domingo, 12 de novembro de 2006

O SUCESSOR DE SÓCRATES






«Os socialistas desfazem tudo o que fazem.
Sempre foi assim.
Empregos públicos a mais.
Privilégios para as corporações.
Facilidades na saúde.
Desperdício na educação.
Obras públicas sem controlo.
Laxismo nas autarquias.
Desorganização da justiça.
Auto-estradas sem portagem.
Muito e de tudo.
Abriu e fechou maternidades e escolas.
Nacionalizou e reprivatizou empresas e sectores económicos.
Hostilizou e seduziu os mesmos capitalistas.
Perturbou e namorou a Igreja.
A lista é longa.
O que hoje é virtude, ontem foi pecado mortal.
O que hoje é proibido, amanhã será obrigatório.
O PS esteve em todas as revoluções e reformas, tal como em todas as contra-revoluções e contra-reformas.
É o mais contorcionista de todos os partidos portugueses.»


António Barreto
12 Novembro 2006
In: Jornal Público

11 Comments:

At 13 de novembro de 2006 às 11:15, Anonymous H.N. said...

O "ataque" à banca!

E não é que António Costa encerrou o debate orçamental a diabolizar as privatizações e o encerramento de serviços públicos, a esconjurar o despedimento de funcionários e a investir contra a direita a quem acusou de querer fazer todas estas malfeitorias? E não é que Costa disse tudo isto sem se rir nem sequer se dando conta que muitos dos seus ministros coravam tanto que até ficaram com as orelhas a arder? Esta rábula revisteira levada à cena parlamentar por quem ficou conhecido como candidato do Ferrari só terá incomodado os membros do Governo menos habituados a estas cambalhotas discursivas. A verdade é que Costa sabe perfeitamente que, por um lado, a situação já não permite manter mais tempo o "estado de graça" que tem protegido o seu Governo e, por outro lado, conhece bem a violência com que as políticas governamentais estão a atingir quem trabalha. Por isso é que, quando subiu à tribuna parlamentar e executou a cena do travesti político se percebeu que António Costa estava sobretudo a pensar no Congresso do PS que se iniciaria no dia imediato; queria dar a tónica para o que (depois) se viu ser um enorme espectáculo multimédia; tentava fundamentalmente (re)ganhar as consciências muito abaladas de numerosos militantes socialistas e garantir, ao menos na base partidária, apoio para a fantástica ideia de que as políticas do PSD e da direita passam a ser de esquerda só por serem executadas pelo PS!

À margem deste banho turco de esquerda moderna, e precedendo mesmo a exibição de António Costa, já o país pusera a nu uma outra cena do mais refinado profissionalismo panfletário.

Na verdade, o Governo já percebera ser insustentável impor mais sacrifícios quando os lucros dos bancos e grandes grupos crescem milhares de milhões de euros por ano. Daí que tenha feito constar que a banca iria pagar mais IRC e depois, em pleno debate, tenha tirado um outro coelho da cartola anunciando mais medidas contra os privilégios fiscais, (mesmo que parte delas já exista em lei e a outra parte nem sequer conste da proposta orçamental)! Apesar desta operação ter tido o acolhimento costumeiro nalgumas editorias mais carinhosas, foi possível desta vez tornar mais clara a sua verdadeira face, muito por causa do tartamudear de Teixeira dos Santos quando confrontado com o acréscimo dos benefícios fiscais e a manutenção dos privilégios no off-shore da Madeira, com a tributação das mais valias bolsistas ou a criação de uma norma travão para impedir que qualquer banco ou grupo paguem menos de 20% de IRC

 
At 13 de novembro de 2006 às 11:23, Anonymous Anónimo said...

A NOVA MODERNIZAÇÃO

Segundo Vasco Pulido Valente:

«Anteontem, na abertura do congresso de Santarém, Sócrates, como se tivesse descoberto a pólvora, não parou de falar em "modernização". Cavaco, quando era primeiro-ministro, também não parava de falar em "modernização" e agora, como Presidente da República, continua impenitentemente a falar em "modernização". Sexta-feira juntou mesmo na Penha Longa 20 e tal empresários "mundiais" (AXA, Ericsson, Telefónica e por aí fora) a vinte e tal empresários portugueses, suponho que para educar e acicatar os portugueses, que já se "modernizaram" ou se querem "modernizar". Desde o século XVIII que Portugal periodicamente descobre com espanto e com terror que precisa de se "modernizar", como quem recebeu uma revelação inesperada e única, sem nunca lhe ocorrer que a segunda, a terceira ou centésima tentativa significa, de facto, que não se "moderniza"."Modernização" é uma palavra equívoca. À primeira vista parece indicar um "coisa boa". A cultura do Ocidente hoje quase não distingue "moderno" e "melhor". Mas, pensando bem, "modernizar" não passa, no fundo, de imitar. Ou seja, muito prosaicamente, de fazer o que se faz "lá fora". Ora fazer o que se faz "lá fora", como política e como programa, equivale por força a fazer pior. A cópia não vale por definição o original e, às vezes, nem copiar se pode. Os "modernizadores" (como Cavaco, por exemplo) acabam inevitavelmente por deixar um Portugal híbrido, "incompleto" e torto, que depressa reverte ao seu "atraso" e que em pouco tempo volta a pedir com desespero ou zelo missionário uma nova "modernização".

Anteontem, vendo Sócrates, vi Cavaco e, vendo Cavaco, vi Caetano e, vendo Caetano, vi a longa fila de beneméritos, que tentaram, no ardor da sua inconsciência, transformar Portugal no "modelo" do dia: a Inglaterra ou a França, a Bélgica, a Suécia, a Irlanda, a Finlândia, e até a Espanha. O espantoso é que toda a gente ouve esta idiotia histórica, com a mesma credulidade e assombro com que sempre a ouviu. Num país normal, quem abrisse a boca para dizer "modernização" seria imediatamente corrido e sovado. Aqui, não. Aqui, o indígena gosta dessa velha missa e venera o oficiante. A "modernização" é uma espécie de milagre, que chegará por um caminho ínvio (a educação e a ciência) e que entretanto esconde a triste realidade portuguesa. Não é uma promessa prática, é um sinal de impotência.»
No:Público

 
At 13 de novembro de 2006 às 14:02, Anonymous K. said...

As idas de Manuel Alegre aos congressos do Partido Socialista, começam a parecer-se como um regresso saudoso ao local onde jaz o dito socialismo democrático.
Um socialismo, que há já muito tempo, Mário Soares, tinha colocado na gaveta, onde foi definhando. Sócrates chegou, resolveu considerá-lo morto e procedeu ao seu enterro, sem “pompa e circunstância”.

A esperança que ainda resta, é que um dia, daquela terra, possa nascer um cravo vermelho e que com ele renasça a esperança de um mundo melhor.
Até lá...

 
At 13 de novembro de 2006 às 14:30, Anonymous Anónimo said...

"Uma coisa é a propaganda, outra coisa bem diferente é a realidade!" - é ele mesmo quem o diz. *
José Sócrates
* Na abertura do Congresso do PS

 
At 13 de novembro de 2006 às 23:04, Anonymous C.L. said...

O Congresso do PS motiva várias reflexões. Uma delas é que, quem tivesse ouvido os discursos, ficaria a pensar que o líder que esteve em Santarém não era o do partido ali em auto-análise.
De um lado, Sócrates congratulava-se com o rumo escolhido, beneficiado por uma sondagem (o jeito que ela deu!) demolidora, dentro e fora do partido. Do outro, os militantes de base, os "contestatários" (Roseta, Alegre) e os "quase contestatários" (Coelho, o Jorge, e Proença, o João) faziam avisos à navegação. Coelho e Proença assinariam mesmo o momento "sui generis" do Congresso: criticaram o Governo, para concluirem depois que as reformas, afinal, são necessárias: "Seria uma irresponsabilidade não mudar aquilo que se tem estado a mudar" Coelho "dixit".

Sócrates sai de Santarém mais reconfortado. Traz para a comissão nacional João Soares e António José Seguro (Alegre, coerente, não aceitou). Não ouviu nenhum argumento que justifique o abandono das reformas. Mas ficou com um dilema: como resolver o divórcio ideológico entre as bases e a sua liderança? Aqui ao lado, em seu tempo, González resolveu esse problema ao PSOE. Em Inglaterra, Blair fez o mesmo ao Labour (apesar de mais de 25% do financiamento do partido vir dos sindicatos). Em Portugal, vamos ver. Está em causa o DNA do PS.

 
At 13 de novembro de 2006 às 23:05, Anonymous A. Monteiro said...

Muitos analistas têm-se debruçado sobre o eventual desfasamento entre a matriz ideológica do Governo e a sua praxis política. Há quem considere que, apesar de socialista, ...
Há quem considere que, apesar de socialista, o Executivo de José Sócrates governa claramente à direita, esquecendo, portanto, as suas raízes ideológicas e afastando-se da sua base social de apoio. Mas há também quem pense que o Governo se enquadra na chamada "esquerda moderna" (o próprio primeiro-ministro já usou esta expressão por diversas vezes) e que esta, malgrado algum pendor liberal, mantém vivos os princípios de justiça e solidariedade social, como é patente em alguns países nórdicos.

Sobre este assunto, creio que, independentemente do maior ou menor grau de pureza ideológica, o actual Governo e o seu primeiro-ministro, em particular, surgiram aos olhos dos portugueses como lídimos representantes de uma esquerda social-democrata. O executivo nasceu, convém lembrá-lo, da maior vitória eleitoral de sempre do PS, partido que nunca tinha alcançado uma maioria absoluta. Além disso, deu-se o caso de ter sucedido a um dos governos mais à direita dos 30 anos de Portugal democrático – e também dos mais mal amados.

Neste sentido, José Sócrates chegou ao poder com uma aura socialista vincada, mesmo sabendo-se de antemão que, pelo seu trajecto político (mais do que pelo seu pensamento ideológico, que poucos conhecem), o actual primeiro-ministro dificilmente iria governar de acordo com a mundividência das facções mais à esquerda do PS. Ora, foi precisamente esse capital político socialista que José Sócrates trouxe para o Governo que lhe permitiu cortar em vários direitos adquiridos, designadamente de cariz social, sem incendiar um país muito pouco habituado a perder privilégios e sempre relutante a reformas. Apesar de ter adoptado políticas próximas da direita liberal, o Executivo não foi ainda acusado de "neoliberalismo desenfreado" nem ninguém veio lembrar que "há mais vida para lá do défice".

Isto leva-me a pensar que, por muito paradoxal que pareça, um governo que tem a sua génese num partido de esquerda apresenta, à partida, melhores condições políticas para tomar decisões difíceis em áreas que, pelo menos teoricamente, lhe são mais próximas ou para as quais tem uma predisposição especial. Por outras palavras, se um executivo socialista lograr libertar-se do peso histórico e ideológico da sua matriz política, que conduz com frequência a posições conservadoras, poderá mais facilmente adoptar uma postura reformista em áreas tradicionalmente de esquerda – como a protecção social, a educação, a saúde, o emprego, a cultura, entre outras – do que um executivo de direita. Isto porque, tendo em conta todo um passado de combate ideológico, os governos de esquerda têm uma legitimidade acrescida para reformar as áreas referidas e beneficiam, por isso, de uma maior condescendência social.

A meu ver, esta situação verifica-se hoje com o actual Governo. Sendo um executivo geneticamente de esquerda, tem restringido alguns direitos sociais pretensamente adquiridos, assumido posições economicamente liberais e afrontado sectores socioprofissionais que constituem a sua base social de apoio. Dir-me-ão que está a pagar uma pesada factura por isso, com greves e manifestações a sucederem-se no país. Creio, contudo, que quem sai à rua para contestar o Governo fá-lo, basicamente, por questões corporativas específicas e não por razões políticas de fundo. Ou seja, apesar de tudo, estou convencido de que a generalidade da população tem consciência da situação grave em que o país se encontra e está disposta, em abstracto, a fazer os sacrifícios exigidos para inverter a situação. Em concreto, quando as medidas governamentais lhe tocam directamente, talvez já não seja bem assim?

Prosseguindo o raciocínio anterior, acrescentaria que talvez seja necessário um governo de direita para, nas áreas tradicionalmente ligadas a este sector ideológico, adoptar medidas verdadeiramente reformistas e acabar com prerrogativas injustificadas. Estou a pensar, por exemplo, no caso específico do tecido empresarial, onde são necessárias reformas que exijam das empresas mais capacidade de inovação, desenvolvimento tecnológico e vocação exportadora e menos lamúria, conformismo e subsídio-dependência. Ou seja, um executivo que, legitimado pela sua matriz ideológica, obrigue as empresas e os empresários a evoluírem no sentido da modernização, do empreendedorismo e da responsabilidade social, deixando a proverbial postura da "mão estendida" para o Estado.

O senão deste paradoxo político, quer para a esquerda, quer para a direita, é o risco do sentimento de traição. As bases sociais de apoio, e respectivos interesses corporativos, têm um limite relativamente amplo de condescendência para com os governos que ideologicamente lhe são próximos. Mas há sempre a possibilidade de, uma vez extremadas as posições, se gerar uma relação de despeito entre governos e potenciais apoiantes. É este, aliás, o perigo que impende sobre o Executivo de José Sócrates.

 
At 13 de novembro de 2006 às 23:10, Anonymous JER said...

Saúde: Grátis ou à Borla?

Não venho escrever sobre o brilhante anúncio da PT nem reflectir sobre a diferença entre o que é grátis e o que nos sai à borla. Mas eu tenho um termo para distinguir o dinheiro ganho através do vencimento com o dinheiro ganho no jogo, o primeiro gasto-o com cuidado, o segundo esfuma-se num instantes por “dinheiro macaco”.

A Constituição da República determina a gratuitidade dos serviços de saúde, e ainda bem que assim é, basta olhar para a realidade americana para se perceber a diferença. É suposto que os serviços gratuitos são acessíveis quer aos que têm muito, como aos que têm pouco, não são recusados a ninguém, independentemente do custo de um tratamento. Isso é um serviço de saúde gratuito.

É gratuito mas não é à borla, tem custos e esses custos são suportados pela sociedade através da arrecadação de impostos, nos tempos que correm já não há borlas na Casa da Moeda, se o país não tem dinheiro ou cobra mais impostos ou pede emprestado, não pode criar a falsa ilusão de riqueza produzindo mas umas notas.

Talvez mereça a pena recordar o que significa borla e para isso reproduzo o que consta no DicionárioHouaiss da Língua Portuguesa:

*
Borla s.f. (1858 cf. M5) 1 calote passado em prostituta 2 P B PE ajuda (para gozar um prazer ou aproveitar gratuitamente um serviço) “conseguiram uma b. para entrar no teatro” 3 MOÇ falta do professor a uma aula “tivemos uma b. a matemática hoje”; à ou de b. 1 P B PE infrm. de graça; sem pagar “viajar de b.” 2 p.ext P infrm. muito barato “este almoço foi de b.!”.

Vejamos agora a palavra grátis:

*
Grátis adj 2g 2n (1502 CDP 1 33) 1 de graça, gratuito “entrada g.” adv. 2 de graça, gratuitamente “come-se g. naquele local, se conheceres o dono” ETIM at. Gratos "de graça, sem custo"; ver grat-.

Há alguma diferença epistemológica entre ser gratuito e ser à borla, e a maior parte das opiniões que por aí vou ouvindo enquadram-se mais no conceito de “borla”. Não há cidadão português, mesmo entre os que se escapam aos impostos, que na hora do debate não defendam a gratuitidade, pouco importa que os impostos que pagam compensem o que recebem, ou que os recursos que podem ser arrecadados através dos impostos sejam limitados, o que importa é que a saúde seja à borla, que tenhamos a sensação de que não pagamos nada, de que ninguém pagou nada.
Gratuitidade significa solidariedade social, borla significa irresponsabilidade social.

 
At 13 de novembro de 2006 às 23:13, Anonymous MANUEL said...

Enquanto por cá se discute a fim (?) da era do punho cerrado no PS, se comemora (!) o início de uma era protecionista e virada para o umbigo nos EUA, a terra move-se... lentamente mas move-se. Para já, registe-se o epitáfio fúnebre de Karl Rove, o 'cérebro' de Bush, na Newsweek...

His confidence buoyed everyone inside the West Wing, especially the president. Ten days before the elections, House Majority Leader John Boehner visited Bush in the Oval Office with bad news. He told Bush that the party would lose Tom DeLay's old seat in Texas, where Bush was set to campaign. Bush brushed him off, Boehner recalls. "Get me Karl," the president told an aide. "Karl has the numbers."


É claro que enquanto por cá ainda andam alguns à procura do Anthony Giddens do Eng. Sócrates... Ainda não repararam que cá, como do outro lado do Atlântico só há tácticas, sem tempo para a estratégia.

 
At 14 de novembro de 2006 às 14:11, Anonymous JER said...

Saúde: Grátis ou à Borla?(2)


Felizmente o desenvolvimento científico permite que cada dia a medicina encontre a cura para uma doença ou o desenvolvimento de um novo fármaco, ao mesmo tempo que os cidadãos exigem mais e melhores cuidados de saúde. Infelizmente também surgem novas doenças ou novos medos, os vírus sofrem mutações, as bactérias tornam-se multiresistentes, o bem-estar gera as suas próprias doenças.

A Constituição da República estabelece os princípios do acesso universal aos cuidados de saúde e a sua gratuitidade, só que a realidade torna os dois princípios cada vez mais conflituosos, para além da gratuitidade ser uma falácia, pois pagamos os serviços públicos através dos impostos, os cidadãos querem cada vez mais e melhores cuidados de saúde ao mesmo tempo que exigem pagar menos impostos.

Mas os que mais se opõem à cobrança de qualquer taxa nos serviços de saúde, são os mesmos que defendem as Scut, a isenção de propinas, tudo e mais alguma coisa grátis. E a solução para a falta de recursos sempre a mesma cobrar impostos aos que não pagam esquecendo esse objectivo deveria ter como contrapartida a redução dos impostos aos que estão sobrecarregados.
Quer se queira, quer não há uma economia da saúde, e partindo do princípio de que os recursos são escassos, uma má economia da saúde resulta em menos bem-estar e na redução da esperança de vida dos portugueses. Se o Estado gasta mais na gestão dos hospitais terá que reduzir os custos na prevenção, se gasta menos em prevenção aumentam os doentes hospitalizados, se gasta mais em hospitalizações os recursos escassearão nos medicamentos.
Os custos da saúde continuarão a crescer e crescerão tanto mais quanto mais a medicina evoluir, será necessário não só encontrar soluções justas para o financiamento do Sistema Nacional de Saúde como gerir a saúde minimizando os seus custos e isso só é possível apostando nos cuidados primários de saúde, na medicina preventiva.

Do ponto de vista da economia do sistema nos últimos dias saíram do ministério da Saúde dois sinais contraditórios: a gestão das listas de espera denuncia que o SNS é prisioneiro dos doentes mais graves, adiando o tratamento das situações de menor gravidade, que por sua vez se agravarão e resultarão em custos de tratamento mais elevados. Por outro lado defende-se a aplicação de taxas nos internamentos e cirurgias.

Não basta equacionar o financiamento, a economia é também a optimização dos custos e essa optimização passa pela minimização. E para minimizar custos são necessários mais médicos e apostar no combate a hábitos e comportamentos que custam fortunas ao SNS, do tabagismo ao alcoolismo, da sinistralidade rodoviária aos acidentes laborais.

Se assim não for feito para além de discutir taxas não só os custos crescerão exponencialmente, como o SNS estará cada vez mais virado para o tratamento dos doentes que deixaram agravar os seus problemas de saúde por não disporem de meios para recorrerem à medicina privada, aliás isso já está a suceder, basta olhar para entrar num hospital para o perceber.

 
At 14 de novembro de 2006 às 23:28, Anonymous Pedro Manuel said...

Foi mais um Congresso do PS e a tradição cumpriu-se.
O que muda são as lideranças e os estilos de comunicação e as formas de fazer política, naturalmente. Falou-se de economia, de reformas, de aborto, de modernização e de muitas coisas mais que poderão ajudar Portugal a sair do buraco em que está.

Mas diante isto uma questão se coloca: terá havido alguma falta de verdade (ou se se preferir - mentira) - entre o que foi anunciado em sede de eleições e o que está sendo realizado na gestão corrente da governação?

Nos impostos, nas scuts, nos descontos para a saúde, educação, no apoio social aos deficientes, etc, etc, etc...
Terá mesmo existido a mentira que ora tanto se fala???

A este respeito desejaria tecer umas breves notas: é que - a existir a mentira é compreendida e facilmente perdoada e esquecida, desde que existam duas coisas da parte do líder do governo e que ambas sejam efectivamente percepcionadas pelo povo: a 1ª é que haja uma liderança forte e determinada que legitime a acção e a praxis política, que parece existir; a 2ª coisa é que haja um impulso reformador que o povo sinta dever concretizar-se, sob pena de ficarmos onde estamos: no buraco.

Coabitando estas duas percepções na mente dos portugueses - certos políticos até podem mentir um pouco (a tal mentira útil de que falava Lenine..) desde que ela conduza a um bem maior em prol do maior número.
Se assim for, até se poderá mentir um pouco... Mas menos do que os ex-PM (a dupla Santana & Barroso que ficam para a estória como uma nota de roda-pé verdadeiramente negra do post-25 de Abril).
Mas convém, na medida do possível, ir respeitando os compromissos domésticos como se observam as imposições bruxelenses, respeitar os acordos feitos com os parceiros, ser eficiente na gestão da vida pública, não faltar à palavra, e se o fizer é bom que todos ganhem com isso.

Doutro modo, o povo insurge-se sempre contra a mentira, as meias palavras, as meias tintas e logo começa o trajecto do afastamento que conduz à deslealdade de uma massa de apoios/votos que tende a deslocar-se para o outro partido de poder em Portugal, o PSD.
Que hoje ainda não se conseguiu impôr como uma liderança credível junto dos portugueses.

Significa isto o seguinte: o XV Congresso do PS em Santarém foi um congresso virado para fora, para a economia e a sociedade e, essencialmente, para afinar a personalização da liderança em Sócrates - que foi reforçada.
Prova disso foi a submissão de todo o congresso, que se viu rendido à sua capacidade e talento comunicacional.
Assim sendo, que importam as pequenas mentiras (decorrentes das contas públicas... então Durão Barroso, porventura, fez outra coisa senão mentir, mentir e mentir???
Cremos que não.
A única diferença é que ele hoje faz exactamente o mesmo a partir de Bruxelas.
No fundo, que importam as mentiras e os métodos que a elas levam - se os resultados para o país forem positivos?!

É aqui que o povo admite que algumas dessas mentiras praticadas pelo poder - e por regra associadas ao montante das contas públicas - não podem depender da chamada moral comum.
Essas mentiras serão automáticamente esquecidas se as suas condições de vida e de bem-estar melhorarem significativamente.
Esse é o momento em que as mentiras se transformam num sucesso político.
É o momento da modernização, do crescimento e do desenvolvimento do país com algumas mentiras... Então, e o que é a vida senão um conjunto de mentiras pegadas...

Helena Roseta é a mulher dos números.
O seu altruísmo já se transformou num interesse político pessoal que visa uma coisa: dizer ao PS e ao país que existe.
Ela faz o número dela com o aborto (até porque é mulher), recorrendo à técnica do psico-drama - estudado nas escolas de teatro;
Manuel Alegre - que se deveria dedicar exclusivamente à poesia - até para produzir melhor poesia - recorre a outro outro psicodrama: o milhão de votos que granjeou na campanha eleitoral que humilhou Mário Soares - na corrida a Belém e que hoje deve valer umas 5000 intenções de voto.
Porventura, ainda a pensar nos tempos da luta antisalazarista e de Argel...
Um e outro até fazem o favor de dizerem ao mundo que existem, que fingem que pensam diferente, que falam diferente, que até respiram de forma diferente.
Sócrates agradece e o povo aplaude.
Afinal, o PS sem estes "artistas" seria um partido mais mono-Sócrates, por isso mais pobre.

 
At 14 de novembro de 2006 às 23:31, Anonymous Pedro Manuel said...

Poderá esta imagem resumir ou metaforizar o XV Congresso do PS em Santarém?

Múltiplos de Sócrates é o que me sugere... Convoca-me ainda para o filme Matrix povoado também por múltiplos de agentes Smith. E se tudo isto é verdade... Ou seja, se o poder de um líder se multiplica por "n" líderes todos iguais em potência e eficácia? Se um deles provar bem, teremos um Portugal pujante; se provar mal deslizamos da crise para a recessão que o ministro da Economia Manuel Pinho jamais reconhece existir.

O mimetismo, as cópias, os clones, os múltiplos de nós próprios representam já um símbolo de poder, uma espécie de mensagem que nos ordena relembrar algo guardado no armazém da nossa memória para posterior análise ou associação nos nossos pensamentos e sentimentos. Esta imagem convoca-nos para a esperança de que algo suceda no futuro próximo - que não seja apanhar de novo o sr. Pinho a 212 klm a caminho do Norte no seu BMW - para mais uma reunião com um delegado do Ikea.

Afinal, o poder é um símbolo, uma imagem da capacidade de modificar a distribuição de resultados, especialmente os resultados do comportamento popular e da opinião pública. Neste sentido, os clones podem ser elementos de poder que mesmo não diversificando muito as opções e a criatividade - podem ajudar Portugal a sair do buraco. Ainda assim, creio serem poucos...

 

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