terça-feira, 16 de agosto de 2005

TODOS SOMOS CULPADOS

As críticas que, um pouco à Direita e à Esquerda, têm sido feitas a José Sócrates, comentando os percalços, tropeços e barafundas do seu governo, correspondem ao sentimento de frustração que, novamente, se instalou na sociedade portuguesa.
Manifesta-se algo de dúbio nas decisões, e muito de improviso naquilo que o Executivo faz. As decisões são abaladas pela controvérsia, o que seria salutar, acaso não irrompessem no interior do próprio governo. E o que se faz exprime um resíduo do que, na realidade, deveria ser feito. Depois, demonstram-se os recuos tácticos, todas as vezes que o Executivo pensa em aplicar a estratégia prometida.

Compreendo os temores dos portugueses, perante as perspectivas que se lhes propõem.
O não cumprimento desta nova legislatura, probabilidade por alguns aventada, daria origem a quê?
A outro governo PS?
A outro governo PSD?
Um é pior do que o outro, e o outro é pior do que aquele.
Somos os tristes destinatários de um facto político remetido por um bando de gente sinistra. Mas a verdade, também, é que pouco fazemos para inverter esta fúnebre tendência para o abismo.

A dissolução dos géneros políticos e as confusões doutrinárias a que se prestaram os partidos de poder, em quase toda a Europa, determinaram o aparecimento de epifenómenos como Berlusconi. Este resulta, sobretudo, da falência ideológica dos partidos de Esquerda. A torrente neoliberal foi devastadora. E o que resta dos partidos comunistas não dispõe de força bastante para, isoladamente, conseguir enfrentar vitoriosamente o inimigo.

Surpreende-me a circunstância de haver gente que acha tudo isto muito bem. Os exorcismos do nosso viver actual chegam ao ponto de permitir o branqueamento do fascismo, sem que se registe uma onda de indignação. Há quem recorra ao «paradoxo histórico» para justificar o injustificável. Assinala-se, isso sim, uma capitulação cívica, moral e política, quase sem precedentes na agitada história de Portugal.

Como já não temos muito tempo, seria bom que desejássemos tudo imediatamente. Todavia, vivemos num estado de confusão tão grande, desprovidos de método, de lucidez e de motivação que seria mais correcto falarmos de uma cultura do perecível, do provisório segmentado, do que de um impulso renovador.

Numerosos correspondentes costumam interpelar-me: que fazer?, qual o remédio?, ao mesmo tempo que me dão com o sarrafo, pela perseverança das minhas críticas. Lamento confessar os escassos recursos intelectuais de que disponho e a modéstia do meu entendimento - mas não sei responder, exactamente pelo facto de que nem eu ou nenhum de nós perceber claramente os limites da história e as armadilhas que ela nos apresta. Porém, a educação cívica, a cultura, o conhecimento, a paixão e a vontade podem constituir um correctivo à nossa costumada abulia e à tradicional mentalidade conservadora com que, sobretudo, a Igreja católica nos cunhou.

As distinções de categoria, tema obsidiante em homens da estatura de Verney, Anastácio da Cunha, Antero, Oliveira Martins, Raul Proença e de Eduardo Lourenço, foram substituídas pela eficácia prática, palavrão que encobre as piores patifarias políticas. Assim, o nosso desencantamento recolhe, no bojo, formas cínicas de fuga às colectivas responsabilidades. A instilação dessa «inocência» escapa aos cânones da razão comum. E a «tristeza portuguesa» é o torpe modo de rejeitarmos qualquer culpa naquilo que nos acontece!

A cultura instiga-nos à curiosidade. A política conduz-nos às incertezas da consciência: votámos bem?, votámos mal?, votámos, afinal, para quê? Os partidos de poder são semelhantes nos objectivos, talvez menos semelhantes nas relações humanas. Que fazer para evitar, contornar ou combater as marcas do tempo?

Sei ser difícil, com instrumentos de imbecilização como são as televisões; com as ambiguidades políticas, as cumplicidades partidárias e a mediocridade impante ajudar a resolver os problemas e as contradições de uma sociedade que deixou de ser comunidade de afectos. O achatamento dos valores é um acontecimento inexorável. Contudo, há um factor que subiste: o da consciência. Querem impor-nos uma cultura fragmentada. Muitos de nós resistimos a isso.

FRASE: «O que injuria e insulta sob a capa do anonimato, não passa de um estafado canalha» - Montesquieu, «L’Esprit des Lois

Baptista Bastos

7 Comments:

At 16 de agosto de 2005 às 11:50, Anonymous António Ferreira said...

... E a selva é já a seguir

Agosto, muito calor, muitos incêndios e o povo deste sítio muito mal frequentado discute, animadamente, o safari do primeiro-ministrio, o dinheiro gasto, o luxo dos hotéis com o País a arder.

O povo deste sítio mal frequentado, pouco recomendável para a saúde e com sinais evidentes de falta de higiene física e moral, tem andado a ler comentários, desabafos, suspiros, gritinhos de indignação de senhores e senhoras que não concordam com o facto de José Sócrates ter ido para bem longe deste cantinho passar uns dias, por certo maravilhosos, em terras africanas com o o País a arder. Preferiam, obviamente, que o "chefe" do Governo tivesse optado pelo campismo, preferencialmente num daqueles espectaculares parques da Costa da Caparica, com pó, calor, moscas, sardinha assada e umas visitas aos fogos. Isso sim era socialista, verdadeiramente socialista, puro, estatista, digno de um cidadão deste miserável Estado social, falido, feio, com cidades horríveis e campos ao Deus dará, com um regime caduco e uma partidocracia nada recomendável em todos os domínios, incluindo o dos costumes.

O povo deste sítio discute o safari e os fogos mas não se incomoda com o facto de uma direcção-geral deste Estado omnipresente e todo poderoso lançar uma campanha de prevenção de fogos em pleno mês de Agosto e com o sítio a arder.

O povo deste sítio lamentável inveja o safari, vê os fogos mas olha para o lado quando um ministro de Estado e das Finanças tem a pouca vergonha de vir a público justificar a nomeação de um boy socialista para a administração da Caixa Geral dos Depósitos com uma licenciatura qualquer terminada nos finais de Julho e os anos de serviço, a maioria dos quais fora do banco.

O povo deste sítio muito mal frequentado sonha com leões, elefantes, hotéis de luxo e chamas, mas ouve, sem indignação e, quem sabe, com uma ponta de emoção e admiração, Teixeira dos Santos, o tal ministro, confessar em público que dorme como um pobre coitado num divã na casa de um filho.

A verdade é que o povo deste sítio muito mal frequentado merece a gente que os governa. O pobre do José Sócrates não tem culpa nenhuma de ter sido eleito secretário-geral do PS e ter obtido, meses depois, uma maioria absoluta histórica nas legislativas. O pobre do José Sócrates não fez nem disse nada para levar dois milhões e meio de portugueses a votarem nele. E só viveu em estado de graça quando esteve escondido em São Bento.

É assim natural que o pobre do Sócrates tenha partido para um maravilhoso safari africano. Longe do fogos e do povo. O pobre coitado sabe que a selva vem já a seguir. Neste sítio muito mal frequentado.

 
At 16 de agosto de 2005 às 11:57, Anonymous Manuel Carvalho said...

Já não é apenas sobre as opções da política fiscal que se colocam dúvidas sistemáticas. A suspeita alastrou a todas as áreas da governação.

 
At 16 de agosto de 2005 às 12:18, Anonymous Ninno said...

Para não atrapalhar, era emigrar de vez

O primeiro-ministro José Sócrates regressa, na próxima quarta-feira, a Portugal, vindo de um período de férias no Quénia, mas ainda não decidiu se se vai deslocar até às zonas onde decorrem incêndios, para uma vista simbólica, uma vez que, segundo o seu gabinete, o Governo não pretende ir «para os incêndios atrapalhar».

 
At 16 de agosto de 2005 às 15:16, Anonymous J.P.P. said...

“O senhor primeiro-ministro telefonou-me mais de duas vezes questionando-me se devia voltar ou se não devia voltar.” (António Costa referindo-se a Sócrates, Primeiro-ministro de Portugal)

Para quem, como eu, que passo o dia a interpretar a “linguagem de madeira” dos partidos comunistas, onde os clássicos artíficios imperam, a omissio veri, supressio veri e suggestio falsi, esta frase é típica. Uma das coisas que aprendi é que se deve tomar estas frases, tipícas da suggestio falsi, mesmo à letra .“Mais de duas vezes” pode significar três, deixando um rabinho de palha que podem ser mil. Ou mais provavelmente, são dois telefonemas de viva voz, voz de Sócrates ouvido de Costa, e um outro por entreposta pessoa, chefe de gabinete, outro ministro, recado deixado, qualquer coisa que justifique o preciso “duas vezes”, mas não o "três vezes". Mas a conclusão mais interessante não tem sido tirada pela desatenta imprensa: é que o Primeiro-ministro de Portugal não telefona sequer uma vez por dia, ou dia sim, dia não, apenas talvez uma vez por semana, ao seu substituto em funções. São férias mesmo a sério.

 
At 16 de agosto de 2005 às 17:29, Anonymous Anónimo said...

Situação perfeitamente normal e controlada

Des dizaines de feux qui ravagent pour la quatrième journée consécutive des forêts au Portugal continuaient, lundi 15 août, de s'étendre. Quatorze foyers d'incendie restaient même hors de contrôle.

Un avion anti-incendie espagnol devait venir à la rescousse de près de 300 pompiers luttant contre l'incendie qui fait rage depuis samedi près de Pampilhosa da Serra, dans le centre du pays. Les flammes, attisées par le vent, ont déjà détruit plusieurs immeubles et menaçaient quatre villages des environs, a indiqué le maire de la ville. Les enfants et les personnes âgées ont été évacués d'un village de cette région. "La situation est très grave. Le vent est très fort et les conditions sont inhumaines" pour les pompiers qui combattent les incendies, a déclaré le maire.

Les feux de forêts ont repris vendredi 12 août dans l'ensemble du Portugal, en raison d'une remontée des températures. Ce jour-là, un pompier parti combattre un incendie a trouvé la mort dans l'accident de son véhicule. Le lendemain, un autre, qui avait été encerclé par les flammes dans le nord du pays, a succombé à ses blessures. Au total, huit pompiers ont péri cette année dans le cadre de leur mission.

Le chef de la Ligue des pompiers portugais, Duarte Caldeira, a déploré un équipement parfois inadapté, dans des déclarations au quotidien Jornal de Noticias. La plupart des pompiers au Portugal sont des volontaires qui portent souvent, en pleine action, de simples T-shirts et non des tenues protectrices spéciales.

Les incendies ont déjà détruit cette année plus de 118 000 hectares de forêts et de maquis, selon les estimations du gouvernement. Les experts dénoncent notamment, outre les négligences, l'état d'abandon des régions agricoles et la prédominance d'essences d'arbres à la croissance rapide, mais très inflammables, tels les eucalyptus et les pins. Des choix qui seraient dictés par le seul souci de la rentabilité.

Le Monde

 
At 16 de agosto de 2005 às 17:31, Anonymous António Duarte said...

Anatomia do 'monstro' e o impacto das Scut

Sobre as Scut a sociedade portuguesa apenas conhece o seu efeito visível, que se reflecte no não pagamento pela utilização de auto-estradas. Discutir de uma forma coerente as Scut passa não só por relativizar sobre os seus custos, como pela colocação de questões relacionadas com a eficiência de uma política de investimento público, sem qualquer sentido estratégico.

O que na altura, e ainda hoje, os criadores da ideia têm dificuldade em explicar traduz-se em dois pontos-chave O Estado português, devido às restrições orçamentais, não possuía nem possui recursos financeiros para erguer a obra segundo o modelo tradicional. E na escolha pelas Scut muito dificilmente se poderá ter olhado para os cronogramas financeiros de cash-flows necessários ao pagamento do encargo assumido.

Hoje, e sem uma política monetária e cambial descentralizada, o retorno que se obtém do investimento público é algo que se vem apresentando como mais difuso, dadas as externalidades que lhe estão associadas. É ponto assente que a economia portuguesa precisa de melhor investimento público e não de mais investimento público.

O problema das Scut começa exactamente em 2005, atingindo o pico de despesa no quadriénio 2011--2015, altura em que a decisão, tomada em 1996, obrigará o Estado a arrecadar extraordinariamente 750 milhões de euros em impostos ou financiar-se através da emissão de títulos da dívida pública. O verdadeiro problema das Scut ainda mal começou.

Parece-me evidente que a aceitação pública do dever de pagar impostos, apesar de depender em elevado grau da demonstração da qualidade das despesas que o esforço dos contribuintes permite ao Estado realizar, não pode servir como argumento para que se realizem obras desta envergadura e com este impacto financeiro futuro, sem pelo menos acautelar os riscos que lhes estão associados.

A decisão de agora, em 2005, se optar por permanecer com as Scut, mesmo que balizada pelo Governo até às autárquicas, tendo como contraponto o aumento de impostos sobre o combustível para o seu financiamento, remete de forma indirecta para a generalidade dos contribuintes o pagamento das vias. Sendo verdade que a reposição de portagens poderá ter um custo elevado - cerca de 300 milhões de euros -, não é menos verdade, que a teimosia em manter uma promessa custará a toda a economia uma repercussão nos custos, e logo no consumo privado que estava a ser o motor - ainda que pelos piores motivos - do seu fraco crescimento nos últimos 12 meses.

Numa altura em que Portugal enfrenta uma grave crise de finanças públicas, o Governo teima em não compreender que o problema não é o défice, mas sim a forma de conseguir reabilitar a economia portuguesa. As Scut não só oneram em termos de despesa pública, como induzem nas empresas um problema de competitividade ao nível do acréscimo dos custos com combustível.

Se ao aumento do ISP associarmos o aumento do IVA para financiar o problema que a Caixa Geral de Aposentações apresenta, percebemos que as soluções deste Governo são ilusórias e acima de tudo transitórias. É discutível que a solução não pudesse passar por uma redução da carga fiscal para dinamizar a economia, em que o mesmo Governo implementava reformas sectoriais dignas desse nome.

Ora o país que, em 1996, assumiu uma decisão de fundo, como hoje se sabe, sem que a sustentação da mesma estivesse demonstrada não pode tolerar, uma vez mais, que o Governo resista a publicar estudos coerentes que sustentem a decisão de avançar com a Ota e o TGV. Projectos que, salvo demonstração em contrário, são meras fantasias.

 
At 16 de agosto de 2005 às 17:50, Blogger JoaquimMarquesMachoqueira said...

Será que o Baptista Bastos lê este Blog?
Como já é por demais evidente o nosso problema não tem a ver com a direita ou a esqerda - tem a ver com as pessoas que somos ou em que nos tornamos.
E, se o poder político é mesmo importante, só há uma coisa a fazer: os portugueses honestos e competentes, não oportunistas, e com ousadia, têm (ou temos) de nos constituir em partido. Ao qual acontecerá o mesmo que aos anteriores...
Também estou de acordo que o anonimato pouco ajuda. Mas, não podemos mostrar-nos a quem se esconde! Apesar de alguém ter de dar o exemplo!!

 

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