversário directo, pouco diz do que pretende fazer, e esse pouco é assustador. À Esquerda, o PCP sobe, como indicam as sondagens, advertiram os politólogos e impõe o eleitorado. A intensificação da violência económica resulta da perplexidade social e da abdicação política em favor do mercado.

Na Europa, os meios populares, base de apoio dos partidos de Esquerda, manifestam uma inquietada desconfiança. De um modo quase generalizado, os partidos comunistas são uma reminiscência, com escasso poder e reduzida influência. A ascensão da Direita dimana dessa absoluta incapacidade de os socialistas em encontrar soluções. É uma deriva que se arrasta há quase três décadas. E a queda dos governos europeus, assinalados como de Esquerda, colocou, por exemplo, no poder da União Europeia as forças mais conservadoras e, até, reaccionárias. A Europa não possui resposta, como um todo, para as crises que se desenvolvem e multiplicam, porque não previu as modificações, se regozijou com os prestígios do mercado e orientou-se para a acção única do pensamento único.

Jean-Gabriel Fredet, no último Nouvel Observateur, esclarecia que a crise da União Europeia podia ser entendida como o fim de um modelo social de que a Esquerda quisera dotar a Europa, esquecendo-se, ou ignorando que não há associação possível entre as abruptas leis do mercado e as imperiosas necessidades redistributivas.

A verdade é que os socialistas não estão nada interessados em reflectir sobre a mudança do mundo. São, apenas, os servis gestores do capitalismo mais selvático. Naturalmente, esta situação não pode continuar. E dá-me imensa vontade de rir os comentários de preopinantes portugueses, sobre as virtudes (inclusive morais) do neoliberalismo, apontando a infausta experiência de Tony Blair como exemplo de pragmatismo. O pragmatismo é a expressão que tem encoberto as traições mais vis, e permitido a abundante criação de um grupo de estipendiados. A vergonha e a indignidade chegaram, já há anos, aos jornais, às rádios e às televisões.

Há dias, conversando com um dos meus amigos mais estimados, o grande jornalista João Paulo Guerra, concluímos que o vazio ético, a capitulação profissional que lavra, como endemia, no nosso país, são reflexos da decadência da Esquerda e desse sentido individualista de tratar da vidinha que se tornou numa carta-de-alforria para a sobrevivência. Anotámos os nomes daqueles que passam de directores de jornais para directores de jornais e daqui para a direcção de agências noticiosas, para assessorias, para secretariados. A maioria não sabe escrever uma notícia, jamais assinou uma reportagem, confunde crónica com artigo e editorial com comentário, veste-se de igual modo, move-se com ar grave e semblante marcado. Afinal, são, apenas, sapatos Gucci, fatos Massimo Dutti, e cabelo cheio de gel. Alguns, cuja mediocridade é pavorosa, treparam à direcção de importantes diários. O resultado foi catastrófico.

A assunção desta mediocridade, que faz jornalismo através de telefonemas e de nomes em agendas, devolve a imagem da actualidade portuguesa. A classe política que nos dirige é doentiamente insignificante: nem sequer sofrível. Olhe o Dilecto para aquelas caras, tenha a paciência de os escutar, de os ler, de assistir a esse circo de comentadores de televisão, sempre os mesmos ou tocadores do mesmo solfejo. Aqueles que se insurgem são apodados de ter mau feitio, o modo de se assinalar, negativamente, a grandeza de carácter. As perseguições a jornalistas livres, que se não conformavam com a situação, criada a partir da década de 80, foi terrível. Grandes profissionais de Imprensa foram para o desemprego ou abandonaram a profissão, sem saídas para desempenhar o seu trabalho, as suas funções, a sua vocação.

A educação cívica, que compreende a aceitação das vozes discordantes, foi dizimada por uma casta de oportunistas. E, quase insistentemente, estimulada pelos partidos que se dizem democráticos.
O processo de decomposição da Esquerda, mas, também, da Direita, esta Direita é risível, pela soberba e espantosa iliteracia, invalidam qualquer possibilidade de restauração.
Mas renovar, como e com quem?
Descobrir gente honrada e competente no interior dos partidos?
O busílis está aí.
Porque os partidos converteram-se em agências de empregos, desprovidos de ideais morais, com clientelas domesticadas porque as sinecuras e o nepotismo são compensadores.

B.B.

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terça-feira, 16 de setembro de 2008

QUE LINDO QUE É...


... ver as impressoras que trabalham às ordens da máfia dos bancos a vomitarem notas...


Adivinhem quem é que vai

pagar a factura...

L.

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domingo, 22 de junho de 2008

O ESTADO DA UNIÃO



Os países Europeus, sobretudo os grandes e com mais responsabilidades, não podem deixar-se submeter às decisões dos mais pequenos, muito menos aos resultados de um referendo de que resultou uma maioria de escassos milhares de votos. Imaginar que toda a Europa possa ficar condicionada pelos irlandeses é quase uma deficiência intelectual. Tal como imaginar que a União, de carácter federalista, se possa fazer com a unanimidade dos Estados e dos povos. A França e a Alemanha, ajudadas pelos seus clientes e arrastando atrás de si os pequenos países que não se importam de ver aumentar as suas dependências, vão pois tomar as providências necessárias para que a constituição do Tratado de Lisboa seja aprovada. No que serão ajudadas pela enorme, luxuosa e apátrida burocracia europeia. Com ou sem Irlanda. Com ou sem favores prestados e dinheiros dados aos irlandeses. Não podia deixar de ser assim. Só nos contos de fadas é que os gnomos mandam e os anões derrotam os gigantes.

O referendo irlandês teve as suas virtudes. Revelou, uma vez mais, a crise europeia. Exibiu a verdadeira natureza desta União. E mostrou, sem deixar dúvidas, o caminho que esta se prepara para seguir. A reforma das instituições europeias ficará na história como um caso exemplar de esbulho de independências, de esmagamento pacífico de autonomias e de tentativa de destruição de culturas e de carácter. Toda a gente percebeu que a saga da aprovação do Tratado de Lisboa, depois de Maastricht e de Nice, tem como principal objectivo o de retirar poder aos povos e de lhes administrar as soluções das elites esclarecidas. O Tratado foi inventado para retirar aos povos a possibilidade de os discutir e aprovar. O Tratado é incompreensível? A Constituição é absurda? Tanto melhor. São documentos que, justamente, não devem ser compreendidos. E que oferecem explicações úteis para a indiferença crescente dos cidadãos. Votam em eleições e em referendo, dizem os iluminados, por razões nacionais e não por razões europeias! Votam, acrescentam, por causa da crise económica, das desigualdades, dos preços dos combustíveis, das questões laborais e da imigração. Na Irlanda, então, para cúmulo, dizem eles, o não foi motivado pelo aborto, pela eutanásia e pelos impostos. Tudo, asseguram, questões locais, paroquiais, nacionais, sem a importância dos reais problemas europeus. Estes argumentos, infantis e destituídos de qualquer inteligência, são repetidos candidamente por todos os servos, sobretudo juristas, da plutocracia europeia. E ninguém, entre essas luminárias, se deu ao trabalho de reflectir nas últimas eleições europeias que deram dois resultados inesquecíveis. Primeiro, uma enorme abstenção. Segundo, o facto de quase todos os que perderam essas eleições foram recompensados, directa e indirectamente, com cargos, responsabilidades e decisões nos actos que se seguiram. Chirac, Schroeder, Tony Blair e Durão Barroso, entre outros, perderam as eleições, mas, pelo jogo do federalismo, moldaram a União que se seguiu! De qualquer modo, ficámos a saber, mais uma vez: para os dirigentes europeus, o emprego, os impostos, a liberdade, a demografia, a família, o sistema de saúde, a educação, a idade de reforma, a legislação laboral e as desigualdades sociais não são questões europeias. Não são problemas relevantes!

A crise, muito séria, é a do desajustamento entre as intenções e as realidades. A do abismo irreversível que se instalou entre os Estados e as classes políticas, por um lado, e os povos e as sociedades, por outro. A do desvirtuamento definitivo do, sempre equívoco, projecto europeu, que vai perdendo os valores, que tanto proclamou, da diversidade, da autonomia e da liberdade. A da futilidade dos desejos das elites políticas europeias que pretendem unanimidade e federalismo, homogeneidade e uniformização. A Europa é vaidosa como uma velha gaiteira. E arrogante como um fidalgo falido de smoking coçado. Os seus dirigentes gabam-se do Estado de protecção mais generoso do mundo, da construção política mais original, da cultura mais consistente, das mais belas cidades, da liberdade mais enraizada e da paz mais duradoura. Ano após ano, os mitos vão ruindo. A cultura europeia é americana. O trabalho é imigrado. A produção é chinesa. O capital estrangeiro. A economia frágil. A ciência dependente. A tecnologia subalterna. A impotência manifesta. Os europeus não querem correr riscos, nem tratam da sua defesa. Estão disponíveis para negociar com o diabo. Não têm energia, não possuem forças armadas. Comportam-se como se tivessem um inimigo comum, os Estados Unidos. Não os terroristas, não as ditaduras, mas os Estados Unidos. Os europeus são cada vez mais utilizados por terceiros endinheirados que assim perdem o respeito por tanta cultura, tanta originalidade e tão glorioso passado. Os dinheiros do petróleo, dos armamentos, de todos os tráficos ilícitos e da grande especulação começam a mandar na Europa e a condicionar as suas políticas e a sua diplomacia.

A União vai sair, aparentemente, desta crise. Dentro de um ou dois anos, uma nova engenharia terá sido encontrada. Dentro ou fora, a Irlanda deixará de incomodar. Novas perturbações serão evitadas por novos mecanismos. Alguém virá dizer que a crise está ultrapassada e que a União entrará numa nova era. A mecânica da Comissão, do Conselho e do Parlamento Europeu estará oleada e preparada para funcionar a 27 ou mais. As decisões serão mais fáceis. Evidentemente, sabe-se, haverá alguns problemas. Na economia, na sociedade, no comércio externo, na ciência e na tecnologia. Forças centrífugas em acção. Dificuldades no emprego e no crescimento económico. Problemas sociais e demográficos. Conflitos laborais e desigualdades sociais. Deriva dos sistemas de saúde, educação e segurança. Aumento dos preços da energia e dos alimentos. Certo. Mas são todos problemas locais. Nada disso é europeu. A grande Europa, a grande União passa ao lado disso. Passa ao lado de questões menores.


António Barreto

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quarta-feira, 18 de junho de 2008

"YES"DE MOLLY BLOOM?

Nunca fui um entusiasta quer da Constituição Europeia quer do Tratado de Lisboa e ainda menos me iludi com a engenharia institucional contra naturam a que apontavam os mecanismos respectivos, como aqui tive ocasião de escrever com alguma frequência.

De uma maneira ou de outra, os países mais fortes apontavam a um directório a que se submeteriam os países mais fracos e tudo redundaria numa espécie de federalismo europeu de trazer por casa, substantivamente comandado por eles e formalmente por Bruxelas, com a singularidade de se dispensar um orçamento federal compatível e o picante de haver cada vez menos um espírito europeu partilhado e cada vez mais uma série de conflitos de interesses nacionais muitas vezes insolúveis...

De resto, quem ler a laboriosa concocção do texto de 2007, após a presidência alemã ter dado as suas instruções à presidência portuguesa, fica com a certeza de que nenhum chefe de Estado ou de Governo participante na CIG conhece bem o teor e as implicações daquilo que aprovou.

Na mecânica e nos detalhes (e quase sempre são estes o que mais conta), o Tratado de Lisboa só pode ser o produto da cerebração sibilina de altos funcionários nos bastidores das instituições europeias, muito em especial, do Conselho. A este vício genético, acrescem outros:

Foi politicamente muito imprudente o processo seguido na Convenção que levou à elaboração de um projecto de Constituição Europeia. Foi igualmente imprudente a sua proclamação urbi et orbi em Roma em 2004, como se via pouco depois com os desaires em França e na Holanda. Continuou a ser imprudente a repescagem e ressurreição que conduziram à minuta absolutamente incompreensível e à estruturação apressada, impulsionada pela presidência alemã, daquilo que veio a ser o Tratado de Lisboa.

A Constituição Europeia era um cadáver adiado. A Europa dos mais fortes não o percebeu ou não o quis perceber.

Agora, o projecto estatela-se mais uma vez, por acção de um pequeno país, por sinal aquela mesma Irlanda que era dada como paradigma dos benefícios da integração e do crescimento espectacular em poucos anos graças à Europa... Também este facto torna a rejeição do Tratado de Lisboa particularmente grave no contexto europeu e mesmo mundial.

O resultado mostra bem que a União Europeia continua a não ser possível com a arquitectura que se lhe pretendia impor, de cima para baixo. Coonestaram-se todos os expedientes para se fazer aprovar a Europa na secretaria. O falhanço é clamoroso, mas ainda se vai assistir a mais ginásticas conceptuais.

Por outro lado, o referendo. Sim, o referendo, entre nós evacuado expeditivamente pelos mesmos que se tinham comprometido a promovê- -lo... Sócrates perdeu uma boa ocasião de brilhar pela coerência, no que foi rapidamente seguido por um PSD a arrepiar caminho e a desdizer-se sem pestanejar.

O resultado traz um benefício manifesto aos partidos à esquerda do PS, referendistas por anti-europeísmo, quando, nos partidos moderados, quem pedia o referendo o fazia em nome da construção europeia e por causa dela, para que não se invocasse uma qualquer carência de legitimação a mais ou menos médio prazo. A responsabilidade de Sócrates está também em ter fingido que não percebia isto, entregando de bandeja à esquerda esse capital de reivindicação democrática, o que é tanto mais grave quanto é certo que, em Portugal, o sim teria ganho.

Já por aí se insinua nalguns sectores bem pensantes que a dimensão mínima de um país como a Irlanda não pode travar o motor que interessa a mais 26 Estados. É um exercício que pode ser feito quanto a mais de uma dúzia deles, incluindo o nosso... Este perigosíssimo argumento traduz um enorme desprezo pelos países mais pequenos e pelo princípio da igualdade entre os Estados.

Para já, entre ameaças, perspectivas de negociação e expectativas pouco consistentes, parece que se pretende que Molly Bloom reconsidere e também remate esta história com o seu yes. O pior é que é exactamente com pressas, álibis, expedientes, sofismas e simplificações grosseiras deste tipo que se esvazia o sentido dos valores europeus, se aliena o interesse dos cidadãos e se fica impedido de construir decentemente o futuro da União.


Vasco Graça Moura

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terça-feira, 17 de junho de 2008

ENXERGÃO DA HIPOCRISIA

A Europa, berço da democracia, transformou-se no enxergão da hipocrisia.

De acordo com esta alteração de leitos, que culmina muitos séculos de civilização, a democracia só é aceitável quando uma maioria concorda. Discordando, insiste-se quantas vezes foram necessárias até a maioria mudar de opinião. Ou então, simplesmente, a minoria concordante mas governante deita a opinião discordante da maioria para o lixo. Há ainda a modalidade portuguesa: mete-se a promessa da democracia na mesma gaveta onde jazem tralhas como o socialismo.

Os irlandeses chumbaram pela segunda vez um tratado europeu. Desta vez foi o Tratado porreiro, pá de Lisboa. No comum das democracias europeias já se aboliu a prática do referendo para questões complexas da governação em relação às quais o povinho não é entendido nem achado. Mas na Irlanda, por um imperativo constitucional – e só por isso – o povo é chamado a pronunciar-se em referendo sobre tratados internacionais. Com péssimos resultados para a democracia de pechisbeque que se cultiva nas instâncias europeias e em cada estado europeu. Fica agora ás escancaras porque razão o Governo português pura e simplesmente rasgou a promessa de submeter o Tratado a referendo.

Agora movem-se já as forças da Europa no sentido de promover novos referendos na Irlanda, tantos até que o povo, cansado, deixe de votar ou vote sim porque dizer que sim não faz doer a cabeça. Daqui a uns séculos, os historiadores vão designar com precisão os tempos que vivemos. Talvez qualquer coisa como pós-democracia. Mas nem ficarão para a História os nomes dos trapalhões que substituíram a democracia por esta coisa de plástico que substituiu o voto pelo poder oculto dos burocratas.


J.P.G.

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sexta-feira, 13 de junho de 2008

OS IRLANDESES DERAM CABO DA CARREIRA POLÍTICA DO SÓCRATES...





...e votaram "não", mesmo sabendo como o sucesso do Tratado era importante para a carreira de José Sócrates.
É o que dá fazer perguntas ao povo numa quinta-feira e dar os resultados na sexta-feira 13.

P.S.

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segunda-feira, 26 de maio de 2008

DESIGUALDADE & HIPOCRISIA, S.A.

Governado há três décadas por partidos com social no nome (Partido Socialista, Partido Social-Democrata, Centro Democrático e Social), Portugal é o país da UE onde é maior a desigualdade social.
O actual governo socialista desmentiu apressadamente a constatação, divulgada pela Comissão Europeia.
Que não, que isso foi em 2004; porque, em 2006, a Letónia bateu o vergonhoso recorde e já é uma sociedade ainda mais desigual que a portuguesa.
É neste quadro, em que não há ainda mais pobres porque os impostos servem para subsidiar muitas famílias, que o presidente da GALP deita para os impostos a culpa de os portugueses pagarem os combustíveis tão caros.
Ferreira de Oliveira conta que sejamos também os mais estúpidos da Europa e ignoremos que, antes dos impostos, Portugal já tem combustíveis muito mais caros que a média europeia (0,628 euros contra 0,601 no gasóleo e 0,545 contra 0,524 na gasolina).
O que, acrescentado ao facto de a GALP e mais petrolíferas pagarem, em Portugal, salários 50% inferiores à média da UE (11 euros/hora contra 25,1 na UE a 15 e 20,4 na UE a 27), explica os seus escandalosos lucros (1,2 milhões de euros/dia só a GALP).
Não somos apenas o país da Europa onde a desigualdade é maior, somos ainda aquele onde é maior a hipocrisia.

M.A.P.

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quinta-feira, 20 de março de 2008

ELOGIO DA INTELIGÊNCIA

Já se chegou longe de mais na barafunda política portuguesa. E a invocação constante dos méritos do dr. Cavaco como primeiro-ministro revela que o recurso flébil ao passado envolve, quase sempre, uma doentia nostalgia acrítica – como é o caso. No entanto, temos de reconhecer a incomodidade por ele nunca dissimulada relativamente à pessoa e à acção de Santana Lopes.

Só a lembrança de que esta criatura chegou a dirigir um Governo causa arrepios. E a actual evidência da sua ressurreição permite considerar que é capaz de haver vida para além da morte.

O descrédito da sociedade política provém das insistentes malfeitorias de sucessivos Executivos, apoiados por bancadas servis de parlamentares com os quais nos não identificamos, cujo trabalho ignoramos porque não sabemos, rigorosamente, o que estão ali a fazer.


No sábado, 16, p.p., Maria Filomena Mónica esteve na SIC-Notícias, e, com a veemência própria de quem estuda, reflecte e analisa, esclareceu o que está em causa nesta questão dos professores.

Leio, com interesse e proveito, o que esta mulher tem escrito, em jornais e livros.
O registo polémico, o ardor com que defende causas e a variedade dos seus interesses atraem a minha curiosidade.

Há, nela, um ímpeto complexo e uma procura de informações capitais que sobrelevam a superficialidade de muitos comentadores do óbvio.
A intervenção dela, naquele sábado, foi um admirável momento de instigação à nossa inteligência. E a intensidade latina fez esquecer aquele toque oxfordeano com que, ocasionalmente, sublinha o que diz e irrita quem a escuta.


Maria Filomena Mónica discorreu não só acerca da oposição entre a ministra da Educação e os docentes, mas também, e sobretudo, sobre o deplorável estado em que a democracia portuguesa se encontra.

Clarificou, com meia dúzia de frases claras, o que no-lo tem sido inculcado em nebulosa sintaxe. E não hesitou em colocar-se ao lado dos professores, sem deixar de revelar que Maria de Lurdes Rodrigues não estava a proceder bem.
Revelou que a ministra fora sua aluna; disse-o sem pesporrência ou soberba, apenas para colocar as coisas no seu sítio.

O problema não surge isolado do contexto mais alargado da sociedade portuguesa, notoriamente enferma – e cada vez mais.

Insistiu num fundamento irrefragável: o da urgência em se modificar a estrutura das leis eleitorais para se compreender a necessidade dos círculos uninominais.
Disse: não sabemos sequer o nome daqueles senhores que se sentam no hemiciclo, indicados pelos partidos, de origem desconhecida, grande parte dos anos calados e quedos, afinal de duvidosa representatividade.

Atrasados, um pouco perdidos numa Europa que nos não conhece ou nos observa espevitada pela curiosidade benevolente de quem se lhe depara uma coisa exótica, vamos existindo entre o provisório e a resignação, entre a ausência de significado identitário e a miséria que mascara a impotência. Maria Filomena Mónica adiantou que esta democracia não está submetida ao perigo de um golpe de Estado (militar, supõe-se) porque pertence à União Europeia.
Estamos a deixar de ser um país para nos transformarmos em provérbio.

A presença desta mulher na televisão resgatou-me da mediocridade impante e das cassetes ideológicas, oportunistas ou preguiçosas, com tenores cujas vozes não só nos aborrecem como nos deprimem.

Que adiantam ou atrasam as opiniões de António Barreto, José Miguel Júdice, Jorge Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira, António Lobo Xavier, Miguel Sousa Tavares, António Vitorino, Luís Delgado?, outros, muito mais outros, uma infinidade de outros, certamente estimáveis, mas que somente falam – e nada dizem porque nada têm de novo para dizer.
O azebre da rotina, nas televisões, nas rádios e nos jornais favorece a conformação e a desistência dos cidadãos. Sabemos, de antemão, aquilo que vão dizer.
Conhecemos os seus verdetes, as suas paixões, as suas inclinações e os seus pequenos ódios.
Dêem voz aos mais novos.


Na política como na literatura, na crítica cinematográfica como na de artes plásticas.
A imposição de um gosto pessoal sem se aplicar à análise o paradigma do criador.
A mediocridade atrai a mediocridade.
E a ignorância é atrevida, como se sabe.

Insinua-se, não se nomeia.
Diz-que-disse, não se afirma.

O debate é inexistente.
O vazio cultural é assustador.
Os autores que a Imprensa promove devolvem a mentalidade dos promotores.


Maria Filomena Mónica suscitou, certamente, em numerosos espectadores, amplos motivos de reflexão.
No fundo, ela sugeriu que pensássemos.

Num discurso a que nunca faltou o sal da indignação e do confronto, a base da informação e do conhecimento, a socióloga demonstrou a necessidade de uma outra ética e a simpatia por quem exerce uma crítica implacável e íntegra à sociedade do abandono.
A legitimidade do julgamento deve sustentar-se na interpelação que cada um deve fazer a si mesmo. E, claro!, na paixão do estudo, na força da vontade, na consciência moral da cidadania.
Esta mulher tem de ir mais vezes às televisões.
É inteligente e, ainda por cima, bonita.


APOSTILA – Completaram-se cinco anos sobre a reunião, nas Lajes, que constituiu o acertar das linhas para a invasão do Iraque. É uma data vergonhosa.

Não só por Durão Barroso ter servido de sorridente e obsequioso mordomo dos senhores da guerra (Bush, Blair e Aznar), como pelo que comporta de criminoso. Recuperam-se as imagens desse dia da infâmia, enquanto alguns apoiantes fervorosos do sinistro acto procuram esgueirar-se às cumplicidades antigas. Um pouco por todo o mundo, os protestos contra a invasão fizeram-se ouvir.
Nos Estados Unidos, assumiram aspectos impressionantes.
Aqui se regista
.



B.B.


Esta música, de Kadhim Al-Saher, o mais popular cantor iraquiano (a viver no exterior) e um dos mais conhecidos cantores árabes, foi composta para o documentário My Country, My Country.
É um hino ao sofrimento dos iraquianos.


Oh meu país, que possas acordar feliz.
Reune todos; cura as tuas feridas.
Anseio por ver um dia o teu sorriso,
quando é que a tristeza te vai deixar?
Sunitas, xiitas e curdos,
Recebe-os debaixo das tuas asas.
És o seu pai; és a sua mãe.
Mantem-te firme, não interessa como sopram os teus ventos
Jesus e o profeta Maomé disseram,
A unidade deles é a tua arma,
Amor, paz, inteligência e construção,
Que Deus no céu abençoe o teu sucesso, meu país.
Oh meu amado Iraque; oh Iraque;
Oh meu amado Iraque

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quarta-feira, 19 de março de 2008

O DINHEIRO DA INFÂMIA

São imagens deprimentes, recordadas pelas televisões. Bush sai do avião nas Lajes, acena, ignora-se para quem, gesto maquinal, sorriso levemente tolo. Aparece, face escancarada, comovida de efusão, o inevitável Durão Barroso. Bush, paternalmente, coloca-lhe a mão no ombro e estugam os passos. Depois, os abraços entre Blair, magnífico socialista; Aznar, piedoso membro da Direitona espanhola; e o Imperador impante. Durão indica o caminho para lá, e fica à porta de cá. Enquanto os outros conversam amenamente sobre mortos e feridos, danos colaterais e outras trivialidades, Durão Barroso, numa esplanada, toma uma bica.

Fez cinco anos que, em território português, três cavalheiros premeditaram a invasão do Iraque, cujas trágicas consequências adquiriram inaudita extensão. Para nosso escarmento, o então primeiro-ministro de Portugal desempenhou o papel de porteiro. O cortejo de misérias, ainda hoje ininterrupto, não recusou a tortura e a condenação à morte, justificadas como resposta ao terrorismo pela consciência doente de articulistas estipendiados e de políticos abjectos.

A concentração ética do que havia de mais fecundo na civilização ocidental foi depredada em pouco mais de uma hora. As vozes que se ergueram, condenando o previsível genocídio, foram abafadas pelo coro proclamador de uma falaciosa cruzada da liberdade contra o tirano. E, apesar de relatórios volumosos e de investigações prolongadas terem provado a inexistência de armas de destruição maciça, e de não haver nenhuma ligação entre o Iraque e a Al-Qaeda, a sentença estava ditada. Bush, reeleito através de uma fraude, desencadeava uma guerra com base em uma mentira. Depor Saddam foi o pretexto seguinte. Também adulterado. Os Estados Unidos detêm um rol numeroso de ditadores por eles sustentados e caucionados. E igual quantidade de sangrentos golpes contra democracias instituídas, e assassínios de dirigentes políticos que lhes são desafectos. Testemunhei alguns, em países da América Latina, e assisti à admiração funesta de quem havia traído os testamentos morais e aceitado os 30 dinheiros da infâmia. Não há transcendência no mal, assim como devemos condenar a sua banalização mediatizada. A sequência filmada do enforcamento de Saddam Hussein eleva a circunstância do horror à desumanização total dos sentimentos.

Qual o grau de sofrimento infligido a um povo que nos faz reavaliar a noção de vítima e de mártir, a fim de podermos julgar a dimensão infernal do algoz? Tudo é relativo; porém, nem tudo resulta de um mal-entendido. O carácter da invasão do Iraque resulta da premeditação de uma violência que, um pouco por todo o lado, vai alimentando a sede de domínio do Império.

B.B.

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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A VERDADE É COMO AZEITE

Uma organização não governamental (ONG) britânica acusa Portugal de “cumplicidade” no transporte de 728 prisioneiros para a prisão mantida pelos Estados Unidos na base de Guantanamo, em Cuba, entre 2002 e 2006.

A Reprieve, uma ONG que se dedica a prestar assistência jurídica a prisioneiros a quem tenha sido negada justiça, divulgou esta terça-feira um relatório intitulado “Viagem da Morte” que diz provar de forma “conclusiva que o território e espaço aéreo portugueses foram utilizados para transferir mais de 700 prisioneiros para serem torturados e detidos ilegalmente em Guantanamo Bay”.

Para chegar a esta conclusão, a ONG cruzou dados facultados pelas autoridades portugueses, informação do Departamento da Defesa dos EUA com as datas de chegada dos prisioneiros a Guantanamo e testemunhos de vários detidos. No relatório (ver relacionados no final deste texto), a Reprieve “detalha pela primeira vez os nomes destes prisioneiros e as suas histórias”

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

AS MONSTRUOSIDADES DO SISTEMA

O conceito de empresa pública e empresa privada não possui as disjunções que, habitualmente, lhes são atribuídas.
Em ambas os dinheiros são sempre públicos: ou através dos depósitos bancários, ou nos empréstimos contraídos.
Os dinheiros serão nossos, adquiridos com o nosso trabalho ou as nossas poupanças. Não constitui nenhuma novidade, o que digo. Depois, os malabarismos dos poderes fazem a soma e o resto.

As democracias articulam-se neste sistema. E como não há democracias perfeitas, os sistemas inclinam-se, obviamente, em benefício daqueles que estatuem os códigos, as leis e as regras. Significa que o sistema está repleto de monstruosidades.

O caso da extraordinária reforma do dr. Paulo Teixeira Pinto obedece a esse sistema.
Claro que brada aos céus, e Deus ficará certamente incomodado, que o dr. Teixeira Pinto, dedicado católico e ex-zeloso membro do Opus Dei, vá auferir, até ao remate final dos seus dias, uma reforma equivalente a 7 500 contos mensais.
Diz-se, também, que recebeu 10 milhões de euros, como indemnização, por ter saído do BCP.
Naturalmente, os céus não vão chorar, nem Deus dará sinais de inquietação por tal desconchavo.

Dizem-me que o dr. Paulo Teixeira Pinto, independentemente do ar tenebroso que ostenta, é homem de riso fácil e fina ironia, além de não confundir Kiri Te Kanawa com Madalena Iglésias, nem Thomas Bernhard com Lobo Antunes.
Até se diz que, contrariando as indicações do Índex Librorum Prohibitorum, sempre foi leitor entusiasta de autores apontados à execração.
Enfim: pessoa prevenida, reservada, cauta e perigosa.
Porquê?, perguntará o Dilecto.
Ora: um sujeito assim dotado representa ameaça para uma elite que faz gala da ignorância e exposição radiante das suas riquezas.
Não será, porventura, muito cristão aceitar tamanho maço de notas, quando há dois milhões de portugueses com fome, meio milhão de desempregados e o resto completamente desesperado. Isto dirá, ressentido e colérico, todo aquele que não recebeu, durante uma vida de trabalho, metade do que o dr. Teixeira Pinto receberá por ano.
Eu, não o direi.
Espero é que o dr. Teixeira Pinto não apareça nas televisões a conclamar a necessidade de sacrifícios – como o outro reformado com 3 600 contos mensais, por seis meses de função na Caixa Geral de Depósitos.

Independentemente dos conceitos de privado e de público há algo de imoral nestas reformas sumptuosas. E o próprio conhecimento desses aleijões separa, cada vez mais, o grupo de privilegiados detentor dos vários poderes, e aqueles que, por infortúnio ou desgraça de classe, servem de trampolim às escaladas triunfantes.
É evidente que o dr. Paulo Teixeira Pinto, a quem desejo longa e jubilosa vida, boas leituras e cuidadoso resguardo, não irá distribuir os 7 500 contos pelos pobres da freguesia em cuja igreja vai orar.
Porém, no seu íntimo, nos arcanos das suas reflexões, certamente admitirá que é dinheiro a mais aquele que auferiu e que auferirá – fora os trocos.

Dá para reflectir. E acrescente a essa reflexão o elucidativo texto de Maria João Gago, publicado neste jornal, na terça-feira, dia 22, p.p., sob o título: Reformas de ex-gestores do BCP superam custos da OPA ao BPI.

Sabe-se: este numerário escandaloso, oferecido a reformados de luxo, não é de agora.
Sobre o dr. Cavaco, actualmente com tanta indignação pelos acontecidos, impende, também, ou talvez sobretudo, parte substancial da responsabilidade pela subida surpreendente das somas destas aposentações. Quando primeiro-ministro, não as travou. E, igualmente, distribuiu sinecuras e tenças por muitos daqueles que o apoiaram.
Dir-se-á: ingenuidades de iniciado.
Direi: manhosice e astúcia.
Um homem sério não é, apenas, o que não põe a mão nos bolsos dos outros. É aquele, quase irrepreensível, que espalha, em seu redor, a ética do despojamento e da integridade, com a exigência do espírito de missão. Evidentemente, o dr. Cavaco é um homem sério, nesse sentido doméstico, porém nobre, da expressão. Mas repare-se na ascensão, por vezes meteórica, de quase todos aqueles da corte.

Creio que as advertências do dr. Cavaco não vá cair em saco roto.
Dois anos após a sua posse, torna-se cada vez mais notório que é ele quem dirige as linhas fundamentais da governação.
Hirto, grave, imperturbável, vai indicando erros na saúde, na educação, nos excessos da distribuição dos rendimentos.
Subrepticiamente critica o aumento do desemprego, a ausência de alternativas.
Sustentou o que era sustentável, segundo a lógica da sua ideologia.
Não esqueçamos que, apesar de tudo, o dr. Cavaco é conservador.
Apesar de tudo, porque sua mulher se afirmou de centro-esquerda.
Se as mulheres exercem influência sobre os homens (eu que o diga!), então bem-aventuradas sejam – e, neste particular, a dr.ª Maria Cavaco!

APOSTILA 1 – Na última sexta-feira, a RTP2 exibiu um documentário impressionante, Fantasmas de Abu Ghraib, cujo conteúdo indica, inequivocamente, George W. Bush e Donald Rumsfeld como sinistros criminosos de guerra.
As práticas recomendadas por aqueles dois cavalheiros, a fim de se obter informações, a todo o custo e a qualquer preço, de prisioneiros no Iraque – mas, também, em Guantanamo -, ferem os mais elementares direitos humanos e provocam a indignação e a cólera em todos os homens de bem. Além de terríveis depoimentos prestados por torturados, apresentam-se outros, pungentes, dos torturadores.
O documentário merecia um debate.
Sobretudo com a presença daqueles comentadores independentes que caucionaram a invasão naquele país e, até agora, não manifestaram o mínimo remorso nem apresentaram a menor desculpa.
A visão de Fantasmas de Abu Ghraib trouxe-me à memória o pobre do Durão Barroso, sorridente, venerador e obsequioso, a servir de mordomo, nos Açores, aos três senhores da guerra: Bush, Blair e Aznar.
Têm sido todos promovidos.
O Blair, agora, até se autopromoveu a católico. Mas não consta ter confessado os crimes de que é corresponsável.
Quanto ao Barroso, parece estar interessado em voltar a liderar o PSD.
Deus perdoar-lhes-á?
Já lhes perdoou?

APOSTILA 2 – O extraordinário ministro Correia de Campos afirmou, na terça-feira, a Mário Crespo, na SIC-Notícias, que estava a ferir os interesses das corporações.
Só se for as corporações de doentes.


B.B.

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

É ECONOMIA QUE TEMOS, PURA E DURA!



Este vai ser o ano do crescimento económico e do regresso do investimento
José Sócrates
21 de Janeiro de 2008

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