terça-feira, 22 de novembro de 2005

O ÂNGULO DE VISÃO

“O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos – é não termos já mesmo perguntas”. - Vergílio Ferreira, “pensar”

O Investigador fora recentemente promovido e fazendo jus à promoção, meteu mãos à obra e fez o que tinha a fazer - investigou e ouviu tudo o que havia para ouvir.

Sentado à secretária, com ar limpo e afável, o Investigador fez perguntas batidas, obteve respostas estudadas e tudo escreveu num teclado antigo de um computador lento.

A história tinha, como todos as histórias, várias versões.
Uma delas, vinda de outros tempos, mas conhecida por poucos, contava-se assim:
Era uma vez, uma região perdida, pequena e com pouca gente, que perpetuava inconscientemente rituais que remontavam aos fenícios, que para ali trouxeram o culto do touro, símbolo da força e da vitalidade.
Rituais, a que hoje chamavam a tradição, e que perduraram, passando pelas eras em que se celebrava o solstício, e pelos tempos em que, no fim do verão, após o árduo labor das ceifas, o senhor dava o bodo aos pobres, através da oferenda da carne do touro, o animal “sagrado”, que daria a energia necessária para esquecer a sua falta ao longo de todo o ano.

Durante séculos, essa gente travou prosaicamente as suas guerras e lides, fez as suas festas, contando apenas com vizinhos e amigos, caída que estava no esquecimento.

Um dia, quando nada o fazia prever, ou talvez fizesse, estranhos, com objectos não identificados, chegaram aquela terra e começaram a relatar a crueldade que ali se praticava – em pleno século XXI, os autóctones, qual bárbaros que lançavam os cristãos às feras, lançavam o touro no meio do povo e este, massa informe e ignara, dava no indefeso animal a estocada final.
Como se isso não bastasse, esquartejavam o pobre animal e comiam-no.
É claro que havia um de entre eles que se encarregava do acto bárbaro.
Todos sabiam isso.
Porém, ninguém o via nem o conhecia.

Depois, esse mesmo povo ignaro, que não sabe o que quer nem o que faz, dava uma centésima parte desse animal ao seu vizinho ou amigo, todos se deleitando no prazer da carne.

Até que um dia, se tornou preciso repor a ordem pública.
Então, outros estranhos misturaram-se entre o povo, com o fito de apanhar o vilão, o homem, sim, porque as mulheres não são para aqui chamadas, que, com faca ou canivete, ousava abater o animal.

Durante anos, repetira-se o mesmo espectáculo: o povo encarregava-se de encobrir uma corda e um pano, objectos com os quais, na altura própria, após o animal ser amarrado à mó do moinho, era lançada uma nuvem de poeira sobre os estranhos, impedindo-os de ver o que quer que fosse.
Era como se ocorresse um eclipse total do sol!
Queriam ver?!
Pois, tomem lá!
E não se pense que o povo, ele mesmo, quisesse que se soubesse quem tinha tido a audácia e a coragem ou a desfaçatez e a vilania, dependendo dos pontos de vista, que é como quem diz dos ângulos de visão, de praticar o acto.

Tanto assim que, quando o Investigador, que laboriosamente batia no teclado antigo, registando uma outra versão repetida da história, perguntou:
- Viu quem matou o touro ?
Obteve como resposta:
- Não vi.
E quando, por descarte de consciência, lançou a pergunta fulcral:
-Porquê? Não estava no seu ângulo de visão?
Obteve como resposta:
- … Não estava no meu ângulo de visão…

Assim, um ângulo de visão rematava e servia a história.
Como diz o mesmo povo: quem não quer é como quem não vê.


Joana Rita

1 Comments:

At 22 de novembro de 2005 às 14:27, Anonymous António Mateus said...

Quanto mais prematuro é no homem o erguer da condição de besta, mais o pensamento se lhe albarda no que deixou para trás, qual asno eterno, de génio camuflado.
O Zica brincava nas arribas xistosas que, na sua imaginação, transformava em dragões, por ele domados, em voos rasantes sobre os silvados e a carqueija que a criada dividia, em molhes para o chá e para o fogo da lareira.

Zica era sozinho de irmãos, porque no descasamento dos pais, o amor secou antes que nova flor apurasse fruto.

E ele assim cresceu, feito adulto às pressas, cavalgando montes e vales, em conversas intermináveis com o pai. Picador. Dos quadrúpedes e dos bípedes que por se erguerem nas patas de trás, em bichos-homem, não tinham por isso sido, automaticamente, libertados da condição alimária.

A natureza tem destes paradoxos, pensava o menino ao escutar o pai, na sabedoria de vida que os bancos de escola só esquiçam mas nunca tocam.

Quanto mais prematuro é no homem o erguer da condição de besta, mais o pensamento se lhe albarda no que deixou para trás, qual asno eterno, de génio camuflado.

O inteligente da faena que, no fundo, da vida pouco mais sabe do que mandar as vacas entrar no redil para recolher o touro farpeado.

Zica escutava o pai e ficava com os olhos cheios de estrelas, sonhando um dia somar tanto Mundo dentro de si. E desbravá-lo com os irmãos que só tinha em sonhos, até ao dia em que os encontrou. Emprestados que fossem, num colégio interno. Onde, fardados, os meninos eram de repente, os soldadinhos de suas brincadeiras.

Zica estranhou primeiro a distância dos cheiros, o fechar dos portões para o mundo exterior, semanas inteiras, tornadas meses quando o pai não o ia buscar. Por afazeres da vida. Por razões de adulto que ao menino escapavam.

E ele, aos poucos, foi-se erguendo bípede, dentro de si. Agigantando-se acima do corpo, como se este fosse, afinal, o adereço do espírito que alguém nos pranta à nascença. E apenas isso.

Zica aprendeu a escutar os mais velhos, como quem escuta o pai. Porque na lousa, quem guarda canto virgem ao giz da experiência alheia, acrescenta-se a duplicar. Poupando-se ao percurso dos mesmos erros.

Somando-se grande ao reconhecer a sua pequenez relativa. Perante os outros.

O menino fez-se homem. Com um «H» cada vez maior. Porque quanto mais sabia, mais sabia que nada sabia. Mais precisava de se acrescentar nos outros. Com os outros, porque a vida de outro modo não fazia sentido. Não faz sentido.

E por isso mesmo se vestiu de farda. Fardando-se militar, porque ali, naquela vida dos quartéis. As ordens podiam muitas vezes não fazer sentido.

Os galões podiam muitas vezes angular ombros déspotas e quadrados. Mas, pelo menos ali, todos sabem que ninguém é algo sem os outros. E bem ou mal, subscrevendo-os ou não, há valores, códigos de honra e alguém a quem se presta contas.

Zica assim o acreditou. Assim o viveu. E assim o sonhou. Para ele a farda é o seu país, que ele, por isso mesmo, usa com orgulho, lustrando-lhe os botões com o amor de quem num gesto único, beija o pai e o filho.

Casulando-se de sentido.

Zica viu chegarem uns e outros, revezarem-se no rasgar da farda. No arrancar dos botões, transformando-a, aos poucos, num uniforme de Circo. Orientado pelo palhaço-mor, ao sabor dos risos ou silêncios das bancadas.

Zica chora por dentro, aquela cegueira colectiva. E dói-lhe aquele autismo sem-fim, de uma sociedade que não vê, ou não quer ver, que no esfarrapar dos símbolos e dos princípios colectivos, se entrega ao latrinismo oportunista.

É por isso, que os Zicas desse Mundo, deste país, são as últimas jóias que nos restam. Não pelo que dizem. Porque poucos já o escutam. Mas pelo que guardam dentro de si. A semente da nossa esperança.

 

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