quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O PORTUGAL DE ...


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segunda-feira, 7 de maio de 2012

BRANCO INCANDESCENTE


Havia os dias em que eu acordava com as vozes das mulheres na tapada. Começavam a trabalhar bastante cedo porque o calor era por demais. A partir de meio da manhã, já custava aguentá-lo; a partir da tarde, já ninguém podia com ele. As mulheres eram a minha mãe, a minha avó e, talvez, alguma vizinha a quem a minha mãe tivesse pedido para ajudar. A essa hora, a luz do sol já se espalhava por tudo: pelos torrões de terra, grossos, secos, pelas folhas finas das oliveiras ou pelo toque dos sinos na torre da igreja, a marcar as horas com pancadas solenes. As vozes das mulheres, feitas de manhã, misturavam-se com tudo isto.

Quando eu chegava ao quintal e me inclinava sobre o muro da tapada, via-as a caiarem as traseiras da nossa casa. Usavam lenços na cabeça que as tapavam até ao pescoço e, sobre eles, chapéus de palha. Por cima da roupa, usavam batas; por baixo das saias, usavam calças. Molhavam os pincéis grossos na cal e raspavam-nos ruidosamente nas paredes. Para chegarem às partes mais altas, os rebordos dos beirais, prendiam pincéis na ponta de canas com vários metros de altura. Eu admirava-me com esse trabalho. A cal escorria pela parede, aguada e branca. A parede cheirava a cal, a pedra fresca. As mulheres estavam sempre bem-dispostas. Nessas manhãs, pareciam-me mais novas.

Na minha rua, havia paredes de casas que tinham tantas camadas de cal sobrepostas, ano após ano, que tinham perdido a origem da sua forma. Eram casas brancas, de superfície ondulada, com as esquinas arredondadas. Eu sabia que as suas paredes eram grossas e que, mesmo debaixo da maior força do calor, eram frescas. Por fora, com as portas apenas no trinco, não era preciso fechá-las à chave, pareciam grutas brancas, fortes e limpas. Mesmo quando as viúvas morriam e não havia ninguém para caiar essas casas durante anos, as paredes mantinham o asseio. Então, eu e as crianças da minha idade, arrancávamos lascas de cal com as unhas e, às escondidas, gostávamos de comer as mais fininhas.

Havia também os dias em que eu acordava mais cedo e assistia à maneira como as mulheres tiravam grandes pedras de cal de uma saca e as deixavam cair num bidão meio cheio de água. As pedras de cal faziam a água ferver. Era esse o fenómeno, parecido com um milagre, a que eu queria assistir. Depois, seguravam um pau com as duas mãos e mexiam essa água grossa, branca, que rebentava bolhas lentas, acompanhadas por barulhos líquidos, como um animal cansado.

Nesses dias, almoçávamos ensopado de borrego no quintal, à sombra dos pessegueiros. As mulheres falavam de qualquer assunto que as fazia sorrir, as suas vozes misturavam-se com o tempo. Eu ouvia-as, prestava atenção a cada frase, aquilo que diziam dissolvia-se em claridade, mas também reparava nas gotinhas de cal que lhes tinham secado na pele do rosto, a pouca distância dos olhos. Cal sobre a pele. Havia nitidez nas cores, a luz era toda verdadeira e, como o sol reflectido na cal, as mulheres encandeavam. 

José Luís Peixoto(texto)
Sharking (foto)

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domingo, 8 de abril de 2012

ENTREVISTA DO JOSÉ LUÍS PEIXOTO

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sexta-feira, 23 de março de 2012

NOVO LIVRO DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO



O livro A Mãe Que Chovia é o primeiro livro infantil de José Luís Peixoto, com ilustrações de Daniel Silvestre da Silva.




Chegará às livrarias a 13 de Abril de 2012.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

UMA REVISTA A LER...































O projecto em que trabalhei nos últimos tempos é a revista Volta ao Mundo.
O número de Março é todo escrito por mim (todo).
Fui a Miami, Pequim e Moscovo para escrever este número.
O resultado do meu trabalho são quase 100 mil caracteres de texto, onde há lugar até para 9 poemas inéditos, uma espécie de revista-livro.
Chega às bancas no início de Março.



José Luís Peixoto

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

OBRIGADO

Às vezes, fico só a olhar para vocês. Aperto os lábios, porque todas as palavras me parecem insuficientes. Aquilo que normalmente se diz nessas ocasiões, aquilo que é aceite pelo protocolo da convivência social, não chega para começar a exprimir todo o invisível que me inunda. Então, quase sempre sentado a uma mesa, fico só a olhar para vocês. Nesses momentos, não ter palavras é muito melhor do que ter rios de palavras. Aquilo que não sei dizer existe com muita força e, se tentasse encontrar-lhe nomes, estaria a diminui-lo, a transformá-lo em qualquer coisa possível.

É essa a natureza da matéria que partilhamos, é essa a forma daquilo que nos juntou. Sem esse mistério, continuaríamos a seguir os nossos caminhos. Talvez a metros, talvez a quilómetros, talvez em hemisférios distintos, talvez em ruas paralelas, as
nossas existências seriam indiferentes uma à outra. Não quero sequer imaginar a possibilidade desse mundo cinzento. Ainda bem que existem os livros, ainda bem que existe esta revista, ainda bem que existem a internet, o facebook, as feiras do livro e todos os lugares físicos e não-físicos onde nos encontramos. Ainda bem que existe o pensamento e a memória. Ainda bem que existe a ternura.

Mesmo havendo palavras, é difícil dizer aquilo que se quer dizer. A voz fica presa na garganta ou antes da garganta. Não vamos cometer esse erro. Vocês foram chegando devagar, foram entrando e quero que saibam que, hoje, são parte da minha família. Penso em vocês entre aquilo que me é mais valioso e, sem explicação, sinto saudades vossas de repente. Muitas vezes, sinto o toque do sol, tão suave, e sorrio ao lembrar-me que vou partilhar esse bem-estar convosco. Sinto-me muito grato pela companhia que me fazem. Convosco, nunca estou sozinho.


Os dias têm horas, minutos, e eu existo em todos eles. Não vejo o mundo apenas a partir das montras das livrarias ou das pequenas fotografias que acompanham estas crónicas, como se tudo estivesse controlado. Sou uma pessoa, Zé Luís, e só muito raramente está tudo controlado. Há vezes, como agora, em que estou num quarto qualquer.
Um quarto onde, depois de hoje, nunca mais voltarei. Os meus filhos, a minha mãe, as minhas irmãs estão a milhares de quilómetros, o terreiro das Galveias está a milhares de quilómetros. A distância faz de mim um menino perdido. Há muitos mais exemplos, claro, o coração a bater contra algo que o aperta. Então, vocês chegam e cobrem-me com a força de me desejarem tanto bem. Vocês protegem-me com pensamentos que atravessam oceanos. Comovem-me com esse bem-querer. Obrigado por, entre tantas possibilidades, terem escolhido a mais bondosa. Vocês constroem-me. Devo-vos a pessoa que sou.

E não importa se estivermos no mesmo lugar apenas por um instante há cinco anos, não importa se nunca estivemos no mesmo lugar, aquilo que realmente importa é o segredo luminoso que partilhamos. Não é feito de palavras, mas é transportado por elas. Esse é o nosso lugar, temos almas a vaguear nesse universo de sentido. Vocês mostram-me todos os dias que a generosidade pode salvar. Vocês têm muitos rostos, muitas histórias. Eu ouço-vos e encho-me de esperança humana, de amor humano, e transbordo. Mesmo quando estou em silêncio, agradeço-vos por me acrescentarem um sentido tão profundo. Estar-vos grato é estar grato ao mundo inteiro, ao fácil e ao difícil, ao doce e ao amargo. Sem um, não existiria o outro. Mesmo. Sem um, não existiria o outro, repito para que não restem dúvidas. Chegou a hora de, todos juntos, agradecermos pelas contrariedades. São elas, por mais feias, que nos permitem alcançar aquilo que está para lá delas. Ao mesmo tempo, são essas contrariedades, esses silêncios, que nos permitem prestar atenção ao que realmente nos interessa e que, como uma fogueira, nos ilumina o rosto.

Porque nos encontrámos, somos uma espécie de irmãos. Fomos capazes de existir sobrepostos e, por mais ou menos tempo, partilhámos a experiência partilhável. Se amanhã tudo se desfizer, saberemos que nos tocámos e espero que, perante o fim, sejamos capazes de nos sentir gratos pelo que tivemos e que é bastante mais do que a maioria das pessoas alguma vez chega a ter.

José Luís Peixoto




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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

VOLTAR A CASA


Devagar, aproximo a colher, oblíqua, do centro do prato. Por um instante, a circunferência de caldo e a colher formam um exemplo geométrico, são como a ilustração de ângulos num manual de matemática. Sinto o cheiro a conforto morno, a casa, a bem-estar, a inverno agasalhado. Abro caminho com a ponta da colher entre fios de couve, finos e embaraçados como ninhos de pardais. Quando a colher já está cheia e a levanto, não penso em mais do que na sua própria imagem. Fixo-a como se já lhe soubesse o sabor. Confirmo o melhor desse conhecimento no fim do gesto. Caldo verde. Fecho os olhos por um momento.

Após esse momento, o mundo reaparece. A minha mãe dá voltas à mesa. Tem pressa talvez por não querer que este tempo acabe. A sua imagem pisca de um e de outro lado da mesa. Antes de eu chegar, eu sei que a minha mãe enrolou folhas de couve na mão. Aproximou-as das lâminas do aparelho de ferro que as cortou em fios, a rodar por meio de uma manivela, preso à mesa por um grampo. Tenho essa memória desde pequeno, o som das folhas grossas de couve a serem cortadas, a sua cor verde-escura e o seu cheiro fresco, também verde. A voz da minha mãe mistura-se com o sabor da sopa. Diz-me: sabes quem é que morreu? Não sei, mas quero saber. Então, a minha mãe perde a pressa. Faz uma pausa para dar dois ou três passos, que se ouvem chinelados no chão. Dentro de mim, preencho esse silêncio com uma sucessão de rostos da minha infância.

Foi o Ti Zé Rente-às-Orelhas, diz a minha mãe. Quem? A minha mãe tenta explicar melhor: foi aquele homenzinho que morava na entrada da Devesa, vizinho do Mané Fãfã, o viúvo da Ti Chica Estreita. Eu conheço esses nomes, já os ouvi muitas vezes no meio de conversas, mas não estou a ser capaz de identificá-los. A minha mãe escandaliza-se: não sabes quem é o Mané Fãfã? Andaste à escola com dois sobrinhos dele, os filhos do latoeiro, o Armindo e o irmão mais novo do Armindo. Esses conheço bem: sim, claro, os filhos do latoeiro. O Mané Fãfã é irmão do latoeiro? Não, responde a minha mãe, o Mané Fãfã é irmão da mulher do latoeiro, a Rosalinda. Lembro-me dessa mulher, chegou a dar-me pão com mel quando brincava com os seus filhos, mas não sabia que tinha irmãos. Afinal tem, à farta, a minha mãe explica-me que essa mulher é a única rapariga de cinco filhos. Outro irmão dela é o Raposo. Até que enfim: ah, o Mané Fãfã é irmão do Raposo? Assisti-lhe a muitos jogos de sueca. Coitado. Que idade tinha? A minha mãe diz-me que não foi o Mané Fãfã que morreu, foi o seu vizinho, o Ti Zé Rente-às-Orelhas, um homem magro, solteirão, com mais de noventa anos, muito bem falante, mas bastante mouco. Morreu a ver a telenovela.

Não lhe recordo o rosto e, no entanto, consigo imaginar esse homem como se adormecesse, a merecer descanso. Digo: só me lembro do Mané Fãfã ter uma vizinha, aquela mulher maluca, despenteada, despassarada, a Violante. Com paciência, a minha mãe explica-me: essa é a vizinha de um lado. O Ti Zé Rente-às-Orelhas era o vizinho do outro lado.


José Luís Peixoto

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O MAIOR DO NOSSO CONCELHO DE PONTE DE SOR

Aprender com os idosos, fazer uma recolha de vivências e modos de falar. A companhia de teatro Filandorra está a percorrer várias aldeias de Alfândega da Fé na busca de outros saberes para poder levar ao palco a peça Amanhã, de José Luís Peixoto.


José Luís Peixoto, Galveias, (4 de Setembro de 1974 - ), está nos Estados Unidos a apresentar as suas obras:
3 de Novembro de 2011
10.30 h Boston Colégio
17.30 h MIT (Boston)

4 de Novembro

12.30h Universidade Brown (Providence)
7 de Novembro
Universidade de Georgetown (Washington)

9 Novembro

12.00h Bibloteca Healey Universidade de Massachussetts (Boston)

Boston College

O campus do Boston College parece Hogwarts, a escola de Harry Potter. Como todos as universidades americanas, é deserto na hora das aulas e, depois, nos intervalos, enche-se de alunos. Cheguei numa hora vazia e, por isso, tive oportunidade de desfrutar deste outono de Massachusetts: árvores com folhas de todas as cores, muito sol, muita claridade, ar de uma nitidez gélida.

A apresentação decorreu para alunos de língua portuguesa e, por isso, aconteceu parte em português e parte em inglês. As leituras também.

Houve perguntas difíceis. Exemplo: quais as diferenças entre a ditadura de Salazar e de Franco? Esforcei-me por dar uma resposta correcta.

(Um dos refeitórios do Boston College)

MIT

Creio que toda a gente que já ouviu falar do MIT, lhe inventa uma imagem. Eu também era assim. Em muitos aspectos, os primeiros passos naqueles corredores corresponderam a essa imagem mas, depois, cruzei-me com um cartaz a anunciar a minha apresentação, estava exactamente ao lado de um cartaz a anunciar um seminário sobre a história do heavy metal. Foi então que comecei remodelar esse meu preconceito. O MIT é, de facto, um lugar onde se procura o conhecimento, onde quer que ele esteja.

A apresentação e as leituras foram feitas em inglês porque a maioria dos presentes eram alunos de literatura (e não de língua). Estas conversas podem ir por muitos caminhos. A conversa do MIT foi por um caminho bastante bom. Um indicador disso mesmo poderá ser a sua duração: 3 horas.

Havia também uma boa presença de alunos portugueses de pós-graduação. Estão organizados nos Estados Unidos através da Paps (Portuguese American Post-Graduate Society). Mais tarde, foi bom conversar sobre Portugal com alguns deles.

(Neste caso, não é o cartaz do seminário de heavy metal que está ao lado)

Brown University (Providence)

Já tinha tido oportunidade de fazer uma apresentação na Brown University, em Providence, Rhode Island. Regressar foi muito bom. Tive oportunidade de rever muita gente, professores, alguns alunos que agora são professores, etc. De novo, fui muito bem recebido pelo professor Onésimo Teotónio Almeida.

Além disso, com este outono que já referi, o Campus da Brown estava lindo. Não deve ter sido por acaso que Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft passaram tanto tempo em Providence.

Na Brown, dado o nível de a tradição e o desenvolvimento dos estudos portugueses, falei sempre na nossa língua. Se, em Portugal, as pessoas tivessem oportunidade de conhecer o trabalho que é desenvolvido no departamento de estudos portugueses da Brown University iriam ter muito orgulho.

(Cuidado com os downloads ilegais de software, a polícia do MIT pode apanhar-vos)

Nestas apresentações, o apoio de Sofia Soares, Ana Catarina Teixeira e João Caixinha foi imprescindível. Sinto-me muito grato por ele, tanto em nome pessoal, como em nome daquilo que fazem pela divulgação da nossa cultura nos EUA.

José Luís Peixoto

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

O JOSÉ LUÍS PEIXOTO APRESENTA O SEU ÚLTIMO LIVRO






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sábado, 1 de outubro de 2011

NA AULA O ALUNO É IRREQUIETO E FALADOR

Escola Primária de Galveias, ano lectivo de 1981/1982

Clique na imagem
para ler na integra


Dia 27 de Outubro é lançado o Abraço de José Luís Peixoto




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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

JOSÉ LUIS PEIXOTO CONVIDA

Procuram-se leitores para Abraço




No 10º aniversário das Quintas de Leitura / Teatro do Campo Alegre, Porto, José Luís Peixoto apresentará Abraço, um livro que apresenta uma selecção de textos escritos nos últimos 10 anos.

Como é hábito, esse espectáculo contará com a abordagem de múltiplas artes e artistas à obra proposta.

Pela primeira vez, acontecerá em duas noites 27 e 28 de Outubro de 2011.

Neste momento, todos os participantes estão escolhidos, menos um.

Para fazeres parte do grupo de actores que, em conjunto com o José Luís Peixoto, irá ler excertos do livro Abraço nesse espectáculo, coloca online no youtube um vídeo, onde estejas a ler um excerto de qualquer texto da autoria de José Luís Peixoto e envia até 23 de Setembro um email para abracodeleitura@gmail.com onde conste o link desse vídeo e o teu contacto.


Garantiremos a tua deslocação de qualquer ponto do país até ao Porto e estadia.

Receberás também um cheque-livro das lojas Bertrand no valor de € 100,00 .

“QUINTAS DE LEITURA”

27 e 28 de Outubro de 2011

22h00

Café-Teatro

M/16 anos

DEBAIXO DA ROUPA, ESTAMOS TODOS NUS

A caminho do 10.º aniversário das “Quintas de Leitura”, José Luís Peixoto apresenta textos do seu novo livro, no qual perpassam imagens de infância e memórias afectivas do autor. Uma sessão intimista, com muitas surpresas à mistura.

É a oitava presença do escritor neste ciclo poético. Para trás ficam sessões memoráveis como “Dança do Pó” (2004), “Morreste-me” (2005), “Desmantelamento de um rio” (2008) e “Livre” (2009).

Produção: Fundação Ciência e Desenvolvimento/Câmara Municipal do Porto

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sábado, 3 de setembro de 2011

POESIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO ALVO DE REEDIÇÃO



A 2ª edição do livro de poesia Gaveta de Papéis de José Luís Peixoto chega às livrarias a 19 de Setembro de 2011.

A presente edição da responsabilidade da editora Quetzal sucede àquela que foi feita em 2008, após a atribuição do Prémio de Poesia Daniel Faria a este livro.

Os outros livros de poesia de José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas e A Casa, a Escuridão serão reeditados muito em breve.


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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A ÚLTIMA OBRA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO JÁ FOI EDITADA NO MERCADO ESPANHOL

A editora Espanhola El Aleph Editores acaba de lançar no mercado de língua castelhana a obra o Livro de José Luís Peixoto, numa tradução de Carlos Acevedo.


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domingo, 14 de agosto de 2011

GALVEIAS, RUA JOSÉ LUÍS PEIXOTO


Ontem, foi descerrada a placa da Rua José Luís Peixoto, em Galveias.

Esse momento contou com a presença da Banda da Sociedade Filarmónica Galveense, do Presidente da Junta de Freguesia de Galveias, bem como de diversas individualidades locais e do escritor galveense José Luís Peixoto.


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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

JOSÉ LUÍS PEIXOTO NOS EUA [ II ]

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

JOSÉ LUÍS PEIXOTO NOS EUA

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O LIVRO SERÁ APRESENTADO EM GALVEIAS DIA 27 DE SETEMBRO



O novo romance de José Luís Peixoto, Livro (Quetzal), será apresentado por Jorge Costa esta sexta-feira, a partir das 18h30, na Casa do Alentejo (Lisboa).
Os actores Margarida Cardeal e Tiago Rodrigues lerão algumas passagens. Haverá ainda música, com os violoncelos da banda Opus Diabolicum.

Depois, Peixoto apresentará o seu Livro a 27 de Setembro, a partir das 21h00, no salão da Sociedade Filarmónica Galveense, Rua Joaquim Barradas de Carvalho, 84, em
Galveias, sua terra natal; a 28 de Setembro no Porto (Livraria Bertrand Granplaza, na Rua de Santa Catarina), pelas 18h30; e a partir daí um pouco por todo o país, estando agendados cerca de quarenta encontros com leitores.

J.M.S.

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terça-feira, 29 de setembro de 2009

O GRANDE EMBAIXADOR DO CONCELHO DE PONTE DE SOR NO MUNDO

JOSÉ LUÍS PEIXOTO



Feria del Libro de San José, Uruguay, con presencias internacionales

Promover el libro y los nuevos soportes de lectura del siglo XXI es la premisa de la cuarta edición de la Feria del Libro de San José, que según adelantan sus organizadores está pensada para incentivar la participación de los jóvenes y su vínculo con la lectura.

Escritores internacionales

Estarán llegando a la Feria los escritores Abelardo Sánchez León (Perú), Héctor Abad (Colombia), Marina Colosatti (Brasil), Javier León (Venezuela), José Luis Peixoto (Portugal), además estarán presentes dos directores de la Fundación Pablo Neruda, quienes llegarán a San José acompañados por una delegación de diez escritores jóvenes, talleristas de la Fundación, quienes estarán ofreciendo distintas actividades en el marco de la Feria.



O José Luís Peixoto vai estar em San José, Uruguai, nos dias 2 e 3 de Outubro, na Feira do Livro, a conversar, a ler e a dar autógrafos do livro Historias de nuestra casa, uma edição exclusiva para o Uruguai e Argentina e reunirá num só volume o livro Morreste-me Te me moriste e os contos do livro Cal.

Depois, já em Montevideo, terá conversas com turmas de alunos de letras da Universidad de Montevideo.

No dia 6 de Outubro, às 19:30, estará no Centro Cultural de Espanha a conversar públicamente com o jornalista Daniel Viglione do El Observador.

Para além do Uruguai, Outubro será um mês de vários lançamentos internacionais para José Luís Peixoto (Canadá, Roménia, Brasil).

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

PSD/CDS-PP APRESENTAM CANDIDATOS ÀS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS EM GALVEIAS [V]




A coligação PSD/CDS apresenta amanhã, sábado,na Vila de Galveias, na Junta de Freguesia, pelas 17,00 horas, os candidatos do PSD/CDS às Eleições Autárquicas do concelho de Ponte de Sor, do próximo dia 11 de Outubro de 2009.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

AQUILO QUE FIZ DEPOIS DE LER CERTOS LIVROS FRANCESES

1. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

Fui andar de bicicleta. Na minha infância e adolescência eu andava bastante de bicicleta. Em pouco tempo, dava um volta inteira à vila. Não porque tivesse pressa, mas porque tinha energia que precisava de gastar. Quando terminei de ler esse livro, tinha uma bicicleta vermelha, que foi a substituta da mítica bicicleta azul da minha infância. Com a bicicleta azul, fazia cavalinhos, chegava a andar dezenas de metros seguidos com a roda da frente no ar; com a bicicleta vermelha, tirava as mãos do guiador. Sem limite, podia andar o tempo que quisesse sem as mãos no guiador. Caí várias vezes até aprender, ou por me desconcentrar, ou por causa de um buraco ou por causa de qualquer coisa. Cair sem ter as mãos no guiador é desagradável. Tirando isso, sempre gostei muito de andar de bicicleta. Trata-se de uma máquina que respeita o corpo e que se adapta a ele, quase perfeitamente. O acto de pedalar é feito de círculos desenhados no ar por todo o corpo. Existe um movimento de ombros específico para cada maneira de pedalar. Depois, como resultado, o vento no rosto. Mesmo em Janeiro, Inverno mesmo Inverno, é melhor apanhar vento no rosto do que não apanhar. Sentir o toque abstracto do ar, essa matéria, é a certeza inequívoca de que estamos vivos. Se estamos a andar de bicicleta, então, é porque estamos mesmo vivos e temos todos os motivos para sorrir.



2. Uma cerveja no inferno, Rimbaud

Entristeci enquanto olhava através da janela do meu quarto. Lá ao fundo, estava a igreja, o adro, e as casas que rodeavam o adro, mas eu não via esse desenho, eu apenas olhava na sua direcção. Se tocaram os sinos na torre da igreja, eu não os ouvi. Mais perto, por baixo da janela, estava a tapada. Isso é algo que sei agora, teoricamente, porque, na altura, eu não olhava sequer para a tapada, o meu olhar sobrevoava-a e lançava-se numa indefinição, explodia talvez. Eu tinha entristecido subitamente, mas parecia-me que tinha sido devagar. Tudo me parecia lento, as cores dissolviam-se umas nas outras, os sons entornavam-se uns para dentro dos outros. Não tinha nenhum motivo para a tristeza. Com meio raciocínio chegaria a essa conclusão, mas evitava-o porque não queria perder o sabor daquela tristeza branda, feita de sons e imagens que existiam num lugar muito distante, onde eu nunca tinha estado, mas que recordava, como a memória de todos os lugares que me esperavam. Alguns onde, agora, já fui, e todos aqueles onde ainda irei.



3. Viagem ao fundo da noite, Celine

Fui comer pão com manteiga. Não era exactamente manteiga, era margarina vegetal. Embora mais fiel à realidade, acho que ficava menos bem ter escrito “fui comer pão com margarina vegetal”. Normalmente, na minha casa, chamávamos-lhe, ainda chamamos, o nome da marca. Assim, quando esse acto teve lugar, eu teria dito “vou comer pão com planta”. O pão estava guardado na caixa do pão, dentro do armário, na porta por baixo da televisão, sobre uma prateleira forrada com papel de embrulho em tons de cor-de-laranja, com um padrão de quadrados arredondados, algo aproximado de uma estética dos anos setenta. Por preguiça, nesses anos, eu raramente (nunca) cortava fatias de pão com a faca. Abria a porta do armário, abria a caixa do pão, segurava o pão e, com os dedos, arrancava um pedaço que, posteriormente, barrava com margarina vegetal, planta. Eu tirava sempre um pouco de côdea, gostava e gosto muito de côdea, mas o pão ficava com formas inusitadas que desagradavam à minha mãe. Não sei bem qual a razão etimológica, mas nessa altura, eu não dizia “um pedaço de pão”, não dizia sequer “um naco de pão”, dizia “um fanaco de pão”. Dessa forma, se tivesse encontrado a minha irmã no quintal, acho que era Primavera, acho que era de tarde, teria dito “vou comer um fanaco de pão com planta”. E foi mesmo isso que fiz. Já não me recordo do momento exacto em que mastiguei esse pão específico, mas recordo-me de outras vezes e sei, mesmo bem, que sempre foi um prazer imenso estar cheio de (esganado com) fome e comer um pedaço (fanaco) de pão cheio de margarina vegetal (planta) mal espalhada.



4. A religiosa, Diderot

Fui ver se os rapazes que costumavam jogar à bola em frente à oficina do meu pai já tinham chegado. Fui na minha bicicleta azul. Nessa altura, a corrente saltava com muita frequência e eu sujava as mãos todas de óleo para voltar a colocá-la. Cada vez que acontecia, eu pensava que tinha de levá-la a alguém que a arranjasse definitivamente, a apertasse. Quando terminava de colocá-la, esquecia-me desse propósito e pensava que, dessa vez iria ficar mais tempo sem saltar e, depois, quase milagre, iria arranjar-se sozinha. Os quase-milagres custam muito a acontecer. Quando cheguei à entrada da oficina do meu pai, os rapazes ainda não tinham chegado e a corrente da bicicleta saltou quando ia para fazer um cavalinho. Enquanto a estava a pô-la de novo, chegou o primeiro e o segundo rapaz. Limpei às mãos à parede. A marca das minhas mãos pequenas, a óleo, esticadas na parede, ficou lá durante vários anos, vários invernos choveram-lhe toda a sua força. Depois, ainda limpei as mãos nas ervas. Continuaram pretas, mas deixaram de estar pegajosas. Éramos então, três rapazes, sem bola, à espera de jogar à bola. Mas não fazia mal porque tínhamos muitos assuntos acerca dos quais podíamos conversar.



5. O estrangeiro, Camus

Não vou dizer aquilo que fiz. Tenho vergonha. Não deveria ter, mas tenho. Eu tinha treze anos e estava sozinho no meu quarto. Toda a gente já fez aquilo que eu fiz naquele momento. Se alguém se levantar a dizer que não o fez, tenho pena dessa pessoa. Alguém que sabe muito e que já viveu muito contava-me há pouco tempo que a maioria das coisas que nos acontecem não são escolha nossa. É preciso uma vida inteira, mais de sessenta anos pelo menos, para se fazer esta afirmação com propriedade. Pedindo emprestada a experiência da voz na qual escutei esta frase, acrescento que, se essa falta de escolha existe, então tem de estar presente nos momentos aparentemente pequenos, uma vez que são eles que, sucessivos e constantes, formam aquilo a que, no cume da montanha, chamamos “a vida”. Por isso, aquilo que fiz, treze anos, meu quarto, não foi exactamente uma escolha minha, foi uma circunstância. Feitas as contas, tudo é circunstância. Até poderia contar aquilo que fiz depois daquilo que fiz imediatamente após concluir a leitura de O Estrangeiro, de Camus, mas acredito que isso já não vos interesse tanto. Parece-me que gostariam de saber o que fiz logo depois de ler O Estrangeiro, de Camus, afinal esse é o título e o pressuposto deste texto, mas isso não vou dizer.


José Luís Peixoto

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