quarta-feira, 8 de novembro de 2006

POBRE PÁTRIA A NOSSA... ENTREGUE A TAL GENTE...

Um dia destes, em Portugal, todos os preços, excluindo obviamente os preços do trabalho, crescem mais que a inflação esperada, calculada em função de um cabaz virtual onde não cabe a generalidade dos bens e serviços essenciais.


É para lá que caminhamos mas, entretanto, a inflação esperada é a referência para os aumentos salariais dos portugueses comuns. Neste momento, a evolução dos preços é uma das referências para o aumento do salário mínimo nacional que está a ser negociado entre o Governo e as confederações sindicais e patronais. O salário mínimo, como a generalidade dos salários, cresce condicionado pela inflação, esperada. E se a inflação real crescer acima do que a teoria espera, como é costume, quem vive do salário que aperte ainda mais o cinto.

E é assim que se vão sucedendo dados que só constituem revelações para quem vive no campo do imaginário. Por exemplo, que o poder de compra do salário mínimo nacional não só é o mais baixo da Europa dos 15, e mesmo inferior ao dos malteses e eslovenos, como também que o poder de compra do SMN é hoje inferior ao que era em 2001. É o Eurostat quem o diz. Os portugueses que em 2001 ganhavam o salário mínimo nacional conseguiam adquirir mais bens e serviços do que os que hoje também recebem como retribuição esse salário.


Dir-se-á que o salário mínimo nacional é um mero valor de referência. Mas não é assim. Dados relativos a 2004 indicam que 8,7 por cento dos trabalhadores por conta de outrem – cerca de 435 mil assalariados – tinham remunerações de base iguais ou inferiores ao salário mínimo nacional e 6,7 por cento – 335 mil – auferiam salários apenas ligeiramente superiores ao SMN.

Nestes indicadores, como na generalidade de todos os outros, Portugal todos os anos se distancia ainda mais da Europa e os portugueses são reduzidos à condição de europeus de segunda.


João P. Guerra

2 Comments:

At 8 de novembro de 2006 às 23:10, Anonymous JER said...

Se há uma crise no têxtil ficamos somos logo informados por um batalhão de especialistas que é a globalização, que as empresas têm que se adaptar, que já fizemos o mesmo aos países da EFTA etc.
Se não chove ou se chove em excesso os especialistas recordam aos agricultores que não devem esquecer os seguros, e se mesmo assim a agricultura não é rentável, que mudem de ramo.
Não há sector que não tenha os seus problemas de competitividade ou que não atravesse as suas crises, e sempre que um novo sector se afunda e aparece nos noticiários há sempre alguém que nos recorda que “é a economia, estúpido!”.
Mas há uma excepção, há uma aldeia gaulesa na nossa economia, não tem problemas de competitividade, os analistas económicos parecem virgens debutantes quando comentam, há um batalhão de comentadores disponíveis para a defender, e os políticos calçam luvas ara lhe bater à porta. A banca é o “ai Jesus da Economia Portuguesa”.
Agora assistimos ao ridículo de ver um primeiro-ministro prometer que vai aumentar os impostos sem altera a lei, isto é, para que os bancos paguem mais impostos basta que sejam bem fiscalizados.
Terei percebido bem?
Os bancos não são devidamente fiscalizados? Os despachos ilegais que têm permitido à banca poupar milhões não foram revogados e os seus autores investigados? Os relatórios da IGF não são remetidos para a Procuradoria-Geral da República?
Interrogo-me se este céu fiscal de que a banca beneficia terá alguma coisa que ver com a ambição de muitos ministros e secretários de estado do ministério das finanças cuja maior ambição é irem trabalhar para um banco depois de se reformarem da política. Ou com os muitos empregos bem remunerados que os bancos podem oferecer aos familiares de quem os ajuda. Ou com a grande capacidade para oferecer prendas chorudas aos opinion makers que os apoiam, ou que, muito simplesmente, se calam quando o tema corrupção atinge a banca.
E ninguém estranha que o director-geral dos Impostos seja uma alto quadro da banca, que um dos subdirectores-gerais tenha um cargo na banca, que no tempo do governo do PSD o chefe de gabinete dos secretário de Estados dos Assuntos Fiscais acumulasse com um alto cargo na banca?
Afinal a banca pode pagar mais impostos mesmo sem adoptar medidas orçamentais, isto é, basta aplicar a lei. Então porque motivo ela não se aplica a lei?
O problema é que quando um serviço aplica a lei o banco reclama e alguém descobre que há margem para o banco (que não tem dinheiro para pagar a batalhões de fiscalistas nem sabe onde fica a DGCI) ter dúvidas e optar por não pagar o imposto. E um secretário de estado generoso opta por não cobrar e adiar a cobrança da lei. Será este secretário de Estado do msmo Governo que o primeiro-ministro que pormeteu rigor na inspecção da actuação do fisco?
PS: Ontem a organização Transparency Internacional divulgou a lista uma lista em que os países aparecem ordenados segundo os níveis de corrupção. Portugal aparece em 14.º na Europa e em 26.º no mundo. Enfim, eles andam aí, algures ...

 
At 9 de novembro de 2006 às 13:53, Anonymous J.G. said...

Hoje e amanhã estarei a dar o meu pequeno contributo para a redução do défice e da despesa pública.
A forma como as televisões "cobrem" as greves na administração pública é muito interessante de observar.
Os paizinhos, coitadinhos, que não sabem onde é que vão deixar os filhos, os pobres cidadãos desinformados - pelos vistos, pelas mesmas televisões - que encontram os centros, os hospitais e as repartições de finanças fechados, o justiceiro que pretende justiça justamente no dia da greve, etc. etc.
A ideia é perceptível.
Existe um bando de energúmenos que deviam estar de perna aberta para nós, cidadãos, e que decidiram ficar em casa, os malandros.
Esta divisão artificial entre bons e maus é ridícula.
As greves, desde que o mundo é mundo, fizeram-se precisamente para incomodar, para maçar, para perturbar.
Caso contrário, mais valia estarem quietos.
Eu pago para fazer a greve, doando ao Estado e aos cidadãos incomodados e desinformados o meu dízimo.
Por isso, estou-me nas tintas para as lamúrias e para os comícios como aquele que, ao acordar - sim, porque a minha "consciência social" é movida a Lexotan -, estava o sr. ministro de Estado e da Administração Interna a fazer no Parlamento, em directo, como se tivesse inventado a roda.
Que diabo de governo que foi inventar esta cada vez mais detestável figura que eu não conhecia.
De vez em quando falava da "direita" e contra a "direita" como se ele representasse a "esquerda".
Esqueceu-se que o país que, em surdina, se revolta não é propriedade de ninguém.
É tanto a "esquerda" como a "direita". Se quiser, é um "bloco central social" que um dia lhe apresentará a factura política.
Dr. Costa: ande mais por aí e leia menos dossiês burocráticos que o "povo", em nome do qual imagina falar, explica-lhe.

 

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