DIA DE NATAL
Dia de Natal
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PONTE DO SOR, UM ESPAÇO DE LIBERDADE BANHADO PELO RIO SOR
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Em Guadalajara, está um tempo que, muitas vezes, não temos em Portugal no Verão. Está uma espécie de Primavera com aroma de Verão, muito sol, o que ajuda bastante a sorrir. Ontem, para além das várias entrevistas, que correram todas de forma excelente, foi sobretudo um dia para descansar. Andei sempre com os meus acompanhantes, que são muitíssimo simpáticos, embora às vezes seja estranho para mim ter sempre duas pessoas à minha volta. Acontece sentir-me responsável por eles e sentir que tenho de estar sempre divertido para que eles sintam que estão a fazer um bom trabalho. E estão.Etiquetas: 22ª Feira Internacional do Livro de Guadalajara, Galveias, José Luís Peixoto, Literatura, México, Poesia
Domingo familiar
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Para todo bien
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eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata
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A luz que te ilumina

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Editada pela Relógio D´Água, a presente Antologia é bilingue, com a tradução portuguesa na página contígua do original castelhano, o que permite ao leitor poder envolver-se plenamente com os textos. Aliás, esta é a metodologia das edições bilingues desta editora, que muito aplaudimos, ao invés de outras que trazem o original numa secção à parte.
Verdadeira cartografia histórica e emocional da Guerra Civil de Espanha, a poética de Lorca irradia a grandeza da palavra daquele de quem foi dito ser «mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver». Com efeito, a desdita de Lorca foi viver no tempo do franquismo, o tempo da «agonia com flores de terror», das «rosas de enxofre». Sem que a História o explique, Lorca volta a casa, em Granada, ao encontro do centro do conflito. Todavia, as razões desse regresso podem estar na sua poesia:
«Quero descer ao poço,
quero subir aos muros de Granada,
para fitar o coração vazado
pelo buril escuro que há nas águas».
Na madrugada de 18 de Agosto de 1936 era fuzilado. O seu corpo nunca apareceu. Um corpo enterrado num catavento, como ele parece ter previsto:
«Quando eu morrer,
enterrai-me com minha guitarra
debaixo da areia.
Quando eu morrer,
entre as laranjeiras
e a hortelã.
Quando eu morrer,
enterrai-me, se quiserdes,
num catavento.
Quando eu morrer!».
Nos seus poemas e na prosa poética, são feitas inúmeras referências bíblicas com a recriação instigada pelos tempos cruéis que testemunhava, o cruel e «branco muro de Espanha», o desamparo de um «Deus fechado na custódia», como nos extractos que transcrevemos, primeiro da «Degolação de Baptista», a seguir da «Degolação dos inocentes»:
«(…)Por fim venceram os negros. Mas as pessoas tinham a convicção de que ganhariam os vermelhos. A recém-parida tinha um medo terrível do sangue, mas o sangue dançava lentamente com um urso tingido de cinábrio sob suas varandas. Não era possível a existência dos panos brancos, nem era possível a água doce nos vales (…) A degolação foi horripilante. Mas maravilhosamente realizada. A faca era prodigiosa. Ao fim e ao cabo, a carne é sempre pança de rã. Tem que ir-se contra a carne. Tem que levantar-se fábricas de facas. (…) o especialista da degolação (...)conhece o pescoço tenríssimo da perdiz viva. O Baptista estava de joelhos. O degolador era um homem minúsculo. Mas a faca era uma faca. Uma faca chispante, uma faca de chispas com os dentes apertados»;
«(…)Às seis da tarde já não restavam mais que seis meninos por degolar. Os relógios de areia continuavam a sangrar mas já estavam secas todas as feridas.
Todo o sangue estava já cristalizado quando começaram a surgir os candeeiros. Nunca será no muro outra noite igual. Noite de vidros e mãozinhas geladas. Os seios enchiam-se de leite inútil.
O leite maternal e a lua sustentaram a batalha contra o sangue triunfante. Mas o sangue já se apodera dos mármores e ali cravava as suas últimas raízes enlouquecidas.».
No grandioso poema «Cidade sem sono», feito à maneira exaltada e vibrante de Walt Whitman – que também influencia Álvaro de Campos, o futurista, heterónimo de Fernando Pessoa –, Lorca denuncia o tempo de castração e violência e lança o alerta para a necessidade de se estar com os olhos sempre bem abertos:
«(...)
Não dorme ninguém no mundo. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
Há um morto no cemitério mais longínquo
que se queixa três anos
porque tem uma paisagem seca no joelho
e o menino que enterraram esta manhã chorava tanto
que foi preciso chamar os cães para que se calasse.
A vida não é sonho. Alerta! Alerta! Alerta!
Caímos pelas escadas para comer a terra húmida
ou subimos ao gume da neve com o coro das dálias mortas.
Mas não há esquecimento nem sonho:
carne viva. Os beijos atam as bocas
num emaranhado de veias recentes
e a quem dói a sua dor doerá sem descanso
e o que teme a morte tem de levá-la sobre os ombros.
(…)
Alerta! Alerta! Alerta
aos que guardam ainda pegadas de garra e aguaceiro!
Àquele rapaz que chora porque não sabe a invenção da ponte
ou àquele morto que já não tem mais que a cabeça e um sapato,
há que levá-los ao muro onde iguanas e serpentes esperam,
onde espera a dentadura do urso,
onde espera a mão mumificada do menino
e a pele do camelo se eriça com violento calafrio azul.
Não dorme ninguém no céu. Ninguém, ninguém.
Não dorme ninguém.
Mas se alguém fecha os olhos,
acoitai-o, meus filhos, açoitai-o!
Haja um panorama de olhos abertos
E amargas chagas acesas.
Não dorme ninguém no mundo. Ninguém, ninguém.
Já o disse.
Não dorme ninguém.
Mas se alguém de noite tem excesso de musgo nas têmporas,
abri os alçapões para que veja sob a lua
as falsas taças, o veneno e a caveira dos teatros.»