terça-feira, 17 de junho de 2008

ENXERGÃO DA HIPOCRISIA

A Europa, berço da democracia, transformou-se no enxergão da hipocrisia.

De acordo com esta alteração de leitos, que culmina muitos séculos de civilização, a democracia só é aceitável quando uma maioria concorda. Discordando, insiste-se quantas vezes foram necessárias até a maioria mudar de opinião. Ou então, simplesmente, a minoria concordante mas governante deita a opinião discordante da maioria para o lixo. Há ainda a modalidade portuguesa: mete-se a promessa da democracia na mesma gaveta onde jazem tralhas como o socialismo.

Os irlandeses chumbaram pela segunda vez um tratado europeu. Desta vez foi o Tratado porreiro, pá de Lisboa. No comum das democracias europeias já se aboliu a prática do referendo para questões complexas da governação em relação às quais o povinho não é entendido nem achado. Mas na Irlanda, por um imperativo constitucional – e só por isso – o povo é chamado a pronunciar-se em referendo sobre tratados internacionais. Com péssimos resultados para a democracia de pechisbeque que se cultiva nas instâncias europeias e em cada estado europeu. Fica agora ás escancaras porque razão o Governo português pura e simplesmente rasgou a promessa de submeter o Tratado a referendo.

Agora movem-se já as forças da Europa no sentido de promover novos referendos na Irlanda, tantos até que o povo, cansado, deixe de votar ou vote sim porque dizer que sim não faz doer a cabeça. Daqui a uns séculos, os historiadores vão designar com precisão os tempos que vivemos. Talvez qualquer coisa como pós-democracia. Mas nem ficarão para a História os nomes dos trapalhões que substituíram a democracia por esta coisa de plástico que substituiu o voto pelo poder oculto dos burocratas.


J.P.G.

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3 Comments:

At 17 de junho de 2008 às 15:51, Anonymous H.G. said...

O “não” da Irlanda ao Tratado de Lisboa permite retirar várias lições, a maioria das quais desagradáveis. Mais uma vez os cidadãos da União estão confrontados com a dura realidade da desigualdade entre os Estados.

Há uns que são “mais iguais que outros”. E Dublin reflecte ainda a dificuldade em encontrar uma via de legitimação democrática dos avanços da União sem se cair em referendos em que se acaba por votar em tudo menos no tema questionado.

Como se sabe, o “não” ao Tratado de Lisboa por parte dos irlandeses significa - ainda que teoricamente - o fim do acordo estabelecido em Outubro, sob a presidência portuguesa da União. Teoricamente, porque a Europa tem conseguido encontrar saídas para as oposições dos cidadãos europeus. Assim foi com o Tratado de Maastricht , ao qual se acrescentou um protocolo após o “não” dinamarquês, em que se consagrou a possibilidade de ficarem fora do euro caso assim o desejassem - uma espécie de opção de se manterem de fora como logo à partida negociou o Reino Unido. E assim foi com Nice, votado negativamente num primeiro referendo irlandês, para merecer o “sim” posteriormente, com o Tratado a adoptar algumas das preocupações do tigre celta.

O que se está agora a passar não é muito diferente do passado. A única diferença é talvez a corrida contra o tempo em que estão os líderes europeus. Há uma série de acontecimentos agendados que, para correrem como o planeado, precisam que as regras do novo Tratado entrem em vigor o mais tardar em Junho de 2009. Entre eles estão a adesão da Croácia à União Europeia e a escolha do novo presidente para a Comissão Europeia.

Mas vale a pena relembrar que o problema que actualmente se vive tem as suas raízes no “não” da França e da Holanda à proposta de uma Constituição para a Europa. E que parte do compasso de espera que se fez foi determinado pela necessidade de esperar pelas eleições francesas que decorreram em 2007. O acordo a que se chegou em Outubro, em Lisboa, foi em boa parte uma proposta do novo presidente Nicolas Sarkozy.

Não apenas por isso, mas também por causa disso, a reacção de boa parte dos líderes europeus ao “não” irlandês é lamentável. Sintetizando disseram: “o problema agora é vosso, resolvam-no”. O líder do governo irlandês Brien Cowen já se insurgiu, e bem, contra esta mensagem pouco solidária dos seus colegas europeus, alertando que o problema não é apenas da Irlanda.

A atitude dos responsáveis europeus é ainda mais chocante quanto está bem viva na memória de todos a reacção que existiu quando foi a França a dizer “não” a 29 de Maio de 2005 à proposta de Constituição, seguida pelos holandeses a 1 de Junho do mesmo ano. Os franceses e os holandeses ditaram, sem discussão, a morte de um documento que foi lançado pela Cimeira de Laeken em Dezembro de 2001. Foram quase quatro anos deitados para o lixo e mais dois anos para encontrar uma saída. Mas na altura ninguém apontou o dedo acusatório aos franceses e holandeses dizendo que tinham de ser eles a resolver o problema.

Não se está a defender que, tal como na altura, se deite para o lixo o Tratado de Lisboa. O triste e lamentável é ver a União Europeia, construída em princípios de apoio mútuo e de igualdade, ter cada vez menos vergonha de nos dizer que há uns mais iguais que outros.

 
At 17 de junho de 2008 às 21:22, Anonymous Anónimo said...

Na Holanda, também não

A majority of the Dutch is against the Treaty of Lisbon, according to a poll by Maurice de Hond. But the Netherlands is going ahead with its ratification. If the Netherlands were to hold a referendum now on the new EU treaty, 54 percent would vote against it, De Hond reported. He polled the views of the Dutch after the Irish rejected the treaty last week. A majority (56 percent) wants the Netherlands to also hold a referendum on the Treaty of Lisbon. It is an adaptation of the European Constitution, on which a referendum was held in the Netherlands in 2005 - which rejected it by 62 to 38 percent. (...) But there will be no referendum. The Netherlands is going ahead with the ratification of the Treaty of Lisbon, even though the Irish have rejected it, said Premier Jan Peter Balkenende.

In:www.nisnews.nl/public/170608_2.htm

 
At 17 de junho de 2008 às 21:23, Anonymous J.G. said...

Para os MNE's da UE, os irlandeses não são pessoas adultas e, muito menos, "normais". Há, pois, que "ajudá-los". Sarkozy até já se "ofereceu" para ir à Irlanda presumivelmente para fazer de explicador ou de pedopsiquiatra. A Europa viveu bem até agora sem o tratado de Lisboa ou uma "constituição". Passar atestados de retardados mentais aos irlandeses é que, de certeza, não conduz a lado algum. Para isso chegam aqueles que foram "poupados" pelo "iluminismo" reunido no Mosteiro dos Jerónimos a pronunciar-se através do voto directo, universal e secreto sobre o tratado. A nomenclatura insiste nos obscuros "caminhos de floresta". Bom proveito.

 

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