sábado, 6 de dezembro de 2008

VIVER HABITUALMENTE PELA PROPAGANDA

A ideia de que as pressões sobre jornalistas, ou meras sugestões, partem apenas da central de propaganda do Governo é incorrecta.
Uma boa parte desse trabalho é entregue a agências de comunicação.
Essas agências são empresas que vendem um produto: propaganda dos seus clientes.
Mas algumas não se limitam a encher os computadores dos jornalistas com informações já em forma de notícias, explicando o unicamente suposto lado bom da acção dos seus clientes.
Fazem mais que isso.
Organizam festas, inaugurações e lançamentos de Magalhães com o dinheiro dos clientes – ou dos contribuintes, caso o cliente seja o Estado.
Telefonam a sugerir aos jornalistas que façam perguntas incómodas em directo a políticos que considerem adversários dos seus clientes.
E fornecem às redacções e aos blogues amigos material e background favorável aos seus clientes e desfavorável aos outros.
Inundados de informações e, se necessário, de rumores e insinuações, os jornalistas ficam apenas com um lado da questão.
A enxurrada informativa facilmente inquina a sua possibilidade de averiguar mais completamente as questões, que entram na agenda mediática deformadas, e deformadas prosseguem até à sua substituição por outras. Para o poder político, as agência de comunicação têm a vantagem de diluir o destino do dinheiro destinado à sua propaganda.
Como um governo não pode comprar jornalistas, arranjou-se o processo de pagar a agências, sendo estas que usam o nosso dinheiro de formas que dificilmente viremos a conhecer.
Tudo isto é fado, tudo isto é lobbying, claro, um nome lindo para uma actividade que tantas vezes pode ser suja.
Sendo as agências de comunicação empresas que recebem dinheiro para inclinar a informação jornalística para o lado dos seus clientes, o jornalismo nunca deveria esquecer, ao receber-se um email, um comunicado ou um telefonema de uma agência de comunicação, que tudo isso foi pago pelo cliente que quer boa imprensa para si e amiúde má imprensa para os adversários.
As agências recebem do seu cliente quaisquer que sejam os métodos que usem (e que podem ser vedados legalmente a governantes e políticos).
Não são perseguidas judicialmente nem de qualquer outra forma.
Ficam sempre a ganhar, e bem.
Já o jornalismo é abusado e fica sempre a perder.
Ao seguir indicações das agências de comunicação, um jornalista pode facilmente fazer uma informação que é mais pobre ou mesmo enviesada.
E é ele quem dá a cara.
Quem passa por fazer fretes.
Se houver problemas, é ele que os enfrenta.
Entretanto, nas agências de propaganda, arrecadam-se lucros por vezes fabulosos e teoriza-se sobre a sua científica actividade das relações públicas. Este quadro é particularmente gravoso na actualidade, porque o Governo parece estar empenhado na acção de comunicação comprada no mercado das agências.
Estas chegam a substituir as funções dos assessores de imprensa dos ministérios e agem em conjunto com a central de propaganda.
Não tendo a oposição ou outras partes envolvidas nas notícias acesso aos mesmos orçamentos de propaganda para pagar a agências de comunicação concorrentes, o fluxo de eventos, powerpoints e de teleponto, de emails, comunicados e chamadas de telefones das agências para os jornalistas cria um grande desequilíbrio.
Isso depois nota-se, e muito, quando se lê os jornais, se ouve a rádio e se vê televisão – e até quando se lê blogues claramente ligados à central de propaganda.
Parece que estamos na Rússia: a informação vem quase toda do mesmo lado.
Criam-se ondas de opinião publicada que leva a maioria dos comentadores a criticar muitíssimo mais a oposição do que o poder executivo, o que é um padrão altamente atípico nos regimes democráticos.
À parte alguns aspectos da política da Educação, a governação pouco é criticada, quanto mais escrutinada.
Não há crise nem recessão.
Aliás, a crise é favorável ao Governo, o que, seguindo alguns comentadores, parece tornar a crise excelente para todos.
A política financeira está correcta, o Financial Times é que está enviesado.
É excelente que o Orçamento seja optimista em vez de realista.
Na Saúde agora está tudo ok: a ministra explica tudo muito bem, mesmo que tenha ocultado o défice ao Parlamento.
No Ambiente corre tudo bem.
Na Economia também.
Nos Negócios Estrangeiros também.
Na Defesa também.
Na Cultura também.
No Trabalho também.
Na Administração Interna está tudo bem outra vez.
O desemprego aumenta pouco e, vistas as coisas por outro prisma, até desce.
O desemprego entre os milhões que andam a recibos verdes não existe.
A emigração causada pela política económica é uma invenção.
A fuga do investimento estrangeiro não é importante.
O Governo faz os possíveis.
A oposição é toda desastrosa: a sociedade civil, os sindicatos, o PSD, o PCP, o CDS, excepto o BE, enquanto houver esperança de aliança com o PS.
Como queria Salazar, tenta-se levar os portugueses a viver habitualmente com este sufoco informativo.

Com a crise, as pessoas têm de entreter mais com o que é de borla, a televisão.
Mas mais audiência não significa mais receitas, se não crescer a publicidade e se os canais fizerem descontos patéticos nas suas próprias tabelas de preços, como vem sucedendo.
A crise no sector televisivo notou-se em primeiro lugar na SIC, porque já vinha caindo na audimetria.
Mas, apesar de terminar o ano em segundo, a sua passagem ao terceiro lugar nas audiências três meses consecutivos estabelece um novo padrão.
A SIC perde para a RTP1 em primeiro lugar por causa do futebol da Liga, um negócio milionário da RTP1 com o dinheiro dos contribuintes, de contornos obscuros e ainda por esclarecer.
Em segundo lugar, porque da RTP1 desapareceram programas do prime time de maior interesse e menor audiência, como os de António Barreto.
Em terceiro lugar, pela falta de comparência dos dois privados em áreas que não as telenovelas.
Em quarto lugar, porque o orçamento de programação da RTP depende das transferências que o Estado garante e não, como nos concorrentes, das receitas publicitárias: nos privados, sem dinheiro não há palhaços, enquanto à RTP continua a chegar o dinheiro dos palhaços.
A quebra de receitas obriga os privados a acabar com programas que não geram publicidade suficiente, caso, na SIC, do Momento da Verdade, da Roda da Sorte e, a partir de Junho, de Rebelde Way.
O Momento da Verdade acabou. E ainda bem — porque era mau e porque levou alguns a clamarem pelo regresso da censura.
Quanto à Roda da Sorte e a Rebelde Way, não conseguiram fazer frente respectivamente ao Preço Certo da RTP1 e aos Morangos com Açúcar da TVI, mais adequados aos públicos-alvos.
Para a queda da SIC poderá ter contribuído a reorientação da sua informação a favor do poder, o que não estava de acordo com a imagem que criou ao longo dos anos.
Nos últimos meses, a SIC e a SICN começaram a alinhar com os interesses informativos do Governo, a ponto de se verificar uns sistemáticos alinhamento e servidão nos momentos em que mais interessava ao poder.


Eduardo Cintra Torres

Etiquetas: , , , , , , , ,

terça-feira, 30 de setembro de 2008

CHARLATÃO



Numa ruela de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis de ouro a um tostão
enriquece o charlatão

No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f´rido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-se em quatro zonas
instalados em poltronas

P´rá rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca de alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra.


Sérgio Godinho
O Charlatão


K.

Etiquetas: , , , , , ,

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A FALTA DE MEMÓRIA OU DE ....?

Milhares de militantes socialistas romperam em aplausos quando, no sábado, em Guimarães, Sócrates garantiu que não permitirá que o valor das pensões dos portugueses seja jogado na bolsa e entregue aos caprichos dos mercados financeiros, como quer o PSD.

Até eu, que não sou militante socialista, aplaudi.
Mas, porque sou um tipo céptico, lembrei-me de ir verificar onde é que, afinal, o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) aplica o dinheiro da minha reforma.

E o que descobri no sítio da Segurança Social (http://www1. seg-social.pt/inst.asp? 05.11.05) assustou-me.


Saberá Sócrates que 20,67% das reservas do FEFSS (mais de 1 562 milhões de euros) se encontram aplicados em acções e entregues aos caprichos dos mercados financeiros e ao jogo da bolsa?
E lembrar-se-á que o seu secretário de Estado da Segurança Social anunciou no ano passado que iria confiar outros 600 milhões à gestão privada?

Só espero que os não tenha confiado ao BCP e ao seu prudentíssimo fundo Millennium Prudente, porque, se assim foi, parte deles acabou prudentemente na Lehman Brothers e já era


M.A.P.

Etiquetas: , , , ,

terça-feira, 17 de junho de 2008

ENXERGÃO DA HIPOCRISIA

A Europa, berço da democracia, transformou-se no enxergão da hipocrisia.

De acordo com esta alteração de leitos, que culmina muitos séculos de civilização, a democracia só é aceitável quando uma maioria concorda. Discordando, insiste-se quantas vezes foram necessárias até a maioria mudar de opinião. Ou então, simplesmente, a minoria concordante mas governante deita a opinião discordante da maioria para o lixo. Há ainda a modalidade portuguesa: mete-se a promessa da democracia na mesma gaveta onde jazem tralhas como o socialismo.

Os irlandeses chumbaram pela segunda vez um tratado europeu. Desta vez foi o Tratado porreiro, pá de Lisboa. No comum das democracias europeias já se aboliu a prática do referendo para questões complexas da governação em relação às quais o povinho não é entendido nem achado. Mas na Irlanda, por um imperativo constitucional – e só por isso – o povo é chamado a pronunciar-se em referendo sobre tratados internacionais. Com péssimos resultados para a democracia de pechisbeque que se cultiva nas instâncias europeias e em cada estado europeu. Fica agora ás escancaras porque razão o Governo português pura e simplesmente rasgou a promessa de submeter o Tratado a referendo.

Agora movem-se já as forças da Europa no sentido de promover novos referendos na Irlanda, tantos até que o povo, cansado, deixe de votar ou vote sim porque dizer que sim não faz doer a cabeça. Daqui a uns séculos, os historiadores vão designar com precisão os tempos que vivemos. Talvez qualquer coisa como pós-democracia. Mas nem ficarão para a História os nomes dos trapalhões que substituíram a democracia por esta coisa de plástico que substituiu o voto pelo poder oculto dos burocratas.


J.P.G.

Etiquetas: , , , , , , , ,

domingo, 18 de maio de 2008

A EXPORTAÇÃO DE DESEMPREGADOS

Lembro-me de Rosalía de Castro e do socialista Manuel Alegre, e da música de José Niza, nesta época de partida para outras Habanas e Paris, de viúvas de vivos e de gares. Dois painéis do políptico da política deles, na voz de Adriano Correia de Oliveira:



Adriano Correia de Oliveira, Cantar de Emigração




Adriano Correia de Oliveira, Trova do Vento que Passa

De redução da taxa de desemprego em redução, até à derrota final. Há mais de 26 meses conseutivos a descer, prolongando a tendência anunciada em Fevereiro de 2008, o número de desempregados inscritos em centros de emprego (veja-se, por exemplo, o Relatório Anual de 2007 do IEFP-Instituto de Emprego e Formação Profissional). E agora, quando o Produto Interno Bruto (PIB) se contrai de forma intervalada, por forma a não atingirmos a recessão técnica, e aparecem os -0,2% do primeiro trimestre de 2008, que constituem o pior resultado da Zona Euro, disfarçados debaixo dos 0,9% de crescimento homólogo, louva-se o escoamento dos desempregados.

Cada desempregado tende a compreender que a sua oportunidade de emprego está no estrangeiro. Emigra: reduz o desemprego em Portugal e aumenta a produção de outro país. Com a sorte governamental e a lucidez dos desempregados aflitos na hora do desespero, estes vão emigrando, limpando estatísticas num processo consentido - sem recurso à artimanha da formação profissional e aos programas ocupacionais -, numa política socratina de sucesso: a diminuição da taxa de desemprego através do aumento da taxa de exportação de desempregados



António B. Caldeira

Etiquetas: , , , ,

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

EM PONTE DE SÔR E EM TODO O PAÍS


Os CTT ficaram furiosos com a DECO.
Vão processá-la porque acham que houve tendência num inquérito que revela o mau funcionamento dos CTT.
Ficaram admirados ?
Não sei porquê.
Houve um esforço na mudança de imagem dos CTT há uns anos atrás. Sumiram as velhas estações, os saudosos logótipos.
Tudo mudou, até a côr vermelha com um requinte inglês.
Passou a haver um azul berrante, e os balcões mudaram.

Vou poucas vezes aos Correios.
Felizmente.
Quando lá tenho mesmo de ir apanho bichas infindáveis, uns empregados esforçados mas desactualizados.
Os Correios têm um horário inacreditável: fecham à hora do almoço !
E nem multibanco têm.
Como é possível Luís Nazaré não teres multibanco nos balcões dos teus Correios ? Depois aquilo tudo está demodé mas preocupam-se em vender edições de livros e tralha que nada tem a ver com a vocação de um serviço daqueles.

Os carteiros perderam a personalidade e o estilo.
Há montes de trocas de correspondência nas caixas e usam umas poluidoras motas, feias, sem imagem para a distribuição.
Tenho apanhado motoristas dos CTT que têm tudo menos de profissionais.
Vejam o comportamento profissional de motoristas de empresas como a DHL ou TNT.

Os Correios pararam no tempo.
Prestam um mau serviço.
Aquilo não é friendly.
A DECO tem razão.


L. Carvalho

Etiquetas: , , , , , ,

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O "LIFTING" NACIONAL

Com uma campanha de três milhões comprada a uma agência de publicidade, o Governo quer apagar - vem no texto de apresentação da campanha - a imagem de subdesenvolvimento, iliteracia, corrupção e recorrentes indicadores estatísticos de miséria de Portugal.
O ministro da Economia é um homme du monde e, para milagres, não vai ao Professor Karamba, vai a uma agência de publicidade.
Em vez do Abracadabra! do Professor, a agência pronuncia as palavras mágicas West Coast of Europe e o país transforma-se de um momento para o outro, em (ainda a crer no texto de apresentação da campanha) surf, qualidade de vida, Hollywood, criatividade, entretenimento, Los Angeles, S. Francisco, Las Vegas, Silicon Valley.


Para o lifting nacional ser total, a agência usou imaginosamente, em vez de Amália, uma foto de Marisa, em vez de Eusébio, Mourinho e Cristiano Ronaldo (só falta a nova basílica para a trilogia Fado, Futebol & Fátima ficar completa).
A agência quis ainda (não é invenção do cronista, quis mesmo!) mudar a bandeira, pois isso constituiria um evento mundial maior do que, coisa banal, acabar com a iliteracia, a corrupção e a miséria, mas o ministro hesitou.
A bandeira ficará para depois.
Para quando Tony Carreira acabar de escrever o novo hino.

M.A.P.

Etiquetas: , , , ,