sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

VIVER HABITUALMENTE PELA PROPAGANDA [ II ]

Combinação: Ana Jorge ficou furiosa por um jornalista ter questionado a sua colega da Educação
Ainda por cima é a RTP a fazer isso

A cena mostra até que ponto chegaram as relações entre a Comunicação Social e o Governo socialista.
A ministra da Saúde, Ana Jorge, foi ao Centro Nacional de Cultura apresentar o plano de combate à sida nas escolas.


Como tem sido hábito neste Governo, o acontecimento tinha a pompa e a circunstância do costume. Acabada a cerimónia, com os inevitáveis discursos da praxe, Ana Jorge pôs-se à disposição dos jornalistas para responder a mais algumas questões sobre aquela matéria. Acontece que Ana Jorge não estava sozinha. Estava acompanhada de Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação, que, como se sabe, tem andado na berlinda devido à guerra com os professores.

O jornalista da RTP aproveitou a ocasião e tentou naturalmente fazer uma pergunta a Maria de Lurdes Rodrigues sobre o assunto.
Foi então que Ana Jorge saltou indignada com o comportamento do jornalista: O quê? O senhor não sabe o que está combinado?
Que hoje só se pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda por cima é a RTP, a televisão pública, a fazer uma coisa destas. E, depois, logo à noite, não sai a reportagem.
Assim vão a informação e o poder neste País.

António Ribeiro Ferreira
Correio da Manhã.

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sábado, 6 de dezembro de 2008

VIVER HABITUALMENTE PELA PROPAGANDA

A ideia de que as pressões sobre jornalistas, ou meras sugestões, partem apenas da central de propaganda do Governo é incorrecta.
Uma boa parte desse trabalho é entregue a agências de comunicação.
Essas agências são empresas que vendem um produto: propaganda dos seus clientes.
Mas algumas não se limitam a encher os computadores dos jornalistas com informações já em forma de notícias, explicando o unicamente suposto lado bom da acção dos seus clientes.
Fazem mais que isso.
Organizam festas, inaugurações e lançamentos de Magalhães com o dinheiro dos clientes – ou dos contribuintes, caso o cliente seja o Estado.
Telefonam a sugerir aos jornalistas que façam perguntas incómodas em directo a políticos que considerem adversários dos seus clientes.
E fornecem às redacções e aos blogues amigos material e background favorável aos seus clientes e desfavorável aos outros.
Inundados de informações e, se necessário, de rumores e insinuações, os jornalistas ficam apenas com um lado da questão.
A enxurrada informativa facilmente inquina a sua possibilidade de averiguar mais completamente as questões, que entram na agenda mediática deformadas, e deformadas prosseguem até à sua substituição por outras. Para o poder político, as agência de comunicação têm a vantagem de diluir o destino do dinheiro destinado à sua propaganda.
Como um governo não pode comprar jornalistas, arranjou-se o processo de pagar a agências, sendo estas que usam o nosso dinheiro de formas que dificilmente viremos a conhecer.
Tudo isto é fado, tudo isto é lobbying, claro, um nome lindo para uma actividade que tantas vezes pode ser suja.
Sendo as agências de comunicação empresas que recebem dinheiro para inclinar a informação jornalística para o lado dos seus clientes, o jornalismo nunca deveria esquecer, ao receber-se um email, um comunicado ou um telefonema de uma agência de comunicação, que tudo isso foi pago pelo cliente que quer boa imprensa para si e amiúde má imprensa para os adversários.
As agências recebem do seu cliente quaisquer que sejam os métodos que usem (e que podem ser vedados legalmente a governantes e políticos).
Não são perseguidas judicialmente nem de qualquer outra forma.
Ficam sempre a ganhar, e bem.
Já o jornalismo é abusado e fica sempre a perder.
Ao seguir indicações das agências de comunicação, um jornalista pode facilmente fazer uma informação que é mais pobre ou mesmo enviesada.
E é ele quem dá a cara.
Quem passa por fazer fretes.
Se houver problemas, é ele que os enfrenta.
Entretanto, nas agências de propaganda, arrecadam-se lucros por vezes fabulosos e teoriza-se sobre a sua científica actividade das relações públicas. Este quadro é particularmente gravoso na actualidade, porque o Governo parece estar empenhado na acção de comunicação comprada no mercado das agências.
Estas chegam a substituir as funções dos assessores de imprensa dos ministérios e agem em conjunto com a central de propaganda.
Não tendo a oposição ou outras partes envolvidas nas notícias acesso aos mesmos orçamentos de propaganda para pagar a agências de comunicação concorrentes, o fluxo de eventos, powerpoints e de teleponto, de emails, comunicados e chamadas de telefones das agências para os jornalistas cria um grande desequilíbrio.
Isso depois nota-se, e muito, quando se lê os jornais, se ouve a rádio e se vê televisão – e até quando se lê blogues claramente ligados à central de propaganda.
Parece que estamos na Rússia: a informação vem quase toda do mesmo lado.
Criam-se ondas de opinião publicada que leva a maioria dos comentadores a criticar muitíssimo mais a oposição do que o poder executivo, o que é um padrão altamente atípico nos regimes democráticos.
À parte alguns aspectos da política da Educação, a governação pouco é criticada, quanto mais escrutinada.
Não há crise nem recessão.
Aliás, a crise é favorável ao Governo, o que, seguindo alguns comentadores, parece tornar a crise excelente para todos.
A política financeira está correcta, o Financial Times é que está enviesado.
É excelente que o Orçamento seja optimista em vez de realista.
Na Saúde agora está tudo ok: a ministra explica tudo muito bem, mesmo que tenha ocultado o défice ao Parlamento.
No Ambiente corre tudo bem.
Na Economia também.
Nos Negócios Estrangeiros também.
Na Defesa também.
Na Cultura também.
No Trabalho também.
Na Administração Interna está tudo bem outra vez.
O desemprego aumenta pouco e, vistas as coisas por outro prisma, até desce.
O desemprego entre os milhões que andam a recibos verdes não existe.
A emigração causada pela política económica é uma invenção.
A fuga do investimento estrangeiro não é importante.
O Governo faz os possíveis.
A oposição é toda desastrosa: a sociedade civil, os sindicatos, o PSD, o PCP, o CDS, excepto o BE, enquanto houver esperança de aliança com o PS.
Como queria Salazar, tenta-se levar os portugueses a viver habitualmente com este sufoco informativo.

Com a crise, as pessoas têm de entreter mais com o que é de borla, a televisão.
Mas mais audiência não significa mais receitas, se não crescer a publicidade e se os canais fizerem descontos patéticos nas suas próprias tabelas de preços, como vem sucedendo.
A crise no sector televisivo notou-se em primeiro lugar na SIC, porque já vinha caindo na audimetria.
Mas, apesar de terminar o ano em segundo, a sua passagem ao terceiro lugar nas audiências três meses consecutivos estabelece um novo padrão.
A SIC perde para a RTP1 em primeiro lugar por causa do futebol da Liga, um negócio milionário da RTP1 com o dinheiro dos contribuintes, de contornos obscuros e ainda por esclarecer.
Em segundo lugar, porque da RTP1 desapareceram programas do prime time de maior interesse e menor audiência, como os de António Barreto.
Em terceiro lugar, pela falta de comparência dos dois privados em áreas que não as telenovelas.
Em quarto lugar, porque o orçamento de programação da RTP depende das transferências que o Estado garante e não, como nos concorrentes, das receitas publicitárias: nos privados, sem dinheiro não há palhaços, enquanto à RTP continua a chegar o dinheiro dos palhaços.
A quebra de receitas obriga os privados a acabar com programas que não geram publicidade suficiente, caso, na SIC, do Momento da Verdade, da Roda da Sorte e, a partir de Junho, de Rebelde Way.
O Momento da Verdade acabou. E ainda bem — porque era mau e porque levou alguns a clamarem pelo regresso da censura.
Quanto à Roda da Sorte e a Rebelde Way, não conseguiram fazer frente respectivamente ao Preço Certo da RTP1 e aos Morangos com Açúcar da TVI, mais adequados aos públicos-alvos.
Para a queda da SIC poderá ter contribuído a reorientação da sua informação a favor do poder, o que não estava de acordo com a imagem que criou ao longo dos anos.
Nos últimos meses, a SIC e a SICN começaram a alinhar com os interesses informativos do Governo, a ponto de se verificar uns sistemáticos alinhamento e servidão nos momentos em que mais interessava ao poder.


Eduardo Cintra Torres

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sexta-feira, 5 de novembro de 2004

MAIS DO MESMO - TRÊS NOTAS SOBRE COMUNICAÇÃO SOCIAL



1.Sócrates disse que nunca passou pela cabeça de ninguém que a compra da Lusomundo pela PT poderia levar à instrumentalização dos órgãos de informação do grupo. Tretas. Passou, pelo menos, pela minha cabeça.
Escrevi isto em Dezembro de 2000, imediatamente a seguir à operação:

"A compra da Lusomundo pela PT e a hipótese de se concretizar idêntica compra da Media Capital, junta na PT um dos grupos mais poderosos de comunicação social em Portugal. Com um mesmo dono ficarão entre outros o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, a TSF, portais do Internet e eventualmente a TVI, o Diário Económico, e vários outros jornais regionais e rádios.
A justificação oficial dessa compra está na necessidade de unir "conteúdos" com plataformas de telecomunicações, uma tendência característica dos "negócios" na área estratégica da nova economia.
Tudo isto parece idêntico ao que se passa nos outros países e o "negócio" fundamentado em tendências correntes da economia. Mas esta inocente análise, tão conveniente ao poder, esconde uma perigosa consequência para a qualidade da nossa democracia.O que se passa na realidade é a re nacionalização da comunicação social em Portugal pelo estado, feita por um governo socialista que tem uma longa tradição de defender uma comunicação social do estado, e com idêntico historial de se opor à privatização.
Nenhuma privatização de qualquer órgão de comunicação social do estado foi de iniciativa do PS, (…)
Hoje tal desejo estatizante foi conseguido por detrás da capa dos novos "negócios" e será provavelmente esta a via que condicionará a evolução da RTP, que será parcialmente (e falsamente) "privatizada", colocando nas mãos disfarçadas do Governo, através das mãos descobertas dos gestores por ele escolhidos, decisões fundamentais para a liberdade de expressão e o debate contraditório em Portugal.
Todo este processo está a desenvolver se no meio da habitual indiferença da opinião pública e incompreensíveis hesitações da oposição.Alguns directores de órgãos de comunicação social do grupo Lusomundo, entenderam escrever editoriais ou dizerem que o "negócio" não impedia a liberdade editorial que eles próprios garantiam nos órgãos de comunicação.
Não contesto a genuinidade das suas convicções de que assim seja, mas acho que, estão a ser pouco cautelosos e a desprevenir os seus leitores e ouvintes, e em geral os portugueses quanto às consequências do que se está a passar.
De facto, como jornalistas, com responsabilidades de direcção, eles devem ser os primeiros a saber que justificar o que se passou como se fosse "apenas" um "bom negócio" nestes tempos de nova economia ilude o essencial: o papel do governo no "negócio" e a dependência do governo da PT através da chamada "golden share".
Eles vieram garantir com grande ingenuidade, que nenhum comando político será possível, visto que as opções do "negócio" não terão reflexos editoriais e, que se tratava por parte da PT, apenas de comprar "conteúdos", para potenciar a sua plataforma de distribuição.
A própria justificação deste "negócio", feita desta forma acrítica, é já preocupante.O que se passa é que nesta aquisição da PT há questões políticas incontornáveis e que devem ser descritas com toda a clareza para se perceber bem: quem manda na PT é o governo, e dificilmente alguém imagina a decisão da compra da Lusomundo (e eventualmente de outras compras a haver) sem que tal passasse por uma decisão do governo.
Tem sido política do tandem, Primeiro Ministro Guterres, Ministro Pina Moura, privatizar na aparência, e reforçar o controle do governo através de golden shares, do exercício da tutela e da nomeação de gestores de confiança política, e da interferência directa do governo em actos normais de gestão. Isto coloca a decisão da PT numa luz diversa da de um mero "negócio". A PT não é uma empresa privada qualquer é um instrumento "estratégico" do governo e do poder socialista e já não é de agora que é assim.Dito com a brutalidade das grandes verdades, a cadeia de comando vai do Ministro Jorge Coelho, para o Presidente do Conselho de Administração Murteira Nabo e, quer um quer outro, não são pessoas vulgares mas socialistas com funções politizadas: o Ministro Coelho é o que se sabe e o Eng. Murteira Nabo só não foi ministro, pela razão que também se sabe. Com a golden share do estado, as decisões últimas sobre qualquer grande negócio da PT vão a Conselho de Ministros, formal ou informal, e é por isso que quando eles estão a mexer nos "conteúdos", mesmo que em nome dos "negócios", se possa suscitar necessariamente uma questão política séria de liberdade e pluralismo. E se não se suscita, então a coisa é ainda mais séria, porque se está a jogar ou no amorfismo ou, pior ainda, em obscuros compromissos de que muitas vezes a própria oposição não está isenta, em empresas geridas pelo método do "bloco central".
Na verdade, o que se está a passar é que sob a autoridade última do governo socialista, se encontra hoje o mais poderoso grupo da comunicação social existente em Portugal e a acrescer exponencialmente, somando se aos canais da televisão e da rádio pública eles também cada vez mais governamentalizados. Este grupo, que tem aliás todos os tiques de um monopólio de estado, agora possui "conteúdos".
A palavra "conteúdos", é um eufemismo enganador, que também tem sido usado com uma displicência inadmissível pelos defensores do "negócio". Esses "conteúdos" são o jornal que nós lemos, a televisão que vemos, a rádio que ouvimos. Antes era jornalismo, agora é um "conteúdo".Já ninguém é suficientemente ingénuo para pensar que a interferência do governo na comunicação social se faz por telefonemas directos dos ministros, embora ainda os haja. As formas são mais sofisticadas, uma das quais são as "reestruturações" em nome da eficácia dos "negócios" que condicionam carreiras, postos, compromissos e o destino de jornais e rádios. Também aí há alguém a premiar quem se porta bem e quem se porta mal e esse alguém está no governo, ou depende do governo."
A verdade é que na altura, PS, PSD, PP e PCP, e os jornalistas não ligaram nada ao que estava acontecer.
2. As declarações de Fernando Lima na AACS são das mais importantes lá proferidas, porque acrescentaram factos (sobre a sua demissão) e uma interpretação que chama a atenção para um aspecto que tem permanecido obscuro em todo este processo: o papel das empresas de comunicação e relações públicas, constituídas por jornalistas, e que competem entre si pelos negócios que a “central de informação”, muitos ministérios e gabinetes se preparam para fazer (ou já fizeram). É uma área obscura onde promiscuidades de todo o tipo abundam.
3. Os noticiários da TVI com Manuela Moura Guedes são um insuportável comício pessoal, ao melhor estilo do ressentimento de café e do populismo invejoso, a perfeita sobrevivência pública do estilo do PP de Monteiro-Portas, de que a locutora foi (e é?) membro. O mundo é simples: Manuela Moura Guedes é um poço de virtudes, e, a partir de um metro da sua figura, são todos ladrões, crápulas, corruptos e incompetentes.
José Pacheco Pereira

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