quarta-feira, 16 de setembro de 2009

LIVRO DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO, VAI SER LANÇADO NO BRASIL EM OUTUBRO



Esta é a capa da edição brasileira do romance Uma Casa na Escuridão.
Será publicado pela Editora Record e chegará às livrarias de todo o Brasil no próximo mês de Outubro.
Originalmente, este foi o segundo romance de José Luís Peixoto( publicado em Portugal em 2002).
No Brasil, depois de Nenhum Olhar e de Cemitério de Pianos, será o seu terceiro romance, a ser editado.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

AQUILO QUE FIZ DEPOIS DE LER CERTOS LIVROS FRANCESES

1. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

Fui andar de bicicleta. Na minha infância e adolescência eu andava bastante de bicicleta. Em pouco tempo, dava um volta inteira à vila. Não porque tivesse pressa, mas porque tinha energia que precisava de gastar. Quando terminei de ler esse livro, tinha uma bicicleta vermelha, que foi a substituta da mítica bicicleta azul da minha infância. Com a bicicleta azul, fazia cavalinhos, chegava a andar dezenas de metros seguidos com a roda da frente no ar; com a bicicleta vermelha, tirava as mãos do guiador. Sem limite, podia andar o tempo que quisesse sem as mãos no guiador. Caí várias vezes até aprender, ou por me desconcentrar, ou por causa de um buraco ou por causa de qualquer coisa. Cair sem ter as mãos no guiador é desagradável. Tirando isso, sempre gostei muito de andar de bicicleta. Trata-se de uma máquina que respeita o corpo e que se adapta a ele, quase perfeitamente. O acto de pedalar é feito de círculos desenhados no ar por todo o corpo. Existe um movimento de ombros específico para cada maneira de pedalar. Depois, como resultado, o vento no rosto. Mesmo em Janeiro, Inverno mesmo Inverno, é melhor apanhar vento no rosto do que não apanhar. Sentir o toque abstracto do ar, essa matéria, é a certeza inequívoca de que estamos vivos. Se estamos a andar de bicicleta, então, é porque estamos mesmo vivos e temos todos os motivos para sorrir.



2. Uma cerveja no inferno, Rimbaud

Entristeci enquanto olhava através da janela do meu quarto. Lá ao fundo, estava a igreja, o adro, e as casas que rodeavam o adro, mas eu não via esse desenho, eu apenas olhava na sua direcção. Se tocaram os sinos na torre da igreja, eu não os ouvi. Mais perto, por baixo da janela, estava a tapada. Isso é algo que sei agora, teoricamente, porque, na altura, eu não olhava sequer para a tapada, o meu olhar sobrevoava-a e lançava-se numa indefinição, explodia talvez. Eu tinha entristecido subitamente, mas parecia-me que tinha sido devagar. Tudo me parecia lento, as cores dissolviam-se umas nas outras, os sons entornavam-se uns para dentro dos outros. Não tinha nenhum motivo para a tristeza. Com meio raciocínio chegaria a essa conclusão, mas evitava-o porque não queria perder o sabor daquela tristeza branda, feita de sons e imagens que existiam num lugar muito distante, onde eu nunca tinha estado, mas que recordava, como a memória de todos os lugares que me esperavam. Alguns onde, agora, já fui, e todos aqueles onde ainda irei.



3. Viagem ao fundo da noite, Celine

Fui comer pão com manteiga. Não era exactamente manteiga, era margarina vegetal. Embora mais fiel à realidade, acho que ficava menos bem ter escrito “fui comer pão com margarina vegetal”. Normalmente, na minha casa, chamávamos-lhe, ainda chamamos, o nome da marca. Assim, quando esse acto teve lugar, eu teria dito “vou comer pão com planta”. O pão estava guardado na caixa do pão, dentro do armário, na porta por baixo da televisão, sobre uma prateleira forrada com papel de embrulho em tons de cor-de-laranja, com um padrão de quadrados arredondados, algo aproximado de uma estética dos anos setenta. Por preguiça, nesses anos, eu raramente (nunca) cortava fatias de pão com a faca. Abria a porta do armário, abria a caixa do pão, segurava o pão e, com os dedos, arrancava um pedaço que, posteriormente, barrava com margarina vegetal, planta. Eu tirava sempre um pouco de côdea, gostava e gosto muito de côdea, mas o pão ficava com formas inusitadas que desagradavam à minha mãe. Não sei bem qual a razão etimológica, mas nessa altura, eu não dizia “um pedaço de pão”, não dizia sequer “um naco de pão”, dizia “um fanaco de pão”. Dessa forma, se tivesse encontrado a minha irmã no quintal, acho que era Primavera, acho que era de tarde, teria dito “vou comer um fanaco de pão com planta”. E foi mesmo isso que fiz. Já não me recordo do momento exacto em que mastiguei esse pão específico, mas recordo-me de outras vezes e sei, mesmo bem, que sempre foi um prazer imenso estar cheio de (esganado com) fome e comer um pedaço (fanaco) de pão cheio de margarina vegetal (planta) mal espalhada.



4. A religiosa, Diderot

Fui ver se os rapazes que costumavam jogar à bola em frente à oficina do meu pai já tinham chegado. Fui na minha bicicleta azul. Nessa altura, a corrente saltava com muita frequência e eu sujava as mãos todas de óleo para voltar a colocá-la. Cada vez que acontecia, eu pensava que tinha de levá-la a alguém que a arranjasse definitivamente, a apertasse. Quando terminava de colocá-la, esquecia-me desse propósito e pensava que, dessa vez iria ficar mais tempo sem saltar e, depois, quase milagre, iria arranjar-se sozinha. Os quase-milagres custam muito a acontecer. Quando cheguei à entrada da oficina do meu pai, os rapazes ainda não tinham chegado e a corrente da bicicleta saltou quando ia para fazer um cavalinho. Enquanto a estava a pô-la de novo, chegou o primeiro e o segundo rapaz. Limpei às mãos à parede. A marca das minhas mãos pequenas, a óleo, esticadas na parede, ficou lá durante vários anos, vários invernos choveram-lhe toda a sua força. Depois, ainda limpei as mãos nas ervas. Continuaram pretas, mas deixaram de estar pegajosas. Éramos então, três rapazes, sem bola, à espera de jogar à bola. Mas não fazia mal porque tínhamos muitos assuntos acerca dos quais podíamos conversar.



5. O estrangeiro, Camus

Não vou dizer aquilo que fiz. Tenho vergonha. Não deveria ter, mas tenho. Eu tinha treze anos e estava sozinho no meu quarto. Toda a gente já fez aquilo que eu fiz naquele momento. Se alguém se levantar a dizer que não o fez, tenho pena dessa pessoa. Alguém que sabe muito e que já viveu muito contava-me há pouco tempo que a maioria das coisas que nos acontecem não são escolha nossa. É preciso uma vida inteira, mais de sessenta anos pelo menos, para se fazer esta afirmação com propriedade. Pedindo emprestada a experiência da voz na qual escutei esta frase, acrescento que, se essa falta de escolha existe, então tem de estar presente nos momentos aparentemente pequenos, uma vez que são eles que, sucessivos e constantes, formam aquilo a que, no cume da montanha, chamamos “a vida”. Por isso, aquilo que fiz, treze anos, meu quarto, não foi exactamente uma escolha minha, foi uma circunstância. Feitas as contas, tudo é circunstância. Até poderia contar aquilo que fiz depois daquilo que fiz imediatamente após concluir a leitura de O Estrangeiro, de Camus, mas acredito que isso já não vos interesse tanto. Parece-me que gostariam de saber o que fiz logo depois de ler O Estrangeiro, de Camus, afinal esse é o título e o pressuposto deste texto, mas isso não vou dizer.


José Luís Peixoto

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segunda-feira, 29 de junho de 2009

RESPIRA

Depois de atravessar o oceano e ver o que existe do lado de lá, depois de traçar linhas irregulares no mapa da Europa, faço a pé o caminho entre a minha casa e o supermercado. Sou um privilegiado enquanto avanço com um saco dobrado na mão, a carteira no bolso interior do casaco, a conhecer todos os passos deste caminho. Posso descer pela escadinha do jardim, por baixo da oliveira que, no Outono, dá azeitonas que ninguém aproveita, ou posso seguir pela rua principal, passar em frente à paragem de autocarros e atravessar a passadeira. Penso em muitas coisas enquanto faço esse caminho: tenho de ir aos correios, às finanças, à segurança social. Encontro sempre alguém para olhar: as pessoas que fumam à porta do supermercado ou a cigana romena, com uma criança a dormir-lhe no colo, que me estende a mão e o olhar. Enquanto avanço entre a minha casa e o supermercado, posso pensar neste texto que estou agora a escrever ou posso pensar nas compras que preciso. Isto, claro, se não tiver feito uma lista num quadrado de papel. Às vezes, deixo um pedaço de papel preso nesses imãs do frigorífico de Londres ou Ibiza e escrevo lá aquilo de que preciso. Detergente da loiça, por exemplo. É também assim que faço com as ideias para textos como este. Não as afixo no frigorífico, mas anoto-as em papéis que perco e encontro nos lugares mais inesperados da casa, muitas vezes após anos, ou em blocos que começo e que nunca acabo.

Posso estar enganado, mas, conhecendo-me, creio que, se tudo o resto falhar, poderei sempre contar com este caminho entre a minha casa e o supermercado. Bem sei que tudo muda: a casa pode deixar de ser minha, o supermercado pode desaparecer, a casa e o supermercado podem facilmente ser submersos por uma tristeza sem nome. Sei que o mundo pode ainda ser mais terrível do que isso, mas, com optimismo, gosto de pensar que este caminho está garantido. Não é pouco. Ao fazê-lo, carrego vagamente a memória daquelas ocasiões em que a minha mãe tirava um saco de plástico do armário e me pedia que fosse fazer um mandado à mercearia da Ti Ana Dezoito (quadrados de toucinho em cima do balcão de mármore, grãos de sal grosso em cima das folhas de papel pardo), ou quando o meu pai me dava uma garrafa e me mandava ir à do Ti Lourenço (o som e o cheiro do vinho tinto a escorrer do barril para dentro da garrafa, o funil de lata), ou quando a minha mãe me dava a bolsa de renda e me mandava à padaria de Ti Luísa do Peças (a farinha, queres mais bem cozidinho?) Enquanto caminho, eu sou essas memórias. Sou um corpo com pernas, braços e cabeça que é a representação física dessas memórias.

Quando chego ao supermercado, sei o lugar das coisas. A meio da manhã ou da tarde, cruzo-me com homens e mulheres que têm mais de setenta anos e que fazem compras ainda mais insignificantes do que eu: um pacote de leite, duas maçãs, pão. Vejo-me a ser um deles. Não daqui a muitos anos, não sou confiante a ponto de acreditar que passarei dos sessenta, mas já hoje, sou já um deles. Como eles, aproximo-me dos homens que estão a jogar às cartas no jardim, e fico a tentar perceber o jogo por cima dos seus ombros. Como eles, leio todas as notícias do jornal, vejo com pormenor todos os papéis que me são deixados por rapazes brasileiros na caixa do correio. Como eles, escolho bem cada peça de fruta que disponho nesses sacos de plástico fino, que custam a abrir, e, como eles, tomo-lhes o peso com a balança do braço antes de os atar com um nó cego.

É também como eles que encontro as palavras para este texto. Se tudo o resto falhar, como tantas coisas que já falharam efectivamente, posso sempre contar com este texto ou, pelo menos, com textos como este. Não tem de existir sempre a mais alta ambição em cada gesto. Ninguém aguenta viver assim e, para os vivos, viver é muito importante. Eu estou vivo. Respiro quando faço o caminho entre a minha casa e o supermercado, como respiro agora ao escrever esta palavra, e esta, e esta. Estão vivas também as pessoas com mais de setenta anos que cheiram melões no supermercado e que se balançam na aventura de comprar um (será que já estão maduros?) Será, será? Oh, dilema.

Aquilo que digo a mim próprio, digo também aos outros: tenham calma.

Agora, em especial para ti: do lugar de onde estás, tu próprio és o assunto que melhor vês, tu és a pessoa que está mais perto de ti. Por esse motivo, é normal que te pareça que cada detalhe é fundamental, essencial, que não podes viver sem ele. Mas podes. Os outros, esses que te amedrontam, que te telefonam todos os dias, que te escrevem emails e te perguntam: já está?, onde é que está?, porque é que não está? Esses parecem gigantes, têm os olhos muito abertos, mas, sabes, quando adormecem, são meninos indefesos. Como tu, também eles. Como tu, também eles recebem os mesmos telefonemas, os mesmos emails e, como tu, também eles, se encolhem ante gigantes, olhos muitos abertos, que, por sua vez, fazem a mesma coisa com outros e outros e outros, espelhos a reflectirem-se infinitamente. Se eles te perguntarem: já está? Podes responder: não, não está. E tudo continua. Se não tiveres o caminho entre a tua casa e o supermercado, terás outra coisa, qualquer coisa. Se não tiveres um texto como este para escrever, terás outra coisa que desconheço, mas que sei que existe. Por isso, respira, respira, respira.

José Luís Peixoto

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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

JOSÉ LUIS PEIXOTO NA 22ª FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE GUADALAJARA

Em Guadalajara, está um tempo que, muitas vezes, não temos em Portugal no Verão. Está uma espécie de Primavera com aroma de Verão, muito sol, o que ajuda bastante a sorrir. Ontem, para além das várias entrevistas, que correram todas de forma excelente, foi sobretudo um dia para descansar. Andei sempre com os meus acompanhantes, que são muitíssimo simpáticos, embora às vezes seja estranho para mim ter sempre duas pessoas à minha volta. Acontece sentir-me responsável por eles e sentir que tenho de estar sempre divertido para que eles sintam que estão a fazer um bom trabalho. E estão.

À tarde, encontrei a minha editora francesa, um amigo poeta espanhol que vive no Uruguai e uma fotógrafa norte-americana, com quem fiquei de tirar umas fotos em Nova Iorque mas, depois, não tive tempo. Estes encontros parecem-me for
mar a imagem nítida de um certo aspecto da minha vida. Eu sou a única coisa que estas pessoas têm em comum. Cada uma delas vive no seu canto do mundo, na sua vida. São desconhecidos uns dos outros. Depois, existo eu, que carrego uma rede de muitas pessoas assim. Pessoas que existem nos contextos mais díspares e que se ignoram mutuamente. Muitas vezes, sinto-me um fantasma entre todas elas. Estou, mas não estou. Como Cassandra, a saber, mas a não poder contar a ninguém, porque ninguém acredita.


Hoje, terça-feira, começará o contacto real com o público presente nesta Feira do Livro, que impressiona pelas suas dimensões e pelos milhares de pessoas que a preenchem a todas as horas.

Será às 18 horas, leitura de poesia.


José Luís Peixoto

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [V]

Domingo familiar

TEOTUHUACAN


Neste momento, é-me difícil encontrar palavras para descrever Teotuhuacan. Passei lá a tarde e, neste momento, parece-me irreal. Se a foto abaixo não for suficiente, sugiro o google: Teotuhuacan. Não há dois lugares com esse nome.


GUADALAJARA

Já estou em Guadalajara. Vou andar sempre acompanhado pelo Raúl e pelo Mário. A agenda, impressa num papelinho que tenho aqui à minha frente, está cheia. Amanhã, até às duas da tarde, terei dado 5 entrevistas seguidas: 3 jornais, 1 rádio e 1 televisão. As conversas ao vivo com o público começam na terça e vão ao ritmo de uma por dia, sendo a última na sexta.
A Feira do Livro de Gudalajara é a segunda maior do mundo, depois de Frankfurt.
No fear. Estou pronto.



ALGUMAS COISAS QUE APRENDI HOJE SOBRE O MÉXICO

- Na Cidade do México, há edifícios de 6/7 pisos em que, em cada andar, existem diversas salas, nas quais estão a decorrer velórios. Ou seja, tratam-se de prédios com algumas dezenas de funerais a decorrer em simultâneo e em permanência.

- Eu vi na Praça Garibaldi, mas contaram-me que é muito frequente em festividades, etc. Aqui, há pessoas que vendem choques eléctricos. Ou seja, andam com uma pequena bateria e dois cabos que acabam em dois tubos de ferro. Então, mediante o pagamento de 10 pesos, as pessoas seguram nos dois tubos e apanham um choque. Uns dizem que faz bem, outros dizem que faz mal. Uns dizem que é bom, outros dizem que é uma estupidez.


ALGUMAS COISAS QUE NUNCA TINHA FEITO ANTES DE VIR AO MÉXICO

- Comer insectos.
- Andar num táxi em que o taxista não tem o braço direito.


José Luís Peixoto

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domingo, 30 de novembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [IV]

Para todo bien

MUSEO-CASA LEON TROTSKY


Ontem, de manhã. Comovente.



TIANGUIS DEL CHOPO

Ontem, à tarde. Tiangui del Chopo ou, simplesmente, El Chopo, é um grande mercado de culturas alternativas que acontece todos os Sábados na Cidade do México. Muita música pesada e dark, muita mesmo. A minha bagagem duplicou. De todos os lugares do género que conheço, e creio que conheço muitos, El Chopo é apenas comparável com a Galeria do Rock em São Paulo. Uma espécie de Camden Town, em Londres, se, além das roupas, existissem também milhares de CDs e de DVDs e tudo o que diz respeito a culturas ligadas ao rock mais marginal, inclusivamente livros. Se eu vivesse aqui, não sei bem o que seria da minha economia. Suspeito que, entre livros e discos, seria expulso de casa pelos livros e pelos discos. Se agora já tenho pouco espaço, e o receio de algum dia acordar (ou não acordar) debaixo de um terramoto de livros, se vivesse aqui, com a ajuda de El Chopo, seria muito pior. Basta dizer que, mal cheguei, encontrei logo o CD de Daemonarch. Agora, está aqui à minha frente. Mas não existe apenas música, existe tudo. Concertos ao vivo e milhares de coisas que nem se imagina que existam. Estou com pouco tempo e, por isso, deixo estas imagens para quem tiver curiosidade:



E este sobre algumas das personagens que se podem encontrar em El Chopo:



ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO

- Dois dizeres populares mexicanos de grande sabedoria:
1 - Para todo mal, mezcal; para todo bien, también.
2 - Viernes, social; sabado, sexual; domingo, familiar.

- Os mexicanos não cantam a canção dos parabéns nos aniversários. O “cumpleaños feliz” espanhol não se canta no México. Em vez disso, nos aniversários, canta-se uma canção bastante diferente, com outra melodia, chamada “las mañanitas”.

José Luís Peixoto

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AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [III]

Pedido de desculpas à minha avó Delfina



É muito normal que existam imprecisões, maiores ou menores, nas entrevistas. É muito raro quando não existe. Não vejo nenhum drama nisso. É uma mostra dos mal-entendidos que sempre existem e expõe uma parte daqueles que deverão ser os mal-entendidos que existem normalmente, nas conversas de todos os dias.

Ontem, saiu um artigo sobre a mim no jornal Milenio, baseado numa entrevista. Esse artigo tem algumas imprecisões que nasceram, justamente, desses pequenos mal-entendidos. Como disse, não vejo nenhum drama nisso e não me incomoda. Aquilo que me frustra e me deixa o coração apertado. Foi que, pela primeira vez numa entrevista, perguntaram-me o nome dos meus avós e eu enganei-me no nome da minha avó materna. Acaba por ser triste porque creio que a sua memória merecia muito essa referência.

Nunca a conheci. A minha avó Delfina morreu alguns anos antes de eu nascer. Sei sobre ela que deu à luz o meu pai em 1938 e que, nessa altura, tinha 46 anos. O meu pai e os meus tios eram 6 irmãos, mas, ao longo da vida, a minha avó Delfina teve 12 filhos, 6 dos quais morreram na infância. Sei também que tinha epilepsia e, segundo descrição da minha mãe, tinha a língua toda retalhada por mordê-la durante os ataques.

Aqui está o artigo do jornal Milenio. Onde se lê “Claudina” deve ler-se “Delfina”.


LA REALIDAD, ÚNICA SUMISIÓN DE LA LITERATURA: PEIXOTO

Y muchas veces, cuando tengo dudas o cuando pienso por qué lo hago, lo hago por ellos, lo hago para decir y hablar con su voz”, dice José Luís Peixoto al referirse a sus abuelos paternos: José y Claudina y, maternos: Luis y Joaquina.
Este joven escritor portugués ha sido considerado junto a Kiran Desai, de India, y Yuri Andrujovich, de Ucrania, las presencias más importantes de literatos en la XVII Feria Internacional del Libro de Guadalajara (FIL).
“Un interés por la gente sencilla, la sabiduría de la geste iletrada” se trata de un interés constante en su búsqueda artística; su obra circula alrededor de las relaciones familiares, las que tal vez él mismo cultivó en el envejecido pueblo de Galveias, donde vivió hasta los 18 años.
Quizá, también por ello, este joven de 34 años con varios pearcing en su rostro y algún tatuaje en su cuerpo, con frecuencia cosecha expresiones como éstas de Saramago: “una de las revelaciones más sorprendentes de la literatura portuguesa actual”.
Su obra (novela, poesía, dramaturgia, artículos) permite asomarse a aquel pueblo árido, sus viejos, los jóvenes que hoy huyen demasiado pronto, pero que en sus tiempos corrían cada mes a la plaza del pueblo con la ansiedad de elegir la mayor cantidad de libros posible en la biblioteca itinerante.
En su obra también puede verse su casa, aquella que figura en al menos uno de sus libros (Una Casa en la oscuridad), “muchas veces que me parece que nunca salí de ahí. Todavía esa es mi casa, siempre será mi casa”, dice.
Este artista, al que se le reconoce una gran fuerza expresiva, con una prosa muy lírica publicó su primera novela, Nadie nos mira, a los 26 años de edad, con ella obtuvo el Premio José Saramago y rápidamente empezó a cosechar lectores por miles.
De México sólo conocía sus escritores. A Juan Rulfo llegó tarde, dice, pero le fascina. “Hoy la literatura va por muchos caminos. En mi propia concepción literaria el punto central es el ser humano. Me parece que es una manera de intentar conocernos unos a otros, son puentes entre personas”.
Su obra y su ideario coincide así con Gao Xingjian, el Premio Novel de la Literatura en 2000: “Lo único a que debe sumisión la literatura es la realidad (...) Las experiencias y enseñanzas ajenas que no pasan por el filtro de la propia vivencia acaban convertidas en simple conocimiento libresco”.
El escritor portugués habla de sus expectativas literarias, éstas tienen que ver con contestar a las cuestiones que toda la gente tiene y que siguen presentes en la literatura desde siempre: quién soy, para dónde quiero ir, qué pienso sobre la vida, la muerte, la felicidad, Dios.
“Son cuestiones para las que a lo mejor nunca tendremos una respuesta definitiva, pero me parece que es importante que uno vaya intentando alcanzar una respuesta, sea cual sea”, finaliza.



José Luís Peixoto

Apostilha:

Maria Vicência Delfino

Enganei-me duas vezes. A mãe do meu pai chamava-se Maria Vicência.

Não quero arranjar desculpas para o meu engano, até porque não foi há muito tempo que tive uma conversa com a minha mãe sobre a minha avó paterna, mas aproveito para dizer que o lapso de lhe chamar Claudina tem a ver com o facto de o meu avô materno se chamar Luís Claudino; depois, o lapso de lhe chamar Delfina tem a ver, percebi agora, com o seu próprio sobrenome. Enfim.

Agradeço à minha irmã Anabela e ao meu primo José pelas chamadas de atenção.

J.L.P.

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sábado, 29 de novembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [II]

Hoy en la Arena México: Los Perros del Mal vs. São Judas Tadeu

A CHARLA DE ONTEM


Ao meio-dia, ontem, estava a começar a conversa na Facultad de Estudios Superiores de Alcatlán (http://www.acatlan.unam.mx/).No início, uma fadista mexicana a interpretar dois temas acompanhada de dois guitarristas também mexicanos. Se algum dia precisarem de fadistas estrangeiros, perguntem-me a mim. Ao longo do tempo, tenho vindo a acumular algum conhecimento e experiência sobre pessoas que, em diversas partes do mundo, se apaixonam pelo fado, muitas aprendem a língua portuguesa por causa disso. Seria interessante um encontro, em Portugal, de fadistas estrangeiros. Ontem, em Alcatlán, a canção portuguesa esteve presente numa excelente voz e no entusiasmo de dois guitarristas, entre os quais um rapaz de 15 anos, a jurar que o fado é um sentimento a que não é capaz de escapar.

Depois, a leitura, a conversa, as perguntas, conversa, leituras, conversa, até às 3 horas da tarde. Apesar de já ter visto muito, continuo a surpreender-me. É impressionante a resistência e o interesse que se nota nas pessoas que têm participado nestas apresentações. O fim chega porque há um momento em que se olha para o relógio e nos apercebemos que já passaram horas. As pessoas ficam até ao fim e inclinam-se para a frente nas cadeiras. Há pessoas a filmar com telemóveis, com máquinas fotográficas e com máquinas de filmar. Há gravadores pousados à minha frente na mesa e há pessoas nas primeiras filas com gravadores apontados para mim. A maneira como vejo este público mexicano é a do cínico que, não acreditando no amor, se apaixona e percebe o quanto se enganou.

Além disso, estou muito contente com aquilo que disse, tanto ontem, como nos dias anteriores. Houve várias pessoas que estiveram em mais do que uma charla e, por isso, fiz um esforço para não me repetir demasiado. Creio que consegui.

No final, foram rifados alguns livros meus e fui eu que os sorteei, folheando as páginas de um deles e dizendo os números que calhavam. As “rifas” eram distribuídas à entrada e consistiam nuns marcadores de livros com uma foto e alguns poemas meus. Ou seja, no final, havia dezenas de marcadores para autografar. Não repeti um único autógrafo. Além disso, de novo, livros, cadernos - houve um rapaz que me pôs um caderno à frente e me pediu para escrever uma definição de amor. E fotografias, muitas.




ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO


- No México, o dia 28 de cada mês é o dia de São Judas Tadeu. Na rua e no metro, há pessoas de todos os géneros, dezenas, centenas, que passam a carregar imagens de São Judas Tadeu. Vão ser abençoadas numa igreja do centro da cidade. As imagens podem ser grandes (mais ou menos um metro) ou pequenas (alguns centímetros). Podem ir ao colo, abraçadas, ou na mão. Quase sempre envoltas por uma grande quantidade de rosários. Às vezes, há alguns homens que passam vestidos de São Judas Tadeu. Em todas essas pessoas, a fé é muito evidente.

- A língua náhuatl atravessa o espanhol que se fala no México e está presente nos mais diversos contextos. Exemplo muito frequente (tirado do dicionário de náhuatl que a Berenice me ofereceu): Chingar. tr. y prnl. Verbalización de chinco o chingo, “en el culo” (véase tzinco en esta sección). De tzintli, culo, ano, -co, part. locativa. Para el análisis de esta voz y de sus numerosas acepciones en México vease el Apéndice v.
Não resisto a deixar um verso de um livro de poesia náhuatl (tirado de um volumne bilingue que me foi oferecido en Alcatlán): Yan cuecuepontimani icniuhxochinquahuitl; que significica em espanhol: Ya echa brotes el árbol de la amistad. (Não tive de procurar muito, as palavras náhuatl são gigantes.



LAS LUCHAS



A Arena México é o maior recinto do país onde se pratica esta espécie de “luta” a que nas Estados Unidos chamam “wrestling” e aqui chamam “lucha”. Ontem, cheguei uns 15 minutos atrasados à Arena México. As imediações são, por si só, um espectáculo. Por um lado, as centenas de vendedores de tudo o que se relacione com as luchas, por outro lado, as próprias pessoas que vão às lutas, devidamente mascaradas, com os níveis de adrenalina altos e em ascensão. Esse pequeno atraso não tinha qualquer espécie de significado, uma vez que eu e as minhas companhias estávamos perante um programa de cinco lutas, cada uma com três caídas. Haveria muito para dizer sobre as luchas, talvez um dia o faça. Por agora, gostava apenas de dizer que é muito diferente assistir a uma dessas lutas pela televisão ou na quarta fila da Arena México com os lutadores quase a caírem-nos em cima, a ouvir-mos tudo o que dizem e com os pontapés na cara (e não só) a serem bem sonoros. Depois, este tipo de “luta” no México é bastante diferente da sua equivalente nos Estados Unidos. Guardando a ressalva de ter assistido a uma ao vivo (Mex) e a outra apenas pela tv (USA), fico com a sensação de que a primeira é muitíssimo mais genuína e, por outro lado, os lutadores são muito mais suicidas. As luchas são uma forma de entretenimento absolutamente popular que, em muitos aspectos, reflectem diversos aspectos deste sociedade. A imensa saturação de cores e de elementos decorativos que se encontra a cada esquina da Cidade do México, em lojas, carros, pessoas, casas, está bem presente nas luchas. O kitch está bem presente. O humor mexicano que, na tv, é representado por personagens grotescas (homens vestidos de mulheres horrendas, pessoas vestidas de insectos, etc) está presente nas luchas. As multidões sem fim estão presentes nas luchas. Além disso, há os vendedores que vendem de tudo em todos os momentos, há as meninas que vêm anunciar as diversas fases dos “combates” e que desfilam nos intervalos, há os lutadores que se dividem em “rudos” (de grande porte, brutos e desleais) e em “tecnicos”(altamente atléticos, que respeitam as “regras”), há as lutadoras que se dividem em “cabeleras” e “mascaras”, há um caleidoscópio de coisas. As luchas, no México, são um encontro entre o bailado, o circo e a ginástica. Por exemplo:




José Luís Peixoto

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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO

Máquina calculadora



O passado dia 25 de Novembro foi o trigésimo quarto que vivi e, ao mesmo tempo, foi o mais longo. Tenho quase a certeza de que não houve outro 25 de Novembro na minha vida em que tenha ganho 6 horas (24+6=32). O tempo não é algo que se dê ou que se receba. O tempo é algo que se negoceia com a natureza. Talvez por isso, essas 6 horas foram trocadas por 12 horas de imobilidade num voo longo (32-12=20). Quanto às 6 horas, terei de deixá-las na alfândega quando regressar a Lisboa (6-6=0). A natureza é muito ciosa do seu tempo. É muito difícil negociar com a natureza.

É muito mais fácil negociar com os mexicanos. Por um lado, 1 euro equivale a 17 pesos, mais coisa, menos coisa (coisa-coisa=coisa); por outro lado, os sorrisos são gratuitos e produzem-se em grandes quantidades. Há fábricas de sorrisos a laborar dia e noite. Depois, há a língua. O espanhol, no México, é a única coisa comestível que não é picante. É doce, é dulcito.

No dia 26, hoje, fui o indivíduo mais despenteado que tomou o pequeno-almoço no hotel El Diplomático. Eram 5 horas da tarde em Portugal, 11 horas no México. Às 7 e meia, quando comecei a falar no Centro de Lectura Condesa, eram 1 e meia da noite em Portugal. Boa hora.

Na primeira apresentação que alguma vez fiz no México, olhei para as pessoas demoradamente, li excertos dos romances e dois ou três poemas, a la hora de poner la mesa, deixei frases a meio, falei das Galveias, contei histórias e, algumas vezes, ri-me sozinho, mas com gosto. Dei uma entrevista antes e outra depois da apresentação. Conheci pessoalmente leitores que apenas conhecia por email e internets várias, autografei livros, sorri para fotografias de telemóvel e ofereci todos os livros que levei.

Agora, são 3 horas. Em Portugal são 9 da manhã. Vou dormir quando as pessoas estão a acordar. Ou seja, o habitual.


José Luís Peixoto

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quarta-feira, 15 de agosto de 2007

'LE STYLE EST L'HOMME'

José Saramago propôs recentemente uma união política entre Portugal e Espanha. Não é por considerar que não temos uma identidade nacional, com todos os seus traços característicos no espaço e no tempo, como a história, a geografia, a língua, a cultura, as tradições, a consciência colectiva. Ele mesmo diz que manteríamos todas as nossas especificidades, ressalvadas as alterações decorrentes dos aspectos políticos envolvidos por essa união.

Não é por se filiar no iberismo mais do que ultrapassado do século XIX, e muito menos por nostalgia das veleidades alimentadas pelas coroas de Portugal e da Espanha, entre finais do século XV e meados do século XVI, de cada um dos reinos anexar o outro em razão de alianças matrimoniais com vocação para a sucessão dinástica. Nada disto o impressiona e, que eu saiba, não é entusiasta da dinastia filipina.


Não é por entender que somos mais fracos, mais pequenos, mais pobres, mais atrasados e mais incultos. Se fosse, teríamos de sustentar uma concepção darwiniana baseada na dominação do forte e do poderoso, como facto consumado, sobre o fraco e o desprotegido. Mas isto estaria em flagrante contradição com as posições políticas que ele tem tomado em relação a Cuba, à Palestina, às ex-colónias, etc., etc.


Não é por propugnar um capitalismo apátrida, para o qual não existem povos nem fronteiras, mas apenas lugares onde a mão-de-obra é mais barata e para onde tende a alastrar uma maior exploração dos trabalhadores, com fins de lucro ganancioso por parte das multinacionais intervenientes no processo. Sempre foi contra isso.


Não é por pretender legitimar que o capitalismo e o patronato espanhóis tomem conta de Portugal. Teria perdido a lucidez, se o fizesse.

Não é por uma questão de modelo político-constitucional. Que se saiba, Saramago não é monárquico, sendo a Espanha uma monarquia hereditária, e nunca se apresentou como defensor de um, nesse caso, inevitável centralismo madrileno.

Não é por ser partidário das democracias representativas de modelo europeu ocidental de que tanto Portugal como a Espanha são exemplos bem sucedidos. Nunca o foi.


Não é por apoiar a nossa integração na Europa. Até publicou A Jangada de Pedra quando Portugal e a Espanha aderiram à Comunidade Europeia, para acentuar a sua concepção de um destino terceiro-mundista para os dois países ibéricos.


Não é por estar de acordo com a livre circulação de pessoas, bens e serviços no espaço europeu, nem por se identificar com o modelo da União Europeia, quer na forma actual, quer na forma federal, quer na de uma Europa das regiões governada por Bruxelas em última instância. Nunca divergiu das posições do PCP em tais matérias.


Não é por pensar a sério que Espanha e Portugal, juntos, fariam uma unidade política mais forte no plano internacional. Perderíamos no equilíbrio entre os dois países e ficaríamos diluídos e diminuídos nas instâncias europeias. O peso da Espanha seria reforçado e o de Portugal neutralizado.


Não é por viver habitualmente em Espanha ou por lá ter casado. Façamos-lhe a justiça de considerar que ele nunca seria capaz de invocar tais razões.


Não é por ser ingénuo. Nunca lhe passará pela cabeça que a população portuguesa, em referendo, viesse dizer "sim" à união.


Saramago sabe que nem com uma engenharia das almas, nem com uma engenharia social ou política ditada pela fria racionalidade da sua própria lógica, o resultado de que fala seria atingido.

Se ainda acredita numa revolução pela cartilha marxista-leninista, poderia pensar-se que, não vendo maneira de acabar com a democracia burguesa na Europa, esta sua construção não só desenharia o fim da independência de Portugal e ainda, ipso facto, o do regime em que vivemos, como implicaria também a queda da monarquia espanhola... Mas essa seria uma outra forma de ingenuidade da sua parte.

Parábola então? Sim. Como já tive ocasião de dizer à TVE, creio que este será o tema de um dos seus próximos romances. "Uma vez que é insustentável, só um Prémio Nobel poderá tentar transformá-lo num exercício de estilo que valha a pena ler. E sabemos, desde Buffon, que le style est l'homme même."

Vasco Graça Moura

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terça-feira, 15 de maio de 2007

AINDA HOJE OS LOBOS UIVAM

Depois da Assembleia da República ter aprovado, por unanimidade, uma resolução que determina a transladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional, eis que 500 cidadãos – ou deverei chamar-lhes súbditos? – vêm subscrever uma petição insurgindo-se contra que se proponha como modelo de herói nacional um homem com o perfil de terrorista e bombista.

Segundo os signatários da petição, Aquilino Ribeiro teria, entre outras malfeitorias, participado na conspiração que levou ao Regicídio, em 1908.

Aquilino Ribeiro viu-se a contas em três regimes – o Monárquico, o Republicano e o Fascismo – com toda a espécie de acusações e sentenças tendo, por duas vezes, fugido a uma justiça tendenciosa, manipulada e preconcebida, como também, por muitas outras, tendo-a enfrentado com grande coragem e dignidade. Concretamente sobre o período do Regicídio, sabe-se que tinha relações com maçons e carbonários, mas nenhuma modalidade de justiça provou alguma vez que Aquilino tenha estado no local a 1 de Fevereiro de 1908. Não esteve. E que estivesse? A história é a história e quem é quem para fazer o julgamento? E, já agora, quem se apresenta para julgar Aquilino pelo envolvimento na revolta militar de 1927?

Aquilino Ribeiro enfrentou toda a vida o rancor de alguns protagonistas da mesquinhez e da mediocridade nacionais. Censuram-lhe os livros, perseguiram-no na vida profissional e pessoal, atiram-no aos juízes. Chegaram a julgá-lo sob a acusação de desacreditar as instituições vigentes a coberto da ficção literária. O que nunca lhe perdoaram foi que ele tomasse partido nos episódios das novas Patuleias. E contra a figura de Mestre Aquilino, ainda hoje os lobos uivam.

J. P. G.

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segunda-feira, 23 de abril de 2007

ZECA AFONSO - NOME DE LIBERDADE

A voz de Abril contada às criançasQuando passam 20 anos da morte de Zeca Afonso e no mês que se celebram os 33 anos da revolução dos cravos, chega às livrarias o livro infantil Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro.
José Jorge Letria, munindo-se da pureza encantatória da linguagem infantil, reconstrói a história do menino ao homem, e Evelina Oliveira desenha a magia narrativa com cor e emoção.

Se Zeca foi a voz de ouro, sinónimo de riqueza humana e trigo do futuro, este livro dedicado ao grão do trigo novo é o instrumento que faltava para se passar esse testemunho às nossas crianças.
Por isso, e já, Que é já tempo /D’embalar a trouxa /E zarpar em direcção ao futuro, Venham mais cinco e tragam outros amigos também para que se obtenha uma seara robusta.
Assim, os miúdos de hoje poderão perceber mais tarde o que é ser-se maior que o pensamento, e porque as palavras e a voz de Zeca levam ao arrepio.
Homenagem às crianças, a Zeca Afonso e à Liberdade, este livro da soberba colecção O Sol e a Lua, da Campo das Letras,
veicula ensinamentos indizíveis de sonho, coragem, resistência às amarguras, mas também educa a sensibilidade e as emoções.

São propriedades de uma escrita com poética singular, a que José Jorge Letria há muito nos habituou,
que provoca no leitor adulto uma inaudita comoção.
Um desafio de intimidades para pais e filhos, descoberta para os miúdos, redescoberta para os graúdos, num crescimento conjunto.
Conta-se a história do menino Zeca, nascido em Aveiro, que desde muito cedo aprendeu o sentido da palavra longe.


As grandes viagens de barco que fazia para estar junto dos pais em territórios que Portugal então dominava noutros continentes, davam-lhe tempo para sonhar, mas também para escutar as suas primeiras inquietações e medos.
Em África fazia amigos, meninos negros com quem brincava numa fraternidade que o acompanharia toda a vida. Por isso, o menino Zeca não percebia a razão dos adultos brancos, com a marca do poder e da autoridade, distinguirem as duas raças. Escolhia então ser rebelde, porque era essa a sua maneira de ser livre. Dividido entre África e Portugal, dois mundos onde tinha amigos, sempre com o coração a bater em dois lados ao mesmo tempo, o menino andarilho crescia nesse desassossego que lhe traçava o rumo futuro, e que seria a sua sina e o seu drama. Refere-se que desde menino Zeca aprendeu o valor que têm as ideias, coisas esquivas e imateriais que não se compram nem se vendem nas bancas do comércio, nos supermercados ou nas feiras.
Quando em Timor os pais foram feitos prisioneiros pelos japoneses e levados para um campo de concentração, o menino, contendo as lágrimas da tristeza e da indignação, aprendeu a não gostar da palavra “guerra”, a mesma que, mais tarde, o inquietaria e o levaria a fazer canções que falassem só de paz.
Por outro lado, se as ideias que ouvia aos tios de Aveiro eram de liberdade, outras ideias corriam em Belmonte, onde viveu, na casa do tio Filomeno que gostava de Salazar, pelo qual foi obrigado a vestir a farda da mocidade portuguesa.
Foi também lá que aprendeu o outro nome para o Papão: Salazar.
Mas o que aprendeu o outro nome para o Papão: Salazar.
Mas o papão tinha um grande ponto fraco: não conseguia lidar com a força da palavra e encarcerava o país entre as grades do medo que mandara erguer por todo o lado.
Todavia, Zeca já tinha aprendido a rebeldia e, por isso, erradicado o desânimo e o medo.
É em Coimbra, cidade que o formou e ouviu, que Zeca faz novas amizades e começa a usar a voz de ouro para cantar.
É lá que encontra Humberto Delgado, general sem medo da sofreguidão dos vampiros, que acabou por perder as eleições que ganhou, ousadia que lhe tirou a vida.

É também lá que percebe que as grades piores até eram as que cada um deixava erguer no interior do que pensava e sonhava, tornando cada vez mais difícil a livre partilha de ideias.
Por isso, estudava e cantava procurando actualizar as mensagens dos antigos fados de Coimbra, cultivando com palavras certeiras, preocupadas com a vida das pessoas e com os seus problemas, palavras de união, porque casadas com o sofrimento dos que menos tinham para acordar os que o ouviam do sono resignado em que se tinham deixado cair sem quase se aperceberem disso.


Surgia naturalmente a definição de Cantor político. «Os vampiros querem calar a voz que os desmascara e condena. Mas o cantor não se cala. E já não está só. Estão com ele outros, como Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Francisco Fanhais, entre muitos outros. Na página 36 irrompe a narração contígua à ilustração do último concerto de Zeca, em 1983, no Coliseu dos Recreios em Lisboa, uma fremente catarse, ainda hoje sem explicação racional.

O homem de errâncias, criador do soberbo tema Era um redondo vocábulo – escrito na prisão de Caxias – via fechar-se-lhe o seu ciclo de vida. José Jorge Letria descreve esse momento, da forma que se segue: Era uma madrugada de Fevereiro, fria e húmida, e o ar começava a minguar-lhe nos pulmões. Tinha chegado a hora de partir. Nessa madrugada, uma mulher de rosto luminoso e sorridente acercou-se dele e perguntou-lhe se queria a sua companhia. Respondeu-lhe que sim, reconhecendo nela a jovem que caminhara a seu lado em Coimbra, nos dias em que Humberto Delgado era nome da esperança portuguesa. Perguntou-lhe docemente: - És tu que me vens buscar? E ela respondeu, apertando-lhe a mão contra o peito: - Sim, é comigo que vais partir, mas não penses que sou a Morte.

Eu sou a Liberdade, aquela que sempre amaste e seguiste e que agora se erguerá contigo nos ares, perseguindo um sonho que só acabará quando o último ser humano desaparecer deste planeta.

Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro, texto de José Jorge Letria e ilustrações de Evelina Oliveira; Editorial Campo das Letras.

Teresa Sá Couto


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sexta-feira, 13 de abril de 2007

PONTESSORENSE NA:

Homenagem a Jaime Cortesão


1º plano, da esquerda para a direita, João Pedro de Andrade, António Lobo Vilela, Jaime Cortesão, Luís da Câmara Reys, Ferreira de Castro, Adolfo Casais Monteiro.

2º plano, da esquerda para a direita, Alexandre Vieira, Adriano de Gusmão, Gaspar de Almeida, Sant'Ana Dionísio, Augusto Casimiro, Roberto Nobre, Mário de Azevedo Gomes, João Dantas, David Mourão-Ferreira, David Ferreira, Jaime Mourão-Ferreira.

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quinta-feira, 12 de abril de 2007

A IDENTIDADE DO NEO-REALISMO


Projecto editorial da Revista nova Síntese



Já está nas livrarias o primeiro número da revista anual nova Síntese, da Associação promotora do museu do Neo-realismo, de Vila Franca de Xira, com a chancela da Campo das Letras.
O título é uma homenagem à revista homónima publicada entre 1939 e 1941, a Síntese editada em Coimbra. Um projecto que aplaudimos, porquanto urge o retorno a essa pujante herança cultural, diversa nos modos e una nos princípios.

Das matérias contempladas, uma especial ressalva para as que dão conta do centenário de nascimento de Armando Rodrigues e de Pablo Neruda, comemorados em 2004. Apresentam-se textos de ambos os autores, originais do primeiro, poemas de As Uvas e o Vento, do segundo, obra de Neruda que a Campo das Letras vai editar neste mês de Abril com tradução do poeta Albano Martins.

Dirigida por Vítor Viçoso, este primeiro número é coordenado por António Pedro Pita que, no texto introdutório, faz o resumo do projecto editorial e explicita a temática. Refere-se que no título e subtítulo da actual Síntese – Textos e contextos do neo-realismo condensam-se a identidade e os propósitos fundamentais desta nova publicação: se por um lado se pretende dar continuação àquela herança, pretende-se igualmente consagrar o neo-realismo como efectivo objecto de conhecimento. Assim, os materiais publicados pretendem incentivar a renovação dos estudos sobre o neo-realismo e o seu contexto mais amplo através da publicação de trabalhos de estudiosos portugueses e estrangeiros; divulgar documentação inédita do acervo do Museu do Neo-Realismo; publicar dossiers monográficos, bibliografias e outros materiais que constituam elementos de interesse imediato para o conhecimento das respectivas áreas; consolidar uma rede de estudiosos, publicações, centros de investigação e instituições de vocação museológica capaz de fornecer uma diversificada contextualização para o entendimento do movimento neo-realista.

A revista compreende quatro partes temáticas ou capítulos. Em primeiro lugar, apresenta-se a História da história e estética do Neo-Realismo com artigos críticos sobre figuras incontornáveis da cultura: Mário Dionísio, João Pedro de Andrade, Júlio Pomar, Óscar Lopes, Mário Sacramento, Eduardo Lourenço, Ernesto de Sousa, Alexandre Pinheiro Torres, Fernando Guimarães e Carlos Reis. No segundo capítulo, Centenário do nascimento de Armindo Rodrigues (2004). Segue-se um conjunto de artigos alusivos ao Centenário do nascimento de Pablo Neruda (2004). O volume finaliza com a apresentação das Actividades da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo: actividades de aumento do acervo, de investigação, de animação cultural – realizadas em 2004 e 2005 –, além doutras informações.


Cumprindo claramente um dos objectivos propostos, no capítulo referente a Armindo Rodrigues, além de um trabalho crítico sobre a obra do escritor, editam-se alguns textos inéditos numa apresentação fac-similada dos originais, forma magnânima que permite o contacto visual com o apuro da caligrafia. Aquela mesma forma de apresentação dos textos é utilizada para revelar a genuinidade das notas e rabiscos do escritor nas páginas dos documentos dactilografados e na Poesia em Diálogo, correspondência entre Armindo Rodrigues e António Manuel Couto Viana.

Exemplificando a vivacidade e a subtileza daquela correspondência, reproduzimos o conteúdo de um dos documentos, datado de 17 de Fevereiro de 1955, de Armindo Rodrigues a António Viana, como agradecimento de um exemplar do seu livro A Face Nua e do poema da dedicatória:

«Diz você que não é da direita ou da esquerda, mas de nós todos, que virá a nossa perda? Assim, direita e esquerda deixam de ter significado.
Convenho no seu jogo.
Concedo-lhe razão.
Esquerda e direita são
lados de um mesmo lado.
Basta Você voltar-se para que a esquerda logo
seja o rumo direito da transfiguração.

E Você bem o sabe, ou bem o soube, ao menos,
quando errante em Paris, a que eu nunca pude ir,
com verdade viveu alguns dias serenos,
ao contrário daqui, onde morre a mentir.
Regressado, porém,
porque acha mau agora o que achou bom além?

Que malefício o oprime?
Que amor de fado o tenta?
Porque não chama crime ao crime?
Se tem sede, porque não se des-sedenta?»



Nova Síntese – textos e contextos do neo-realismo; Editorial Campo das Letras,

Teresa Sá Couto
Kaminhos

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quarta-feira, 7 de março de 2007

NOVO LIVRO DE LUÍS CARMELO, NO YouTube E NAS LIVRARIAS



O rapto de uma jornalista portuguesa e duas italianas no Líbano apaixona a opinião pública. As imagens difundidas no planeta pelas televisões apontam para a sua morte, embora haja blogues no Médio-Oriente que alegam o contrário. O trágico incidente em que se envolveram as tropas portuguesas estacionadas no Líbano vem piorar a situação. E os jogos diplomáticos entre Roma, Lisboa e a sede da ONU também não ajudam. Na mensagem de Natal de 2006, Sócrates tenta contornar a impotência e os desaires que se tornaram óbvios.

Sob o pano de fundo de uma radiografia portuguesa das últimas décadas, a jornalista Rute Monteiro e o escritor Guilherme Moutinho protagonizam um percurso recheado de contingências que liga a revolução de 1974 ao alvor do século XXI. E é no novo ambiente criado pelo 11 de Setembro que o imponderável pode acontecer a qualquer momento. Uma pergunta ficará para sempre no ar: que terá querido dizer Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, quando insistiu na "necessidade de não responder a provocações"?



E Deus Pegou-me pela Cintura, o décimo romance de Luís Carmelo, foi apresentado ao público.
O espaço do El Corte Inglés serviu de palco ao lançamento do livro. Francisco José Viegas apresentou a obra e o autor, depois de visionados os vídeos especialmente produzidos para o YouTube.

Vídeo 2

Vídeo 3

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

A PROSTITUTA VIRGEM - Novo Romance de Rui Gordo


A Prostituta Virgem
O Pai de Adelaide é assassinado à sacholada por Alcides, que se gabou publicamente, de ter desflorado a jovem.
A rapariga, envergonhada, aceita o convite de uma tia rica para ela e a mãe irem morar em sua casa na Amadora.
Porém, António, seu primo, agora um homem importante na terra, faz-lhe a vida negra, por telefone e até a acusa de prostituta ao encontrá-la com uma criança de tenra idade nos braços no meio da zona ribeirinha.
Quem desflorou Adelaide?
O que é que o pai de Adelaide sabia sobre Alcides?
Porque é que Alcides passou tão rapidamente de militante do P.S.D para militante do P.S. depois de um passado agitado de militância no P.C.T.P/ M.R.P.P.?
Um romance polémico que prenderá o leitor da primeira à última letra.
Preço de capa 30 euros.
Aceitam-se cheques pré - datados
Rui Gordo

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