sábado, 1 de novembro de 2008

A DEGRADAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA PORTUGUESA



Eu imagino o ar entalado do ministro dos Negócios Estrangeiros, um homem civilizado e capaz, moderado e diplomata, no bom sentido da palavra, ao ver o que se estava a passar, ao ver o seu primeiro-ministro a fazer de vendedor de cobertores como se estivesse numa feira manhosa, promovendo o verdadeiro computador ibero-americano.

Sócrates, na pele de vendedor de uma empresa privada, a JP Sá Couto, que produz em regime de monopólio um computador que o Estado português compra, sem concurso público, em condições mal explicadas e mal esclarecidas, deu mais um passo num processo bizarro de envolvimento do Estado português como caixeiro-viajante de uma só empresa portuguesa. Imagino o que dirão as outras empresas do mesmo ramo, esmagadas perante esta competição desigual.




Retratos da diplomacia económica:
eles vendem o Boeing, o Airbus, a Nokia, e nós, o Classmate da Intel.

Ninguém está obviamente contra a chamada diplomacia económica, nem ela em si rebaixa ninguém. Os americanos vendem a Boeing, os finlandeses a Nokia e os franceses o Airbus, os franceses aliás vendem até muito mais do que o Airbus, a julgar pelas armas que Saddam tinha, já o embargo internacional ao Iraque estava em vigor. Mas o caso do Magalhães está a transformar-se numa estranha promiscuidade entre uma empresa privada, na qual o Estado português formalmente não tem qualquer interesse, nem escolheu por qualquer concurso público (o mito urbano é que foram as operadoras de comunicação que decidiram tudo sobre o Magalhães, que apenas depois foi colocado no sapatinho do primeiro-ministro para ele fazer propaganda), e que acaba por se tornar central na política de vendas do Estado português. A JP Sá Couto não trabalha de graça, como é óbvio, e beneficia exponencialmente de ter a diplomacia portuguesa e o primeiro-ministro a vender os seus produtos e a aumentar os seus lucros.

Mas a história só piora cada dia. Ela está a degradar cada vez mais a nossa política externa, com momentos ridículos, pasto dos Gatos Fedorentos, tanto mais que se passam numa cimeira internacional. É penoso ver Sócrates a dar computadores, numa extensão do e-escolinhas, aos chefes de Estado ibero-americanos, perante o sorriso irónico da maioria dos chefes de Estado, que, ou aproveitavam a descontracção para ir ver o correio íntimo ou o site dos jornais da oposição dos seus países (quando ainda sobrevive a oposição), ou o puro desinteresse daqueles que não estão ali para ouvir aquelas brincadeiras um pouco inconvenientes. Sócrates nem sequer se apercebe, que, quando diz que o computador é resistente aos líquidos, pela cabeça daqueles adultos empedernidos, os líquidos que se imaginam não são propriamente nem água, nem leite, nem iogurte.

Mais. Sócrates obviamente nunca faria uma cena daquelas num conselho europeu, e nessa diferença está a rebaixar os seus anfitriões, como se estivesse ali a fazer de sr. Oliveira da Figueira, a trocar umas contas de vidro por ouro entre os tuaregues do deserto. Sócrates falava para os índios. E os brancos na reunião, como Zapatero, estavam noutra. Um desses índios, explicou ele, uma criança grande chamada Chávez, uma criança descuidada e desajeitada, até tinha atirado o Magalhães ao chão para lhe gabar a resistência. E nem sequer passava pelo óraculo da televisão a mensagem de Não tentem repetir isto em casa. Gostava de ver as criancinhas, perante o olhar horrorizado dos pais, a atirar o Magalhães contra as paredes. Experimentem e mandem a conta a Chávez e a Sócrates.




Software usado no seu trabalho pelos assessores do Primeiro-ministro,
"que não precisam de outro computador" a não ser o "Magalhães"


Eu tinha vergonha de lá estar e ouvir um primeiro-ministro de Portugal a dizer que os seus assessores não precisavam de outro computador para trabalhar a não ser o Magalhães, concebido para as crianças do ensino básico, o que implica que devem passar o dia a soletrar a tabuada com carneirinhos e florzinhas a voar no ecrã. Deve ter sido assim que foi feito o Orçamento pelos assessores, a jogar ao peixinho no Magalhães, até que uma mão invisível saindo da sombra, certamente com um Dell ou um Sony Vayo ou um MacBook Air ou um qualquer computador muito a sério, lá escreveu a anónima alteração da lei do financiamento partidário. Essa não foi feita de certeza num "Magalhães". É que, se fosse verdade que os seus pobres assessores tivessem de laborar nos seus gabinetes de Magalhães à frente, o que obviamente não é verdade, isso diria muito sobre o infantilismo de toda esta conversa.

Não é só que não haja paciência, não há outra coisa, não há a noção de que a nossa política externa não pode estar reduzida a uma imitação europeia de Chávez. Sim, porque não é Chávez que imita Sócrates, é Sócrates que anda a imitar Chávez, e o original é muito melhor do que a imitação. Infelizmente de há muito que a nossa política externa anda por casas de muito má fama, por Angola, pela Líbia, pela Venezuela. Uma, duas, três vezes. Já o disse e repito: aquilo que Sócrates dá verdadeiramente a estes governantes corruptos, demagogos e perigosos não é o Magalhães.



Não é o verdadeiro computador ibero-americano, por singular coincidência ianque e da Intel, que eles querem. Dá-lhes jeito para repetir umas cenas de propaganda, a troco de um navio de petróleo, mas o que Sócrates lhes dá no fundamental é a respeitabilidade de serem unha com carne com um país da União Europeia, cujo primeiro-ministro não se importa de andar de braço dado com eles na rua.

A degradação da nossa política externa está não em dar-se com todos os países com que temos relações diplomáticas, não em fazer negócios mesmo com gente pouco recomendável, mas sim na caução e legitimação política dada a regimes opressivos e pouco democráticos. É por isso que Chávez tanto gosta de Sócrates. Ele é o seu europeu de estimação, o seu troféu na União Europeia para atirar à cara dos ianques e de gente como o Rei de Espanha que o mandou calar. É também este atestado de legitimidade que andamos a vender, não é só o Magalhães.

José Pacheco Pereira

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5 Comments:

At 2 de novembro de 2008 às 15:45, Anonymous L.Carvalho said...

Aquela intervenção de Sócrates na Cimeira Ibero-Americana a vender a merda do Magalhães como quem vende aspiradores vai ficar como o momento mais ridículo da política portuguesa no estrangeiro. Depois do seu amigalhaço Chavez ter dado no ano passado aquela bronca, foi agora a hora e a vez do engenhocas dar uma de vendedor de electrodomésticos.
Porque não saiu desta vez em defesa da boa educação Juan Carlos ? "Porque não te calas oh aldravilhas ???".

A cena triste e ridícula daquele que quer ficar conhecido como o Homem da Regisconta do século XXI, aquela máquina, levanta ainda por cima várias questões éticas. É legítimo um primeiro ministro e um governo promoverem uma marca de computador? Não há mais no mercado? O Windows é o único sistema operativo? Temos de usar todos windows como os governantes de há 20 anos nos queriam pôr a andar todos de Renault?
Sócrates tem o seu Trabandt dos computadores. Ele deve perceber tanto de computadores como eu de lagares de azeite... Aliás se perceber tanto de computadores como de engenharia e arquitectura...ou mesmo de inglês técnico...já agora de finanças...já agora de socialismo...uffff!!
Só falta a Maga Patológica, a Santa Padroeira da oposição vir defender o Magalhães para fazer a tabuada...
Socorro!!!
Quero emigrar.

 
At 2 de novembro de 2008 às 18:05, Anonymous Anónimo said...

Transcrição de um email que recebi recentemente:


FW: Carta aberta a José Sócrates - Vale a Pena!


Autor: Pedro Carvalho Magalhães

Senhor Primeiro Ministro:

Venho protestar veementemente através de Vª Exª pelo nome dado ao
computador que os vossos serviços resolveram distribuir aos meninos deste
país (os que sobrarem do seu negócio com o Hugo Chavez na troca do
petróleo, bem entendido).

Eu, Pedro Carvalho de Magalhães, nunca mais poderei usar a minha assinatura
sem ser indecentemente gozado pelos meus colegas de trabalho.
Sempre assinei PC Magalhães e, desde que Vªs Exªs baptizaram o tal
computador, tive que alterar todos os meus documentos.
Uma coisa tão simples como perguntar as horas e a resposta que recebo é:
-
Atão Magalhães... vai ao Google...

Se vou à máquina de preservativos, há sempre uma boca dum colega:

- Para quê, Magalhães? Não te chega o anti-virus?

Se vou ao dentista, a recepção é sempre a mesma:

- Então o senhor Magalhães vem limpar o teclado...

A minha mulher, Paula Carvalho Magalhães, também sofre pressões
indescritíveis no emprego: Ontem uma colega veio da casa de banho com um
tampão na mão e gritou:

- Paula.... esqueceste-te da tua pen!

Também o ginecologista não resistiu ao nome e, após a consulta, disse-lhe
que tudo estava bem com as entradas USB!

Nem o meu filho, Pedro Carvalho Magalhães, escapa ao gozo que o nome veio
provocar.
A Rita, a mocinha com quem andava há mais de 6 meses, acabou tudo com este
argumento:

- Magalhães.... vou à Staples procurar outro que a tua pega é muito
pequena!

Quando, devido a tudo isto, apanhei uma tremenda depressão que me impediu
de trabalhar, fui ao psiquiatra. Ele olhou para o meu nome e disse:

- Pois é, senhor PC Magalhães. Aconselho-o a passar pelo suporte técnico da
Staples... podem ser problemas de memória RAM!

Neste momento a minha mulher quer desinstalar-se e procurar alguém que
tenha um nome 'decente'.

Senhor Primeiro Ministro... porque diabo não puseram Sócrates a esse
maldito computador? Queria que o senhor visse o que custa!

Atenciosamente, assina Paulo Carvalho M. (e não me perguntem o que é o M)

 
At 2 de novembro de 2008 às 18:09, Anonymous Anónimo said...

Se a nossa "fundação" António Prates tivesse um ou 2 pcs desse tipo, talvez tivesse tido algum resultado possitivo, assim, parece que vai mesmo FECHAR!!!!

Deiem especial atenção a partir da pagina 18.


http://www.cm-pontedesor.pt/upload/doc_44_acta_de_reuniao_dia_29_de_outubro_de_2008.pdf


:) :)

 
At 2 de novembro de 2008 às 22:25, Anonymous Luis Mateus said...

Em pleno desenvolvimento da crise gravíssima e planetária que estamos a atravessar – uma crise tão ampla e profunda que, até hoje, não terá havido outra que se lhe assemelhe – que contributo leva o «nosso» José Sócrates a uma reunião Cimeira Ibero-Americana? Uma perspectiva inovadora para fazer face às provações que se adivinham no horizonte próximo? Uma receita para ultrapassar a estagnação económica que se avizinha a passos largos? Uma proposta de dinâmica cívica que, decididamente, envolva as sociedades no processo do seu desenvolvimento? …??? Não!!! José Sócrates vai à Cimeira promover (vender) junto dos mais altos representantes políticos dos países presentes um computador para meninos, a «Lancheira Migalhães» (não é gralha!).
O slogan utilizado é barato e batido, à Tintin (a Sócrates não incomodam plágios!): um computador destinado a utilizadores “dos 7 aos 77 anos”…!!! O argumento, reforçado com o da impermeabilidade a líquidos, é «político» e de força (bruta): “O Presidente Chávez, da Venezuela, já o atirou ao chão e não partiu”…!!! A demonstração, tão obviamente falsa como atrevida é a ignorância, segue no melhor estilo feirante dos antigos vendedores de «banha da cobra»: “Todos os meus assessores o utilizam e não precisam de mais nada”…!
Que diabo de país (de mundo) é este em que hoje vivemos? Que raio de gente é esta que nos está presentemente a (des)governar? Terá deixado de existir um mínimo de pudor, um qualquer sentido de conveniências? Na ausência, mais do que evidente, de uma séria e estribada – por aprofundada, sedimentada e generalizada – «Cultura», o novorriquismo tecnológico – «choque tecnológico», lhe chamam… – conseguirá servir para algo mais do que deixar basbaques alguns políticos do regime e o conjunto menos exigente dos seus apoiantes (votantes)? Será que uma autêntica e sólida – leia-se: sustentada – «Sociedade do Conhecimento» pode assentar unicamente em tecnologia e inovação?
Nos livros de aventuras do Tintin, do autêntico Tintin do Hergé, o único personagem assumidamente português que aparece é o Sr. Oliveira da Figueira, um comerciante bem disposto que surge, tão inesperada quanto inopinadamente, com a sua tenda de mercador, em pleno deserto do Saara, a vender aos ingénuos nómadas locais uma imensa variedade de objectos absolutamente deslocados e inúteis naquele dificílimo e árido ambiente.
José Sócrates, Primeiro Ministro de Portugal travestido de vendedor ambulante de «Lancheiras Migalhães», terá vindo agora confirmar, internacional e decididamente, aquela nossa franca vocação (e imagem) «empresarial» de destemidos vendedores de bugigangas inúteis e coloridas!

 
At 5 de novembro de 2008 às 14:09, Anonymous Anónimo said...

Realmente foi uma vergonha para Portugal.

Temos o que merecemos.

AS

 

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