quarta-feira, 15 de agosto de 2007

'LE STYLE EST L'HOMME'

José Saramago propôs recentemente uma união política entre Portugal e Espanha. Não é por considerar que não temos uma identidade nacional, com todos os seus traços característicos no espaço e no tempo, como a história, a geografia, a língua, a cultura, as tradições, a consciência colectiva. Ele mesmo diz que manteríamos todas as nossas especificidades, ressalvadas as alterações decorrentes dos aspectos políticos envolvidos por essa união.

Não é por se filiar no iberismo mais do que ultrapassado do século XIX, e muito menos por nostalgia das veleidades alimentadas pelas coroas de Portugal e da Espanha, entre finais do século XV e meados do século XVI, de cada um dos reinos anexar o outro em razão de alianças matrimoniais com vocação para a sucessão dinástica. Nada disto o impressiona e, que eu saiba, não é entusiasta da dinastia filipina.


Não é por entender que somos mais fracos, mais pequenos, mais pobres, mais atrasados e mais incultos. Se fosse, teríamos de sustentar uma concepção darwiniana baseada na dominação do forte e do poderoso, como facto consumado, sobre o fraco e o desprotegido. Mas isto estaria em flagrante contradição com as posições políticas que ele tem tomado em relação a Cuba, à Palestina, às ex-colónias, etc., etc.


Não é por propugnar um capitalismo apátrida, para o qual não existem povos nem fronteiras, mas apenas lugares onde a mão-de-obra é mais barata e para onde tende a alastrar uma maior exploração dos trabalhadores, com fins de lucro ganancioso por parte das multinacionais intervenientes no processo. Sempre foi contra isso.


Não é por pretender legitimar que o capitalismo e o patronato espanhóis tomem conta de Portugal. Teria perdido a lucidez, se o fizesse.

Não é por uma questão de modelo político-constitucional. Que se saiba, Saramago não é monárquico, sendo a Espanha uma monarquia hereditária, e nunca se apresentou como defensor de um, nesse caso, inevitável centralismo madrileno.

Não é por ser partidário das democracias representativas de modelo europeu ocidental de que tanto Portugal como a Espanha são exemplos bem sucedidos. Nunca o foi.


Não é por apoiar a nossa integração na Europa. Até publicou A Jangada de Pedra quando Portugal e a Espanha aderiram à Comunidade Europeia, para acentuar a sua concepção de um destino terceiro-mundista para os dois países ibéricos.


Não é por estar de acordo com a livre circulação de pessoas, bens e serviços no espaço europeu, nem por se identificar com o modelo da União Europeia, quer na forma actual, quer na forma federal, quer na de uma Europa das regiões governada por Bruxelas em última instância. Nunca divergiu das posições do PCP em tais matérias.


Não é por pensar a sério que Espanha e Portugal, juntos, fariam uma unidade política mais forte no plano internacional. Perderíamos no equilíbrio entre os dois países e ficaríamos diluídos e diminuídos nas instâncias europeias. O peso da Espanha seria reforçado e o de Portugal neutralizado.


Não é por viver habitualmente em Espanha ou por lá ter casado. Façamos-lhe a justiça de considerar que ele nunca seria capaz de invocar tais razões.


Não é por ser ingénuo. Nunca lhe passará pela cabeça que a população portuguesa, em referendo, viesse dizer "sim" à união.


Saramago sabe que nem com uma engenharia das almas, nem com uma engenharia social ou política ditada pela fria racionalidade da sua própria lógica, o resultado de que fala seria atingido.

Se ainda acredita numa revolução pela cartilha marxista-leninista, poderia pensar-se que, não vendo maneira de acabar com a democracia burguesa na Europa, esta sua construção não só desenharia o fim da independência de Portugal e ainda, ipso facto, o do regime em que vivemos, como implicaria também a queda da monarquia espanhola... Mas essa seria uma outra forma de ingenuidade da sua parte.

Parábola então? Sim. Como já tive ocasião de dizer à TVE, creio que este será o tema de um dos seus próximos romances. "Uma vez que é insustentável, só um Prémio Nobel poderá tentar transformá-lo num exercício de estilo que valha a pena ler. E sabemos, desde Buffon, que le style est l'homme même."

Vasco Graça Moura

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