terça-feira, 3 de maio de 2005

EM TODA A CIDADE...



...
Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.

Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)

...
Luiz Pacheco
Comunidade, Contraponto, 1964

1 Comments:

At 4 de maio de 2005 às 17:58, Anonymous Anónimo said...

Caro Zè da Ponte gostava que publica-se este texto que escrevi fazendo uma reflexão sobre a nossa Terra, aproveito para lhe desejar a continuação do excelente sucesso que tem sido este blog

Não sendo sociólogo nem nada que se parece, pareceu-me ser interessante escrever no vosso blog algumas reflexões sobre a nossa ponte de sor.
Permitam-me que vos diga o pontedosor é hoje uma referencia de todos aqueles que estão fora da ponte e que querem saber notícias da terra.



2005.Ano de autárticas. As inaugurações começam. Qual partido político que se preze, neste cantinho á beira mar plantado, o PS declara aberta a época especial de caça ao voto, são permitidas todas as estratégias de marketing e linguagem social que tenham como uníco objectivo o poder e só o poder.

Ponte de sor não foge á regra, depois da tão esperada inauguração do secular estádio municipal no infame dia da morte de Sua Santidade, apraz conhecidência, a caminho já vem as festas da cidade com o melhor cartaz de sempre (ao que julgo saber) e uma panóplia de inaugurações, que muito ao jeito dos nossos pequenitos políticos, será recheada de toneladas de fogo de artifício, cavalo´s, malabaristas e derivados circenses.A estratégia é boa, depois de um reinado de vários anos, serve-se de bandeja ao povo as obras arrastadas no tempo e inúteis.O povo agradece e á falta de alternativas, iludidos pelo aroma sedutor socialista, deposita o voto na caixa mágica.
Sâo cerejas para os nossos governantes, são cerejas. È um ciclo vicioso que se inicia e quer infelizmente no nosso concelho teima em acabar.

Um facto bastante importante, a caracterização de ponte de sor, aos olhos de qualquer bom observador.
Alguns chamam-lhe a cidade mais desenvolvida do distrito, neo-industrializada e neo-endividada. O interesse e o controlo das despesas públicas não interessam, é hora de gastar, gastar.
Com um comercio de fazer inveja a qualquer 5ª avenida, qual panóplia de chineses em proliferação exponencial com produtos e preços que servem para tudo menos para usar, a brigada dos hiper quasi instalada deixou o comércio tradicional em dispneia.
A saúde essa é tratada por espanhóis qual salvadores do SNS, tanto médicos e enfermeiras formados em modo fast-food no país de nuestros hermanos, enquanto em Portugal( incluindo a nossa Ponte) alunos de médias excepcionais ficam á porta, porque as faculdades são pequenas, tem que haver vagas para o pessoal do tacho(militares, estrangeiros das autonômas, blá blá blá equiparados e afins). Mas voltando á terra, onde está o hospital? Então mas o doutor Pinto passa uma eternidade do poder e nem um hoospital foi capaz de pedir aos amigos socialistas no poder?
Posso pensar que existem prioridades mais importantes como piscinas cobertas e descobertas, mini-campus de golf, rotundas e mais rotundas...mas custa-me a crer que alguem de um patrido de esquerda( esquerda essa, que se autopoclama guardiã da justiça social dos pobres e desfavorecidos com rendimento minimo ou sem !) não tenha investido na área social em Ponte de Sor
Em termos de habitação e equipamentos de utilidade pública notória é uma anedota pegada, a ponte de sor tem hoje, uma especulação imobiliária digna dos grandes centros urbanos, os terrenos para quem quer comprar casa não são caros são impossíveis de comprar. Em termos de biblioteca temos uma amostra, talvez com um número de livros equivalente ao que o Prof: Marcelo Rebelo de Sousa recebe por dia, quanto aos filmes que vimos no nosso cine-teatro,primeiro saem em DVD e só depois passam por lá.
A zona ribeirinha é hoje um importante polo de lazer na nossa cidade, mas perdoem-me a ingenuidade: para quê?? Se os bares e o campo de tenis estão fechados, no anfiteatro bailam moscas , porque está tudo ás moscas.
È vergonhoso que numa terra onde existam mais de uma centena e meia de jovens a estudar no ensino universitário, só haja um ou dois comboios por dia(com uma quantidade enorme de horas de viagem) e dois ou três expessos para lisboa!È um desrespeito enorme por aqueles que á mercê de vontade de crescer e vencer na vida têm de viajar todas as semanas.
Gostava de perguntar de uma forma específica, que condições têm os nossos governantes criado para o retorno destes jovens depois de formados? Resposta:NADA!

Mas que cidade é esta?

Falta fazer muito por Ponte de Sor, ou melhor falta quasi tudo! È por isso que os pontessorenses tem de pensar antes de darem novamente o poder ao PS.Existem cada vez mais alternativas com pessoas jovens trabalhadoras e dinâmicas que querem fazer de Ponte de Sor, uma cidade para o futuro e com futuro, e não é preciso procurar muito para encontrar essa alternativa, é altura de lhe dar uma oportunidade

Martin

 

Enviar um comentário

<< Home