sábado, 16 de julho de 2005

AS ESCABROSAS DECLARAÇÕES

De passagem por Lisboa, aonde veio ver a família e fazer conversa mole com o Presidente da República, esteve o afamado dr. José Manuel Durão Barroso. Com o ar grave dos momentos solenes, disse: «Temos de nos habituar a viver com o terrorismo».
E disse ainda: «Afinal, morrem mais pessoas em acidentes de viação».
A enormidade corresponde, por inteiro, à inanidade do pensamento da criatura. E, como é hábito, ele avaliza os efeitos sem explanar as causas.

Durão Barroso é um político menor, que circunstâncias exteriores à natureza dos seus lacónicos talentos, colocaram em lugares de relevo. Cavaco estimulou a ambição ilimitada do ex-maoísta, e dele se serviu para afastar alguns incómodos «companheiros» de partido e de governo. Cortesão e turiferário, Durão assentiu com todas as manobras e manipulações, trepando, sinuoso, através de artifícios apenas momentâneos. A frivolidade insultuosa das declarações sobre o terrorismo indica a carência de prospectiva sobre a ideologia, a política, as religiões e o choque de culturas.

Não nos podemos habituar a viver com o terrorismo. Mesmo combater o medo por ele provocado, não passa de paliativo. Aceitar a «banalidade do mal» [Hannah Arendt] será admitir a derrota de um processo de avaliação das sociedades contemporâneas. As migrações humanas atingiram aspectos novos, que podem provocar alterações substanciais nas culturas. E admitir a sua hibridação é concorrer para o seu aniquilamento, no que cada cultura possui de específico e de particular.

A facilidade escabrosa com que Durão Barroso compara as mortes na estrada com os cegos assassínios do terrorismo, resulta da falta de análise, ou de conivência, com as forças falsamente democráticas que desencadeiam a antidemocracia. Não podemos pensar que os regimes ditos democráticos obedecem à constitucionalidade das leis. Note-se: a distância entre os representantes e os representados aumenta assustadoramente. A representação é cada vez mais fluida, para não dizer negativa.

E a luta contra o terrorismo (de Esquerda ou de Direita) passa por compreendermos o papel determinante que, em sociedades «democráticas», os imensos poderes económicos exercem, na manutenção do terrorismo.

A grandeza moral com que o povo inglês tem enfrentado o 7 de Julho não atenua a natureza da tragédia, nem os perigos que sobre eles próprios continuam a impender - assim como a todos nós. Há uma adesão colectiva à dor e ao sofrimento, mas, também, existe uma responsabilidade geral naqueles e em outros acontecimentos semelhantes.

Perfilhar a quotidianeidade do terrorismo é confluir com a guerra de culturas e de religiões, estimular o racismo e a xenofobia, rejeitar a coexistência de multiplicidades étnicas, e deixar de promover políticas de cidadania. Não temos, não podemos, nem queremos viver com o terrorismo. Mas criámos leis de exclusão que o aleitam. As indefinições de identidade dos imigrados, as incertezas dos seus efectivos significados explicam e, até, justificam o aparecimento dos conflitos violentos que, um pouco por toda a parte, surgem como cogumelos.

Que fizemos para despertar este horror? Porque a culpabilidade não se encontra, somente, de um lado. Temos, sistematicamente, permanecido alheios às mudas exigências das minorias para lhes ser reconhecido um espaço de enunciação e de publicitação.

Temos sido indiferentes à urgência de se criar um espaço de cidadania para quem vive connosco. Não ao lado, mas connosco.


Baptista Bastos

8 Comments:

At 16 de julho de 2005 às 14:22, Blogger A.Mello-Alter said...

Segundo Tony Blair:
Todo o cidadão é considerado terrorista, até prova em contrário.

A ideia de “vigiar” todas as comunicações privadas, telefone, fax e correio electrónico, é a extensão a toda a Europa do Big Brother que já existe no Reino Unido.
Os habitantes de Londres, são filmados, em média 250 vezes por dia, é obra…
Esta absurda paranóia com a segurança, só pode ser sintoma da “consciência pesada”.
Não consigo perceber todo este alarido com a perda de 50 vidas em Londres. Em Bagdade, acontece todos os dias. E ninguém se preocupa em punir os responsáveis.
O problema do terrorismo, resolve-se com o respeito por todos os povos na sua especificidade, a não ingerência e pilhagem dos seus recursos e sobretudo, terminar com as Novas Cruzadas.
Esperemos que a nossa Constituição não o permita, e acho que não, porque se formos a confiar nos políticos…

 
At 16 de julho de 2005 às 18:40, Anonymous Anónimo said...

Esta de a razão não poder estar só de um lado dá vontade de rir... Então e na II Guerra Mundial a razão também não estava só de um lado? Porque é que na II Guerra Mundial, enquanto o Hitler andava a semear bombas por toda a Europa, os intelectuais europeus defenderam a guerra, em vez de se pôr a analisar as causas? Guerra é guerra... Na guerra ou se está de um lado ou de outro.

 
At 16 de julho de 2005 às 18:43, Anonymous Anónimo said...

Estamos fartos de intelectuais com problemas de consciência. Se acham que a razão está do outro lado, agarrem nas malas e vão viver para o Irão ou para a Somália. Bem basta termos de levar com terroristas suicidas para ainda andarmos a gramar com indivíduos com problemas de consciência. Se têm problemas de consciência, vão ao psicólogo.

 
At 16 de julho de 2005 às 20:56, Anonymous Anónimo said...

Haja respeito pela dignidade da vida humana! Deixem lá os exames, deixem lá a secundária, deixem lá os alunos e os professores...
Têm a vista curta?
Pensemos no mundo, na morte, no que que será daqui a dez anos...a nossa mobilidade, a insegurança e o medo, o pavor das cidades...
Que o grande Arquitecto ajuste o prumo!

 
At 16 de julho de 2005 às 21:19, Anonymous Machoqueira said...

Ter medo da hibridição não será ter medo da vida?

 
At 16 de julho de 2005 às 22:42, Anonymous Anónimo said...

Tinha de vir o ignóbil do maçon dar a opinião para ajudar a festa. Eu lhe dou o grande arquitecto... deve-se estar a referir ao Siza Vieira ou ao L. Frank Wright. Santíssima paciência para aturar estes jacobinos ressabiados.

 
At 17 de julho de 2005 às 20:58, Anonymous Anónimo said...

ja tiravam essa foto horrivel dai...

 
At 18 de julho de 2005 às 01:14, Anonymous Joaquim de Montargil said...

Mas quem é o inimigo? Quem nos faz mal? Mas, não há males que vêm mesmo por bem? E, não reaparece o inimigo(a) sempre ? Não será pois que temos mesmo de repensar estas coisas?
Quanto ao novo tema, que tal o do Voto, que em Outubro já vêm aí eleições outra vez? Não será o voto uma delegação noutra(o) para tratar do que possivelmente só pode ser resolvido por nós, sendo por isso que não resolve nada?

 

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