quarta-feira, 14 de maio de 2008

OS DOIS DISCURSOS

Há muito que nos ausentámos do exercício da moral e da prática do civismo. Não prestamos atenção ao que vemos e ouvimos, como se tudo ocorresse longe do nosso quotidiano banal. A desordem, a picuinha, a confusão interior campeiam e parecem situar-se para lá da razão. Há dias, um enfatuado guru da direita causticava, severamente, a RTP, pela circunstância de, numa entrevista de Judite de Sousa a Manuela Ferreira Leite, o realizador ter filmado grandes planos da senhora, cujo rosto estava (naturalmente) sulcado de rugas. A recriminação seria grotesca se não assumisse a insinuação inquietante de que tudo aquilo configurava um preconceito de ordem política. Entende-se o que subjaz à delação; mas entramos nos domínios da indecência.

A pretensa exigência ética de certos preopinantes corresponde, afinal, à sua negação e apenas merece um registo de repulsa. Aplausos, sim, devemo-los a Fernando Nobre, presidente da AMI, pelo magnífico artigo publicado no Notícias Magazine [11. Maio, p.p.], no qual verbera a indiferença com que assistimos ao genocídio pela fome, designado de tsunami silencioso, e afirmando a irreversibilidade dos danos já causados. Assumo a minha especial admiração por este homem de carácter, que nunca se fechou sobre as grandes tragédias do nosso tempo, num compromisso moral admirável.

Há tempos, no Jornal das Nove, da SIC Notícias, foi exibida parte do programa 60 Minutos, sobre o sistema de saúde norte-americano, no qual se narrava a história de um indivíduo sem recursos, que percorrera centenas de quilómetros a fim de ser assistido por um médico generoso. Não dispunha de seguro de saúde, o seu rosto exprimia um atroz infortúnio. Fernando Nobre, entrevistado por Mário Crespo, não calou a indignação que a história lhe causara. É isto que não quero para o meu país!, numa clara referência ao empreendimento de destruição do Serviço Nacional de Saúde, programado pelo sr. Correia de Campos.

Não há equivalência entre o discurso que propõe, como princípio essencial, a conciliação da verdade com a liberdade, e aquele que corresponde a uma ausência de norma civilizacional, em nome de meras estratégias partidárias. A regra do jogo democrático reclama-se de uma cultura política e cívica, cuja formação pode ser entravada por um processo de intriga permanente, que retira ao cidadão toda a possibilidade de o pensar e rejeitar.

O fosso entre os graves conflitos do nosso tempo e a indiferença que por eles demonstramos não se coloca, unicamente, em termos de generalidade. É uma questão crucial do debate democrático - que não fazemos. E o ruído sonega o essencial e impõe a fatuidade como norma. O insistente discurso de Fernando Nobre constitui um paradigma. O outro somente retém o acessório.


B.B.

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domingo, 25 de novembro de 2007

EU PREFIRO CHÁVEZ

Se as coisas, como as pessoas, fossem sempre lineares, não me custaria nada reconhecer que Hugo Chávez não é o tipo de democrata que eu recomendaria nem a Venezuela é o tipo de democracia em que eu mais gostaria de viver. Mas as coisas não são lineares: se o fossem, ninguém concederia a George Bush o epíteto de democrata. Aliás, na comparação, ele só sai a perder.

Chávez chegou ao poder por golpe de Estado, mas fez-se eleger e reeleger em eleições cuja credibilidade ninguém contestou, assim como ninguém pode seriamente contestar que ele tem o apoio efectivo de uma maioria consolidada de venezuelanos. É certo que vai fazer plebiscitar uma emenda constitucional que lhe permitirá fazer-se reeleger e perpetuar indefinidamente no poder - coisa que não é bonita, mesmo se plebiscitada, mas que tantos outros fazem, sem necessidade de emendas constitucionais: veja-se Alberto João Jardim na Madeira ou Jardim Gonçalves no BCP. Também é verdade que fez com se calasse uma televisão privada que lhe era politicamente desafecta (não a mandou calar, como os críticos gostam de dizer, limitou-se a não renovar a licença) e que domina amplamente os meios de informação venezuelanos. Mas ainda funciona uma estação de televisão, jornais e rádios da oposição e não consta que haja presos políticos.

Em contrapartida, Bush não chegou ao poder por golpe de Estado - pelo menos com armas na mão - mas chegou por batota eleitoral (a menos que se queira acreditar que os negros da Florida votaram maciçamente por ele, contra Al Gore). A seguir, fabricou uma guerra e todas as provas necessárias a arrastar para ela os Estados Unidos e os aliados, de modo a fazer valer a tradição americana de que um Presidente em guerra é sempre reeleito. Não fechou órgãos de informação, mas falsificou a informação sempre que isso lhe conveio para esconder a verdade e conduzir políticas ocultas do Congresso e da opinião pública. Também não tem presos políticos internos, mas tem-nos, de outras nacionalidades, mantidos em prisão em Guantánamo, sem quaisquer direitos, nem prazo, nem acusações, naquela que é uma das situações mais vergonhosas de direitos humanos em vigor no mundo de hoje e a mais vergonhosa em qualquer democracia.

Odiado pelos Estados Unidos e por meio mundo, Chávez tem feito mais pelo seu povo do que muitos dos seus antecessores, enquanto que George W. Bush o que fez foi gastar o dinheiro que Clinton lhe deixou nos cofres a financiar os ricos e a tirar aos pobres, fez os Estados Unidos regredirem em todos os capítulos económicos, científicos e ambientais, desprestigiou a América aos olhos do mundo e tornou este um lugar bem mais perigoso para viver graças à sua irredutível ignorância e arrogância. Até já o amigo Durão Barroso, que nos tempos épicos da cimeira das Lages gostava que se soubesse que o tratava por George, acha mais prudente agora cavar distâncias e dizer-se enganado. Só mesmo o director do Público - que tão entusiasta foi da justa guerra do Iraque e que conseguiu ver nas imagens da estátua derrubada de Saddam uma espécie de reinvenção das imagens dos marines a desembarcar em Omaha Beach, em nome da liberdade - é que pode achar agora que perigoso é ficar à mercê de demagogos mediáticos como Hugo Chávez.

É verdade que um demagogo é sempre perigoso, mas um demagogo no poder num país como a Venezuela, mesmo com o petróleo, não pode fazer grande mal ao mundo. Um mentiroso, no poder num país como os Estados Unidos, pode fazer e faz.

Por uma vez, a nossa habitual diplomacia de não fazer ondas com ninguém até teve razão de ser. Por que razão, de facto, haveríamos de ter Chávez como inimigo ou alvo a abater? Porque isso agradaria ao embaixador dos Estados Unidos em Lisboa? É ele que está em condições de garantir que, se hostilizássemos Chávez, em nome de uma estúpida solidariedade ocidental de espécie confusa, os Estados Unidos estariam de braços abertos para acolher a comunidade lusa de 400.000 almas que vive na Venezuela? E em nome de que coerência de princípios disse Luís Filipe Menezes esperar que Sócrates não deixasse de abordar o tema dos direitos humanos com Chávez? Será que espera o mesmo nas relações com Angola ou com a China - essas, sim, verdadeiras ditaduras - onde o bloco central dos empresários tem ou espera vir a ter negócios milionários, garantidos pela cobertura do Estado e por relações sem ondas com as nomenclaturas locais? O dr. Menezes sente-se capaz de explicar ao sr. Américo Amorim que, se um dia for primeiro-ministro, vai pôr o tema dos direitos humanos no topo da agenda das relações com Angola?

Eu prefiro Hugo Chávez a George W. Bush. Para começar, porque se fosse venezuelano ou latino-americano e se houvesse um Bush na Casa Branca, eu também seria ferozmente antiamericano. Depois, porque acho mais saudável alguém que diz a verdade que lhe vem à boca, ainda que muitas vezes disparatada e inconveniente, do que alguém que lê frases feitas no teleponto e por trás dos microfofones faz o oposto do que diz e promete. E, finalmente e não menos importante, porque preferia mil vezes jantar com Chávez do que com Bush. Mesmo que, a certa altura e cansado de o ouvir, tivesse de o mandar calar, como fez, e bem, o rei de Espanha.

PS - Há mais de dez anos que vivemos com esta espada suspensa sobre a cabeça: quando não têm mais nada com que se entreter para exibir a sua importância, os senhores da Academia das Ciências e os ministros dos Estrangeiros gostam de nos ameaçar com o acordo ortográfico, cujo objectivo único é por-nos a escrever como os brasileiros, assim lhes facilitando a sua penetração e influência nos países de expressão portuguesa. Como disse Vasco Graça Moura, o acordo é um diktat neo-colonial, em que o mais forte (o Brasil) determina a sua vontade ao mais fraco (Portugal). Alguém imagina os Estados Unidos a ditarem à Inglaterra as regras ortográficas da língua inglesa? Ou o Canadá a ditar as do francês à França ou a Venezuela as do espanhol a Espanha?

Dizem que isto vai facilitar a penetração da literatura portuguesa no Brasil, mas ninguém perguntou a opinião aos autores portugueses. Há quatro anos atrás, publiquei um livro no Brasil e, contra a opinião de alguns sábios e as várias insistências da editora brasileira, o livro reza assim na ficha técnica: A pedido do autor, foi mantida a grafia da edição original portuguesa. Apesar dos agoiros de desastre que essa teimosia minha implicaria, o livro vendeu até hoje cerca de 50.000 exemplares no Brasil. Perdoem-me a imodéstia, mas orgulho-me de ter feito bem mais pela nossa língua no Brasil do que todos esses que se dispõem a vendê-la como coisa velha e descartável.


Miguel Sousa Tavares

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