terça-feira, 22 de novembro de 2005

POBRE PAÍS O NOSSO...

A pior prenda de Natal

Fernando Teixeira dos Santos apresentou um dos orçamentos do Estado mais elogiados dos últimos anos, pelo esforço demonstrado na redução do défice público.

Da esquerda à direita – algumas vezes por motivos político-partidários – foram vários os economistas que subscreveram as opções constantes no orçamento para o próximo ano, apesar das dúvidas ainda por esclarecer, por exemplo, quanto à capacidade de cumprir a prometida redução da despesa com pessoal. Um item decisivo para cumprir o objectivo de corte do défice em 1,4 pontos percentuais do Produto Interno Bruto, ou seja, mais de dois mil milhões de euros em apenas um ano.

O facto é que a proposta de orçamento, de tanto ser elogiada, é um instrumento e apoio ao relançamento da actividade económica. Porque pode induzir confiança nos agentes, um facto tanto ou mais importante do que uma qualquer medida concreta. E, assim, pode contribuir para a recuperação da economia e, logo, para o cumprimento dos referidos objectivos.

O problema é que esta confiança demora a construir, mas pode desaparecer num instante.
A verdade é que as afirmações do governador do Banco Central Europeu não ajudam.
Quando o belga Jean Claude Trichet admite uma subida dos juros, não está a pensar em Portugal, mas no espaço do euro como um todo e, não sejamos ingénuos, na Alemanha em particular.
A inflação está a dar sinais de derrapagem - muito por força do aumento do petróleo - e isso obrigará a um aumento da taxa director do BCE, em pelo menos 0,25%, provavelmente na próxima semana. E não deverá ficar por aqui. Ora, com o endividamento das famílias portuguesas a um nível historicamente alto - 118% do rendimento disponível -, o resultado é quase tão fácil de antecipar como o prognóstico no final de um jogo: haverá famílias a entrar em ‘default’, o consumo vai ser menor do que o esperado e a confiança vem por aí abaixo.
As empresas, essas, estão menos expostas ao endividamento, porque o investimento já atingiu níveis baixos, mas estarão expostas à menor procura interna.

No Programa de Estabilidade entregue em Bruxelas, o Governo antecipou um cenário de risco face às previsões centrais, admitindo que uma subida dos juros de curto e longo prazo de um ponto percentual resultaria num abrandamento da economia, num agravamento do desemprego e também numa derrapagem do défice. E, logo, obrigaria à definição de novas medidas restritivas.

Hoje, é mais ou menos claro que dificilmente o Governo chegará ao final de 2006 com o cumprimento dos objectivos orçamentais - défice de 4,6% do PIB - sem novos cortes de despesa. Já era um objectivo ambicioso e que merece ser apoiado. Mas vai ter de ir mais longe.
Também por isto, declarações como as que o ministro das Finanças proferiu há dias, sobre uma eventual descida de impostos a partir de 2009, têm objectivos bondosos, mas são politicamente desajustadas.
Teixeira dos Santos já estava a olhar para o Natal de 2009, mas tem, primeiro, de saber gerir as prendas que vai receber em 2005

A. Costa

1 Comments:

At 22 de novembro de 2005 às 14:22, Anonymous Rita Costa said...

Pelo oitavo ano consecutivo Portugal está em divergência com a média de crescimento dos países da União Europeia.
Depois da Grécia e da Eslovénia, todos os indicadores apontam para que a República Checa nos ultrapasse, já em 2007, em termos de PIB ‘per capita’.
Em 2006/2007, Portugal será o País com mais baixa taxa de crescimento de toda a zona euro. E ainda: Bruxelas prevê que a nossa receita fiscal fique cerca de 187.7 milhões de euros abaixo do orçamentado para 2006, apontando também para uma possível derrapagem na despesa corrente na ordem dos 235 milhões de euros. Mas há pior do que isto.
Há uma resignação que não vem expressa nos indicadores e que tende a instalar-se no estado de espírito dos portugueses.
Se é certo que os arranques económicos resultam da composição dos dígitos, também é verdade que os mesmos só são positivos se na sua base estiver uma atitude de confiança, determinação, vontade e esperança.
Ponto é que não será fácil moldar esta nova atitude sem que antes se comece por retirar fatias ao nosso modelo económico que assenta num paradigma de protagonismo assistencialista por parte do Estado – o que nos dias de hoje não só se revela manifestamente desenquadrado como é instrumento apto e eficaz para arrasar qualquer economia. E nisso, sem dúvida, constituímos um bom exemplo.
Não é novo.
Mas não pode ser sina.

Plano:
Estamos todos recordados de que o designado “choque tecnológico” marcou o desenvolvimento da última eleição legislativa, tendo constituído a bandeira mais hasteada por José Sócrates.
Também todos sabemos que, passados mais de seis meses sobre o início das suas funções, o Governo ainda não logrou encontrar o mapa da mina, ou seja, a linha que enforma o dito plano.
Tão perdido anda nessa procura que pelo caminho foi deixando desaparecer aqueles que era suposto coordenarem a acção e levarem o barco a bom porto. E agora, por melhor que venha a ser o conteúdo do plano, o mesmo já não se livra das nódoas negras que acumulou por via dos vários acidentes que foi sofrendo. E assim, de forma simples e ligeira se corrói a consistência daquela que foi uma das principais promessas eleitorais do partido que hoje governa.
Não é novo.
Mas é sempre um mau caminho.

Inovação:
Não se espere que do plano tecnológico resultem doses abundantes de inovação e tecnologia aplicadas à produção e à gestão das nossas empresas.
A inovação não sai do papel para de imediato se concretizar em matrizes mais ou menos arrojadas e direccionadas a processos de produção.
Mais do que tudo isto a inovação deve incidir sobre a atitude: na liderança; na motivação das equipas; nos objectivos definidos; nas estratégias delineadas... e, essencialmente, na forma de gerir o País.
Não é novo.
Mas seria sempre um bom caminho.

AEROPORTO:
Também não é novo apostar no investimento do Estado para ajudar a relançar a economia.
Aparte os critérios em que se funda a avaliação da bondade dos modelos keynesianos, o que se questiona neste caso concreto é a utilidade/oportunidade deste empreendimento, avaliando os dois conceitos na sua tradução mais abrangente. E se começarmos por procurar justificações de utilidade económica, certo é ficarmos desapontados ao fim de pouco tempo: elas não só não existem com o mínimo de sustentabilidade e credibilidade, como as poucas que vão conseguindo sobreviver precisam de contínuos balões de oxigénio assentes num discurso político de quase imposição.
Não é novo.
Mas é trágico.

Parcimónia:
Seria bom que os diversos candidatos presidenciais se acertassem num modelo de contenção de gastos com a campanha que já aí está.
Estaríamos perante um acto político de amplo significado que valeria mais do que “n” discursos eleitorais.
Além de que seria, fundamentalmente, um sinal de respeito pela situação que Portugal actualmente atravessa. Mais: não é aceitável que a dois meses do dia da eleição o País se veja já inundado de toda a espécie de cartazes como que uma fogueira de vaidades que não acrescenta nada e apenas transforma as ruas num estendal de ‘marketing’ político de duvidoso acerto.
Não é novo.
Mas já farta.

 

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