terça-feira, 14 de março de 2006

ESQUERDA MODERNA?


Na convenção Novas Fronteiras, José Sócrates falou entusiasticamente sobre a agenda de mudança da esquerda moderna, que modestamente pensa representar.
Claro que Sócrates não falava da esquerda, mas sim de um novo centrismo, que se tornou a ideologia da chamada esquerda democrática.
Sócrates pensa que o choque tecnológico é uma espécie de «O Capital» de Marx e que se tornará a nova bandeira da ruptura com a sociedade actual.
Ele é um gestor.
Que poderá ser bom ou mau para o país.
Mas nunca será o CEO da nova esquerda que proclama.
Governar é escolher.
Não é uma simples passagem por uma loja de maquilhagem.
Sócrates, no entanto, considera que isso é suficiente para dizer que o país mudou.
No seu estimulante discurso nas Novas Fronteiras há uma frase intrigante: promete defender os interesses gerais face aos corporativos.
Só que como é que, por exemplo, Sócrates diz defender os interesses gerais e uma unidade nuclear em termos de saúde, o IPO, pode sair do centro de Lisboa para ir para Oeiras?
Local que será muito mais caro para os carenciados que vêm do sul do país para usufruir de um hospital fundamental.
O valor de um terreno vale as pequenas poupanças de quem pouco tem?
Ainda bem que há uma esquerda moderna...


Fernando Sobral

5 Comments:

At 14 de março de 2006 às 15:06, Anonymous José M. Moreira said...

Não devemos lamentar o uso de figuras retóricas no debate ideológico. O absurdo seria que não se utilizassem. Temos é que prestar-lhes atenção.

A tomada de posse do novo Presidente da República vai obrigar a uma redefinição ideológica dos partidos do arco democrático, a partir de um centro político onde a palavra “social” é a senha e o (neo)liberalismo contra-senha. É por isso que a luta pelo significado das palavras vai ser de capital importância: a função das palavras no debate ideológico é tema a explorar. Mas muito perigoso, se não se cuidar do uso das palavras, que são, como diria Ortega, “os déspotas mais duros que a humanidade conhece”.

Daí a atenção que se deve dar à perversão da linguagem. O que levou Hayek a denunciar a existência do que chamou palavras-doninha. Para tal, inspirou-se num velho mito nórdico, que atribui à doninha a capacidade de sugar o conteúdo de um ovo sem quebrar a casca. Sustentando que existiam palavras capazes de sugar a outras por completo o seu significado.

Uma delas é a palavra “social”. Uma palavra que, quando se junta a outra, a converte no seu contrário. Por exemplo, a “justiça social” não é justiça, a “democracia social” não é democracia, o “constitucionalismo social” não é constitucionalismo. O “Estado social de direito” não é Estado de direito, etc.

O mesmo para “neoliberalismo”, embora aqui com uma função diferente. Enquanto a palavra “social” dá um sentido contrário àquela a que se junta, a palavra “neoliberal” identifica com esta doutrina aqueles que não pertencem a ela. Uma inverte os sentidos, a outra assimila os distintos.

O estudo das figuras de linguagem ou tropos foi geralmente deixado à retórica. Não obstante, ao propor o conceito de palavra-doninha, o que Hayek fez foi explorar a função dos tropos no debate ideológico e convidar-nos a dar um passo adiante e entender que as ideias não só devem explicar-se ou refutar-se a partir da sua logicidade, mas também pela sua função retórica.

Infelizmente, os liberais confundiram os planos do discurso. Uma coisa é o discurso científico governado pela lógica, pelo princípio da contradição e por regras próprias. Outra, completamente distinta, é o discurso ideológico, onde as regras são as da retórica e onde, afinal, valem princípios distintos. Pretender entrar no debate ideológico com instrumentos próprios do discurso científico deu vantagens imensas aos que souberam servir-se dos velhos princípios retóricos, conhecidos com perfeição no pensamento ocidental desde os gregos, mas lamentavelmente esquecidos pelos defensores das ideias da liberdade.

Não devemos lamentar o uso de figuras retóricas no debate ideológico. O absurdo seria que não se utilizassem. O que temos que fazer é prestar-lhes atenção, estudá-las e recorrer ao vasto conhecimento acumulado que se tem dessa metodologia de comunicação.

O desprezo pelo debate terminológico teve no passado um alto custo, ao permitir aos inimigos da liberdade dedicarem-se, sem grande resistência, à perversão da linguagem. Isso passou-se com a própria palavra “liberal”, que acabou tendo no mundo anglo-saxónico um sentido oposto ao da sua tradição histórica.

Será que, inspirados na retórica clássica, não deveríamos propor uma nova disciplina: a “doninhalogia”, que consistiria em estudar como as figuras da linguagem ou tropos são utilizadas no debate ideológico para alterar o significado das palavras com propósitos deliberados?

Muitas vezes pensa-se que para triunfar na luta pela liberdade basta a avassaladora evidência dos factos. Contudo, eles são insuficientes para causar a convicção necessária no debate ideológico. Como dizia Mises: “os factos per si nunca provam nem refutam nada. Tudo é decidido pela interpretação dos factos, pelas ideias e teorias”.

É esta batalha que está hoje em Portugal na ordem do dia. E que os defensores do liberalismo clássico e os ‘blogs’ que não lhe são indiferentes têm obrigação de travar. Talvez uma forma de começar seja aplicar a nova ciência ao último artigo de Pacheco Pereira à revista “Sábado” e, quem sabe, acrescentar a palavra (liberalismo) “radical” às palavras-doninhas. A Causa merece e a história do Liberalismo assim o exige. Seria muito grave não se estar desperto para os danos que as palavras podem causar quando são retoricamente manipuladas. ‘Figura est vitium cum ratione factum’.

 
At 14 de março de 2006 às 15:48, Anonymous JPH said...

Tudo pela Nação, nada contra a Nação

"O dever de qualquer responsável político é o de lutar pela confiança. E isto é válido para o Governo, mas também é válido para a oposição. Quem acha que prejudica o Governo promovendo o pessimismo e rejeitando todos os sinais de recuperação da confiança, não está a fazer oposição ao Governo, está a fazer oposição ao País."

José Sócrates, primeiro-ministro, ontem, na Convenção Novas Fronteiras

 
At 15 de março de 2006 às 11:19, Anonymous João T. said...

Este PS/Sócrates sacralizou a ruptura do PS com o passado histórico do socialismo feito pelos cidadãos. De um socialismo à maneira da velha Internacional - reformista, democrático, republicano, conciliador, participativo, pedagógico, interventivo, social. Gerindo, a maior parte das vezes mal, a negação do Komintern e dos conglomerados de direita com a reacção. Nunca abdicando da intervenção do maior número de cidadãos, sobretudo os mais sofredores com a ganância da lógica capitalista, na vida política e como antídoto à supremacia da ignorância, dos privilégios e da violência.



Enquanto a tradição de direita entregava o monopólio do exercício do poder à nata dos poderosos e a tradição bolchevique pensava resolver esse problema à machadada, substituindo os burgueses por uma vanguarda militarizada com mandato ideológico auto-justificado da classe operária, o socialismo demarcava-se de tentar não falhar no cumprimento do jogo democrático sem deixar de atribuir aos cidadãos, com realce para os trabalhadores, o papel de actores da política e da história.



Hoje, o discurso do PS, de Sócrates, do governo e dos seus apoiantes, é: deixem-nos governar, em paz, sossego e confiança, por vós, em vosso nome. Mas não chateiem. Paguem os impostos, votem, desenrasquem-se, confiem, estejam quietos. Sócrates, o governo e o PS, não mobilizam vontades, não congregam, não vertebram, não mobilizam, não dão espinha dorsal a qualquer projecto de edificação nacional. Dão-nos o timing da hipótese da solução, mandam-nos olhar para a conjuntura e estarmos atentos aos indicadores, pedem-nos a confiança de neles confiarmos, anestesiam, dando-nos no coco, no bolso ou repartindo migalhas. E para rematar, em estocada final, ordenam-nos - como fatalidade - para neles confiarmos, inertes e meio tontos, quedos, mudos, cegos, confiantes. Na espera da boa hora a ser dada pelo relógio a que eles, laboriosamente, vão dando corda.



Com esta forma e esta sangria, o PS, o governo e Sócrates, escolheram como único trunfo distintivo da direita e dos bolcheviques, a competência da gestão, a manipulação dos indicadores, a contabilidade da crise, a gestão dos adiamentos, a vontade de forçar reformas decididas em gabinete. Porque, no resto, a governamentalização da política operada por Sócrates, pelo governo e pelo PS, aprendeu demais, imita em exagero, a praxis da direita e da esquerda redentora, ao vanguardizar-se como elite da solução. Remetendo os cidadãos para a espera e a confiança.



O definhamento da direita portuguesa (de que só se salva o messianismo cavaquista, irmão gémeo do gestionismo socrático) e o acantonamento da esquerda radical nos brados esquizofrénicos, explicam-se, também, pela arte de Sócrates em apunhalar a tradição socialista e cidadã, aplanando a diferença mais os seus riscos. Como não entender o noivado com Cavaco? Assim, o melhor de Sócrates será sempre o menos do socialismo e o inevitável na afirmação não controlável da cidadania. Tenderão para boas sondagens, alargarão a mancha do centrão, definhando esquerda e direita, mas de assassinos do socialismo não passam.

 
At 15 de março de 2006 às 11:23, Anonymous A. L. said...

Hoje, o discurso do PS, de Sócrates, do governo e dos seus apoiantes, é: deixem-nos governar, em paz, sossego e confiança, por vós, em vosso nome. Mas não chateiem. Paguem os impostos, votem, desenrasquem-se, confiem, estejam quietos. Sócrates, o governo e o PS, não mobilizam vontades, não congregam, não vertebram, não mobilizam, não dão espinha dorsal a qualquer projecto de edificação nacional. Dão-nos o timing da hipótese da solução, mandam-nos olhar para a conjuntura e estarmos atentos aos indicadores, pedem-nos a confiança de neles confiarmos, anestesiam, dando-nos no coco, no bolso ou repartindo migalhas. E para rematar, em estocada final, ordenam-nos - como fatalidade - para neles confiarmos, inertes e meio tontos, quedos, mudos, cegos, confiantes. Na espera da boa hora a ser dada pelo relógio a que eles, laboriosamente, vão dando corda.

 
At 20 de março de 2006 às 11:00, Anonymous J E R said...

O chamado modelo social europeu deveu-se, em grande medida, ao medo do comunismo alimentado pela União Soviética e pelo poder dos partidos comunistas dos países da Europa Ocidental, com destaque para os da França e Itália. Com o fim da URSS e o quase desaparecimento dos partidos comunistas, e com os sindicatos a tentarem sobreviver apostando mais na defesa de pequenos interesses corporativos do que na dos trabalhadores enquanto grupo social, existe o risco de o modelo social europeu desmoronar?

Começa a ser evidente que sim, o fim do medo do comunismo está a desencadear profundas alterações no modelo económico europeu e mesmo mundial, e como se isso não bastasse está a resultar igualmente em profundas mudanças culturais e políticas.

No plano social tudo é dispensável a troco da competitividade, primeiro as funções do Estado, depois as regulamentações sociais, depois os salários, deixaram de ser os países menos desenvolvidos a quererem alcançar as condições sociais dos países rios, são estes a invejarem as vantagens competitivas daqueles.

As lutas partidárias deixaram de se centrar nas diferenças ideológicas, os partidos que disputam o poder fazem-nos apresentando-se como os que propõem as melhores soluções para assegurar a competitividade económica, as campanhas eleitorais são campanhas mediáticas e que se vende o embrulho, porque o produto tende a ser normalizado. O pensamento político deixou de fazer a diferença, ganha eleições quem oferece melhores garantias ao poder económico recebendo os financiamentos mais generosos, os eleitores passaram a ser tratados consumidores e os debates políticos são prolongamentos dos intervalos para publicidade.

O político mais bem sucedido é o que consegue adoptar as medidas mais duras com menos protestos, o sucesso das políticas deixou de ser avaliado por indicadores de bem-estar ou mesmo de desenvolvimento económico, as cotações da bolsa fazem as alegrias dos decisores e as OPAs um sinal de progresso.

Sem o medo do comunismo deixaram de haver classes sociais na acepção marxista do conceito, agora há os bem sucedidos e os falhados, de um lado os que tiveram sucesso financeiro, pouco importando se graças à gestão das suas empresas, ao jeito para dar pontapés na bola ou à capacidade de se corromper sem cair nas malhas de uma justiça que não existe; do outro, os que não enriqueceram, sejam empregadas domésticas ou professores catedráticos.

Será este modelo viável durante quanto tempo?

 

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