terça-feira, 24 de dezembro de 2013

DIA DE NATAL

 
Hoje é o dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua
miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus
nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso
antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de
cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado
comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão
Dia de Natal

Etiquetas: ,

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

DADÁ

- futebol é o seguinte
chegou ali e tem tranquilidade
é só aplicar o sutil o mirabolante
a raiz quadrada o labirinto
que não tem jeito pro goleiro não
é cair e levantar para buscar 
o caroço lá dentro

- que negócio é esse de sutil
mirabolante e raiz quadrada

- não posso dizer
é segredo profissional
outro dia criei mais um gol
o independência

- a poesia é o seguinte
chegou ali e tem tranquilidade é só aplicar o sutil o mirabolante a raiz quadrada o labirinto que não tem jeito pro leitor não é cair e levantar para buscar  o caroço lá dentro
- que negócio é esse de sutil mirabolante e raiz quadrada
- não posso dizer é segredo profissional outro dia criei mais um poema
o independência



Renato Negrão
Vicente Viciado

Etiquetas: ,

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ODE À MENTIRA





Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos... 
- como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. 
Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.

Jorge de Sena,
in Pedra Filosofal


Etiquetas: , ,

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

JOSÉ LUIS PEIXOTO NA 22ª FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE GUADALAJARA

Em Guadalajara, está um tempo que, muitas vezes, não temos em Portugal no Verão. Está uma espécie de Primavera com aroma de Verão, muito sol, o que ajuda bastante a sorrir. Ontem, para além das várias entrevistas, que correram todas de forma excelente, foi sobretudo um dia para descansar. Andei sempre com os meus acompanhantes, que são muitíssimo simpáticos, embora às vezes seja estranho para mim ter sempre duas pessoas à minha volta. Acontece sentir-me responsável por eles e sentir que tenho de estar sempre divertido para que eles sintam que estão a fazer um bom trabalho. E estão.

À tarde, encontrei a minha editora francesa, um amigo poeta espanhol que vive no Uruguai e uma fotógrafa norte-americana, com quem fiquei de tirar umas fotos em Nova Iorque mas, depois, não tive tempo. Estes encontros parecem-me for
mar a imagem nítida de um certo aspecto da minha vida. Eu sou a única coisa que estas pessoas têm em comum. Cada uma delas vive no seu canto do mundo, na sua vida. São desconhecidos uns dos outros. Depois, existo eu, que carrego uma rede de muitas pessoas assim. Pessoas que existem nos contextos mais díspares e que se ignoram mutuamente. Muitas vezes, sinto-me um fantasma entre todas elas. Estou, mas não estou. Como Cassandra, a saber, mas a não poder contar a ninguém, porque ninguém acredita.


Hoje, terça-feira, começará o contacto real com o público presente nesta Feira do Livro, que impressiona pelas suas dimensões e pelos milhares de pessoas que a preenchem a todas as horas.

Será às 18 horas, leitura de poesia.


José Luís Peixoto

Etiquetas: , , , , ,

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [V]

Domingo familiar

TEOTUHUACAN


Neste momento, é-me difícil encontrar palavras para descrever Teotuhuacan. Passei lá a tarde e, neste momento, parece-me irreal. Se a foto abaixo não for suficiente, sugiro o google: Teotuhuacan. Não há dois lugares com esse nome.


GUADALAJARA

Já estou em Guadalajara. Vou andar sempre acompanhado pelo Raúl e pelo Mário. A agenda, impressa num papelinho que tenho aqui à minha frente, está cheia. Amanhã, até às duas da tarde, terei dado 5 entrevistas seguidas: 3 jornais, 1 rádio e 1 televisão. As conversas ao vivo com o público começam na terça e vão ao ritmo de uma por dia, sendo a última na sexta.
A Feira do Livro de Gudalajara é a segunda maior do mundo, depois de Frankfurt.
No fear. Estou pronto.



ALGUMAS COISAS QUE APRENDI HOJE SOBRE O MÉXICO

- Na Cidade do México, há edifícios de 6/7 pisos em que, em cada andar, existem diversas salas, nas quais estão a decorrer velórios. Ou seja, tratam-se de prédios com algumas dezenas de funerais a decorrer em simultâneo e em permanência.

- Eu vi na Praça Garibaldi, mas contaram-me que é muito frequente em festividades, etc. Aqui, há pessoas que vendem choques eléctricos. Ou seja, andam com uma pequena bateria e dois cabos que acabam em dois tubos de ferro. Então, mediante o pagamento de 10 pesos, as pessoas seguram nos dois tubos e apanham um choque. Uns dizem que faz bem, outros dizem que faz mal. Uns dizem que é bom, outros dizem que é uma estupidez.


ALGUMAS COISAS QUE NUNCA TINHA FEITO ANTES DE VIR AO MÉXICO

- Comer insectos.
- Andar num táxi em que o taxista não tem o braço direito.


José Luís Peixoto

Etiquetas: , , , ,

domingo, 30 de novembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [IV]

Para todo bien

MUSEO-CASA LEON TROTSKY


Ontem, de manhã. Comovente.



TIANGUIS DEL CHOPO

Ontem, à tarde. Tiangui del Chopo ou, simplesmente, El Chopo, é um grande mercado de culturas alternativas que acontece todos os Sábados na Cidade do México. Muita música pesada e dark, muita mesmo. A minha bagagem duplicou. De todos os lugares do género que conheço, e creio que conheço muitos, El Chopo é apenas comparável com a Galeria do Rock em São Paulo. Uma espécie de Camden Town, em Londres, se, além das roupas, existissem também milhares de CDs e de DVDs e tudo o que diz respeito a culturas ligadas ao rock mais marginal, inclusivamente livros. Se eu vivesse aqui, não sei bem o que seria da minha economia. Suspeito que, entre livros e discos, seria expulso de casa pelos livros e pelos discos. Se agora já tenho pouco espaço, e o receio de algum dia acordar (ou não acordar) debaixo de um terramoto de livros, se vivesse aqui, com a ajuda de El Chopo, seria muito pior. Basta dizer que, mal cheguei, encontrei logo o CD de Daemonarch. Agora, está aqui à minha frente. Mas não existe apenas música, existe tudo. Concertos ao vivo e milhares de coisas que nem se imagina que existam. Estou com pouco tempo e, por isso, deixo estas imagens para quem tiver curiosidade:



E este sobre algumas das personagens que se podem encontrar em El Chopo:



ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO

- Dois dizeres populares mexicanos de grande sabedoria:
1 - Para todo mal, mezcal; para todo bien, también.
2 - Viernes, social; sabado, sexual; domingo, familiar.

- Os mexicanos não cantam a canção dos parabéns nos aniversários. O “cumpleaños feliz” espanhol não se canta no México. Em vez disso, nos aniversários, canta-se uma canção bastante diferente, com outra melodia, chamada “las mañanitas”.

José Luís Peixoto

Etiquetas: , , , ,

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [III]

Pedido de desculpas à minha avó Delfina



É muito normal que existam imprecisões, maiores ou menores, nas entrevistas. É muito raro quando não existe. Não vejo nenhum drama nisso. É uma mostra dos mal-entendidos que sempre existem e expõe uma parte daqueles que deverão ser os mal-entendidos que existem normalmente, nas conversas de todos os dias.

Ontem, saiu um artigo sobre a mim no jornal Milenio, baseado numa entrevista. Esse artigo tem algumas imprecisões que nasceram, justamente, desses pequenos mal-entendidos. Como disse, não vejo nenhum drama nisso e não me incomoda. Aquilo que me frustra e me deixa o coração apertado. Foi que, pela primeira vez numa entrevista, perguntaram-me o nome dos meus avós e eu enganei-me no nome da minha avó materna. Acaba por ser triste porque creio que a sua memória merecia muito essa referência.

Nunca a conheci. A minha avó Delfina morreu alguns anos antes de eu nascer. Sei sobre ela que deu à luz o meu pai em 1938 e que, nessa altura, tinha 46 anos. O meu pai e os meus tios eram 6 irmãos, mas, ao longo da vida, a minha avó Delfina teve 12 filhos, 6 dos quais morreram na infância. Sei também que tinha epilepsia e, segundo descrição da minha mãe, tinha a língua toda retalhada por mordê-la durante os ataques.

Aqui está o artigo do jornal Milenio. Onde se lê “Claudina” deve ler-se “Delfina”.


LA REALIDAD, ÚNICA SUMISIÓN DE LA LITERATURA: PEIXOTO

Y muchas veces, cuando tengo dudas o cuando pienso por qué lo hago, lo hago por ellos, lo hago para decir y hablar con su voz”, dice José Luís Peixoto al referirse a sus abuelos paternos: José y Claudina y, maternos: Luis y Joaquina.
Este joven escritor portugués ha sido considerado junto a Kiran Desai, de India, y Yuri Andrujovich, de Ucrania, las presencias más importantes de literatos en la XVII Feria Internacional del Libro de Guadalajara (FIL).
“Un interés por la gente sencilla, la sabiduría de la geste iletrada” se trata de un interés constante en su búsqueda artística; su obra circula alrededor de las relaciones familiares, las que tal vez él mismo cultivó en el envejecido pueblo de Galveias, donde vivió hasta los 18 años.
Quizá, también por ello, este joven de 34 años con varios pearcing en su rostro y algún tatuaje en su cuerpo, con frecuencia cosecha expresiones como éstas de Saramago: “una de las revelaciones más sorprendentes de la literatura portuguesa actual”.
Su obra (novela, poesía, dramaturgia, artículos) permite asomarse a aquel pueblo árido, sus viejos, los jóvenes que hoy huyen demasiado pronto, pero que en sus tiempos corrían cada mes a la plaza del pueblo con la ansiedad de elegir la mayor cantidad de libros posible en la biblioteca itinerante.
En su obra también puede verse su casa, aquella que figura en al menos uno de sus libros (Una Casa en la oscuridad), “muchas veces que me parece que nunca salí de ahí. Todavía esa es mi casa, siempre será mi casa”, dice.
Este artista, al que se le reconoce una gran fuerza expresiva, con una prosa muy lírica publicó su primera novela, Nadie nos mira, a los 26 años de edad, con ella obtuvo el Premio José Saramago y rápidamente empezó a cosechar lectores por miles.
De México sólo conocía sus escritores. A Juan Rulfo llegó tarde, dice, pero le fascina. “Hoy la literatura va por muchos caminos. En mi propia concepción literaria el punto central es el ser humano. Me parece que es una manera de intentar conocernos unos a otros, son puentes entre personas”.
Su obra y su ideario coincide así con Gao Xingjian, el Premio Novel de la Literatura en 2000: “Lo único a que debe sumisión la literatura es la realidad (...) Las experiencias y enseñanzas ajenas que no pasan por el filtro de la propia vivencia acaban convertidas en simple conocimiento libresco”.
El escritor portugués habla de sus expectativas literarias, éstas tienen que ver con contestar a las cuestiones que toda la gente tiene y que siguen presentes en la literatura desde siempre: quién soy, para dónde quiero ir, qué pienso sobre la vida, la muerte, la felicidad, Dios.
“Son cuestiones para las que a lo mejor nunca tendremos una respuesta definitiva, pero me parece que es importante que uno vaya intentando alcanzar una respuesta, sea cual sea”, finaliza.



José Luís Peixoto

Apostilha:

Maria Vicência Delfino

Enganei-me duas vezes. A mãe do meu pai chamava-se Maria Vicência.

Não quero arranjar desculpas para o meu engano, até porque não foi há muito tempo que tive uma conversa com a minha mãe sobre a minha avó paterna, mas aproveito para dizer que o lapso de lhe chamar Claudina tem a ver com o facto de o meu avô materno se chamar Luís Claudino; depois, o lapso de lhe chamar Delfina tem a ver, percebi agora, com o seu próprio sobrenome. Enfim.

Agradeço à minha irmã Anabela e ao meu primo José pelas chamadas de atenção.

J.L.P.

Etiquetas: , , , ,

sábado, 29 de novembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO [II]

Hoy en la Arena México: Los Perros del Mal vs. São Judas Tadeu

A CHARLA DE ONTEM


Ao meio-dia, ontem, estava a começar a conversa na Facultad de Estudios Superiores de Alcatlán (http://www.acatlan.unam.mx/).No início, uma fadista mexicana a interpretar dois temas acompanhada de dois guitarristas também mexicanos. Se algum dia precisarem de fadistas estrangeiros, perguntem-me a mim. Ao longo do tempo, tenho vindo a acumular algum conhecimento e experiência sobre pessoas que, em diversas partes do mundo, se apaixonam pelo fado, muitas aprendem a língua portuguesa por causa disso. Seria interessante um encontro, em Portugal, de fadistas estrangeiros. Ontem, em Alcatlán, a canção portuguesa esteve presente numa excelente voz e no entusiasmo de dois guitarristas, entre os quais um rapaz de 15 anos, a jurar que o fado é um sentimento a que não é capaz de escapar.

Depois, a leitura, a conversa, as perguntas, conversa, leituras, conversa, até às 3 horas da tarde. Apesar de já ter visto muito, continuo a surpreender-me. É impressionante a resistência e o interesse que se nota nas pessoas que têm participado nestas apresentações. O fim chega porque há um momento em que se olha para o relógio e nos apercebemos que já passaram horas. As pessoas ficam até ao fim e inclinam-se para a frente nas cadeiras. Há pessoas a filmar com telemóveis, com máquinas fotográficas e com máquinas de filmar. Há gravadores pousados à minha frente na mesa e há pessoas nas primeiras filas com gravadores apontados para mim. A maneira como vejo este público mexicano é a do cínico que, não acreditando no amor, se apaixona e percebe o quanto se enganou.

Além disso, estou muito contente com aquilo que disse, tanto ontem, como nos dias anteriores. Houve várias pessoas que estiveram em mais do que uma charla e, por isso, fiz um esforço para não me repetir demasiado. Creio que consegui.

No final, foram rifados alguns livros meus e fui eu que os sorteei, folheando as páginas de um deles e dizendo os números que calhavam. As “rifas” eram distribuídas à entrada e consistiam nuns marcadores de livros com uma foto e alguns poemas meus. Ou seja, no final, havia dezenas de marcadores para autografar. Não repeti um único autógrafo. Além disso, de novo, livros, cadernos - houve um rapaz que me pôs um caderno à frente e me pediu para escrever uma definição de amor. E fotografias, muitas.




ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO


- No México, o dia 28 de cada mês é o dia de São Judas Tadeu. Na rua e no metro, há pessoas de todos os géneros, dezenas, centenas, que passam a carregar imagens de São Judas Tadeu. Vão ser abençoadas numa igreja do centro da cidade. As imagens podem ser grandes (mais ou menos um metro) ou pequenas (alguns centímetros). Podem ir ao colo, abraçadas, ou na mão. Quase sempre envoltas por uma grande quantidade de rosários. Às vezes, há alguns homens que passam vestidos de São Judas Tadeu. Em todas essas pessoas, a fé é muito evidente.

- A língua náhuatl atravessa o espanhol que se fala no México e está presente nos mais diversos contextos. Exemplo muito frequente (tirado do dicionário de náhuatl que a Berenice me ofereceu): Chingar. tr. y prnl. Verbalización de chinco o chingo, “en el culo” (véase tzinco en esta sección). De tzintli, culo, ano, -co, part. locativa. Para el análisis de esta voz y de sus numerosas acepciones en México vease el Apéndice v.
Não resisto a deixar um verso de um livro de poesia náhuatl (tirado de um volumne bilingue que me foi oferecido en Alcatlán): Yan cuecuepontimani icniuhxochinquahuitl; que significica em espanhol: Ya echa brotes el árbol de la amistad. (Não tive de procurar muito, as palavras náhuatl são gigantes.



LAS LUCHAS



A Arena México é o maior recinto do país onde se pratica esta espécie de “luta” a que nas Estados Unidos chamam “wrestling” e aqui chamam “lucha”. Ontem, cheguei uns 15 minutos atrasados à Arena México. As imediações são, por si só, um espectáculo. Por um lado, as centenas de vendedores de tudo o que se relacione com as luchas, por outro lado, as próprias pessoas que vão às lutas, devidamente mascaradas, com os níveis de adrenalina altos e em ascensão. Esse pequeno atraso não tinha qualquer espécie de significado, uma vez que eu e as minhas companhias estávamos perante um programa de cinco lutas, cada uma com três caídas. Haveria muito para dizer sobre as luchas, talvez um dia o faça. Por agora, gostava apenas de dizer que é muito diferente assistir a uma dessas lutas pela televisão ou na quarta fila da Arena México com os lutadores quase a caírem-nos em cima, a ouvir-mos tudo o que dizem e com os pontapés na cara (e não só) a serem bem sonoros. Depois, este tipo de “luta” no México é bastante diferente da sua equivalente nos Estados Unidos. Guardando a ressalva de ter assistido a uma ao vivo (Mex) e a outra apenas pela tv (USA), fico com a sensação de que a primeira é muitíssimo mais genuína e, por outro lado, os lutadores são muito mais suicidas. As luchas são uma forma de entretenimento absolutamente popular que, em muitos aspectos, reflectem diversos aspectos deste sociedade. A imensa saturação de cores e de elementos decorativos que se encontra a cada esquina da Cidade do México, em lojas, carros, pessoas, casas, está bem presente nas luchas. O kitch está bem presente. O humor mexicano que, na tv, é representado por personagens grotescas (homens vestidos de mulheres horrendas, pessoas vestidas de insectos, etc) está presente nas luchas. As multidões sem fim estão presentes nas luchas. Além disso, há os vendedores que vendem de tudo em todos os momentos, há as meninas que vêm anunciar as diversas fases dos “combates” e que desfilam nos intervalos, há os lutadores que se dividem em “rudos” (de grande porte, brutos e desleais) e em “tecnicos”(altamente atléticos, que respeitam as “regras”), há as lutadoras que se dividem em “cabeleras” e “mascaras”, há um caleidoscópio de coisas. As luchas, no México, são um encontro entre o bailado, o circo e a ginástica. Por exemplo:




José Luís Peixoto

Etiquetas: , , , ,

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

AVENTURAS DO JOSÉ LUIS PEIXOTO NO MÉXICO

Máquina calculadora



O passado dia 25 de Novembro foi o trigésimo quarto que vivi e, ao mesmo tempo, foi o mais longo. Tenho quase a certeza de que não houve outro 25 de Novembro na minha vida em que tenha ganho 6 horas (24+6=32). O tempo não é algo que se dê ou que se receba. O tempo é algo que se negoceia com a natureza. Talvez por isso, essas 6 horas foram trocadas por 12 horas de imobilidade num voo longo (32-12=20). Quanto às 6 horas, terei de deixá-las na alfândega quando regressar a Lisboa (6-6=0). A natureza é muito ciosa do seu tempo. É muito difícil negociar com a natureza.

É muito mais fácil negociar com os mexicanos. Por um lado, 1 euro equivale a 17 pesos, mais coisa, menos coisa (coisa-coisa=coisa); por outro lado, os sorrisos são gratuitos e produzem-se em grandes quantidades. Há fábricas de sorrisos a laborar dia e noite. Depois, há a língua. O espanhol, no México, é a única coisa comestível que não é picante. É doce, é dulcito.

No dia 26, hoje, fui o indivíduo mais despenteado que tomou o pequeno-almoço no hotel El Diplomático. Eram 5 horas da tarde em Portugal, 11 horas no México. Às 7 e meia, quando comecei a falar no Centro de Lectura Condesa, eram 1 e meia da noite em Portugal. Boa hora.

Na primeira apresentação que alguma vez fiz no México, olhei para as pessoas demoradamente, li excertos dos romances e dois ou três poemas, a la hora de poner la mesa, deixei frases a meio, falei das Galveias, contei histórias e, algumas vezes, ri-me sozinho, mas com gosto. Dei uma entrevista antes e outra depois da apresentação. Conheci pessoalmente leitores que apenas conhecia por email e internets várias, autografei livros, sorri para fotografias de telemóvel e ofereci todos os livros que levei.

Agora, são 3 horas. Em Portugal são 9 da manhã. Vou dormir quando as pessoas estão a acordar. Ou seja, o habitual.


José Luís Peixoto

Etiquetas: , , , ,

sexta-feira, 21 de março de 2008

DIA MUNDIAL DA POESIA [ II ]

Etiquetas: ,

DIA MUNDIAL DA POESIA

Etiquetas: ,

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS

eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata
(valiosa)

num café da baixa por ser incapaz coitados deles

de escrever os meus versos sem realizar de facto

neles, e à volta sua, a minha própria unidade

- fumar, quere-se dizer.



esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava

ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota

a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)

e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro)
notável.



o Armando, que escreve à minha frente

o seu dele poema, fuma também,

Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente

e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta

mais espantosa e violenta incompatível e recon-
fortável

do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros

(excepto coisas como vergonha, naturalmente,

e mortalhas)



(que se saiba) é esta a primeira vez

que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas
dos outros)

aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal
condicionalismo

de que há tanto se fala e se dispõe

discretamente (como quem as apanha).



sirva tudo de lição aos presentes e futuros

nas taménidas (várias) da poesia local

Antes andar por aí relativamente farto

antes para tabaco que para cesariny

(mário) de vasconcelos.



Mário Cesariny de Vasconcelos
Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano
Manual de Prestidigitação
1981,Assírio & Alvim

Etiquetas: ,

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

ALENTEJO

A luz que te ilumina
Terra da cor dos olhos de quem olha
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar...





















Miguel Torga

Etiquetas: ,

domingo, 10 de junho de 2007

ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA. NÃO.


A PORTUGAL

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.


Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.


Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;

terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados

no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,

com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos

de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.


Jorge de Sena
(1919-1978)

Etiquetas: , ,

quinta-feira, 29 de março de 2007

O MÍTICO LORCA NUM LIVRO MAGISTRAL



Obra Poética traduzida por José Bento

Já está nas livrarias a magnífica «Obra Poética» de Federico García Lorca, com tradução, prólogo e notas do nosso grande poeta e tradutor José Bento, que tanto tem contribuído para divulgar entre nós autores de língua castelhana. Distinguido em Dezembro último com o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, José Bento traz-nos mais um nome de «grandeza mítica» da Literatura universal, o frémito do malogrado Lorca, que em Agosto de 1936, com apenas 38 anos, se «tornou um dos símbolos da Espanha martirizada» pela Guerra Civil.

«En la bandera de la libertad bordé el amor más grande de mi vida», escreveu Lorca. Mas o sonho tropeça na realidade e esta sua era de amor e morte, que ele assim pressagiou:
«Eu vi dois meninos loucos

que a chorar empurravam as pupilas de um assassino.


Mas o dois não foi nunca um número

porque é uma angústia e uma sombra,

porque é a guitarra onde o amor se desespera».

Editada pela Relógio D´Água, a presente Antologia é bilingue, com a tradução portuguesa na página contígua do original castelhano, o que permite ao leitor poder envolver-se plenamente com os textos. Aliás, esta é a metodologia das edições bilingues desta editora, que muito aplaudimos, ao invés de outras que trazem o original numa secção à parte.

Verdadeira cartografia histórica e emocional da Guerra Civil de Espanha, a poética de Lorca irradia a grandeza da palavra daquele de quem foi dito ser «mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver». Com efeito, a desdita de Lorca foi viver no tempo do franquismo, o tempo da «agonia com flores de terror», das «rosas de enxofre». Sem que a História o explique, Lorca volta a casa, em Granada, ao encontro do centro do conflito. Todavia, as razões desse regresso podem estar na sua poesia:

«Quero descer ao poço,

quero subir aos muros de Granada,

para fitar o coração vazado

pelo buril escuro que há nas águas».

Na madrugada de 18 de Agosto de 1936 era fuzilado. O seu corpo nunca apareceu. Um corpo enterrado num catavento, como ele parece ter previsto:

«Quando eu morrer,

enterrai-me com minha guitarra

debaixo da areia.

Quando eu morrer,

entre as laranjeiras

e a hortelã.

Quando eu morrer,

enterrai-me, se quiserdes,

num catavento.

Quando eu morrer!».

Nos seus poemas e na prosa poética, são feitas inúmeras referências bíblicas com a recriação instigada pelos tempos cruéis que testemunhava, o cruel e «branco muro de Espanha», o desamparo de um «Deus fechado na custódia», como nos extractos que transcrevemos, primeiro da «Degolação de Baptista», a seguir da «Degolação dos inocentes»:

«(…)Por fim venceram os negros. Mas as pessoas tinham a convicção de que ganhariam os vermelhos. A recém-parida tinha um medo terrível do sangue, mas o sangue dançava lentamente com um urso tingido de cinábrio sob suas varandas. Não era possível a existência dos panos brancos, nem era possível a água doce nos vales (…) A degolação foi horripilante. Mas maravilhosamente realizada. A faca era prodigiosa. Ao fim e ao cabo, a carne é sempre pança de rã. Tem que ir-se contra a carne. Tem que levantar-se fábricas de facas. (…) o especialista da degolação (...)conhece o pescoço tenríssimo da perdiz viva. O Baptista estava de joelhos. O degolador era um homem minúsculo. Mas a faca era uma faca. Uma faca chispante, uma faca de chispas com os dentes apertados»;

«(…)Às seis da tarde já não restavam mais que seis meninos por degolar. Os relógios de areia continuavam a sangrar mas já estavam secas todas as feridas.

Todo o sangue estava já cristalizado quando começaram a surgir os candeeiros. Nunca será no muro outra noite igual. Noite de vidros e mãozinhas geladas. Os seios enchiam-se de leite inútil.

O leite maternal e a lua sustentaram a batalha contra o sangue triunfante. Mas o sangue já se apodera dos mármores e ali cravava as suas últimas raízes enlouquecidas.».

No grandioso poema «Cidade sem sono», feito à maneira exaltada e vibrante de Walt Whitman – que também influencia Álvaro de Campos, o futurista, heterónimo de Fernando Pessoa –, Lorca denuncia o tempo de castração e violência e lança o alerta para a necessidade de se estar com os olhos sempre bem abertos:

«(...)

Não dorme ninguém no mundo. Ninguém, ninguém.

Não dorme ninguém.

Há um morto no cemitério mais longínquo

que se queixa três anos

porque tem uma paisagem seca no joelho

e o menino que enterraram esta manhã chorava tanto

que foi preciso chamar os cães para que se calasse.

A vida não é sonho. Alerta! Alerta! Alerta!

Caímos pelas escadas para comer a terra húmida

ou subimos ao gume da neve com o coro das dálias mortas.

Mas não há esquecimento nem sonho:

carne viva. Os beijos atam as bocas

num emaranhado de veias recentes

e a quem dói a sua dor doerá sem descanso

e o que teme a morte tem de levá-la sobre os ombros.

(…)

Alerta! Alerta! Alerta

aos que guardam ainda pegadas de garra e aguaceiro!

Àquele rapaz que chora porque não sabe a invenção da ponte

ou àquele morto que já não tem mais que a cabeça e um sapato,

há que levá-los ao muro onde iguanas e serpentes esperam,

onde espera a dentadura do urso,

onde espera a mão mumificada do menino

e a pele do camelo se eriça com violento calafrio azul.

Não dorme ninguém no céu. Ninguém, ninguém.

Não dorme ninguém.

Mas se alguém fecha os olhos,

acoitai-o, meus filhos, açoitai-o!

Haja um panorama de olhos abertos

E amargas chagas acesas.

Não dorme ninguém no mundo. Ninguém, ninguém.

Já o disse.

Não dorme ninguém.

Mas se alguém de noite tem excesso de musgo nas têmporas,

abri os alçapões para que veja sob a lua

as falsas taças, o veneno e a caveira dos teatros.»


Obra Poética - Federico García Lorca; Relógio D´Água Editores

Teresa Sá Couto
KA


Etiquetas: ,