domingo, 24 de julho de 2005

PORTUGAL PORTUGALIZADO


«A terra [Portugal] é pequena, e a gente que nela vive também não é grande»

Almeida Garret

Em 1957, o grande escritor francês Roger Vailland publicou, na Gallimard, o romance «La Loi». É um texto menor, no conjunto de uma obra significativa que influenciou, em Portugal, autores como Augusto Abelaira, José Cardoso Pires e António Alçada Baptista. Em «La Loi», Vailland, na voz de uma personagem, Dom Cesare, criou um qualificativo, «portugalizar», que nos reduzia a subnitrato. O francês estivera três vezes em Portugal, as duas primeiras em reportagem; a terceira como membro da Resistência à ocupação da França pelos exércitos de Hitler.

A história desta última estada no nosso país é um momento fascinante e pouco conhecido da história das fraternidades cimentadas durante a luta contra o nazi-fascismo. Parte dela contei-a no «Diário Popular», jornal onde então trabalhava.

Vailland, enviado de De Gaulle, estabelecera contactos com Cândido de Oliveira, Vasco da Gama Fernandes e José de Freitas (estes dois últimos confirmaram-mos), a fim de se estudar a possibilidade da organização de uma rede de combate armado à previsível invasão da Península pelas tropas nazis. Aliás, Franco, à revelia de Salazar, afirmara a Hitler a submissão da Ibéria.

O verbo portugalizar falava de um país adornado, no qual os jornalistas não faziam jornais, os escritores não escreviam livros, os políticos não exerciam – enfim: um povo que o não era. Portugalizar constituía a anestesia geral de um corpo enfermo de mal endémico. Uma informe massa, indolente, resignada, trágica, inactiva, embalada por um passado de glória duvidosa, que não cuidava de si nem do futuro de todos.

O paralelismo comparativo com o que hoje ocorre na nossa terra é terrível, por evidente. Políticos de baixo estofo que gerem o destino da pátria; deputados que somente ambicionam cumprir dois mandatos para auferirem avultadas reformas; direcções de jornais que, ainda não há muitos anos, apenas serviriam para atender os telefonemas; escritores pedâneos que gozam dos benefícios de marquetingues insultuosos à inteligência ainda livre; entrevistadores de televisão que revelam o grau zero das meninges e uma impante e desavergonhada ignorância; empresários analfabetos inabilitados para administrar empresas dependentes dos favores do Estado, e que lançam para o desemprego milhares de pessoas. No meio desta desgraça, os partidos constituem agências de empregos, assegurados a todos aqueles de dizem «sim».

A situação não é só grave em termos de economia; é gravíssima na relação moral e ética das exigências públicas e privadas.

Estou convencido de que corresponde a uma estratégia muito bem pensada, na qual o laxismo provocado é uma componente fundamental. Estariam criadas as condições para um golpe de Estado, semelhante ao de 1926.

Todavia, não há Exército, as multinacionais não estão, de momento, interessadas, e a União Europeia não deixa. A União está periclitante, as multinacionais existem do lucro pelo lucro, e a tropa pode reorganizar-se, desde que os grandes grupos, sobretudo financeiros, assim o entendam.

Um país onde um futebolista, Miguel, e seu contrato dominam os noticiários televisivos, e suscitam graves comentários de austeros comentadores, é um país irremediavelmente condenado à farsa. Contudo, estas «prioridades» noticiosas não são inocentes. O fundamental trocado pelo dispensável tornou-se numa prática banalizada pela insistência. Neste caso, a insistência cloroformiza até à narcose. Portugal existe entre o adormecimento e a imbecilização.

Ouvimos os discursos dos dirigentes políticos e não acreditamos. Lemos os editoriais dos principais diários e somos levados a crer que respiramos em outro país. Assistimos ao programa «Um Contra Todos» e, não fora o Malato (cuja jovialidade, cultura e informação merecem a nossa simpatia e a nossa admiração), os participantes, quase todos, fundamentam a singular ideia de que representam uma galeria de matóides, alguns deles com formação académica.

Pedem-nos «esforços colectivos», «patrióticos envolvimentos», aqueles que auferem salários volumosos, ao mesmo tempo que declamam a necessidade de baixar os ordenados e aumentar os impostos – aos outros, bem entendido.

Estamos, outra vez, portugalizados. Lenta e perseverantemente vão-nos roubando tudo; sobretudo, os sonhos e as esperanças.

Portugal é uma deriva de governo para governo, de mentira em mentira, e começa a ser um aditamento insignificante e hílare da Europa. Não é por acaso que os franceses residentes na Mauritânia dizem que Portugal é o país mais desenvolvido de África.


Baptista Bastos

8 Comments:

At 24 de julho de 2005 às 13:21, Anonymous Anónimo said...

Ao fim e ao cabo
Sebastianismos


Segundo o Público de ontem, o candidato socialista a Belém será Manuel Alegre. Segundo o Expresso, será Mário Soares. Apenas o Diário de Notícias, mais contido, refere pressões para que o antigo Presidente se recandidate. Mas seria esquecer a sibilina frase de Freitas, "never say never", que tantas excitações suscitou. Não há fome que não dê em fartura e degenere em duelos cruzados entre a esquerda por causa do fantasma de Cavaco, o candidato oculto da direita. Freitas não tem hipóteses, é certo. Mas Alegre decidiu antecipar-se ao risco de uma tentação irresistível do seu velho amigo Soares. Só que Alegre é um D. Quixote e a esquerda deseja desesperadamente um D. Sebastião que possa barrar o caminho ao Encoberto da direita.

À anormalidade de uma corrida presidencial (quase) sem candidatos a seis meses das eleições, segue-se agora o psicodrama dos sebastianismos requentados que a direita e a esquerda projectam nas duas eminências régias do regime. Além de resgatar a direita da humilhação histórica que a tem mantido arredada de Belém, Cavaco seria ainda o agente providencial que lhe devolveria o poder perdido nas últimas legislativas. Com isso ficaria restaurada a "ordem natural" das coisas. Quanto a Soares, asseguraria o direito de propriedade presidencial de que a esquerda reivindica o monopólio, além de evitar os riscos de uma tentação autoritária, esse pecado original, nunca expiado, da direita. E com isso ficaria também a salvo a "ordem natural" das coisas.

A simetria caricatural destes sebastianismos e "ordens naturais" coincide, não por acaso, com uma das mais graves crises de desânimo nacional em que, num remake de snobe perfume queirosiano, retorna a moda dos Vencidos da Vida. E aí entramos no domínio do mais puro kitsch, onde a imagem do Presidente-Rei, salvador da pátria quase perdida, emerge por fim do nevoeiro.

 
At 24 de julho de 2005 às 13:31, Anonymous Maria Cristina A. said...

"Ouvimos os discursos dos dirigentes políticos e não acreditamos. Lemos os editoriais dos principais diários e somos levados a crer que respiramos em outro país. Assistimos ao programa «Um Contra Todos» e, não fora o Malato (cuja jovialidade, cultura e informação merecem a nossa simpatia e a nossa admiração), os participantes, quase todos, fundamentam a singular ideia de que representam uma galeria de matóides, alguns deles com formação académica."

O B.B. têm razão.
Há dias em conversa com uma Professora do Ensino Superior, esta dizia-me:
-Vê lá numa turma de 30 alunos do 2º ano perguntei o que era o 5 de Outubro?
Nenhum sabia...

É assim que vamos.

 
At 24 de julho de 2005 às 15:34, Anonymous Anónimo said...

Alguem sabe me dizer quem é o candidato da CDU a Câmara Municipal de Ponte de Sor?

 
At 24 de julho de 2005 às 20:46, Anonymous Jorge Mateus said...

Alguém leva o Baptista Bastos a sério? O tal de "onde é q vc estava no 25 de Abril"? O tal que dá vontade de perguntar: "e vc? Onde estava no 25 de Novembro de 75?". O fulano do "vc é uma porca faschista"? Onde é que ele estava enquanto queimavam livros na fogueira em 74 (os autos da fé noticiados hj pelo PÙBLICO)? Profetas da desgraça. São vcs que infectam este País e o tornam ingovernável.

 
At 24 de julho de 2005 às 22:06, Anonymous Anónimo said...

Monarquia e|ou República

O rei herda ou conquista terras e gentes. O presidente só conquista. Um e outro pode ser bom ou mau.
Entretanto, na monarquia só temos despesas com um rei, enquanto na república podemos ter de pagar a um presidente no activo e dois ou três na reforma.
Começa portanto a fazer todo o sentido que se faça o referendo sobre se queremos o regresso à Monarquia ou a continuidade na República.

Joaquim Marques Machoqueira

 
At 25 de julho de 2005 às 11:06, Anonymous Anónimo said...

O Jorge Mateus, tem que ir para a escola aprender a escrever.
Depois pode vir mandar umas bocas!

 
At 25 de julho de 2005 às 23:57, Anonymous Jorge Mateus said...

Escrevo melhor que vc, ó chefe! Ficaria surpreendido...! Se é o melhor que consegue dizer, quem devia voltar para a escola não era eu!

 
At 26 de julho de 2005 às 09:37, Anonymous Margarido said...

Srº Mateus deve escrever 10000 vezes as seguintes palavras:

- Público;

- Fascista;

 

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