sexta-feira, 25 de junho de 2010

A GRANDEZA DO JOSÉ


Havia nele, no que escrevia e dizia, mas, também, na forma como fixava as coisas e os homens, essa espécie de iluminação que diferencia, essa diferença que ilumina.
José Saramago foi um grande português, com duas pátrias amadas: Portugal e Pilar del Rio.
Não há metáfora nesta afirmação.
Pilar era a pátria redesenhada do seu próprio coração; e Portugal o desejo permanente, nunca apaziguado, da linguagem entendida como emoção e conquista.

Um português desta estirpe e desta grandeza jamais seria entendido pelo português minúsculo, sem dimensão e sem mérito - como é o dr. Cavaco. Saramago possuía a medida da pátria.
O dr. Cavaco não dispõe da altura exigida pelas suas funções.
Saramago amava o seu povo porque nos conhecia.
O dr. Cavaco despreza-nos por ignorância.

Ao ausentar-se das cerimónias nacionais ao falecimento do escritor (do grande escritor), dispensou-se de se associar ao respeito colectivo, e expôs-se como uma criatura ressentida, medrosa, escondida, cabisbaixa. Este senhor é o mesmo que recusou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia e premiou ex-agentes da PIDE, "por bons serviços prestados à pátria."
É aquele que inventou a existência de escutas em Belém, num dos episódios mais grotescos e farsolas da II República.
É o indivíduo que presidiu ao Ministério responsável pelo impedimento de José Saramago em se candidatar a um prémio literário europeu. Refiro-me, claro!, ao facto de ter silenciado sobre a decisão do subsecretário Sousa Lara, e do secretário Santana Lopes, ambos estes "governantes" da Cultura, em impedirem que o romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" fosse, sequer, admitido a concurso.

A nota oficial da Presidência da República, em que se pretende explicar a ausência do Chefe de Estado no velório de José Saramago, é um documento lamentável.
Corresponde, aliás, à ambiguidade e evasivas com que promulgou a lei do casamento de homossexuais.
O dr. Cavaco não enfrenta: evita.

As "explicações" que tartamudeou nos Açores são de molde a revoltar-nos pelo que comportam de divisão social, e pelo que exprimem de incompreensão relativamente ao significado cultural de Saramago, além da hipocrisia e do cinismo de frases como esta: "Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente o escritor, embora tenha lido os seus livros." Estamos mesmo a ver o dr. Cavaco, nos tempos livres, sentado num sofá e debruçado nas páginas de qualquer romance do autor.
Estamos mesmo a vê-lo.

É este cavalheiro de pouca estatura intelectual, minguada extensão de estadista, certamente o pior Presidente da República em democracia - é este homem sombrio e tíbio, vingativo e rancoroso que a Direita deseja manter em Belém.

Não há comparação possível, mesmo reclamando-nos de tolerância cristã e piedade sem peias, entre José Saramago e o dr. Cavaco. O primeiro orgulha-nos e enobrece-nos.
Levou o nome da pátria às sete partidas do mundo; pôs-nos a reflectir e exigiu que não nos submetêssemos, que fôssemos homens livres, que rejeitássemos e combatêssemos a servidão.
Nada devemos ao dr. Cavaco, a não ser decepções, arrogância, soberba, trapalhadas culturais.
Nada, neste homem hirto, pouco à vontade, irritadiço, colérico quando contrariado, o recomenda ao nosso respeito, consideração e estima.

E poucos gostam dele, inclusive os da sua área ideológica, se é que ele sabe, em rigor, o que isso significa.
O dr. Cavaco é um embaraço para os seus correligionários, e um pesadelo para os que admitem a democracia como uma instância de sabedoria, de compreensão, de complacência e de liberdade livre.

José Saramago esteve sempre onde devia estar.
O dr. Cavaco está a mais onde está.

APOSTILA 1. - Há uns anos largos, num programa de Margarida Marante, na SIC, foi apresentado um encontro aparentemente imponderável: D. Manuel Clemente, então reitor do Seminário dos Olivais, e José Saramago, já então muito conhecido e muito polémico. Foi um diálogo inesquecível. D. Manuel Clemente conhecia a obra do escritor, e este demonstrou uma atenção muito grande por tudo quanto o seu interlocutor dizia, sobretudo pelas interrogações sobre Deus e a religião que lhe formulava. Dois homens cultos, que se respeitavam e que expunham aos telespectadores uma forte dignidade nas suas opções essenciais e uma impecável decência nas suas interpelações e propostas. Ainda esperei que alguém, nos jornais e nas televisões, se lembrasse do acontecimento, e solicitasse a D. Manuel Clemente um depoimento, um artigo, um comentário sobre Saramago. Porém, a memória das Redacções parece estar irremediavelmente perdida. Na ausência desta grande figura da Igreja, perdemos todos, certamente, uma bela demonstração de pedagogia e de cultura. Paciência.

APOSTILA 2. - A hierarquia da Igreja Católica Portuguesa distanciou-se do Vaticano e do seu órgão, "L'Osservatore Romano", que, num artigo inconcebível, cobriu José Saramago de injúrias. Uma vergonha à qual os bispos portugueses recusaram associar-se, mantendo uma elevação moral que merece aplauso. Como aplauso merecem os padres Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça pelas declarações que prestaram publicamente.



B.B.

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4 Comments:

At 26 de junho de 2010 às 02:15, Anonymous Mestre Pontes said...

Eh pá, desculpem lá!

Saramago foi Nobel, bom escritor, etc e tal. Certo?

Mas por que raio de paranóias é que querem fazer do homem um deus? Não foi ele que perseguiu e saneou?

Acho que as pessoas não enxergam bem: Saramago vale pelos seus escritos e pronto.

Agora estarem a tratar o homem como alguém acima de tudo e todos? O Cavaco fez o que fez e vai pagar por isso. Mas agora dizer que «Saramago amava o seu povo»?! Já chega de hipocrisias! «Possuia a medida da Pátria?!» Mas o que é isso? Era ele o Mestre Supremo? Quanto muito, o Censor Máximo!

O Batista Bastos está mesmo choné! E tu também, Zé!

 
At 26 de junho de 2010 às 13:52, Anonymous Anónimo said...

O Presidente de todos os ressentidos
Cavaco Silva disse uma vez que os livros de Saramago lhe desagradavam porque tinham demasiadas vírgulas. As explicações com que o Presidente da República justificou a sua ausência do funeral de Saramago tinham demasiadas reticências.

Para Eduardo Lourenço, a obra de Saramago é um diálogo extraordinário com a Bíblia. Harold Bloom dizia que Saramago era o mais talentoso romancista vivo. E Cavaco Silva afirmou uma vez que os livros de Saramago lhe desagradavam porque tinham demasiadas vírgulas. Enfim, cada crítico literário com a sua mania. A mim, que não percebo nada de literatura, pareceu-me que as explicações com que o Presidente da República justificou a sua ausência do funeral de Saramago tinham demasiadas reticências.

Bem sei que Cavaco decretou que a polémica em torno do facto de não ter comparecido no enterro de Saramago era estéril. Mas, por azar, as polémicas estéreis são as que mais me costumam interessar. Para polémicas fecundas sempre revelei menos capacidades.

Primeiro, e na qualidade de cidadão especialista em evasivas, devo lembrar que as melhores desculpas são singulares. Ora, Cavaco apresentou três. Por um lado, disse que não conhecia Saramago. Por outro, disse que não era amigo dele. Finalmente, alegou que prometera aos netos mostrar-lhes as belezas dos Açores durante quatro dias. Só faltou dizer que não iria ao funeral de Saramago por desconfiar que Saramago também não irá ao dele. São demasiadas desculpas e, como é próprio das desculpas múltiplas, são pobres. A circunstância de não ter uma relação próxima com os homenageados nunca impediu o Presidente da República de estar presente em cerimónias de Estado. Por exemplo, Cavaco comparece sempre nas cerimónias comemorativas do 25 de Abril, embora mal conheça a data e não seja propriamente amigo dela. Talvez seja melhor retificar a regulamentação do luto nacional. O País fará luto por ocasião da morte de uma personalidade de excecional relevância, a menos que o Presidente da República se encontre a contemplar as Furnas.

No entanto, também o facto de estar de férias não tem impedido o Presidente de intervir em matérias de Estado. Ainda fresca na nossa memória está a importante comunicação ao País sobre o estatuto político-administrativo dos Açores, por causa do qual Cavaco Silva interrompeu o merecido descanso, há cerca de um ano e meio. Creio que, se o estatuto político-administrativo dos Açores tivesse falecido, Cavaco teria pedido desculpa aos netos e ter-se-ia dirigido ao Alto de São João para lhe prestar a última homenagem. Tendo morrido só um homem, não houve necessidade de perturbar o turismo. Na verdade, foi apenas isso que aconteceu. Não morreu um santo nem um demónio. Morreu um homem. Logo por coincidência, dos três é o meu preferido.

Ricardo Araújo Pereira

 
At 26 de junho de 2010 às 20:55, Anonymous Anónimo said...

Pois desculpem lá, mas o que o Cavaco demonstra é que não é hipócrita! Se o Saramago não o gramava, e fazia questão de o enxovalhar quando podia (com ou sem razão), mas que raio iria ele lá fazer? No fundo acho que o que ele fez tem a sua razão. Eu também provavelmente também não iria depois de ouvir o que já ouvi o Saramango falar dele. E atenção, acho que o próprio Saramago se havia de passar! Apesar de ser grande apreciadora do Saramago, acho que não fez lá falta o cavaco....

 
At 3 de julho de 2010 às 01:46, Blogger pragma said...

«Cavaco Silva disse uma vez que os livros de Saramago lhe desagradavam porque tinham demasiadas vírgulas. As explicações com que o Presidente da República justificou a sua ausência do funeral de Saramago tinham demasiadas reticências.»

Após ter lido estas palavras, por parte de um comentador anónimo anterior, fico sem nada para escrever pois quase tudo foi dito aqui!

pragma
http://teopragma.blogspot.com

 

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