segunda-feira, 28 de novembro de 2005

OPINIÃO

A existência e a expiação

São alarmantes as recentes informações, segundo as quais a CIA tem usado aeroportos, um pouco por todo o lado, para transportar presumíveis terroristas e interná-los em campos de concentração, onde a prática de sevícias e de torturas as mais aprimoradas se tornou num desporto requintado.


A Europa transformou-se no estopim de um barril de cólera. Todos os dias nos chegam notícias de violência, de agressão metodizada, de protestos contra um sistema iníquo, que não possui soluções para resolver as crises múltiplas. Na União há mais de vinte milhões de desempregados. O número tende a aumentar. A abertura dos mercados permite a ascensão de economias articuladas na base de trabalho escravo (casos da China e da Coreia do Sul), e na consequente destruição de outras, mais débeis e indefesas.

A crise do capitalismo é uma evidência, que nem os seus turiferários já ocultam. A lex mercatoria, levada aos extremos a que assistimos, regula unilateralmente. E os mercados alargaram a sua influência e estenderam o seu domínio aos Governos. Estes, pondo de parte o princípio de que o direito privado é dependente do direito público, tripudiam sobre as próprias Constituições e, despudoradamente, acedem às exigências, cada vez mais inclementes, das transnacionais.

Os Estados Unidos funcionam como sede do Império. E quem se lhe opõe, timidamente que seja, é esmagado. São alarmantes as recentes informações, segundo as quais a CIA tem usado aeroportos, um pouco por todo o lado, para transportar presumíveis terroristas e interná-los em campos de concentração, onde a prática de sevícias e de torturas as mais aprimoradas se tornou num desporto requintado.


É evidente que esta situação não se pode eternizar. O mal-estar generalizado alastra, com reacções amiúde tumultuosas, e de consequências imprevisíveis porque larvares - mesmo que pareçam atenuadas ou definitivamente aplacadas. Se o Estado Social está agonizante, o que nos apontam como alternativa é assustador. Num segundo nível a crise (longe de ser passageira) inspira uma noção mais substancial de autoritarismo e introduz elementos não apenas conservadores, como, sobretudo, criptofascistas.

A disputa Presidencial no nosso país permite-nos, com um mínimo de seriedade e de lucidez, fazer aproximações ideológicas. O terreno apresenta-se fértil para soluções musculadas. E muitos portugueses anseiam por isso. É difícil especificar, minuciosamente, as condições que tornaram possível este cenário. Porém, não andaremos afastados da realidade histórica se verificarmos que, no contexto actual, a representação política nega a oportunidade de todos e estimula o privilégio de alguns, poucos.

Abúlico, medíocre e resignado, Portugal apresenta-se escancarado a todas as aventuras e ao mais tenaz oportunismo. O caso Santana Lopes-Paulo Portas foi possível exactamente porque a regulação do vazio e a desenvoltura do mais soez dos patrioteirismos garantiu o escândalo. E foi uma grave advertência, a que a Esquerda e outras forças cívicas não conseguiram responder.

Em meados dos anos 20, século passado, Salazar escreveu uma série de artigos no Novidades, jornal do Patriarcado e porta-voz das correntes mais reaccionárias da Igreja e da sociedade no seu todo. Mais tarde, o futuro ditador aproveitaria as teses contidas nesses artigos e inclui-las-ia nos seus Discursos e Notas Políticas. Nesses textos desafiava os intelectuais republicanos e democratas a contradizê-lo. À excepção do grande Raul Proença, a Seara Nova, por exemplo, limitou-se a uns vagos comentários. O paralelismo talvez seja apressado, mas são garantidas as semelhanças - e a patologia. Se recuarmos um tanto mais, visitemos o Eça de Queiroz, autor, em 1871, deste excerto:

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. A ruína económica cresce, cresce, cresce? A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda a parte:O país está perdido».

Que tal, meus Dilectos?

Baptista Bastos

3 Comments:

At 29 de novembro de 2005 às 09:49, Anonymous Anónimo said...

AÇORES

Avião da CIA estacionado nas Lajes

Está estacionado no aeroporto das Lajes um dos aviões mais referenciados como estando ao serviço da CIA.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros confirma a informação e garante que a autorização foi concedida porque se trata de um avião civil de passageiros.

Trata-se de um aparelho que surge nas denúncias da Human Rights Watch e apareceu recentemente nas imagens divulgadas na imprensa alemã em notícias relacionadas com os voos secretos da CIA.

O aparelho de matrícula N8183J é um Lockheed L10030, propriedade de Tapper Aviation, a companhia de aviação que normalmente presta serviços à CIA.

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros português confirma a presença deste avião nas Lajes e revela que a autorização para aterrar em Portugal foi concedida pelo Instituto Nacional de Aviação Civil, porque se trata de um avião civil de passageiros.

O Ministério assegura que é um avião que faz escala regular nas Lajes fazendo o transporte de militares entre o Iraque e os Estados Unidos e o Afeganistão e os Estados Unidos.

A TSF que o avião foi inspeccionado por agentes do SEF e da Brigada Fiscal e só transporta 4 tripulantes com destino às Bermudas.

A notícia surge no mesmo dia em que o comissário europeu da Justiça ameaçou os Estados-membros com a perda do direito de voto no Conselho Europeu, caso seja confirmada a existência de prisões secretas da CIA no seu território.

TSF

 
At 29 de novembro de 2005 às 09:50, Anonymous Anónimo said...

PRISÕES SECRETAS

Comissário europeu ameaça com perda de direito de voto

O comissário europeu da Justiça ameaçou, esta segunda-feira, os Estados-membros com a perda do direito de voto no Conselho Europeu, caso seja confirmada a existência de prisões secretas da CIA no seu território.

À margem de uma conferência de especialistas de defesa da União Europeia, Franco Frattini disse que «se as acusações forem verdadeiras», irá propor ao Conselho Europeu «sérias consequências», incluindo a suspensão dos direitos de voto.

A ameaça é feita com base nos artigos do Tratado de Nice, que obrigam os Estados membros a respeitar os fundamentos da liberdade e os direitos humanos, assim como no artigo 7º que autoriza o Conselho Europeu a privar de direito de voto os Estados que os não respeitarem.

Na semana passada, o director-geral de Justiça e assuntos Internos questionou os EUA sobre o tema das prisões secretas e foi-lhe dito que o Governo norte-americano precisava de tempo para responder à pergunta.

TSF

 
At 30 de novembro de 2005 às 17:36, Anonymous João P. Guerra said...

CIA AIRLINES

Um dia destes, nos aeroportos da Europa, uma voz aveludada vai anunciar pela instalação sonora a última chamada para o voo com destino a Guantanamo, ou a qualquer outro campo de concentração e tortura, devendo os passageiros dirigir-se, com a máxima brevidade que as grilhetas nos pés lhe permitam, à porta de embarque.

As coisas passam-se hoje à vista de toda a gente. Os segredos do III Reich souberam-se muitos anos depois. Hoje diz-se que o Presidente admitiu bombardear a cadeia de televisão Al-Jazira, que “alguém” da Casa Branca se vingou de um ex-embaixador que contestou a existência de armas de destruição colectiva no Iraque pondo a descoberto a identidade da mulher do diplomata como agente da CIA, sabe-se que as forças de ocupação praticam torturas, tratamentos cruéis, desumanos e degradantes no Iraque – toda a gente já viu as fotografias -, que usaram armas químicas em Fallujah, que mantêm presídios secretos em território de Estados europeus e que, em circulação para tais campos de concentração, aviões fretados pela CIA cruzam espaços aéreos e usam aeroportos europeus como escalas para trânsito dos prisioneiros, arrebanhados nos seus países e desprotegidos perante qualquer norma do direito internacional.

Cada dia, surgem novos sinais mais evidentes de que Portugal está na rota dos sinistros voos de transporte de prisioneiros. O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, que não é homem de meias-tintas, já admitiu que o MNE poderá “ponderar a possibilidade” de abrir uma investigação sobre o caso. Será bom que o faça. Pelo menos evitaria que os resultados de uma tal investigação venham do Conselho da Europa e se abatam sobre Portugal como cúmplice de um crime contra os mais elementares direitos humanos.

 

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