sábado, 6 de agosto de 2005

VERÃO DE 2003



FOI SÓ HÁ DOIS ANOS



O Orador (Vitalino Canas, que se seguia a António Costa que tinha feito uma intervenção no mesmo sentido):
A pergunta que se coloca é a seguinte: terão hoje o Primeiro-Ministro, o Ministro da Administração Interna e os restantes Ministros coragem para dizer, olhos nos olhos, às populações, aos bombeiros, aos autarcas que o Governo fez tudo o que podia fazer?!

Aos autarcas e às populações que se queixam de deficiências de coordenação, de modo generalizado, de falta de meios, de terem de combater os fogos sozinhos, de deficiências operacionais, pode o Governo dizer que nada disso é verdade?!
Não se trata apenas de admitir que o sistema teve falhas, como já fizeram o Primeiro-Ministro, o Ministro da Administração Interna e também, agora, o próprio Presidente do SNBPC. Trata-se de admitir com humildade que o Governo falhou. E falhou, desde logo, quando menosprezou os avisos que em tempo útil, muito antes de Agosto, lhe foram endereçados com serenidade, equilíbrio e responsabilidade.
Que maior exemplo de falha do Governo e do sistema que montou se pode apontar do que o facto de o Governo ter demorado vários dias a aperceber-se da gravidade da catástrofe?

Já o Sr. Presidente da República andava há vários dias no terreno sugerindo, aliás, a declaração de calamidade pública e ainda o Sr. Primeiro-Ministro, após o Conselho de Ministros do Porto, desvalorizava a situação e se mostrava confiante na adequação dos instrumentos mobilizados pelo Governo para enfrentar essa mesma situação!
Enganaram o Primeiro-Ministro ou enganou-se este redondamente. Qualquer das hipóteses é, obviamente, grave
.

(IX Legislatura - 1.ª Sessão Legislativa (2002-2003) Comissão Permanente - Reunião de 14 de Agosto de 2003)

Todo o debate sobre os fogos, é um documento exemplar do que está mal na nossa política puramente posicional (o que se diz na oposição é o contrário do que se diz no governo e vice-versa), que tem desacreditado o PS e o PSD. Aqui a vergonha é do PS e estas palavras devem servir para "ler" o que diz hoje António Costa, um dos participantes do debate de 2003 e hoje Ministro com responsabilidades no sector, substituindo o Primeiro-ministro que está em férias.


José Pacheco Pereira

3 Comments:

At 6 de agosto de 2005 às 16:20, Anonymous Anónimo said...

"... e por cima disto vem Sócrates, com a sua maioria e os seus cinco meses de governo. Não se esperavam maravilhas dele (...). De qualquer maneira, e modestamente, não se esperava uma espécie de segundo Santana empertigado e socialista, com o mesmo descaramento do outro. Não se lhe pedia muito (...) desde que mostrasse um bocadinho de embaraço, de vergonha, se possível, de remorsos. Não. O bravo Sócrates, como ele declarou, 'não se intimida'. A pátria agradece, e aguenta, coitada."
Vasco Pulido Valente, PÚBLICO, 6-8-2005

 
At 6 de agosto de 2005 às 17:22, Anonymous Anónimo said...

É fogo que arde... e que se vê!

Enquanto as finanças consomem os sonhos, o País consome-se em chamas...


Todos os anos é a mesma coisa, quando o mercúrio enlouquece e trepa por aí acima. O suor escorre na testa, o pessoal anda esbabaforido e há meio mundo a pedir clemência. Mesmo assim, estamos bem, obrigado, no interior dos nossos escritórios e redacções, mergulhadas em ar condicionado. Bem, há sempre os ácaros e os pós, e as diferenças de temperatura e os achaques habituais, do tipo ai-que-eu-não-me-dou-nada-bem-com-isto-do-ar-condicionado! Enfim, as lamúrias lusitanas no seu melhor...

Lá fora, porém, a coisa está feia. Enquanto as finanças nos consomem os sonhos, o País consome-se em chamas. Ou melhor, o que resta do País, porque esta história dos incêndios é uma novela maior do que o Anjo Selvagem da TVI. Todos os anos, os políticos (todos os políticos, que aqui as cores não vêm ao caso...) garantem planos de intervenção para evitar a calamidade no ano seguinte. A gente ouve, mas já sabe que é... chover no molhado!

Com a seca no máximo, o barril de pólvora pegou fogo, como se calculava. E as televisões, uma vez mais, estavam lá. Mais serenas do que em anos anteriores, embora se perceba como a serenidade é uma palavra difícil de pronunciar quando se está ao lado de alguém que viu toda uma vida reduzida a cinzas. É essa a boa notícia deste ano. Habituada à rotina dos fogos, a televisão foi formando os seus profissionais. E hoje, felizmente, apesar de alguns relatos mais estridentes, deixou-se de ouvir a pergunta mais idiota de sempre, a célebre "como é que se sente?".

É verdade que as televisões adoram estes momentos de puro frenesi. Conseguem imagens fantásticas, mostram repórteres corajosos, passam horas em directo. Mas convém não esquecer a violência de um trabalho destes. E as emoções. A arderem por dentro...

Nuno Azinheira

 
At 8 de agosto de 2005 às 14:48, Anonymous MANUEL said...

Parece que as forças de segurança andam muito eficazes este ano, tendo já capturado muito mais incendiários que em igual período do ano passado. Sempre as estatísticas. Seria útil que a propaganda do regime esclarecesse sobre dois infímos detalhes, quantos dos presumiveis incendiários identificados este ano, o foram por via de despoletarem fogos florestais (e não fogos "urbanos") e que percentagem da área afectada é representada pelos actos desses presumíveis criminosos... É fácil brincar com os números.
O Dr. Costa, entusiamado com o facto de ser PM em exercício, andou por aí a apelar aos patrões para estes facilitarem a vida aos seus funcionários, voluntários e bombeiros, de modo a aumentar os recursos disponíveis no combate às chamas. E o Estado, também patrão, facilita ?
E, por falar em bombeiros, não era altura de se ter umm discussão séria e aberta sobre o papel destes no combate aos fogos ? Não seria altura de se discutir se é razoável e sensato esperar que um país dependa no combate a uma calamidade destas basicamente do voluntarismo e boa vontade de uns quantos ?
Numa altura em que se fala de seca e desertificação, não seria muito mais pertinente, e estratégico, para o país que outros "grandes" investimentos, investir, a sério, na reflorestação das áreas ardidas nas últimas décadas ?

 

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