quinta-feira, 20 de março de 2008

ELOGIO DA INTELIGÊNCIA

Já se chegou longe de mais na barafunda política portuguesa. E a invocação constante dos méritos do dr. Cavaco como primeiro-ministro revela que o recurso flébil ao passado envolve, quase sempre, uma doentia nostalgia acrítica – como é o caso. No entanto, temos de reconhecer a incomodidade por ele nunca dissimulada relativamente à pessoa e à acção de Santana Lopes.

Só a lembrança de que esta criatura chegou a dirigir um Governo causa arrepios. E a actual evidência da sua ressurreição permite considerar que é capaz de haver vida para além da morte.

O descrédito da sociedade política provém das insistentes malfeitorias de sucessivos Executivos, apoiados por bancadas servis de parlamentares com os quais nos não identificamos, cujo trabalho ignoramos porque não sabemos, rigorosamente, o que estão ali a fazer.


No sábado, 16, p.p., Maria Filomena Mónica esteve na SIC-Notícias, e, com a veemência própria de quem estuda, reflecte e analisa, esclareceu o que está em causa nesta questão dos professores.

Leio, com interesse e proveito, o que esta mulher tem escrito, em jornais e livros.
O registo polémico, o ardor com que defende causas e a variedade dos seus interesses atraem a minha curiosidade.

Há, nela, um ímpeto complexo e uma procura de informações capitais que sobrelevam a superficialidade de muitos comentadores do óbvio.
A intervenção dela, naquele sábado, foi um admirável momento de instigação à nossa inteligência. E a intensidade latina fez esquecer aquele toque oxfordeano com que, ocasionalmente, sublinha o que diz e irrita quem a escuta.


Maria Filomena Mónica discorreu não só acerca da oposição entre a ministra da Educação e os docentes, mas também, e sobretudo, sobre o deplorável estado em que a democracia portuguesa se encontra.

Clarificou, com meia dúzia de frases claras, o que no-lo tem sido inculcado em nebulosa sintaxe. E não hesitou em colocar-se ao lado dos professores, sem deixar de revelar que Maria de Lurdes Rodrigues não estava a proceder bem.
Revelou que a ministra fora sua aluna; disse-o sem pesporrência ou soberba, apenas para colocar as coisas no seu sítio.

O problema não surge isolado do contexto mais alargado da sociedade portuguesa, notoriamente enferma – e cada vez mais.

Insistiu num fundamento irrefragável: o da urgência em se modificar a estrutura das leis eleitorais para se compreender a necessidade dos círculos uninominais.
Disse: não sabemos sequer o nome daqueles senhores que se sentam no hemiciclo, indicados pelos partidos, de origem desconhecida, grande parte dos anos calados e quedos, afinal de duvidosa representatividade.

Atrasados, um pouco perdidos numa Europa que nos não conhece ou nos observa espevitada pela curiosidade benevolente de quem se lhe depara uma coisa exótica, vamos existindo entre o provisório e a resignação, entre a ausência de significado identitário e a miséria que mascara a impotência. Maria Filomena Mónica adiantou que esta democracia não está submetida ao perigo de um golpe de Estado (militar, supõe-se) porque pertence à União Europeia.
Estamos a deixar de ser um país para nos transformarmos em provérbio.

A presença desta mulher na televisão resgatou-me da mediocridade impante e das cassetes ideológicas, oportunistas ou preguiçosas, com tenores cujas vozes não só nos aborrecem como nos deprimem.

Que adiantam ou atrasam as opiniões de António Barreto, José Miguel Júdice, Jorge Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira, António Lobo Xavier, Miguel Sousa Tavares, António Vitorino, Luís Delgado?, outros, muito mais outros, uma infinidade de outros, certamente estimáveis, mas que somente falam – e nada dizem porque nada têm de novo para dizer.
O azebre da rotina, nas televisões, nas rádios e nos jornais favorece a conformação e a desistência dos cidadãos. Sabemos, de antemão, aquilo que vão dizer.
Conhecemos os seus verdetes, as suas paixões, as suas inclinações e os seus pequenos ódios.
Dêem voz aos mais novos.


Na política como na literatura, na crítica cinematográfica como na de artes plásticas.
A imposição de um gosto pessoal sem se aplicar à análise o paradigma do criador.
A mediocridade atrai a mediocridade.
E a ignorância é atrevida, como se sabe.

Insinua-se, não se nomeia.
Diz-que-disse, não se afirma.

O debate é inexistente.
O vazio cultural é assustador.
Os autores que a Imprensa promove devolvem a mentalidade dos promotores.


Maria Filomena Mónica suscitou, certamente, em numerosos espectadores, amplos motivos de reflexão.
No fundo, ela sugeriu que pensássemos.

Num discurso a que nunca faltou o sal da indignação e do confronto, a base da informação e do conhecimento, a socióloga demonstrou a necessidade de uma outra ética e a simpatia por quem exerce uma crítica implacável e íntegra à sociedade do abandono.
A legitimidade do julgamento deve sustentar-se na interpelação que cada um deve fazer a si mesmo. E, claro!, na paixão do estudo, na força da vontade, na consciência moral da cidadania.
Esta mulher tem de ir mais vezes às televisões.
É inteligente e, ainda por cima, bonita.


APOSTILA – Completaram-se cinco anos sobre a reunião, nas Lajes, que constituiu o acertar das linhas para a invasão do Iraque. É uma data vergonhosa.

Não só por Durão Barroso ter servido de sorridente e obsequioso mordomo dos senhores da guerra (Bush, Blair e Aznar), como pelo que comporta de criminoso. Recuperam-se as imagens desse dia da infâmia, enquanto alguns apoiantes fervorosos do sinistro acto procuram esgueirar-se às cumplicidades antigas. Um pouco por todo o mundo, os protestos contra a invasão fizeram-se ouvir.
Nos Estados Unidos, assumiram aspectos impressionantes.
Aqui se regista
.



B.B.


Esta música, de Kadhim Al-Saher, o mais popular cantor iraquiano (a viver no exterior) e um dos mais conhecidos cantores árabes, foi composta para o documentário My Country, My Country.
É um hino ao sofrimento dos iraquianos.


Oh meu país, que possas acordar feliz.
Reune todos; cura as tuas feridas.
Anseio por ver um dia o teu sorriso,
quando é que a tristeza te vai deixar?
Sunitas, xiitas e curdos,
Recebe-os debaixo das tuas asas.
És o seu pai; és a sua mãe.
Mantem-te firme, não interessa como sopram os teus ventos
Jesus e o profeta Maomé disseram,
A unidade deles é a tua arma,
Amor, paz, inteligência e construção,
Que Deus no céu abençoe o teu sucesso, meu país.
Oh meu amado Iraque; oh Iraque;
Oh meu amado Iraque

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2 Comments:

At 20 de março de 2008 às 22:20, Anonymous José M. Martins said...

Faz 5 anos que os EUA invadiram o Iraque.

A invasão, criminosa, destruiu parte do Iraque. Invasão criminosa porque contra o Direito Internacional e porque nada mais foi que duas coisas: Uma birra de George W. Bush e um assalto aos poços petroliferos do Iraque.

Saddan Hussein foi um monstro criado pelos EUA, alimentado pelos EUA, que lhe deram força para conseguirem uma guerra regional contra o Irão. Os EUA perderam a influência no Irão com a queda do Xá Reza Palevi. Fomentaram os ancestrais ódios entre Chiitas e Sunitas e encontraram em Saddam Hussein o espírito bélico, para destruirem o Irão.

Depois de uma guerra de muitos anos, com centenas de milhares de mortos, de parte a parte, na qual foram usadas armas quimicas , fornecidas pelos EUA, estes dominaram o Iraque depois de o derrotarem na 1ª Guerra do Golfo.

Os EUA com George W. Bush inventaram a existência de armas de destruição em massa , que sabiam não existirem, com base em relatórios, FALSOS, que os EUA artificialmente criaram, e invadiram o Iraque.

Centenas de milhares de mortos ,uma civilização ancestral destruída. Desgraças de todo o género.

E, os EUA acabam por dar mais força ao Irão, que já domina o Iraque!!!

Assim vai o Mundo, dominado por pessoas cruéis, para quem a pessoa humana é um número e nada mais.

Lamento a intervenção do Governo português, da altura, com Durão Barroso. Mas compreendo que para Portugal , a partir do momento em que Espanha apoiava, nenhum outro caminho podia ter senão apoiar, por questões de geopolíica na Peninsula Ibérica.

A Durão Barroso valeu a Presidência da Comissão Europeia.

A Portugal fica o travo amargo de contribuir para centenas de milhares de mortos para a destruição do Museu de Bagdade , de um pais, e ,para o nascimento de mais uma potência nuclear o Irão.

Uma infelicidade nunca vem só!

 
At 20 de março de 2008 às 22:24, Anonymous P.S. said...

Para quem acredita nessas coisas, quis o acaso do destino que os cinco anos da invasão e ocupação do Iraque coincidissem com o início de uma gigantesca recessão económica nos EUA. Para todos os outros, talvez valha a pena lembrar que os dois acontecimentos estão longe de estar desligados. Em primeiro lugar pelos custos astronómicos da ocupação do Iraque (o Congresso dos EUA já fala em 1 ou 2 milhões de milhões de dólares), com as consequências monetárias que daí resultaram. Mas também, e de forma nada indirecta, com o decisivo impacto da guerra na escalada do preço do petróleo.

Para quem anda esquecido, um fenómeno curiosamente recorrente por estes dias, talvez valha a pena recordar que os opositores da intervenção militar foram os primeiros a alertar para a subida do preço do petróleo causada pela instabilidade geopolítica na região onde se encontram quase 2/3 das suas reservas. Quando Fernando Rosas escreveu um artigo avançando a possibilidade do crude chegar aos 80 dólares por barril foi um fartote. Durante semanas, os grandes “especialistas” económicos da blogosfera liberal juntaram-se em peso para ridicularizar o Fernando Rosas, o Bloco e os opositores da guerra.

Lembrei-me desse momento ao ler uma notícia - destacada hoje pelo João Miranda para elogiar pela enésima vez o carácter premonitório e omnisciente do mercado -, onde se pode ler que, “desde o final de 2003, o número de contratos futuros de petróleo subiu 364 por cento enquanto o consumo real subiu oito por cento”. O João Miranda não refere, como é normal, mas foi no final de 2003 que se tornou perfeitamente claro que não existia nenhuma solução fácil para o Iraque e que, nem com a colossal fortuna que os EUA estão a enterrar no deserto, se podia garantir a estabilidade da região. O resto é história... e o petróleo que já vai nos 110 dólares.

 

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