segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

QUEM QUISER QUE ESCOLHA


Anteontem, na RTP, Cavaco fez de repente um comentário que revela o homem.
A propósito do perigo de conflito com o primeiro-ministro, se fosse e quando fosse Presidente da República, Cavaco disse: "Duas pessoas sérias com a mesma informação (no caso ele próprio e Sócrates) têm (inevitavelmente) de concordar".
Cavaco disse isto com toda a naturalidade e convicção, como quem declara uma evidência, sem uma reserva ou a mais leve sombra de ironia.
Acha mesmo que sim: que duas pessoas só podem discordar por ignorância ou falta de carácter.
Para ele, a verdade é unívoca e, pior ainda, não custa nada estabelecer.
O fanatismo nunca falou por outras palavras e quem conserva um reflexo de independência e liberdade com certeza que as reconheceu pelo que elas são: a raiz da mais cega e absoluta intolerância.
Estranhamente, ninguém pareceu dar pela coisa: nenhum jornal, nenhum candidato, nenhum partido, nenhum político - nem sequer uma "consciência" qualquer das que por aí sobrevivem, se de facto sobrevivem, à inanidade dos tempos.
Não, ao contrário do que o dr. Cavaco julga, a democracia portuguesa não está "consolidada".
Se estivesse, ele não era eleito.

Claro que as circunstâncias não permitem que o dr. Cavaco se torne num pequeno ditador.
Mas talvez convenha perceber o indivíduo que dentro de semanas vai chegar a Belém.
O velho desprezo pela política (de novo flagrante nesta campanha), sempre rejeitada como pura intriga ou jogo de interesses sem legitimidade ou desculpa, não passa de uma condenação sumária da gente pouco séria (ou incapaz), que desvia ou "bloqueia" Portugal.
Para o dr. Cavaco, há um "bem da nação" indiscutível e uma única maneira de governar: a maneira honesta e sabedora que ele aconselha e representa.
A divergência é, em última análise, anti-nacional.
Se os portugueses no seu conjunto tivessem a sua informação e seriedade, viveriam numa perfeita harmonia, em vez de se deixarem levar para aventuras sem futuro, de se perderem em querelas de facção ou ganância e de serviram inconscientemente fins perversos.
De Belém, Cavaco tenciona velar para que isso não volte a suceder.
Afinal, se o primeiro-ministro não fizer o que ele manda, confirma automaticamente que é mal-intencionado ou que não estudou o que devia. E nós também, cautela.
Se não o aprovarmos, quem somos?
Malandros de nascença?
Uma cambada de patetas?
Quem quiser que escolha.

Vasco Pulido Valente

3 Comments:

At 5 de dezembro de 2005 às 10:00, Anonymous Anónimo said...

De acordo com quase tudo, até porque, já o disse e escrevi muitas vezes: quem não se lembra que o homem tem tiques autoritaristas? Em desacordo no seguinte: de modo algum é um dado adquirido que o homem não vá perder outra vez, pois,se até já é quase unânime que nem o seu primeiro governo foi bom!

Joaquim Marques Machoqueira

 
At 5 de dezembro de 2005 às 11:34, Anonymous J E R said...

ELITES?

Elites culturais que fazem filmes que só elas vão ver, que editam jornais que só elas compram e que passam a vida a exigir o mecenato do Estado porque o seu estatuto superior justifica que sejam alimentados pelo erário público?

Elites judiciais que afirmam que a independência dos tribunais só é possível se os magistrados andarem de BMW em vez de Fiat Uno?

Elites empresariais que só conseguem sobreviver à custa do que resta das vantagens comparativas, que preferem a corrupção e o compadrio à concorrência, que se fartam de barafustar contra o peso do Estado mas que vivem dele e à custa dele?

Elites profissionais que, como os advogados e arquitectos, não sentem qualquer escrúpulo em proletarizar os seus jovens colegas pagando-lhes menos do que à empregada doméstica?

Elites jornalísticas que fazem da manipulação da opinião e da miséria humana a sua principal fonte de informação?

Elites financeiras cujo enriquecimento é inversamente proporcional ao do país que transformaram em mercado fácil?

Elites da Administração Pública que chegaram aos altos cargos do Estado à custa da cunha e do compadrio político?

Bem, deverão estar a perguntar pela elites políticas, e com razão. O problema do país não se limita às elites políticas, mas estas são as piores que temos, uma boa parte delas são o refugo de todas as outras, os seus falhados. Temos um candidato a preidente que se candidata a ajudar, outro que se candidata porque os filhos não saíram ao pai e os netos não prometem nada, um outro porque foi enjeitado pela família, e outros dois que só são candidatos para aparecer nas televisões. Temos políticos tão conservadores que nem usam conta bancária e recebem os seus honorários com sacos de dinheiro e outros que são banqueiros.

Não percebo porque razão em Portugal se fala tanto de elites, a verdade é que não as temos.

 
At 5 de dezembro de 2005 às 14:05, Anonymous Anónimo said...

Bom.
Se não apoiarmos todavia os menos maus, onde é que isto não vai parar?

JMM

 

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