segunda-feira, 10 de novembro de 2008

OS PALHAÇOS

Há uma grande diferença entre respeito e respeitinho.
O respeito funda-se na autoridade moral, o respeitinho no autoritarismo.


O que se passou na Assembleia Regional da Madeira, com um deputado a chamar fascista ao presidente do governo regional, ao mesmo tempo que desfraldava a bandeira do partido nazi, seria impensável suceder no Congresso ou no Senado dos Estados Unidos da América, apesar de este ser o país do mundo onde existe maior liberdade de expressão.

Nem o comportamento do deputado do PND que desfraldou a bandeira nazi, nem o comportamento dos sociais-democratas madeirenses que o suspenderam de funções, o impediram de entrar na Assembleia e apresentaram queixa no tribunal.


E para ser franco, choca-me mais a reacção social-democrata do que a actuação do deputado do PND. Na verdade, ao reagirem da forma como o fizeram, os sociais-democratas da Madeira acabaram por justificar e legitimar a atitude do deputado do PND. Com efeito, só uma sociedade totalmente avessa aos mais elementares princípios da democracia e da liberdade pode reagir da forma violenta como os sociais-democratas madeirenses reagiram a uma palhaçada daquelas.

Até parece que lhes enfiou a carapuça. Sem esquecer que, como diz o povo, na terra onde fores viver, faz como vires fazer.

E estando nós tão habituados a tiradas semelhantes dos presidentes do governo e assembleia regionais, ninguém compreende por que razão os sociais-democratas da Madeira se sentem agora tão ofendidos e melindrados com uma simples brincadeira de mau gosto.


No Senado e no Congresso dos EUA, isto seria, no entanto, impensável de ocorrer porque os americanos têm o cuidado de eleger congressistas e senadores, em vez de palhaços. Em Portugal, pelo contrário, as assembleias da República, regionais e municipais só muito raramente se conseguem distinguir dum circo, a não ser pelo número de palhaços que, nos circos, é, em regra, bastante mais reduzido.

Nos EUA, basta uma simples notícia fundamentada que ponha em causa a honorabilidade do congressista ou do senador para este colocar, de imediato, o lugar à disposição. Em Portugal, a falta de vergonha é tanta que, quanto mais atascado estiver na lama, mais se agarra ao lugar, protegido pelas leis que ele próprio ajudou a aprovar e pelos apaniguados cujos tachos e favores comprou com o dinheiro dos contribuintes. E como o nosso povo se revê nesta gente, têm sempre o seu voto garantido. Isto é que me revolta e escandaliza.

Não se pense, no entanto, que o circo está confinado à Madeira. Aquilo é circo pobre. A quem eu nunca achei qualquer graça é ao palhaço rico, não é ao palhaço pobre.

O palhaço rico é aquele que se escandaliza com as palhaçadas do palhaço pobre, mas, depois, é capaz de aprovar leis inconstitucionais ou rejeitar leis, contra a sua consciência, para não perder votos em eleições regionais ou nacionais.

E sobretudo não acho qualquer graça a quem faz de nós palhaços, como é o caso do nosso primeiro-ministro e do ministro das Finanças que, num dia, chamam de irresponsáveis a quem apresenta determinada proposta e, no outro, aprovam precisamente as propostas que, no dia anterior, classificaram de totalmente irresponsáveis. Mas, como o povo português adora o circo, esta gente tem sempre a eleição garantida.


REXISTIR

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5 Comments:

At 10 de novembro de 2008 às 21:07, Anonymous Anónimo said...

Basta assistir às nossas assembleias municipais ou reuniões camarárias para assistir a números de circo ainda piores do que este. E com palhaços melhores.

 
At 10 de novembro de 2008 às 21:17, Anonymous Anónimo said...

Esta palhaçada nao se passou na nossa terra? E que e assim que o taveira comunica, senao dizem o que ele quer la vem o vigaro do IPC masi o lambe botas do albuquerque dizer bem, eo sr ditador expulsa todos

 
At 11 de novembro de 2008 às 18:12, Anonymous Anónimo said...

Isto é uma grande palhaçada e na Coreia do Noerte?

 
At 11 de novembro de 2008 às 18:57, Anonymous P.F. said...

O que se está a passar na Madeira com o episódio do deputado do Partido da Nova Democracia que exibiu uma bandeira nazi na Assembleia Regional confirma que ali a lei não conta e que as instituições já perderam o respeito que devem, antes de mais, a si próprias.

Ao gesto inaceitável de José Manuel Coelho sucedeu-se uma série de decisões ainda piores da maioria social-democrata que, há mais de 30 anos, faz o que quer da Assembleia Regional.

Sem desculpabilizar os actos do eleito do PND - que devem ser punidos de acordo com a lei - o que se seguiu é de uma gravidade muito superior.

No primeiro caso estamos perante um comportamento individual que classifica o autor e que deverá ter as consequências dele decorrentes.

Já na reacção do grupo parlamentar do PSD Madeira estamos perante actos institucionais que tentaram vingar o caso pelas próprias mãos, servindo-se do facto de ser o partido maioritário e atropelando as mais básicas regras de um Estado de direito: aprovou um requerimento decretando a suspensão do deputado do PND que no dia seguinte teve que ser revogado por manifesta falta de legalidade; impediu pela força - a propósito, que autoridade têm os funcionários de empresas de seguranças privadas de impedir quem quer que seja de entrar em qualquer espaço público? - a entrada do deputado no parlamento regional; e suspendeu as sessões do plenário.

O desfecho mais previsível para tudo isto deverá ser a punição do deputado José Manuel Coelho pelos seus actos e palavras - o que é desejável se for feito através dos normais canais judiciais - e a sintomática impunidade dos responsáveis do PSD que praticaram actos de uma gravidade superior aos do deputado do PND.

Como tudo se passa na Madeira, esse reino sem lei de Alberto João Jardim, o país já se habituou a sorrir, encolher os ombros e a seguir em frente sem perder mais tempo com o tema.

Só por si, esta reacção é suficientemente preocupante. A falta de capacidade de indignação mostra como todos já dão como definitivamente perdida a possibilidade de haver na Madeira qualquer coisa que se aproxime de uma normalidade democrática.

As coisas acontecem assim há décadas e vão assumindo novos patamares de desafio às leis, atropelos institucionais e insulto à inteligência dos cidadãos.

Alberto João Jardim e o PSD-Madeira são o que são porque nunca ninguém, no PSD nacional, teve a coragem de dizer "basta!", mesmo que arriscasse perder as eleições no arquipélago. Sempre foi assim e com Manuela Ferreira Leite não está a ser diferente.

Apesar das tentativas feitas nos últimos dias para saber o que pensam os dirigentes sociais-democratas da atitude dos seus companheiros de partido madeirenses, o PSD nacional nada tem a dizer ao país.

Mas faz mal. A credibilidade que Manuela Ferreira Leite quer colocar na sua liderança não se constrói apenas com gestos que são importantes mas apenas simbólicos, como a ausência da tradicional festa de Verão do PSD-M no Chão da Lagoa. Credibilidade também quer dizer coerência intelectual, mão firme dentro do partido e intransigência em relação a comportamentos que são inaceitáveis de acordo com qualquer padrão de respeito pelas regras do Estado de direito.

Trata-se, no fundo, de níveis de exigência política e democrática. Se Manuela Ferreira Leite quer fixar a sua fasquia lá em cima, como tem dito e a sua prática passada confirma, tem depois que ser coerente na acção, ainda que isso implique criticar os seus.

Da mesma forma que o Presidente da República não pode continuar em silêncio ou simplesmente a transmitir que "está a acompanhar o assunto" ou a manobrar nos bastidores. Se Cavaco Silva está neste caso concreto, de facto, a zelar pelo normal funcionamento das instituições, como é sua obrigação, os cidadãos têm o direito de sabê-lo. E o Presidente tem o dever de divulgá-lo, até pela elevação do nível de prática política que se tem degradado no país.

 
At 11 de novembro de 2008 às 18:59, Anonymous J.U.M. said...

Alberto João Jardim entende que a polémica em torno do deputado do PND que exibiu uma bandeira nazi no Parlamento regional da Madeira e que foi depois impedido de entrar no hemiciclo é “acontecimento para pessoas que gostam de anedotas”.
No:Público

Digamos que toda a "democracia" madeirense é uma anedota.

 

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