terça-feira, 7 de julho de 2009

CANTO DO "HOOLIGAN"


Ao ver a transmissão em directo da chegada de Ronaldo ao estádio do Real Madrid pudemos aprofundar o receio de que as sociedades avançadas estão empenhadamente a caminho da imbecilização. A veneração dos ídolos criada pelo marketing e pela devoção futebolística justifica tudo, até honras de directos que os revelam à saída do hotel, os mostram na simples qualidade de passageiros de um automóvel descapotável, os transformam em Deuses do novo Olimpo dos tempos modernos que são os estádios de futebol.

O dia de hoje é um manifesto da capacidade do Real Madrid em vender a sua imagem ao mundo, mas é também a prova de acefalia das televisões que vêem nesse negócio uma forma de lucrarem à custa da alarve disponibilidade das multidões para perderem minutos, horas, das suas vidas a seguir de perto qualquer banalidade quotidiana da vida de um ídolo.

Já ninguém pensa em remunerar com fama os cientistas, ou os músicos, até num país, como o nosso, que tem entre as suas poucas glórias o facto de eleger um poeta como símbolo do seu dia nacional. A vida não se faz apenas de altos desígnios, da grandeza da ciência ou da genialidade das artes. A vida faz-se também com paixões prosaicas como as que os grandes dribles ou remates de Ronaldo proporcionam. Mas uma coisa é exaltá-lo no seu palco, no relvado onde exprime o seu talento. Outra é pegar nesse talento para o transformar numa espécie de Deus vivo cujos gestos mais ínfimos têm de merecer a nossa atenção.

O que hoje se viu na multiplicação de directos de Ronaldo é o aproveitamento de um génio para chegar a uma criação artificial que rende audiências e, por causalidade, dinheiro. Muito dinheiro. Nada disto seria censurável se o peso do exagero não convertesse o desfile num episódio que suscita asco e lamento.

Ronaldo não tem culpa, nem o Real Madrid, ou, com alguma complacência, as televisões. Quem tem, afinal, culpa é a cultura dominante que cada vez mais relativiza o essencial e se deleita com a imbecilidade. Oitenta mil em Madrid para ver Ronaldo no Santiago Bernabéu e mais uns milhões a seguir pela TV o seu percurso até à sacralização? Pobre Espanha, pobres de nós.



M.C.

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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A DECOMPOSIÇÃO DA ESQUERDA

No ano 2000 havia, na Europa, onze governos socialistas ou sociais-democratas. Actualmente, subsistem três. Tomo as definições socialistas e sociais-democratas com a prudência suspeitosa que elas exigem. Historicamente, têm perdido a matriz original e os seus dirigentes, na esmagadora maioria dos casos, envolvem-se em escândalos, forjam alianças com as forças políticas mais tenebrosas, tripudiam sobre a ideologia, mandaram as convicções às malvas.


Nunca é de mais repetir estas verdades.

A geração socialista que tomou o poder a partir da década de 80 é uma desgraça. Mesmo Zapatero, apontado como exemplo quase único, tem dias. Em Portugal, a prática do PS é o que se sabe. E este Governo só não é escorraçado, porque o adversário directo, pouco diz do que pretende fazer, e esse pouco é assustador. À Esquerda, o PCP sobe, como indicam as sondagens, advertiram os politólogos e impõe o eleitorado. A intensificação da violência económica resulta da perplexidade social e da abdicação política em favor do mercado.

Na Europa, os meios populares, base de apoio dos partidos de Esquerda, manifestam uma inquietada desconfiança. De um modo quase generalizado, os partidos comunistas são uma reminiscência, com escasso poder e reduzida influência. A ascensão da Direita dimana dessa absoluta incapacidade de os socialistas em encontrar soluções. É uma deriva que se arrasta há quase três décadas. E a queda dos governos europeus, assinalados como de Esquerda, colocou, por exemplo, no poder da União Europeia as forças mais conservadoras e, até, reaccionárias. A Europa não possui resposta, como um todo, para as crises que se desenvolvem e multiplicam, porque não previu as modificações, se regozijou com os prestígios do mercado e orientou-se para a acção única do pensamento único.

Jean-Gabriel Fredet, no último Nouvel Observateur, esclarecia que a crise da União Europeia podia ser entendida como o fim de um modelo social de que a Esquerda quisera dotar a Europa, esquecendo-se, ou ignorando que não há associação possível entre as abruptas leis do mercado e as imperiosas necessidades redistributivas.

A verdade é que os socialistas não estão nada interessados em reflectir sobre a mudança do mundo. São, apenas, os servis gestores do capitalismo mais selvático. Naturalmente, esta situação não pode continuar. E dá-me imensa vontade de rir os comentários de preopinantes portugueses, sobre as virtudes (inclusive morais) do neoliberalismo, apontando a infausta experiência de Tony Blair como exemplo de pragmatismo. O pragmatismo é a expressão que tem encoberto as traições mais vis, e permitido a abundante criação de um grupo de estipendiados. A vergonha e a indignidade chegaram, já há anos, aos jornais, às rádios e às televisões.

Há dias, conversando com um dos meus amigos mais estimados, o grande jornalista João Paulo Guerra, concluímos que o vazio ético, a capitulação profissional que lavra, como endemia, no nosso país, são reflexos da decadência da Esquerda e desse sentido individualista de tratar da vidinha que se tornou numa carta-de-alforria para a sobrevivência. Anotámos os nomes daqueles que passam de directores de jornais para directores de jornais e daqui para a direcção de agências noticiosas, para assessorias, para secretariados. A maioria não sabe escrever uma notícia, jamais assinou uma reportagem, confunde crónica com artigo e editorial com comentário, veste-se de igual modo, move-se com ar grave e semblante marcado. Afinal, são, apenas, sapatos Gucci, fatos Massimo Dutti, e cabelo cheio de gel. Alguns, cuja mediocridade é pavorosa, treparam à direcção de importantes diários. O resultado foi catastrófico.

A assunção desta mediocridade, que faz jornalismo através de telefonemas e de nomes em agendas, devolve a imagem da actualidade portuguesa. A classe política que nos dirige é doentiamente insignificante: nem sequer sofrível. Olhe o Dilecto para aquelas caras, tenha a paciência de os escutar, de os ler, de assistir a esse circo de comentadores de televisão, sempre os mesmos ou tocadores do mesmo solfejo. Aqueles que se insurgem são apodados de ter mau feitio, o modo de se assinalar, negativamente, a grandeza de carácter. As perseguições a jornalistas livres, que se não conformavam com a situação, criada a partir da década de 80, foi terrível. Grandes profissionais de Imprensa foram para o desemprego ou abandonaram a profissão, sem saídas para desempenhar o seu trabalho, as suas funções, a sua vocação.

A educação cívica, que compreende a aceitação das vozes discordantes, foi dizimada por uma casta de oportunistas. E, quase insistentemente, estimulada pelos partidos que se dizem democráticos.
O processo de decomposição da Esquerda, mas, também, da Direita, esta Direita é risível, pela soberba e espantosa iliteracia, invalidam qualquer possibilidade de restauração.
Mas renovar, como e com quem?
Descobrir gente honrada e competente no interior dos partidos?
O busílis está aí.
Porque os partidos converteram-se em agências de empregos, desprovidos de ideais morais, com clientelas domesticadas porque as sinecuras e o nepotismo são compensadores.

B.B.

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quinta-feira, 20 de março de 2008

ELOGIO DA INTELIGÊNCIA

Já se chegou longe de mais na barafunda política portuguesa. E a invocação constante dos méritos do dr. Cavaco como primeiro-ministro revela que o recurso flébil ao passado envolve, quase sempre, uma doentia nostalgia acrítica – como é o caso. No entanto, temos de reconhecer a incomodidade por ele nunca dissimulada relativamente à pessoa e à acção de Santana Lopes.

Só a lembrança de que esta criatura chegou a dirigir um Governo causa arrepios. E a actual evidência da sua ressurreição permite considerar que é capaz de haver vida para além da morte.

O descrédito da sociedade política provém das insistentes malfeitorias de sucessivos Executivos, apoiados por bancadas servis de parlamentares com os quais nos não identificamos, cujo trabalho ignoramos porque não sabemos, rigorosamente, o que estão ali a fazer.


No sábado, 16, p.p., Maria Filomena Mónica esteve na SIC-Notícias, e, com a veemência própria de quem estuda, reflecte e analisa, esclareceu o que está em causa nesta questão dos professores.

Leio, com interesse e proveito, o que esta mulher tem escrito, em jornais e livros.
O registo polémico, o ardor com que defende causas e a variedade dos seus interesses atraem a minha curiosidade.

Há, nela, um ímpeto complexo e uma procura de informações capitais que sobrelevam a superficialidade de muitos comentadores do óbvio.
A intervenção dela, naquele sábado, foi um admirável momento de instigação à nossa inteligência. E a intensidade latina fez esquecer aquele toque oxfordeano com que, ocasionalmente, sublinha o que diz e irrita quem a escuta.


Maria Filomena Mónica discorreu não só acerca da oposição entre a ministra da Educação e os docentes, mas também, e sobretudo, sobre o deplorável estado em que a democracia portuguesa se encontra.

Clarificou, com meia dúzia de frases claras, o que no-lo tem sido inculcado em nebulosa sintaxe. E não hesitou em colocar-se ao lado dos professores, sem deixar de revelar que Maria de Lurdes Rodrigues não estava a proceder bem.
Revelou que a ministra fora sua aluna; disse-o sem pesporrência ou soberba, apenas para colocar as coisas no seu sítio.

O problema não surge isolado do contexto mais alargado da sociedade portuguesa, notoriamente enferma – e cada vez mais.

Insistiu num fundamento irrefragável: o da urgência em se modificar a estrutura das leis eleitorais para se compreender a necessidade dos círculos uninominais.
Disse: não sabemos sequer o nome daqueles senhores que se sentam no hemiciclo, indicados pelos partidos, de origem desconhecida, grande parte dos anos calados e quedos, afinal de duvidosa representatividade.

Atrasados, um pouco perdidos numa Europa que nos não conhece ou nos observa espevitada pela curiosidade benevolente de quem se lhe depara uma coisa exótica, vamos existindo entre o provisório e a resignação, entre a ausência de significado identitário e a miséria que mascara a impotência. Maria Filomena Mónica adiantou que esta democracia não está submetida ao perigo de um golpe de Estado (militar, supõe-se) porque pertence à União Europeia.
Estamos a deixar de ser um país para nos transformarmos em provérbio.

A presença desta mulher na televisão resgatou-me da mediocridade impante e das cassetes ideológicas, oportunistas ou preguiçosas, com tenores cujas vozes não só nos aborrecem como nos deprimem.

Que adiantam ou atrasam as opiniões de António Barreto, José Miguel Júdice, Jorge Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira, António Lobo Xavier, Miguel Sousa Tavares, António Vitorino, Luís Delgado?, outros, muito mais outros, uma infinidade de outros, certamente estimáveis, mas que somente falam – e nada dizem porque nada têm de novo para dizer.
O azebre da rotina, nas televisões, nas rádios e nos jornais favorece a conformação e a desistência dos cidadãos. Sabemos, de antemão, aquilo que vão dizer.
Conhecemos os seus verdetes, as suas paixões, as suas inclinações e os seus pequenos ódios.
Dêem voz aos mais novos.


Na política como na literatura, na crítica cinematográfica como na de artes plásticas.
A imposição de um gosto pessoal sem se aplicar à análise o paradigma do criador.
A mediocridade atrai a mediocridade.
E a ignorância é atrevida, como se sabe.

Insinua-se, não se nomeia.
Diz-que-disse, não se afirma.

O debate é inexistente.
O vazio cultural é assustador.
Os autores que a Imprensa promove devolvem a mentalidade dos promotores.


Maria Filomena Mónica suscitou, certamente, em numerosos espectadores, amplos motivos de reflexão.
No fundo, ela sugeriu que pensássemos.

Num discurso a que nunca faltou o sal da indignação e do confronto, a base da informação e do conhecimento, a socióloga demonstrou a necessidade de uma outra ética e a simpatia por quem exerce uma crítica implacável e íntegra à sociedade do abandono.
A legitimidade do julgamento deve sustentar-se na interpelação que cada um deve fazer a si mesmo. E, claro!, na paixão do estudo, na força da vontade, na consciência moral da cidadania.
Esta mulher tem de ir mais vezes às televisões.
É inteligente e, ainda por cima, bonita.


APOSTILA – Completaram-se cinco anos sobre a reunião, nas Lajes, que constituiu o acertar das linhas para a invasão do Iraque. É uma data vergonhosa.

Não só por Durão Barroso ter servido de sorridente e obsequioso mordomo dos senhores da guerra (Bush, Blair e Aznar), como pelo que comporta de criminoso. Recuperam-se as imagens desse dia da infâmia, enquanto alguns apoiantes fervorosos do sinistro acto procuram esgueirar-se às cumplicidades antigas. Um pouco por todo o mundo, os protestos contra a invasão fizeram-se ouvir.
Nos Estados Unidos, assumiram aspectos impressionantes.
Aqui se regista
.



B.B.


Esta música, de Kadhim Al-Saher, o mais popular cantor iraquiano (a viver no exterior) e um dos mais conhecidos cantores árabes, foi composta para o documentário My Country, My Country.
É um hino ao sofrimento dos iraquianos.


Oh meu país, que possas acordar feliz.
Reune todos; cura as tuas feridas.
Anseio por ver um dia o teu sorriso,
quando é que a tristeza te vai deixar?
Sunitas, xiitas e curdos,
Recebe-os debaixo das tuas asas.
És o seu pai; és a sua mãe.
Mantem-te firme, não interessa como sopram os teus ventos
Jesus e o profeta Maomé disseram,
A unidade deles é a tua arma,
Amor, paz, inteligência e construção,
Que Deus no céu abençoe o teu sucesso, meu país.
Oh meu amado Iraque; oh Iraque;
Oh meu amado Iraque

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sábado, 8 de dezembro de 2007

ÁFRICA EM LISBOA


1 Se mora em Lisboa e tem possibilidades para tal, este é o fim-de-semana aconselhado para fugir da cidade. De anteontem até amanhã, Lisboa está ocupada por uma monumental feira de futilidades chamada Cimeira União Europeia-África. São 127 delegações, oitenta chefes de Estado, dos quais mais de 50 africanos, três milhares de participantes em apoio aos chefes de Estado, mais de quatro mil polícias mobilizados de norte a sul do país com todas as folgas canceladas e todos a horas extraordinárias, centenas de aviões a aterrar e três helicópteros mais um F-16 (!) a sobrevoarem a zona dos 'trabalhos' para garantirem a segurança de tão ilustres turistas. Vinte e dois hotéis estão integralmente reservados para eles (todos os de luxo para os africanos), e o trânsito estará cortado em várias zonas ribeirinhas da cidade e, a certas horas, talvez também na Marginal, já que sua excelência, o celerado Mugabe, vai dormir ao Estoril e o beduíno Kadhafi monta as tendas, para si e para parte da sua comitiva de 250 acompanhantes, no Forte de S. Julião da Barra (excelente local para montar a tenda, em frente ao mar por onde saímos a caminho de África e onde Paulo Portas recebia Donald Rumsfeldt para discutir o êxito do Iraque).

Para agravar o caos, algumas de suas excelências, os sobas africanos, são muito dados a exigências de classe. Nos hotéis, só suites presidenciais, champagne Veuve Clicquot Grande Damme e caviar beluga. Nas ruas, seguranças privados armados, além da polícia portuguesa, carros blindados topo de gama e ambulâncias atrás (conforme viram nos filmes americanos): quanto mais feroz é a ditadura que os sustenta, maior é o cagaço que têm, o que se compreende bem.

Para que serve este imenso 'bazaar'? Principalmente, para nada, como dizem os alentejanos. Tudo o que havia a discutir e a assinar, como a tão desejada por Sócrates 'Declaração de Lisboa', já está acordado e escrito. Mas os grandes do mundo precisam e adoram estas oportunidades mediáticas e, afinal de contas, um fim-de-semana em Lisboa, com dois banquetes e um concerto com a Marisa e a Cesária Évora pelo meio, nem é nada desagradável: os europeus aproveitam para ver sol e os africanos para ver mundo e mandarem as "madames" às compras. Não é Paris nem Londres, mas sempre é um país hospitaleiro, que gosta de receber bem e cuja política externa não incomoda ninguém e se contenta em que lhe dêem coisas inócuas e que soam bem, como a 'Declaração de Lisboa'.

Em concreto, a cimeira vai custar umas dezenas de milhões de euros aos portugueses, a Europa rica vai dar à África miserável 1,2 mil milhões de euros até 2010 - dos quais, como de costume, apenas cerca de 10% chegarão ao destino e terão utilidade concreta. Destarte, a Europa sacode os seus problemas de consciência, como um pai que passa um cheque ao filho 'com problemas' e não se preocupa mais com o assunto. Mas os produtos agrícolas de África - a sua melhor hipótese de sair da miséria - continuarão fechados aos mercados europeus para proteger a sagrada PAC e os agricultores ricos da França e outros mais e o comércio em geral continuará a ser ditado por relações de desigualdade e batota. A Europa continuará a dar peixes, mas não a ensinar a pescar. Quanto à África e aos seus ditadores de opereta, com as mãos manchadas de um sangue que não sai e os bolsos atulhados de dinheiro roubado às suas populações, limita-se a estender a mão a mais uma esmola e a agradecer a oportunidade de reconhecimento internacional por que a diplomacia portuguesa tanto se esforçou nos últimos meses.

Esta é a triste história das relações da Europa com África de há cinco décadas para cá: os governos europeus dão umas esmolas e, em troca, avançam a seguir as multinacionais que sacam tudo o que podem sacar e enchem as contas bancárias dos governantes africanos na Suíça. Quando as cenas de miséria do continente negro se começam a tornar outra vez incómodas nas televisões ocidentais, convoca-se nova cimeira com os corruptos e dá-se-lhes mais uma esmola para aliviar as consciências ou produz-se mais uma grandiosa Declaração de Lisboa ou de Reiquejavique para enganar os tontos. Mas nunca os ricos se atrevem a exigir aos pobres que roubem menos e que matem menos - isso estragaria os negócios. Assim, a 'Declaração de Lisboa' não deixará, certamente, de conter uma referência 'muito forte' aos direitos humanos e à democracia, a qual será tranquilamente apoiada por gente estimável como Mugabe, do Zimbabwe, José Eduardo dos Santos, de Angola, ou Omar Bongo, do Gabão - que, juntos, perfazem oitenta e oito anos de poder, de arbitrariedades de toda a ordem e de negócios, mais uma sempre bem-vinda e inestimável factura de hotel em Lisboa.

2 Daqui a três semanas, entra em vigor a tão falada lei sobre o tabaco em restaurantes, hotéis e similares. Há coisas na lei que são simplesmente um castigo imposto aos fumadores, não ditado por qualquer preocupação de protecção aos não-fumadores, como a proibição absoluta de poder haver um espaço reservado para os fumadores nos hospitais, comboios ou transportes marítimos. Quanto aos restaurantes e afins, a liberdade de escolha dos próprios foi substituída por um sistema de condicionantes tais que parece que a generalidade dos estabelecimentos concluiu ser mais simples e mais barato nada fazer e proibir o fumo. É uma história bem portuguesa: os proprietários dos restaurantes tiveram meses para discutir a lei, um ano para se prepararem para ela e só agora, à bica do prazo, é que se lembraram de a avaliar para concluir que nada há a fazer. E, assim, temos mais uma lei que, carregada de equitativas intenções, acaba por se revelar totalmente unilateral: quem fuma deixa de poder frequentar restaurantes, como se tivesse peçonha, ou então vem à rua a meio da refeição, confraternizar com os arrumadores e expor-se à curiosidade pública como elemento anti-social. E assim entramos na modernidade. Só não sei é porque continuam os transportes públicos a lançar fumo para a cara dos passantes como nenhum outro veículo, as suiniculturas continuam impunemente a envenenar os rios e a indústria alegremente a rebentar com todos os limites de emissão de gases que acordámos em Quioto, já lá vão dez anos.

3 Sem nenhuma promoção da RTP, passada em dias consecutivos e a uma hora tardia, está no ar, desde o princípio desta semana, a mais extraordinária série televisiva que de há muito vi: 'Guerra e Paz', produzida pela BBC. Talvez o melhor romance de sempre, pela mão da melhor produtora de sempre de séries de qualidade. Melhor ainda que o golo do Ricardo Quaresma na Luz, sábado passado.


Miguel Sousa Tavares

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

O ÚLTIMO LEOPARDO

O programa chama-se O Caminho Faz-se Caminhando, centra-se em Mário Soares e é exibido mensalmente na RTP. Uma senhora por lá desfila roupas e futilidades, expondo um provincianismo cosmopolita sem remédio e demonstradamente patusco. Mário Soares merecia outro interlocutor. À vista desarmada, logo nos apercebemos de que a senhora não está à altura da circunstância. Não compreende, talvez por indiferença histórica, ignorância ou módico conhecimento dos factos, o que Paris representou no percurso político, intelectual, cultural e ideológico de Soares.

Ele nomeou pessoas, referiu episódios, indicou lugares que são capítulos fundamentais da resistência antifascista portuguesa. Forneceu pistas, espalhou indícios. A senhora passou alegremente ao lado, adornando o sumptuoso desconhecimento com inexplicáveis risadas. Quem foram Ramos da Costa e Barradas de Carvalho? E Maria Lamas, cujo quarto de hotel estabeleceu o lugar de solicitude, quando tudo parecia perdido? Um faustoso rol de gente, da qual a passeante não curou de saber quem era, quem tinha sido, para conhecimento e instrução dos telespectadores. Deixando escapar a oportunidade de revelar o elo unificador das várias correntes antisalazaristas, e de também noticiar as desavenças e os atritos entre exilados e conspiradores, a prazenteira senhora passeou outro casaco de peles e sacudiu as mãos. Não sem chamar de você o homem sábio, paciente e efusivo, que a tratava com educada cortesia.

Pode-se gostar ou não dele: as injustiças do ódio conduzem a comportamentos insensatos e a impulsos condenáveis por insultuosos. Mas o País alguma coisa, e não pouca, lhe deve. A Mário Soares perdoa-se tudo o que a outros nada se esquece. É verdade. Todavia, nos alvoroços da política, nas surpresas da História ou no indefinido perfil dos movimentos sociais, nunca Mário Soares cometeu o delito de ferir a liberdade. Infracção de que nem todos os que dela falam estão imunes.

A infelicidade do programa começa no título, inspirado no belíssimo poema que o espanhol Antonio Machado escreveu, como desdobramento entre o papel social e os acasos da fortuna. Inadequado à trajectória de Soares, cuja expressão pessoal não se limitou a uma obediência às casualidades, mas sim em desenhar o seu próprio destino histórico. A reivindicação de uma particular autenticidade corresponde aos diversos papéis interpretados, nos últimos 60 anos, pelo fundador do PS. Depois da morte de Álvaro Cunhal, ele é o último leopardo de uma grande geração de políticos, que criou a ilusão da mudança.

A senhora passeante pelo programa não percebe nada destas coisas. E nós não percebemos o que anda ela por ali a fazer.


B.B.

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

EM EXIBIÇÃO "NUMA TELEVISÃO PERTO DE SI"

“Até amanhã, camaradas”


Com cenas filmadas em Portalegre, a série “Até amanhã, camaradas” começará a ser transmitida pela SIC na próxima sexta-feira, 28, segundo se encontra anunciado.
O director de Programação da SIC anunciou mesmo como “o grande acontecimento televisivo do ano” esta série em que Paulo Pires e Leonor Seixas são cabeças de cartaz de uma narrativa empolgante e que envolve as lutas operárias dos anos 40 do século XX e a actuação da máquina então clandestina do Partido Comunista.
Várias dessas cenas foram filmadas em Portalegre há meses atrás e será certamente interessante vermos, pela primeira vez (pelos menos assim o supomos), a nossa terra como cenário de parte de um filme. E, é claro, muitas caras conhecidas de Portalegre que participam como figurantes.“Até amanhã, camaradas”, do realizador Joaquim Leitão, faz a adaptação televisiva do romance homónimo do histórico dirigente comunista Álvaro Cunhal.
O custo desta série, cujos episódios têm a duração de 50 minutos cada, contou com um orçamento na ordem dos três milhões de euros, o que a torna em termos absolutos a mais cara produção televisiva de sempre em Portugal.

No elenco participam ainda, de entre outros, Marco de Almeida, Gonçalo Waddington, Sara Graça e Alexandre Leite.
A reter que o “cérebro” de toda a operação em Portalegre está instalado no Alentejano, sendo que o mais emblemático café de Portalegre deverá também surgir em grande destaque na série.
Sexta e sábado
Até amanhã, camaradas


Sexta e sábado vai ser transmitido em compacto na SIC o filme de Joaquim Leitão “Até amanhã. Camaradas”, baseado na obra homónima de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal) e que retrata as lutas operárias e o trabalho do aparelho do Partido Comunistas na década de 40 do século 20.
Parte do cenário são ruas de Portalegre, o que adiciona interesse para nós, portalegrenses e norte-alentejanos, a esta obra seguramente notável.
Pode adiantar-se que esta foi a filmagem mais cara para televisão feita até hoje em Portugal, com um orçamento a ultrapassar os 600 mil contos, o que dá mais de 100 mil contos por cada episódio.
Ora como vamos ter a sorte de ver esta produção em compacto sexta e sábado, são mais de 300 mil contos investidos pela SIC em cada uma das noites.
In: Jornal Fonte Nova

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quinta-feira, 11 de novembro de 2004

A ILUSÃO DO DIRECTO


Na comunicação audiovisual, nomeadamente na reportagem televisiva, o directo pretende induzir uma garantia de autenticidade, de credibilidade. De realidade. Não será tanto assim...Imediato, conotado com o terreno e a cor local, vivo e quente, o directo ocuparia assim um espaço privilegiado. Um sabor autêntico, apaixonado. A paixão, entregue a ela própria, pode no entanto fazer de um homem bom um criminoso. Vejamos as coisas de um modo um pouco mais distanciado, para não cair numa primeira leitura, numa leitura primária: Basta não haver enquadramento contextual dos factos e dos acontecimentos relatados em directo, ser esse enquadramento insuficiente ou orientado, para haver desde logo manipulação. A colagem aos factos não os credibiliza automaticamente. Os factos não são assim entidades naturais pois já foram “trabalhados” e instrumentalizados pelo dispositivo do directo, em vista àquilo a que se chama o “efeito- verdade”. Uma pseudo autenticidade.

“Directos” houve no passado que deram brado, como o do jornalista comodamente instalado num grande hotel de Marbela, em Espanha, a enviar à Redacção do seu quotidiano uma série de reportagens sobre a guerra entre Vietnamitas e Khmers Vermelhos em 1981. Reportagens povoadas de detalhes dos confrontos no teatro da guerra, isto é no teatro do Hotel! A pressão da concorrência mediática assim o exigia, a obrigar à notícia quente, em primeira mão, mesmo que meios humanos e logísticos não houvesse.

O caso mais grotescamente notável foi, um pouco mais tarde, o de um canal televisivo francês que fez viver aos seus telespectadores, mais uma vez “em directo”, dias a fio, os acontecimentos da revolução romena de 1989, que culminaram com execução sumária do ditador Ceausescu e de sua mulher. Não havia jornalistas franceses no terreno? Pas de problème! Lançou-se mão da informação transmitida pela televisão romena, entretanto já ocupada e controlada pelos “revolucionários”, uma informação que o canal francês portanto caucionou sem averiguar da sua veracidade e de que se fez cúmplice... O resultado foi o bluff da notícia dessa imensa vala comum de cadáveres de Timisoara que depois se verificou ser pura invenção...

Serão estes casos extremos. O directo é, no entanto, quase sistematicamente uma operação de ilusionismo. A guerra do Golfo foi disso bom exemplo... O peso da imagem, aliado ao impacto do som que o directo sabe bem manipular, acabam por significar, falar por si próprios, em vez de apenas darem o contributo que devia ser o seu, em vez de ilustrar ou contribuir para o significado global. O significado e a compreensão da guerra passam ao lado quando a imagem quente e o som ensurdecedor da metralha dominam a informação. Os significantes ocupam o espaço do significado. O resultado é um cenário mais vistoso, mas uma Informação empobrecida e neutralizada. Quanto ao jornalista, o agente desta operação, ele apaga-se, um subalterno praticamente limitado ao passador de imagens, com pouca ou sem intervenção específica no processo. A reflexão, essa é curto- circuitada ou relegada para segundo plano

O directo, de modo geral, leva ainda a que o acontecimento se resuma ao acontecimento televisivo. Já lá vai o tempo em que a Tv estava presente porque o acontecimento era importante. Hoje, o acontecimento é importante porque a Tv estava lá. É ela, em última análise que significa a Informação, apenas pela sua presença nos locais. O directo molda assim, perversamente, a percepção do telespectador, ao lhe fazer acreditar que a presença do repórter nos “locais do crime”, no terreno de uma tragédia, ou duma guerra, confere, por si só, credibilidade à informação veiculada. Esta a doença infantil da Informação. As verdades do directo deixam pois muito a desejar. Como se fosse necessário colar às coisas, aos acontecimentos para eles terem efectivamente existência. É evidente a submissão ao monopólio e à ditadura dos significantes, esvaziados de significado, em benefício de uma estratégia sensacionalista, mercantil.

A.B.

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sexta-feira, 5 de novembro de 2004

PREOCUPANTE E SINISTRO


“Eu sou a Manuela Moura Guedes e este é o Jornal Nacional”. Abertura clássica do telejornal da TVI. E a coisa repete-se no dia seguinte e no outro, à hora das notícias, como se não tivéssemos ouvido já. Ela é portanto a Manuela Moura Guedes e o meu vizinho é o Artur da padaria. Ela vai apresentar o Jornal Nacional e o Artur atende os clientes, entrega o pão, recebe a massa. Já agora, quanto a mim, diria que “sou o autor destas linhas e hoje acordei com dores nas costas”.
Bom… deixemos as maneiras da apresentadora e vamos à informação propriamente dita, aos conteúdos do tal Jornal Nacional. Entre outras coisas, ficámos a saber que naquele dia - o dia não é relevante - na Baixa da Banheira um sujeito todo nu desatou às dentadas às pessoas na rua. Com a agravante de se tratar de um seropositivo. Um caso dramático, não só para as vítimas como certamente também para o seu autor. Qualquer clínico da especialidade o sabe. Manuela Moura Guedes informa-nos ainda que o sujeito acabou por ser apanhado, encontrando-se já internado em Psiquiatria. “Esperemos que açaimado”, comenta de seguida a apresentadora.
Será que ouvi bem? Infelizmente, sim. Por outras palavras, para a ilustre “jornalista”, que não está com meias medidas, não há grande diferença entre os cães e os doentes mentais. Constata-se a dificuldade cada vez maior da apresentadora em se controlar nos comentários. O mais grave no entanto está na utilização do telespectador, que tem que pagar as facturas dessas suas pulsões agressivas… As suas tiradas são um caso de saúde pública. Há muito tempo que não ouvia de boca de alguém uma reflexão tão brutal e sinistra.
Porque colocar um açaimo em alguém, seja ele ou não um paciente psiquiátrico, não significa somente zoomorfizá-lo, retirar-lhe a humanidade. Não se trata só de animalizar o homem.
O açaimo amordaça a boca, esse território nobre por excelência: pela boca passa a comida, a incorporação alimentar, sem a qual se morre à fome. Pela boca passa o beijo, as coisas do afecto e do amor. Pela boca, ainda, passa a palavra articulada, o discurso, essa sabedoria que nos distingue de todos os outros animais. Ora, pôr se um açaimo castra tudo isso…A finalizar, a diva fecha o Jornal Nacional dirigindo-se aos telespectadores nos seguintes termos: “Tenha um fim de semana calmo e sereno junto das pessoas de quem gosta” Que beleza! Ao tempo que eu não ouvia uma coisa assim… que me deixasse tão sonhador! Bem gostaria de fazer um pequeno comentário, se não fossem estas malvadas náuseas…
Zé dos Pirolitos

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