quarta-feira, 18 de abril de 2007

PÁTRIA MESTIÇA

Aos Gatos Fedorentos

Cada vez há mais estrangeiros a pedir a nacionalidade portuguesa. Brancos, pretos, amarelos, castanhos, entre o loiro e o germânico, entre o glabro e o felpudo, eis uma sublevação de cores e de fácies; um bulício de idiomas que noivam o nosso idioma para exprimir a dor e o riso, a infância e a paixão, a lembrança e o sonho. Tocaram no batente da casa comum à procura, afinal, do que comum é ao homem: um pouco de felicidade. E deitam-se no mesmo leito onde, outrora, suevos e visigodos, fenícios e romanos, árabes e celtas procriaram os miscigenados que todos nós somos.

A sintaxe da nossa ascendência possui qualquer coisa de genial. Não foi, somente, a delimitação do território que construiu uma pátria e moldou uma língua. Também não foi, apenas, o ferro do montante que marcou uma identidade. O que definiu o nosso destino foi a argila de um particular nativismo, nascido na cama do amor, no suor dos corpos, na festa do sexo. Nascemos do prazer. Saímos portugueses desse almofariz de raças, no entreacto de guerras e de confrontos políticos. A negação da nossa mestiçagem configurará o assassínio da nossa identidade, e atribui a quem a pratica o estofo de um canalha. Assim como o ódio exposto, arrogantemente, em placard, demonstra algo de doentio. Somos uma nação de heterónimos, cheios de coragens e de cobardias, de mares e de corpos, de credos e de superstições. Um pisar de caminhos antigos puxa-nos as pernas para o imponderável. Fluxos de muitos sangues fazem pulsar o modo de como aqui estamos.

Há um relatório, Inter Lusitanos, endereçado a Nero por Políbio Garbus, poeta e procônsul romano, o qual nos retrata como gente estranha, imputando fraqueza de espírito a uma nossa particularidade: a indiferenciação fundamental dos indivíduos. E adianta: o desdém pelas regras criou nos lusitanos uma relativa igualdade de raças. Para um patrício, educado numa sociedade extremamente hierarquizada, este modelo estava desprovido de lógica social, política e filosófica.

As coisas prosseguiram séculos atrás de séculos. Quando D. Manuel I manda proceder à matança de judeus, num domingo de Pascoela, a 19 de Abril de 1506, liquida a cultura de afectos e de livre partilha dos saberes até então simplificada no reconhecimento da alteridade.

Mas a História não pára o tempo que dentro de si acalenta. Foi-nos legado um bragal aberto ao mundo, entre intimidades, solidões, angústias e despedidas. Eis porque precisamos de todos os que nos procuram, porque sempre procurámos todos aqueles de que precisamos
.

B.B.

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2 Comments:

At 18 de abril de 2007 às 11:35, Anonymous Anónimo said...

E tudo bonito
poetico
mas se os que veem viesem por bem
O escriba ja andou a noite na baixa Lisboeta? Ja andou nos combois da linha sintra a noite??
Desculpe mas eu no Meu Pais gsotava de andar seguro sem gangs, sem brasucas a enganar as pessoas.
Se gsoatr da minha terra e ser nacionalista entao eu sou.
Se gostar de seguurança para andar na minha terra e ser nacionalista eu sou
Sejamos realistas

 
At 18 de abril de 2007 às 12:41, Anonymous Gracinda said...

Felizmente vive-se em "democracia", cada um pode "ainda" ser o que quer.

 

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