quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ODE À MENTIRA





Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos... 
- como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. 
Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.

Jorge de Sena,
in Pedra Filosofal


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sexta-feira, 5 de junho de 2009

A FREGUESIA DE VALE DE AÇOR NO CONCELHO DE PONTE DE SOR COM ÁGUA IMPRÓPRIA PARA CONSUMO

Tal como o azeite, a verdade vem sempre ao cimo
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quinta-feira, 31 de julho de 2008

PUBLICIDADE DA TRETA

Primeiro foram as notícias que davam conta de uma nova fábrica da Intel em Portugal.
Um sucesso, garantia-se, que já tinha 4 milhões de encomendas ainda antes de ser instalada a primeira pedra.
Um investimento que iria criar 1000 postos de trabalho qualificados, na zona de Matosinhos, graças à diligência do Governo.


A apresentação foi ontem.


Com pompa e circunstância a imprensa andou dois dias a anunciar o primeiro portátil português.
O Magalhães é um computador inspirado no navegador, diziam ontem as televisões em coro.

Para dar credibilidade à coisa, o mais famoso relações públicas nacional e o presidente da Intel subiram ontem ao palco do Pavilhão Atlântico para a apresentação mundial deste computador de baixo custo.

Um único problema.

Não só o computador não tem nada de novo como a única coisa portuguesa é a localização da fábrica e o capital investido.

A novidade mundial ontem apresentada, já tinha sido anunciada a 3 de Abril - no Intel Developer Forum, em Shangai - e foi analisada pela imprensa internacional vai agora fazer quatro meses.

O tempo que tem a segunda geração do Classmate PC da Intel, que é o verdadeiro nome do Magalhães.

De resto, o primeiro computador mundial para as crianças dos 6 aos 11 anos, características que foram etiquetadas pela imprensa lusa por ser resistente ao choque e ter um teclado resistente à agua, já está à venda na Índia e Inglaterra.

No primeiro país com o nome de MiLeap X, no segundo como o JumpPC.

O nosso Magalhães é isso mesmo, uma versão produzida em Portugal sob licença da Intel, uma história bem distinta da habilmente vendida pelo governo para criar mais um caso de sucesso do Portugal tecnológico.

Fábrica da Intel nem vê-la e os tão falados 1000 novos postos de trabalho ainda menos, tudo se ficando por uma extensão da actual capacidade de produção da fábrica da JP Sá Couto.

Serão 80 novos empregos, 250 se conseguirem exportar para os Palops.

Os tais 4 milhões, que já estavam assegurados, lembram-se?

Só que as 4 milhões encomendas não passam de wishfull tinking do nosso primeiro. E muito pouco credível.

Em todos os países onde o computador está à venda é produzido através de licenças com empresas locais.

Como explicou o presidente da Intel, a empresa continua à procura de parceiros locais para ganhar quota de mercado com o Classmate PC, não o Magalhães.

A guerra de Intel é outra, como se pode perceber no relato que um dos mais reputados sites tecnológicos - a Arstechnica, do grupo editorial da New Yorker - faz da apresentação da Intel e do governo português: espetar o derradeiro prego no caixão do One Laptop for Child, o projecto de Nicholas Negroponte e do MIT para destinar um computador a cada criança dos países do terceiro mundo.

É essa a importância estratégica para a Intel.

O resto é fogo de vista para português ver.

PS: Não tenho nada contra a iniciativa em si, parecendo-me meritório um projecto para garantir um contacto precoce de milhares de alunos com a informática.

Mas isso não quer dizer que aceite gato por lebre.
Não seria nada mau sinal se a imprensa nacional, que andou a vender uma história ficcionada, também cumprisse o seu papel.

P.S.

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