sexta-feira, 24 de outubro de 2008

QUE PODEREMOS FAZER POR NÓS PRÓPRIOS

A situação no País, e do País, é cada vez mais complicada, e os paliativos que o Governo vai aplicando surgem, aos olhos e ao entendimento dos cidadãos, como remendos mal alinhavados. Devemos dinheiro e não sabemos como cumprir a palavra. Ninguém confia em ninguém e a angústia apossou-se, endemicamente, da população.


Somos os mais pobres, os mais desguarnecidos, os mais injustiçados dos povos europeus. Entraram, em Portugal, oceanos de dinheiro comunitário, sobretudo na década cavaquista, e o País progrediu porque não havia remédio: até a inércia dispõe de forças desconhecidas. Cavaco não foi responsabilizado de coisíssima nenhuma, e até chegou a Presidente da República.

Esta democracia é o que é: um facto lamentável. Os grupos parlamentares, supostamente representantes de todos nós, cada cor seu paladar, obedecem às estratégias das direcções dos partidos, e a consciência da ética republicana, que devia gerir os actos e imperar sobre as conveniências, está quase totalmente aniquilada. Na terça-feira última, José Vítor Malheiros escreveu, no Público, um notável artigo, Disciplina de voto, arma de destruição maciça da democracia, no qual põe em causa a natureza peculiar dessa obediência. É um texto que deveria ser leitura obrigatória dos deputados. Diz: Todos sabemos que os partidos são indispensáveis à democracia e ninguém – dentro do quadro da democracia – põe isso em causa. Mas os partidos são indispensáveis à democracia porque permitem a corporização das livres opiniões, das diversas correntes de opinião. Os partidos são organizações políticas que reúnem pessoas que professam a mesma doutrina e que visam conquistar e exercer o poder, mas numa democracia a sua existência justifica-se por permitirem reforçar a acção pública dessas pessoas que partilham uma doutrina, não por constituírem um meio de reprimir a acção individual de cada uma dessas pessoas ou de reduzir a variedade de opiniões em confronto na cidade.

José Vítor Malheiros reduz a subnitrato as instâncias que transformam as contingências do momento numa indispensável necessidade política. Escreve: Os deputados que elegemos estão dentro de partidos, que nos oferecem um quadro político e ideológico de referência. Mas gostaríamos de pensar que são todos mulheres e homens livres e de consciência. Não são. E a degenerescência moral do Parlamento acompanha decadência da sua eficácia. Para que serve um Parlamento assim?

Esta mesma pergunta, com ligeiras variantes, formulou-a, no começo dos anos 20 do século passado, no Diário de Lisboa, um grande jornalista, Aprígio Mafra. Desempenhava as funções de chefe de redacção do importante vespertino, era monárquico, e marcava na agenda o seu nome para relatar as sessões no hemiciclo. São textos demolidores. Aprígio Mafra, independentemente de ser monárquico, fornecia aos leitores reportagens exemplares, por muito bem escritas e rigorosas. Não manipulava, não escamoteava, não omitia. Os deputados é que eram os protagonistas da salgalhada. Há quem atribua a Aprígio o descrédito do Parlamento. Nada mais errado. Foram os deputados os fautores da desconfiança. Aprígo Mafra somente estilhaçou o temor reverencial em torno da instituição. Ontem como hoje. Criticar a Assembleia e quem lá está parece um tema proibido sobretudo para certos sectores da Esquerda. Será, sempre e sempre, uma tarefa pedagógica, ética e cívica o exercício da crítica a todos os sectores da vida portuguesa. O texto de José Vítor Malheiros constitui uma grave advertência acerca dos perigos que ameaçam a democracia portuguesa, já de si tão frágil.

Como resistirá uma democracia a este vendaval de desemprego que nos devasta? Os alicerces nos quais assenta o equilíbrio social estão a ser seriamente sacudidos. Segundo o Diário de Notícias de anteontem [22. Outubro, p.p.] pelo menos 23 mil famílias portuguesas deixaram de pagar os empréstimos contraídos, para compra de casa, por absoluta indisponibilidade. A maioria dessas famílias recolheu-se à residência paterna ou abandonou a cidade pela aldeia, onde a vida é menos dispendiosa. Para memória dos factos, circula, na net, uma lista impressionante dos vencimentos de gestores, mordomias e prémios. Os números são obscenos, para citar a indignada qualificação do dr. Bagão Félix, quando foi tornada pública a reforma de um desses.

A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) informa, em relatório, que, em Portugal, o fosso entre ricos e pobres não pára de aumentar. Vem o ministro Vieira e afirma, calmo e grave, que as coisas não são bem assim. Não, claro que não: são piores. A falta de clareza não é pecha deste Governo. Porém, como se diz socialista (embora cada vez o diga menos), ele deveria assumir a responsabilidade ética de falar verdade. As decisões governamentais atêm-se a uma relativização dos valores, e as interpretações do Executivo são feitas à margem das evidências. Se não entendemos o que nos diz Sócrates, também não conseguimos descodificar o discurso de Manuela Ferreira Leite – quando ela resolve falar.

Creio, apesar de tudo, que algo se modificará nas estruturas do sistema, abalado por uma crise quase sem precedentes. Esse abalo irá reflectir-se em Portugal, como em todo o mundo. Saberemos colocar correctamente os problemas; aceitar a verdade, porque só a verdade é revolucionária (como dizia o outro); e recusar repetir aquilo que já não existe?
Que poderemos fazer por nós próprios?


B.B.

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sexta-feira, 13 de junho de 2008

O MUNDO LÁ DE CIMA E O MUNDO CÁ DE BAIXO

O dispositivo de patrioteirismo colocado, com extrema eficiência, por todo o País, sob a benevolente aquiescência de uma Televisão desacreditada, de uma Rádio às aranhas e de uma Imprensa que se perdeu na pobreza moral, está a conduzir, muitos de nós, a um estado próximo da imbecilização.

A instrumentalização do "desporto" por parte do poder político é um fenómeno de que a Antiguidade foi fértil. No contemporâneo, a dimensão adquirida constitui uma obscenidade. Muitas contendas ditas desportivas (no caso vertente: futebolísticas) não passam de esquemas políticos.

À Esquerda e à Direita o recurso a esse enclausuramento mental tolhe qualquer iniciativa antagónica. Porém, a circunstância de, momentaneamente, as vozes críticas serem minoritárias, não significa que elas se calem. Alguns preopinantes pós-modernos acusam de anacronismo aqueles que ainda protestam contra estes mercadores de ilusões, que transformaram (graças a uma campanha impressionante) o Euro-2008 numa questão nacional - ou nacionalista.

E quando Marcelo Rebelo de Sousa admite que o País deve mais a Cristiano Ronaldo do que a qualquer outro, o dito é escandaloso.
Primeiro, porque só raramente, no estrangeiro, se associa o nome de Cristiano a Portugal; ligam-no mais, claro está!, ao Manchester.
Depois porque a vacuidade da afirmação não está à altura do professor; ou estará?
Então e Pessoa, e Vieira da Silva, e Damásio, e Paula Rego, e Manoel de Oliveira, e Júlio Pomar, e Saramago, e Siza Vieira - mais, muitos mais outros? A paranóia colectiva assombra, pela expressão numérica da mediocridade. Rui Santos, jornalista do futebol, chamou-lhe alienação e está com carradas de razão.

O mal-estar na sociedade portuguesa é anestesiado por esta catadupa de falsos valores, de falsos princípios, de falsos heróis, de falsas hipóteses, de falso patriotismo. De quantos brasileiros, apressadamente matriculados portugueses, possui a selecção nacional? E que motivou esses ternos guerreiros? O dinheiro, bem entendido, que até os levou a abjurar da própria nacionalidade. Há qualquer coisa de podre, de vil e de sórdido nesta doentia instrumentalização.

Há dias, a Notícias Magazine publicou um dramático apelo de D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal, e figura maior da Igreja.
Escreve: Sou, sem querer, mais uma voz a juntar-me à de tantos e tantos portugueses que vivem mergulhados num grande desânimo quanto ao presente e num grande medo quanto ao futuro. Estes sentires vão-se manifestando um pouco por tudo quanto é sítio, e será muito desejável que se lhes acuda a tempo (…) Portugal não pode esperar mais: os portugueses precisam de trabalho justamente remunerado, precisam de pão na sua mesa, precisam de ver respeitados os seus direitos enganados de saúde, de justiça, de educação, de segurança.

E o documento prossegue: Espantam-nos, a sério, os dois mundos que se vão construindo em Portugal: o mundo lá de cima, dos ultra-ricos e dos ultra-remunerados, e o mundo cá de baixo, dos pobres e dos ultra-pobres. Até já os da faixa do meio sentem o terreno a fugir-lhes.

É curioso que esta demarcação de D. Manuel Martins coincida com afirmações de D. Manuel Clemente, bispo do Porto, o qual, num debate sobre o Código do Trabalho, realizado na Associação Católica do Porto, declarou, ante a irritação do ministro Vieira da Silva: As organizações sociais, perseguindo o seu bem específico ao serviço do bem comum, são um factor construtivo de ordem social e solidariedade, portanto um elemento indispensável da vida social (…) Sem pressão sindical poderia acontecer que a administração pública se esquecesse do seu papel.

As vozes destes dois homens foram praticamente ofuscadas pelo alarido futebolístico. Como nada acontece por acaso, convém não atribuir ao acaso os infortúnios da razão, que levam quem organiza o escalonamento dos noticiários (nos jornais, nas rádios e nas televisões) a inverter a importância dos factos e a dissimular o carácter político-social dos acontecimentos com a frivolidade, essencialmente mutável, do futebol.

José Sócrates, cuja arrogância começa a ser suicida, desprezou a manifestação dos duzentos mil, e cava, cada vez mais fundo, a separação entre os portugueses. Alguém tem de dizer a este homem que já lhe é difícil arrepiar caminho e dar um torção à Esquerda. Cometeu tropelias, injustiças e incompetências demasiado extensas e graves para que se lhe perdoe. Teve tudo na mão para equilibrar as coisas: até uma certa cumplicidade dos órgãos de informação, fatigados das desditas de Guterres, de Durão e de Santana. Não o fez. Segundo o insuspeito Joaquim Aguiar, ele não estava preparado para dirigir o País.

Tem sido acolitado por um grupo de subservientes, pouco ou nada apetrechados ideológica e culturalmente, que em nada o têm ajudado. Há dias, Vítor Ramalho, começou, ele também, a criticar a governação, e o próprio PS, revelando que não há debate nos núcleos socialistas. Recordo que, há anos, o PS dizia o mesmo do PCP, e, ainda recentemente, idêntica acusação foi formulada por sociais-democratas ao PSD. Não há debate nos partidos; não há debate na sociedade. O vazio impera.

Creio que Manuela Ferreira Leite apenas fará algumas mossas na carcaça do Governo. Ao contrário do que dizem os seus turiferários, ela não colhe nem as simpatias da totalidade dos companheiros, nem a empatia dos portugueses. Um guru tem afirmado o contrário e, inclusive, que a senhora unirá o partido. Todavia, o Santana não é para graças; o Passos é um pequeno falcão à espera; e Patinha Antão pode ter obtido um resultado escasso, mas (para minha surpresa e de muitos) revelou um sábio conhecimento dos dossiês. Além do que Manuela Ferreira Leite representa o que de mais cediço e arcaico existe na sociedade portuguesa. Não vai resolver nada: vai complicar tudo. E o seu apressado discurso social não dissimula a actividade praticada no Governo.

Manuela Ferreira Leite é mais do mesmo, igual a todo o mesmo. É uma soneira. José Sócrates, uma canseira. Como diria o Eça: Meninos, que ferro!


B.B.

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sábado, 17 de maio de 2008

A MOCIDADE PORTUGUESA DOS PARTIDOS

A Mocidade Portuguesa dos partidos rejeita que esteja alheada da política.
E não está.
As jotas estão na política para o mais pequenino e o pior.


Rejeitando o que o chefe de Estado disse no passado dia 25 de Abril sobre o alheamento da juventude em geral quanto à política, o líder da JS diz mesmo que não há nenhum drama à volta desta geração.

O jovem socialista provou duas coisas com esta sentença: que não está alheado da política no pior sentido da palavra mas que é alheio à juventude do seu país e do seu tempo.
Porque uma coisa é a carreira política e o emprego certo dos jotas, melhores e mais garantidos quanto mais canina for a fidelidade à linha do partido, outra coisa são os dramas de uma juventude a braços com uma crise profundíssima de desemprego, sem saídas profissionais.

Se os partidos encarnam o que há de pior na democracia – a formatação do pensamento, o condicionamento da liberdade, o espírito de corpo obediente a uma cabeça pensante, o carreirismo, o clientelismo – as juventudes dos partidos são tudo isso em mais pequenino e mesquinho.
Era preferível quando as jotas eram a mão-de-obra dos partidos para colar cartazes.
Sempre faziam alguma militância política.
Agora limitam-se a fazer o curso prático de como subir na vida pensando pela cabeça do chefe, de como singrar no aparelho dizendo que sim, apresentando serviço e denunciando os suspeitos de heresia.

Aliás, o alheamento dos jovens em relação à política será mesmo proporcional ao papel exclusivo dos jotas na política, no pior sentido.
Os jotas dos partidos constituem a excepção à vida difícil da juventude em geral e ainda por cima é em função deles que se marcam os temas para a agenda da juventude.


J.P.G.

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sexta-feira, 9 de maio de 2008

É ESTE O PAÍS QUE TEMOS?

Estava eu a ler o jornal quando dei com uma notícia estranha, tão estranha que a li uma segunda vez para ver se não me tinha enganado.
Mas não, de facto era tal e qual a li da primeira vez: o Tribunal de Contas multou os partidos políticos em mais de trezentos mil euros.
Como o que faz o Tribunal é julgar em face da lei e como quem faz a lei são os partidos, quer dizer que os partidos andam a fazer leis que não são capazes de cumprir.
Isto coloca então uma questão interessante: por que razão fazem os partidos leis que os fazem pagar as malditas multas?
Foi ao ponderar esta questão que me lembrei (e revi) no livro de Kucich sobre a sociedade britânica colonial do século XIX, quando o autor relacionava a política imperial com as classes sociais e a hierarquia social. Para este autor merece particular atenção a complexidade da hierarquia social e as tensões sociais que aí se desenvolvem e as implicações que daqui resultam para a formação da identidade social, com as múltiplas características e facetas que a definem.
Não pretende Kucich com isto dizer que as identidades social ou imperial devem ser explicadas por uma disciplina de psicologia colectiva, mas sim que há elementos com paralelo na psicologia que conhecemos que ajudam a compreender e descrever o discurso e a práxis social da Grã-Bretanha de finais do século XIX, tese que aliás sustenta no seu livro Imperial Masochism.

Preparava-me eu para aprofundar a matéria quando me dei conta de que já as minhas ilustres colegas argentinas Eva Cinada e Eva Porosa, da Universidad Datanga, já a tinham estudado longamente, trabalho que deram a conhecer no seu magistral livro Kiss Me or Kick Me: Social Institutions in Tomorrow’s World.
Dizem as Evas que também nas organizações sociais em qualquer país as tensões sociais internas e externas que se acumulam podem levar a desvios ou patologias sociais semelhantes aos que conhecemos da Psicologia para os indivíduos.

A aplicação dos trabalhos destas minhas colegas ao nosso caso concreto é muito simples: na sociedade portuguesa de hoje os partidos políticos sentem o descrédito e a desconfiança de que são alvo por parte do cidadão comum e, incapazes de reconquistar essa confiança, estão progressivamente a desenvolver uma patologia social que lhes permite racionalizar e compensar: o masoquismo social.
Com efeito, o masoquismo social e a vitimização que se lhe segue são um mecanismo que constitui factor de aproximação social na sociedade portuguesa de hoje – uma sociedade dos coitadinhos, entre os modelos de sociedade tipificados pelas Evas.
Os nossos partidos esperam, pois, ao serem castigados por terceiros (neste caso, o Tribunal de Contas), captar a simpatia dos cidadãos eleitores, que assim já não sentem necessidade de os castigar – pelo contrário, apelam até ao instinto de defesa dos fracos.

Por outro lado, o Tribunal de Contas, ao punir deliberadamente e com violência e publicidade a torto e a direito, enquadra-se no que as nossas Evas designam de uma organização social sádica.
Isto revela, pois, uma faceta da organização social, política e administrativa do Portugal de hoje: o seu sadomasoquismo social.
Uns gostam de ser repreendidos e castigados, outros estão muito felizes com o papel de agentes vingadores, castigando os prevaricadores.

Não pensem, meus queridos leitores, que isto de vivermos numa sociedade sádicomasoquista é mau e que nos devemos preocupar.
O que nos deve preocupar é outra coisa, que as Evas bem documentam com evidência histórica: é que qualquer organização social masoquista numa sociedade sadomasoquista, na ausência de qualquer facto externo que o contrarie, evolui inexoravelmente para uma organização social esquizofrénica e os nossos partidos políticos já começam a dar sinais disto.


F.B.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O OVO DE SERPENTE

Anda por aí um cheirinho de fascismo.
A frase, surpreendente, começa a entrar no circuito do comentário político e em afirmações, mais ou menos severas, do léxico comum.
José Pacheco Pereira discorreu, levemente, acerca de; António Barreto foi-lhe na peugada e sugeriu que sim, mas que também; Zita Seabra, campeã de todas as liberdades, toca pela mesma pauta; e Vasco Pulido Valente usa um exaltado verbo para avisar os incautos: alto aí!

As apoquentações podem suscitar sorrisos condescendentes aos mais incrédulos.
Porém, que a coisa é discutida, lá isso, é.

De facto, as liberdades tidas como tais, desde Abril de 1974, começam ser limitadas.
Mas fomos nós que admitimos estes cercos.
Em nome da segurança e da estabilidade, da paz pública e da tranquilidade das almas, velhos chavões das estratégias de poder da Direita, recuperados, numa reabilitação fantomática, pela Esquerda moderna, inúmeros dos direitos conquistados foram espezinhados rudemente.
Não há que fugir a isto.

Sabe-se: o fascismo possui diversas máscaras e dispõe de infinitas possibilidades de metamorfose. E há democracias, em todo o mundo, cuja musculatura, frieza, sobranceria e insensibilidade representam parentescos evidentes com o totalitarismo de Direita.

São notórias as deficiências deste Governo, que obteve, durante imenso tempo, a concordância beatífica de uma Imprensa acrítica, ao mesmo tempo que tem beneficiado do esvaziamento da oposição.
O PSD é o que se vê. O PCP perde aceleradamente influência. O Bloco de Esquerda transformou-se no MDP do PS.
Os chamados pequenos partidos estão condenados à extinção, em consequência de uma decisão socialista, desavergonhada e inqualificável.

Estamos confrontados com uma estratégia de poder, não só absoluto, mas, também, de características perpétuas ou, pelo menos, estruturadas para longo prazo.
Não há um, um só, jornal com projecto editorial de Esquerda.
Dir-se-á: e a Direita, tem-no?
Também não; mas quase: basta ler o que por aí se lê.
Quando falo de jornal de Esquerda refiro-me, por exemplo, ao Diário de Lisboa dos bons velhos tempos; a The Guardian, a El Pais, a Le Monde, a La Reppublica: órgãos cujas linhas editoriais não ocultam nem sequer dissimulam posições progressistas relativamente ao que vai ocorrendo no mundo.
Quero dizer com isto: uma Imprensa que recusa o patético absurdo da distanciação; que não receia assumir a sua índole de defensora das causas sociais; que rejeita a falácia da independência e da imparcialidade.
Uma Imprensa que, sem temor e sem rebuço, considere aberração as desigualdades sociais. Qualquer dos jornais citados sempre tomou partido. E, amiúde, definiu as suas tendências ideológicas e políticas quando as circunstâncias históricas a isso os obrigaram.
Quem já esqueceu, ou quer esquecer, que Le Monde revelou, em editorial, a sua orientação de voto, quando Mitterrand estava na corrida? E que El Mundo não dissimula as suas simpatias pelas Direitas espanholas? Que o ABC é um diário monárquico? Deixaram de ser menos lidos? Pelo contrário: conquistaram a respeitabilidade e a confiança dos leitores.

O ABC, quando o imenso poeta Rafael Alberti completou 90 anos, consagrou-lhe um suplemento apologético.
Alberti, comunista, antifascista, combatera, de armas na mão, na Guerra Civil de Espanha.
O jornal da família Luca de Tena, conservadora, apoiante de Franco, ardorosamente anticomunista, não se coibiu de, logo na primeira página, saudar o poeta e sublinhar a importância e beleza da sua poesia. Título: Alberti, um dos grandes de Espanha.
A honra de um prestigiado jornal ilustrava a honra de um prestigiado poeta.
Não há, em Portugal, exemplo semelhante.
Com tristeza o escrevo.

O Dilecto já reparou que sabemos muito mais do que se passa nos Estados Unidos (quase exclusivamente) do que acontece em Espanha, em França, na Itália, na Alemanha.
Pouco ou nada sabemos de Inglaterra, da Irlanda, da Dinamarca, da Noruega, da Suécia.
A nossa Imprensa e as nossas rádios e televisões não fornecem informação da cultura, da vida, dos filmes, do teatro desses países.
Só há notícia quando cai neve ou o sol brilha demasiado.
Nas salas de cinema, a mesma coisa: os Estados Unidos dominam, reorganizam os nossos pensamentos, determinam os nossos costumes, a maneira de vestir, o modo de pensar.
Os jornais estão cheios de locuções inglesas.
Cronistas do óbvio, em lufa-lufa de imagética, citam por tudo e por nada revistas, jornais, autores norte-americanos, mas estatelam-se na preposição, confundem os verbos e tropeçam nas conjunções.
A uniformidade do pensamento tornou-se a caixa de ressonância de uma cultura dominante por submissão e por ignorância de quem prefere a facilidade e adora ser dominado.

A globalização só existe, por unilateral.
Quem não quer ver, que não veja.
Mas o infortúnio chegará a todos.
Até o Papa Ratzinger clama que a globalização é uma névoa que cega as nações.
Clama tarde e a más horas.
Afirma ele: Não se pode dizer que a globalização seja sinónimo de uma ordem mundial, pelo contrário (?) Os conflitos pela supremacia económica e pelo controlo dos recursos energéticos, hídricos, e das matérias-primas tornam mais difícil o trabalho de quantos, a todos os níveis, se esforçam para construir um mundo justo e solidário.

Numa importante entrevista ao semanário francês Le Nouvel Observateur [3-9 de Janeiro, p.p], o actor e realizador Sean Penn analisa os factos mais salientes sobrevindos no mundo.
É um requisitório dramático.
Recusando-se a ser um inválido sentimental, recolhido no seu salão, sentado num belo sofá e a gozar dos benefícios do estatuto de grande star, Penn insiste que o medo domina os homens contemporâneos, avassalados pelo capitalismo selvagem e pela sede dos Estados Unidos em perpetuar as suas múltiplas hegemonias.
Diz: É preciso aprender a domesticar o medo. Vivemos com ele; cada vez mais o medo nos invade: está em todo o lado. Somos uma civilização do medo.

É o medo a origem de todas as inseguranças, de todos os pavores, de todas as submissões, de todas as cobardias, de todas as resignações, de todos os sofrimentos, de todas as angústias.
O medo corrói-nos como homens.
O medo constrói o fascismo.
É o Ovo da Serpente, como no inesquecível filme do imenso Ingmar Bergman.
Pode renascer a cada momento.

APOSTILA – Simplesmente deplorável a intervenção de Correia de Campos, dito ministro da Saúde, no programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, na RTP.
As habilidades da eloquência tombaram pela força dos argumentos contrários.
Correia de Campos começa a ser o calvário dele próprio.
Para não dizer outra coisa...


B.B.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2007

EQUÍVOCOS E MENTIRAS DO VIVER PORTUGUÊS


Luís Marques Mendes foi à ilha da Madeira proclamar que A. J. Jardim era o nosso [dele] querido líder.
A tolice não dispõe das normas do pudor; no entanto, parece-me superar todas as balizas da decência a circunstância de o singular presidente do PSD ter utilizado a hipérbole no mesmo local (Chão da Lagoa) onde é invariavelmente insultado pela criatura elogiada.

José Sócrates e o seu Executivo são maus.
A perspectiva de alternância reside em Mendes. Portugal sobrevive num lamaçal em cujo turvo horizonte não se divisa nenhuma tábua de salvação.
O que se passa no PSD corresponde a um reflexo da sociedade portuguesa.
Ninguém se entende. E demonstra-se um generalizado interesse pelas coisas e pelas causas públicas. A fragmentação no PSD não é muito diversa do que ocorre no PS, transformado num partido de tabeliães.
Tanto num como no outro os suspeitos do costume encostam-se a quem lhes parece ter maiores probabilidades de poder.

Recorde-se: os que apoiam Marques Mendes já apoiaram Durão e Santana, e qualquer destes e os outros todos sustentaram Cavaco e a sua época.
Os que aplaudem, fervorosamente, José Sócrates e o seu presente ampararam, no passado, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro & etc. Antes, claro!, os primeiros eram todos sá-carneiristas; os segundos, sem hesitação possível, babavam-se com Mário Soares.
Fazendo um retrospecto, constatamos que uns e outros, aqueles e aqueloutros entraram em conflito aberto, desfizeram-se as aparentemente mais sólidas amizades.
A pátria, perplexa, contempla estes ínclitos varões, enumera aqueles que enriqueceram não se sabe bem como, e cabisbaixa e resignada lá vai tropeçando no caminho.

O CDS, coitadinho!, julgava que rezava com Paulo Portas: estatelou-se, ainda não ao comprido, mas para lá caminha.
O Bloco de Esquerda utiliza o léxico da ironia; politicamente, está de acordo – não se sabe bem com quê, mas sabe-se com quem.
O PCP não esmorece; porém, vai perdendo influência.
Discorde-se ou não, é a única voz política que ainda serve de travão a outros desmandos. E assim estamos.

A questão essencial dos partidos advém do facto de estes não conterem as características identitárias exigidas pela sua natureza. O PSD nunca foi social-democrata: nele se misturam conservadores, liberais, reaccionários e democratas sem razão de o ser.
O PS foi socialista por um instantinho.
Quando, apoplécticos e emocionadíssimos, os seus militantes e simpatizantes gritavam, nos comícios: Partido Socialista, Partido Marxista!, a extraordinária frase bateu nos ouvidos sensíveis da Internacional Socialista. Willy Brandt mandou um recado: acabem lá com essa leviandade, estamos cá para outra coisa.
A Guerra Fria e o anticomunismo não foram equívocos, foram pretextos habilmente organizados para que a normalização da Esquerda moderada servisse a outros interesses. A causa da emancipação dos povos, tão cara aos teóricos do socialismo, foi, cedo, substituída por uma obscenidade:pragmatismo, cujo significado nada tem a ver com a perspectiva kanteana, antes oculta o espírito de conciliação, servilismo e traição.

Nenhum dos partidos de poder tem uma visão particular sobre o mundo que as circunstâncias históricas impuseram.
O modelo europeu de sociedade está a ser liquidado pelas estratégias das multinacionais norte-americanas. E a participação activa no acto social foi engenhosamente dissimulada entre responsabilidade colectiva e responsabilidade individual.
A cultura massificou-se, não na acepção democrática do termo, sim na interpretação de consumo quantitativo.
A economia de mercado impede o que fundamenta a cultura: a sua interpenetração, a sua mestiçagem.
Impõem-se modelos igualitários na prosa narrativa, no cinema, nas artes plásticas.

Revertamos ao caso português.
O apoio elogioso feito, em quase toda a Imprensa, a subprodutos literários chega a ser deprimente. Assim como é insultuoso o exercício do silêncio a certos autores, cuja ideologia não serve a corrente dominante.
Depois, há a falsa independência dos jornais.
Nenhum jornal é independente, imparcial, objectivo ou distanciado.
O cinismo ultraja a inteligência do leitor, que sabe muitíssimo bem a orientação editorial e noticiosa deste e daquele periódico.
O bacoquismo de alguns jornais faz-nos bocejar de enfado.
Sugerem estar acima do bem e do mal, quero dizer: que são neutrais, claramente um embuste. Basta percorrer a Imprensa estrangeira: ninguém oculta a ninguém a sua tendência. El Mundo, El Pais, The Guardian, La Reppublica, Le Monde, Corriere della Será, La Stampa não enganam os leitores: são o que são e, honestamente, o que entendem dever ser.

Na nossa terra, a normatividade em vigor é aldrabar, prestidigitar, iludir, defraudar, enganar. Somos obrigados a verificar, com desconsolo, que este tempo português parece o de demissões éticas, antes de serem capitulações ideológicas.
A cultura eugénica, com fins lucrativos, leva tudo à frente, de roldão e sem pejo.
Quando Sócrates minimiza e, até, deprecia, com humor indecente, o artigo sobre o medo que Manuel Alegre escreveu no Público, apenas reflecte o esvaziamento da sua pessoal perspectiva. Não vale a pena debater nada, comentar coisa alguma, discutir seja lá o que for.
Alegre não é um beócio. E a cultura, a liberdade e a política entendida esta como moral em acção, devem algo ao grande poeta de Senhora das Tempestades.
O paralelismo entre o que Sócrates disse e não disse, e o que Marques Mendes falou e não falou não pode deixar de se estabelecer.
De uma maneira ou de outra de um modo ou de outro, ambos representam o que de pior existe na sociedade portuguesa.

Podem crer, meus Dilectos, que não tenho prazer nenhum em escrever isto.


B.B.

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sexta-feira, 27 de julho de 2007

A DEMOCRACIA A PRESTAÇÕES

Entretanto, a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos. E uma terra de manhosos não se pode chegar senão a falsos prestígios. É o que há mais agora por aí em Portugal: os falsos prestígios.

Almada Negreiros


Pairam graves ameaças à livre expressão do pensamento.
Este Governo estatuiu, com a aprovação de uma bancada maioritária e servil, um documento restritivo do que foi a maior das conquistas de Abril.
Agora, as confederações patronais, sublinham o novo Estatuto do Jornalista, justapondo-lhe exigências ainda mais pesadas e que contrariam o próprio espírito da Constituição.
Estamos perante uma situação sem paralelo na história portuguesa das três últimas décadas.


O realismo político possui uma lógica que a razão ignora. Esse realismo tem sido invocado pelo PS para proceder a tristes cedências e a dramáticas traições à sua própria natureza.
Não há que fugir daqui.
Embora eu reconheça (e tenho-o dito e escrito, ao longo dos últimos anos) que os partidos, especialmente o PS, sejam coagidos a estabelecer pontos de articulação que permitam outras aberturas à sociedade.


Ao inflectir para a direita, o PS continua uma senda encetada, quase imediatamente a seguir à Revolução, em nome da luta anticomunista.
As graves responsabilidades do PCP, nesta deriva, não devem ser escamoteadas.
A dialéctica, aparentemente irrefutável, que os dirigentes comunistas, apesar de tudo, desejam preservar, está a encaminhar o grande partido da Resistência para posições residuais, tal como se verifica, em casos semelhantes, um pouco por todo o lado.
Se o eurocomunismo pretendia reconstruir as teses de Marx e Engels, através de uma nova revolta da razão [Berlinguer], dotada de uma espécie de identidade europeia, a verdade é que a experiência falhou estrondosamente. Há uma clara vitória do capitalismo, a qual não estabelece a baliza da queda do Muro de Berlim, porque começou, historicamente, com as grandes cisões da Esquerda comunista na década de 60.
Ler Santiago Carrilho é capaz de ser pungente, mas resulta esclarecedor.


Os ataques à liberdade de expressão não são apanágio português. As restrições observam-se quase por todo o mundo. Ao mesmo tempo que se revelam grandes movimentos contestatários. Nem tudo está perdido. E sou daqueles que não aplicam opiniões judicativas acerca de uma juventude que está longe de se sentir anestesiada. Tomo de mão a frase célebre do célebre Georges Clemenceau: Dans la guerre comme dans la paix, le dernier mot est à ceux qui ne se rendent jamais.

Vivemos num mundo que se desumaniza.
O medo e a precaução alastram por toda a Europa, que se desejava livre, solidária, fraterna e equânime, e se transformou num território de injustiças múltiplas.
Apesar de tudo, o equilíbrio no terror, instalado na Guerra Fria, impedia o desenfrear da parte mais bárbara do capitalismo.
Claro que o socialismo real fez renascer e desenvolver, potencialmente, o niilismo, o qual acabou por se identificar com a ideia de que tudo é permitido - desde que dê lucro.


A manifestação em Belém, destinada a salvaguardar um princípio que nem sequer devia estar ameaçado, é deveras significativa do estado a que as coisas chegaram.
Se a Esquerda é esta no poder, disposta às mais abjectas subserviências morais e aos mais repugnantes servilismos políticos - então, a Direita bem pode viver sobressaltada: nem em 2009 está no Governo.


Há dias, no Frente-a-Frente, SIC-Notícias, Luís Fazenda colocou a questão com extrema lucidez.
A Direita não dispõe de território, porque o PS invadiu aquele que, tradicionalmente, a ela pertencia.
Marques Mendes não é, ele apenas, o responsável pelo descalabro do PSD. As grandes figuras daquele partido ausentaram-se, não para parte incerta, sim para a zona dos negócios, da alta finança, onde o verdadeiro poder existe, se concentra e actua.


A crise da Direita resulta da crise na Esquerda: ambas estiveram dispostas a perdoar a mediocridade, curvaram-se aos interesses e às clientelas, e criaram uma teia reticular sem saída, independentemente das características ideológicas e dos antagónicos projectos de sociedade.

Há algo de camusiano nesta estranha época, que pressupõe a luta entre o homem e o absurdo.
Num texto frequentemente luminoso, Kirk Franknheimer, professor de filosofia política de Harvard, acentuava, há poucos meses, que o absurdo deste capitalismo sem veia condu-lo para um abismo sem remissão. Nada do que promove é favorável ao ser humano, sem entender que a liquidação do humano atinge a sua própria liquidação.
Não é o primeiro a discretear sobre o problema.
A questão consiste em saber se o homem consegue existir com esse absurdo.


Não é despiciendo nem arrojado falar de Albert Camus, num tempo por ele previsto como o século do medo, após outro século de outro medo.
O grande escritor sabia, e escreveu-o, que não se trata de banir o mal, mas, antes, de o minorar, porque o mal destruir-se-á a si mesmo.
Merleau-Ponty responderia que a autofagia do mal conduzia, inevitavelmente, à explosão do mundo, tal como o conhecemos.


Os heróis de Camus espelham, estranhamente, os homens de hoje: sentem-se estrangeiros no seu tempo. Pior: sentem-se indesejáveis. Se a angústia é de raiz metafísica, ela, agora, está acrescentada pelos dilemas económicos, pela alteração de valores, de padrões e de princípios, sem nada em contrapartida. Nem a Esquerda nem a Direita dispõem de respostas.

O quadro geral da cultura política portuguesa reflecte a indigência intelectual da Europa e do mundo. Têm direito a sorrisos benevolentes os esforços com que certa Direita se enfronha em pequenos pensadores anglo-saxónicos de cariz conservador, que apenas repetem fórmulas gastas ou anacrónicas. Na Imprensa portuguesa os seus epígonos são patuscos, até porque não compreendem que, no seu pessoal interesse, seria melhor estar calados. Todavia, a Esquerda também não expõe ideias de seu.

A aflição atinge aspectos piedosos.
Quando se assiste ao discurso do dr. Manuel Monteiro (com todo o respeito) estamos perante um cenário patético e lamentavelmente unívoco. O dr. Monteiro, representa mil eleitores, e está, todas as semanas nas televisões, em especial na SIC. Tem direito à palavra, bem entendido. E Garcia Pereira, porque motivo é esquecido?


Esta democracia não vai nada bem e em nada se recomenda ou é recomendável. Existe a prestações. E o resultado aí está.


B.B.

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

AINDA AS LISTAS

A discussão sobre os sistemas eleitorais pode, em plena campanha, parecer extemporânea.
Não é a altura adequada a mudar as regras e as atenções estão mais viradas para os temas próprios da operação, seja a habitual demagogia, sejam os problemas sociais e políticos. No entanto, a oportunidade é maior do que parece: diante de nós estão todos os exemplos do sistema absurdo em vigor. E também é pertinente convidar os partidos a definirem, nos programas, as suas opiniões sobre o assunto.

Um dos motivos invocados para debater ou corrigir o sistema eleitoral consiste na necessidade de produzir um parlamento melhor e eleger deputados mais capazes. Eis uma ideia errada que corre o risco de tornar inúteis as discussões. Nada garante que as actuais listas blindadas de candidatos substituíveis produzam deputados inferiores ou superiores aos que resultariam de listas individuais e de círculos uninominais. Mesmo que fossem permitidas as candidaturas independentes, que defendo, ou que fossem proibidas as substituições dos eleitos, que preconizo, nenhum dispositivo miraculoso faria com que os felizes vencedores fossem impolutos, competentes e de dedicados servidores da causa pública.

Os argumentos sobre o valor do deputado desnaturam o debate. Na verdade, o que está em causa são os eleitores, não os eleitos. O aspecto mais importante de um sistema eleitoral é o poder conferido ao eleitor, não a qualidade do órgão eleito. É nesse sentido que defendo a criação de círculos uninominais; a proibição de substituições de deputados eleitos; e a possibilidade de apresentação de candidaturas independentes. Como não existem sistemas eleitorais perfeitos, sei que o de círculos uninominais tem defeitos. Mas também sabemos que existem dispositivos para os compensar ou corrigir. Em França, na Grã Bretanha, na Irlanda, na Alemanha, na Dinamarca e noutros países, há sólidas experiências consolidadas. Por mim, prefiro o sistema uninominal a duas voltas, como em França, mas não me choca que outros sejam os correctores, como, por exemplo, um círculo nacional.

Não sei, repito, se os círculos uninominais fazem melhores ou piores deputados do que aqueles que temos. Nem sei se os círculos uninominais estimulam ou travam os deputados pára-quedistas impostos pelo chefe nacional do partido e por Lisboa, inquietação expressa por Vital Moreira neste jornal. Mas sei que, com tempo, os círculos uninominais alteram, a favor do eleitorado e das comunidades locais, incluindo as secções dos partidos, a relação de forças com a capital e os dirigentes partidários. E é isso que pretendo: um sistema eleitoral que dê ao eleitorado a capacidade de identificar o mandato que confere, isto é, de saber em quem vota e de ter a certeza de que o eleito cumpre o seu mandato até ao fim (ou que, se o não fizer, o seu lugar não será preenchido por obscuro suplente, mas sim substituído por nova eleição parcial). O que desejo é que o eleitor tenha nas suas mãos um boletim de voto em que constem os nomes de pessoas, cada uma representando um partido, um grupo, uma ideologia, um interesse ou mesmo um capricho. Não quero que o eleitor tenha nas mãos um boletim de voto com logotipos e emblemas.

Pretendo que os cidadãos, nas suas comunidades, organizados ou não em partidos, tenham a capacidade de se entenderem na escolha de um candidato; ou possam escolher, entre vários do mesmo partido, o favorito; ou consigam negociar com o poder central do partido a designação, entre indígenas e pára-quedistas, do candidato; ou finalmente possam procurar, noutras paragens, um candidato que julguem ser capaz de defender as suas ideias e os seus interesses.
Com os círculos uninominais, confere-se mais liberdade individual ao deputado eleito. A vantagem não é sobretudo dele, ou não tanto dele, mas, uma vez mais, do eleitorado. Este ficará melhor representado se o seu deputado tiver uma independência razoável que lhe permita negociar em permanência com os poderes centrais. Um deputado mais livre e mais independente dos chefes partidários fica, ao mesmo tempo, mais dependente do seu eleitorado. O que é positivo. O objectivo é o de reforçar esta dependência, não para tolher o seu papel de representante, mas para lhe permitir negociar as duas dependências, do partido nacional e do organismo local ou da comunidade a que pertence.

Desejo que os eleitores tenham mais liberdade, mais força e mais escolhas e não estejam limitados aos candidatos oficiais dos partidos. Quero que tenham a possibilidade de votar em candidatos independentes ou de partidos locais ou mesmo de grupos de interesses efémeros. Essa mera possibilidade aumenta os poderes dos eleitores e dos membros locais dos partidos, que ficariam assim mais bem armados para negociar a selecção de candidatos. Não esqueço que uma das capacidades dos cidadãos ou órgãos locais dos partidos será a de procurar, fora das suas fronteiras territoriais, candidatos fortes e conhecidos. A liberdade do cidadão não se pode limitar a ter de escolher entre as pessoas da sua comunidade: pode muito bem acontecer que se sinta mais bem representado por uma figura exterior. Desde que desejada e negociada.

Os círculos uninominais transformam um deputado eleito em representante de toda a comunidade do seu círculo. Em contraste, as listas partidárias blindadas, em sistema proporcional, fazem dos deputados representantes dos partidos. Em Portugal não há um deputado de Vila Real, de Benfica ou de Loulé, mas sim do PSD, do PS ou do PCP. Com deputados de círculo, qualquer cidadão, em qualquer comunidade, pode dirigir-se ao seu deputado, sem olhar às suas preferências partidárias. A proeminência partidária (na verdade, um monopólio) é tal que há em Portugal muita gente que não tem deputado. Com o sistema que temos, seria necessário que os partidos tivessem deputados em todos os distritos para que toda a gente se sentisse representada.

Em resumo. A questão pode parecer obscura, distante dos problemas emocionantes da saúde e do desemprego. Mas, na verdade, é no sistema eleitoral fechado, de monopólio partidário e de irresponsabilidade individual que reside uma das causas do mal-estar político crescente em que vivemos. Um sistema eleitoral estabelece regras e relações de força entre os cidadãos e as organizações políticas, entre eleitores e partidos, entre as comunidades locais e o poder central. Em Portugal, essa relação é desequilibrada, sempre em detrimento do eleitor, do cidadão, da comunidade e da organização local do partido ou dos interesses. É esse desequilíbrio que importa corrigir, recorrendo aos círculos uninominais e a um sistema aberto. Quase só os dirigentes partidários o negam. Percebe-se porquê.
Como sempre, o voto é uma arma.
Mas hoje, não é do povo: é dos chefes de partido.
António Barreto

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

TAXONOMIA PARLAMENTAR

Reflexões suscitadas pela proximidade de eleições legislativas...



Sem querer entrar em grandes rigores históricos, podemos dizer que a sociedade na Idade Média se encontrava dividida em três ordens: Nobreza, Clero e Povo; alguns historiadores apontam uma quarta ordem, a Burguesia, outros consideram esta como uma subclasse emergente do Povo.

Na Assembleia da República as coisas passam-se mais ou menos da mesma maneira: também os deputados podem ser divididos em deputados de facto, deputados-de-cú, deputados obscuros e deputados-Batman.

Os deputados de facto são a Nobreza da Assembleia. Participam activamente nas guerras feudais entre os clãs parlamentares (os Pêésses, os Pêéssedês, os Pêcêpês, os Pêpês e os Pêévês). Alguns pertencem mesmo a venerandas dinastias que ultrapassam o tempo e os regimes. Das hostes dos deputados de facto saem, em geral, os Líderes Nacionais — espécie de família real do espectro político nacional —, e os apelidados de “barões”, que como o nome indica são os caudilhos das distritais dos clãs.

O Clero de São Bento (Beneditino?) são os deputados-de-cú. Tal como os membros das ordens monásticas, pouco mais sabem dizer do que “Ámen”; e fazem-no de um modo assaz original: sempre que o voto de obediência (vulgo, disciplina partidária) assim o exige, levantam o traseiro do assento (acto sucedâneo da genuflexão) e já está — missão cumprida.

Sobre os deputados obscuros é difícil falar — por razões óbvias. Supõe-se que sejam o equivalente ao Povo, pois também deles não reza a História; e se estes aspiravam a ascender à Burguesia, aqueles têm como meta da sua carreira política tornarem-se deputados-Batman.

Os burgueses eram geralmente artesãos ou mercadores enriquecidos com o comércio resultante das viagens intra e intercontinentais. Os deputados-Batman não serão artesãos, mas tornaram o comércio das viagens que não fazem uma verdadeira arte. Ao fim e ao cabo, vai dar tudo ao mesmo...

Para terminar, uma singela homenagem aos nossos representantes em São Bento — desta e de futuras legislaturas. (Cantar ao som da música de «Os Índios da Meia-Praia», de José Afonso.)

«Os Índios do Hemiciclo»
escrito em colaboração com Dina Cruz



Aos deputados que temos
lá prós lados de S. Bento
vou fazer uma cantiga
se pra tal tiver talento.
Pelo tacho aqui vieram,
digam lá se é ou não é.
É preciso aproveitar:
isto quem paga é o Zé.

Quando os meus olhos tropeçam
no voo de um avião,
deputados à janela
dizem adeus ao povão.

Não é só lá em Bruxelas
que há um Batman-deputado:
cá há muito Homem-Morcego
qu’inda não foi apanhado.

Eles trabalham com afinco,
mas nunca estão em S. Bento.
É como diz o slogan:
«Vá para fora cá dentro!»

Quem dera que o povo tenha
tino e sabedoria
e na eleição que venha
lhes retire a mordomia.

«Olá» dizem a Lisboa,
«Adeus» ao eleitorado.
Nada os prende às promessas
que deviam ter honrado.

Oito anos de poleiro
e a reforma é garantida:
são sete cães a um ócio,
isto, sim, é que é vida!
Tantos homens e mulheres
a comer do mesmo bolo.
«Isto aqui é uma festa»,
quem diz o contrário é tolo.
Só um ou dois é que pensam
e o resto é pau-mandado:
lembram aqueles cãezinhos
de pescoço articulado.

É sempre a mesma conversa:
levanta, senta, levanta.
Quando os monos intervêm
até a gente se espanta.

Das Comissões nomeadas
de resultado previsto,
saiu o que temos visto:
outras três foram criadas.

E se a TV apanhar
algum deles a dormir
surge logo a defesa:
«Ele estava a reflectir!»

Da tribuna alguém discursa:
é o «Blá! Blá! Blá!» de sempre.
Isto está-me a parecer
missa de corpo presente...

Tantos homens e mulheres
a comer do mesmo bolo.
«Isto aqui é uma festa»,
quem diz o contrário é tolo.

E toca de papelada
no vaivém do Parlamento.
Quando é que reciclamos
o lixo que há em S. Bento?

Fernando Gouveia

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terça-feira, 14 de dezembro de 2004

PARTIDOCRACIA





A situação política em que vivemos coloca uma questão de fundo.
Que tipo de democracia temos efectivamente?
Dir-me-ão que, obviamente, o de uma democracia representativa. Direi que os representados são evidentes - os cidadãos eleitores - mas que os representantes não são tão óbvios.
Mesmo nos representados poderá ficar-se com a dúvida se os cidadãos abstencionistas ao voto desejam ou não ser representados.
Com excepção da eleição para Presidente da República, as outras escolhas de representantes são feitas a partir de listas de candidatos, quase todas de origem partidária.
Entram, então, em cena os directórios partidários que, utilizando o chamado aparelho partidário, transformam os votos em poder.
A lista é elaborada e apresentada por eles, os directórios partidários, e controlada por eles, os mesmos directórios.
Aquela herança do "socialismo real", o "centralismo democrático", está muito bem aplicada neste processo.
Depois, para disfarçar, fala-se nas virtudes da democracia representativa e até se avançam com hipocrisias como a proximidade ao cidadão eleitor, a regionalização, como forma mais eficaz de tratar os problemas das pessoas e das terras, ou a "governança", convidando a sociedade civil a participar directamente na resolução de problemas das diversas comunidades.
Mas, numa democracia representativa há três pilares fundamentais: o sufrágio universal, o Parlamento e os partidos.
Como vão estes três pilares e as relações entre eles na nossa democracia?
No mínimo que se pode dizer, não vão bem e muito pelo que fica dito. Em que tudo é feito sob "o manto diáfano e omnipresente dos directórios partidários", que fogem a "sete pés" do sistema de eleição directo e pessoal dos representantes do Povo: os conhecidos círculos uninominais. E assim cada vez mais há a percepção popular de se votar no futuro primeiro-ministro e não principalmente nas listas partidárias de deputados à Assembleia da República. Percepção tão forte que a recente substituição, no cargo de primeiro-ministro, de um líder partidário por um novo líder do mesmo partido não foi pacificamente aceite por muitos cidadãos eleitores.
Argumentavam que havia sido escolhido aquele primeiro-ministro, entre os anunciados pelos diferentes partidos, e não os diversos representantes das diversas comunidades, diga-se distritos ou círculos eleitorais.
Nesse sentido de opinião, os representes eleitos são cada vez mais vistos como cinzentos membros de um grupo parlamentar do que deputados, verdadeiros representantes do Povo com autonomia política própria dessa condição.
O "actor político" do Parlamento não é o deputado.
É o grupo parlamentar.
E tudo vai prosseguir.
Não será certamente esta insólita dissolução da Assembleia da República que vai mudar a situação.
Vamos eleger em 20 de Fevereiro "membros de grupos parlamentares" e talvez se consiga um primeiro-ministro.
Continuarão os "cantos de sereia" sobre a aproximação dos representantes aos representados, quando tudo se passa adentro dos partidos. Talvez se queira repetir a regionalização no mesmo esquema de domínio dos directórios partidários.
Até mesmo se coloque urgência na aplicação da "governança" a problemas que afectem assimetricamente pessoas e comunidades. Também se combaterá a "democracia directa", mesmo nos seus sinais mais fracos, argumentando com ingovernabilidade e paralisia da vida pública. E os "círculos uninominais" serão afastados, alegando fonte de perturbações, de instabilidade, de paroquialismo. Nada que os "media" e a côrte lisboeta não produzam com abundância.
Poderá haver "lobbies" de todas as profissões, de todos os sindicatos, de todas as associações patronais, de todos os interesses, a interferirem nas decisões.
Mas não poderá haver "círculos uninominais" por meio dos quais os representados façam "lobby" sobre o seu representante e lhe peçam contas do que ele faz pelos interesses deles, durante o mandato para que foi eleito. Continuaremos alegremente na partidocracia vigente e nos seus vícios e defeitos.
Já estão a "fazer" as listas dos representantes a propor aos eleitores em 20 de Fevereiro de 2005. Mesmo antes dos programas dos partidos. Ou melhor, já estão a "fazer" as listas dos futuros membros dos futuros grupos parlamentares dos actuais partidos.
Carlos Brito

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