sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

O DEBATE DO REFERENDO DO ABORTO

Havendo referendo, ou seja, uma escolha com significado político, é natural que haja debate público, que haja um contraditório a favor do convencimento das decisões e do voto. No entanto, nunca como agora eu desejaria que este referendo fosse silencioso, que este debate fosse quase inaudível, que ele pudesse ser feito quase por telepatia, por gestos subtis, sem voz, nem escrita, nem imagem. Tomem isto como uma metáfora, ou seja, não à letra, mas serve para dizer outra coisa que me parece mais importante.

Esta absurda cacofonia em que partidários do sim e do não esgrimem argumentos, opiniões, acusações, cada vez num tom mais alto, mais agressivo, mais descuidado, mais displicente, mais para se ouvirem do que para serem ouvidos, parte do princípio de que o essencial neste referendo é convencer. Duvido que alguém se convença nesta matéria, a não ser por rejeição - votava duma maneira mas ficou tão indignado(a) com uma frase ou uma atitude que passou a votar doutra. Talvez todos estes excessos possam servir marginalmente para mobilizar para o voto, embora duvide muito da sua eficácia, penso até que favorece mais a abstenção do que a mobilização. Posso estar enganado, são só impressões, não servem para nada.

Fique já bem claro que eu gosto do som e da fúria da política. Não tenho nenhuma das manias elegantes e preciosas de quem pensa que a política é só cumprimentos amáveis e frases subtis. Não sou dessa escola, nem me apanham na defesa de salamaleques de salão ou na condenação de compromissos e dedicações de quem está activamente nesta campanha. Não me esqueço nunca de uma tarde na Assembleia da República em que, depois de eu e mais dois ou três deputados termos passado uma hora de quezília parlamentar até conseguirmos que um respeitado deputado do CDS pudesse falar numa matéria que desejava e para a qual a maioria do PS fazia obstrução, a primeira coisa que o respeitado parlamentar disse no tempo que lhe tínhamos arrancado a ferros depois de uma cena pouco edificante de requerimentos, interpelações e outras guerrilhas parlamentares, foi manifestar o seu desgosto e enfado com a discussão a que tinha acabado de assistir. Fiquei, digamos, para o furioso, com a afronta de quem nos fez meter a mão na massa, para depois aparecer com luvas brancas acima do vulgo. Não é isso que pretendo dizer, se é que me faço entender. É o tom. E aqui o tom é quase tudo.

O que me desagrada nesta campanha - feita mais para os homens do que para as mulheres - é que ela passa ao lado, mais do que isso, desrespeita, ignora, menospreza, o carácter essencialmente existencial, vivido, do problema do aborto. É por isso que o aborto é mais uma questão das mulheres, como é a maternidade, e não é totalmente extensível e compreensível aos homens. Este é um dos casos que esquecemos muitas vezes, quando achamos que a igualdade é algo de adquirido sob todos os aspectos, e que tem a ver apenas com a sociedade, a economia, a cultura e o direito. Não, pelo contrário, há desigualdades, diferenças no dizer politicamente correcto, estruturais entre os seres humanos, uma das mais fundamentais é a que a maternidade introduz entre homens e mulheres. E para as mulheres, que, quase todas, ou abortaram ou pensaram alguma vez em abortar, ou usam métodos conceptivos que à luz estrita do fundamentalismo são abortivos, o aborto de que estamos a falar neste referendo não é uma questão de opinião, argumento, razão, política, dogmática, mesmo fé e religião. Também é, mas não só. É uma questão de si mesmas consigo mesmas, íntima, própria, muitas vezes dolorosa e nalguns casos dramática. Não é matéria sobre que falem, se gabem, argumentem ou esgrimam como glória ou mesmo como testemunho. Não é delas que vem esta estridência, nem é por elas que vêm os absurdos do telemóvel, do pinto, do ovo, do Saddam Hussein, do coraçãozinho. É mais provável que sintam tudo isso mais como insultos do que como argumentos que lhes suscitem a atenção. No seu silêncio votarão ou abster-se-ão, mas é por elas, por si, pelo seu corpo, pelos seus filhos, pelo seu destino, pela sua vergonha, pela sua dor, pela sua miséria, pelas suas dificuldades económicas, pela sua vida, pelos seus erros, pelas suas virtudes.

É verdade que, como em todas coisas, há irresponsabilidades, há mulheres irresponsáveis nos abortos que fazem, como nos filhos que fazem, mas duvido muito que sejam a regra. A regra é que aborto é sofrimento, físico e psicológico, e é sobre esse sofrimento que vamos votar. Eu vou votar sim, mas admito que, exactamente com a mesma consciência do mesmo problema, haverá quem vote não. Mas os moderados, estranha palavra rara no meio desta estridência, não podem deixar de recusar este folclore que infelizmente nalguns casos torna príncipes da Igreja iguaizinhos ao Bloco de Esquerda e vice-versa. Se percebêssemos esse silêncio interior da maternidade, mesmo quando dilacerada pelo aborto, seríamos menos arrogantes, menos estridentes, menos obscenos nas campanhas.


José Pacheco Pereira

9 Comments:

At 26 de janeiro de 2007 às 21:07, Anonymous Maria João Pires said...

Da Maternidade

Por muito que tente não consigo "despessoalizar" esta questão. Mil perdões por os textos que aqui surgirem saídos do teclado do meu pc não se elevarem ao patamar das grandes discussões filosófico-cientificas, mas não faz mal nenhum fazer uma aproximação à realidade e - porque não? - ser, de certa forma, intimista. Por sorte do destino não fui criada, nem vivo, num ambiente que me imponha um código moral, e de conduta, rígido, em que não possa assumir as minhas opiniões e acções sem medo de ser olhada de soslaio. Por isso cá vai o primeiro texto (que é uma espécie de shaker de alguns dos muitos que já escrevi sobre o tema) em que falo de mim, é verdade, mas falo de tantos milhares de mulheres como eu. O aborto não é, nem nunca foi, um problema específico de "pobrezinhas". Penso, aliás, que a maioria das mulheres que já abortou deve pertencer aquilo que se chama classe-média.

A maternidade/paternidade é um projecto de vida. A longa distância que já nos separa da "natureza" permite, felizmente, que não procriemos apenas para perpetuar a espécie. Não concebo a maternidade (e só falo dela porque estou a falar em nome próprio) sem um profundo investimento nas "crias" que se têm. Esse investimento não passa só por fornecer alimento às criancinhas, é muito mais do que isso, e exige uma disponibilidade mental que não se tem em todas as alturas da vida. Shit happens, como dizem os anglófonos... e sim, gravidezes indesejadas acontecem por motivos vários. Felizmente não somos autómatos e, feliz ou infelizmente, o corpo humano tem falhas. Uma simples diarreia pode tornar ineficaz a toma da pílula. Mas, mais do que isso, quem nunca teve uma relação sexual "potencialmente reprodutível"? Não acredito que haja quem responda "Eu não!" a esta pergunta se estiver a ser absolutamente sincero. Por muito racionais que sejamos momentos há em que a desgraçada da razão, tadita, leva um senhor tareão e desaparece durante um bocado. Estou a fazer a apologia do sexo não protegido? Claro que não, estou a limitar-me a constatar que, por vezes, falhamos. Acontece... Quer seja por motivos fisiológicos, quer seja por "calores", todos nós , uma vez na vida, tivemos um deslize, um momento, que pode resultar numa gravidez. Posso parecer pedante mas parece-me que é por achar que um filho é algo demasiado valioso, demasiado importante, que defendo que casos há em que a IVG faz todo o sentido. Já abortei. Se me arrependo? Não, de todo. Naquele momento da minha vida foi a decisão que me pareceu certa e fi-lo. De ânimo leve? Não, claro que não. Ponderei muito bem todas as "variáveis" e, no fim desse processo, não hesitei.

Felizmente, e ao contrário de muita gente, tinha acesso fácil a quem me fizesse essa interrupção, não fui, por isso, confrontada com a autêntica provação da maioria das mulheres, que penam terrivelmente em busca de informação sobre um local onde se dirigirem, e sem fazerem a menor ideia do tipo de apoio que vão encontrar. Recorri a uma parteira muito cuidadosa, profissional, com todas as condições necessárias para fazer uma interrupção medicamente segura... mas na clandestinidade, claro. E esse fardo é tremendamente pesado. Por muito que nos tentem fazer passar a mensagem de que ninguém em Portugal vai a tribunal por causa de um aborto (o que é falso, casos recentes isso demonstram) sente-se um enorme frio na barriga. Sabemos que a qualquer momento nos pode aparecer a polícia à frente. Se me perguntarem se tenho memórias negras desse dia muito objectivamente terei que responder que não. Tinha uma decisão assumidíssima, estava rodeada da minha família, em mãos de profissionais competentes, o procedimento médico não foi doloroso (fiz a interrupção com anestesia geral), saí de lá medicada e segura de que se houvesse uma qualquer complicação teria apoio...

Sofro por causa da minha decisão? Não, não sofro, não tenho nenhum sentimento de culpa a pairar sobre a minha existência e não fiquei traumatizada com a situação. Não sou, felizmente, caso único. Milhares de mulheres já tiveram que, num momento ou outro, fazer uma interrupção e, não fosse a ilegalidade a que são obrigadas, não teriam, tal como eu, recordações especialmente negras da situação. Claro que a IVG não é, nem pode ser, considerada como método contraceptivo. É, e assim se tem de manter, como uma solução de último recurso para uma gravidez que não pode, ou não quer, ser assumida. Se me visse de novo na mesma situação faria o mesmo? Muito provavelmente. Ter mais filhos não faz parte do meu projecto de vida para o futuro. A maternidade é algo a que dou uma importância fulcral. Tenho-me por uma mãe muito presente na vida dos meus dois filhos, mas chegam-me os que tive/tenho. Ter filhos pequenos fez sentido em certos momentos, agora, que começam a voar sozinhos, não faz. Até porque não reduzo a minha condição de mulher ao papel de mãe. E, sim, tomo as devidas precauções para não engravidar mas, ao contrário de muitos, não tenho fé absoluta nos métodos contraceptivos. Sou mulher pouco dada a fés, é o que é.

Agora apetece-me fazer uma viagem até 1998, à noite em que os resultados do Referendo ao Aborto foram conhecidos. Não nego que os resultados me provocaram uma profunda mágoa. Eu, burguesinha que sou, tinha (e tenho) todas as condições para fazer uma interrupção voluntária de gravidez onde e quando quiser. Não era a mim que aquele resultado penalizava em primeiro lugar. Ou melhor, penalizava-me sim, porque no meu país continuava a vigorar uma legislação que me impunha uma moral e comportamentos em que não me reconhecia e que estavam longe de corresponder à prática efectiva. Fiquei irritada, profundamente irritada, com a preguiça demonstrada por uma enorme percentagem de portugueses. É verdade que a cidadania e o exercer dos seus direitos e deveres ainda tem um longo caminho a percorrer neste canto, mas, bolas, no mínimo exigia-se que quem já tivesse passado por uma situação semelhante abandonasse a praia um bocadinho mais cedo e fosse votar. Eu não conheço só depravadas (ok, concedo, conhecerei algumas ) nem inconscientes e das mulheres que conheço (todas as idades confundidas) se há 20% que nunca tenha feito nenhum aborto é muito. Claro que também há gente, como uma senhora que acompanhou a filha a uma parteira no dia seguinte, que proclamava alto e bom som ter votado Não. "Votou não?? e hoje está aqui a fazer uma interupção com a sua filha?", "Mas a minha filha é um caso diferente, foi um acidente"... ah! pois, as nossas filhas são sempre diferentes das outras, essas putas ou ignorantes, que fornicam inconscientemente e que por isso merecem ser "castigadas" com um filho.

 
At 27 de janeiro de 2007 às 00:32, Anonymous Anónimo said...

O QUE MUDOU NA POSIÇÃO DA IGREJA EM RELAÇÃO AO REFERENDO

D. José Policarpo disse que a Igreja não iria fazer campanha dando indicações no sentido de que a Igreja Católica não se envolveria directamente na campanha, pouco tempo depois soube-se que o Papa não viria a Portugal e houve quem insinuasse que o chefe de estado do Vaticano estava descontente com o nosso país. É legítimo perguntar se a mudança radical na postura da Igreja, que se está envolvendo na campanha como se Portugal fosse um país da América Latina, representa uma mudança na sua posição ou se esta nova postura resulta de orientações do Vaticano.

Para alguns católicos essa intromissão quase evidente parece normal, mas para os portugueses laicos ou que sendo católicos não são fundamentalistas, a ingerência do Vaticano tentando impor na lei a sua concepção sobre o aborto é inaceitável, trata-se de uma ingerência imprópria e inaceitável desde o fim da velha Concordata.

Ganhe o "não" ou ganhe o "sim" que isso suceda por vontade dos portugueses e não em resultado de determinações do Vaticano.

 
At 27 de janeiro de 2007 às 00:33, Anonymous JER said...

OS PENETRAS DA CAMPANHA DO REFERENDO

Esta campanha está cheia de penetras, gente que aproveita o carácter não partidário deste acto eleitoral para ganhar protagonismo mas que devido a intervenções desastrosas acabam por favorecer o campo adversário, corre-se mesmo o risco de ganharem os movimentos que têm menos penetras.

Do lado do "Não" não falta estes penetras, desde o bispo de Viseu que disse que era capaz de votar sim a Marcelo Rebelo de Sousa que defende a despenalização quase até o dia do parto num malabarismo intelectual idiota para justificar o voto no não, para além do diácono de Alcobaça que vai passear a NS grávida, do diácono de Castelo de Vide que lançou uma fatwa contra os que votarem sim, ou o pároco que foi rezar pela vida no Terreiro do Paço, um local cheio de almas de pessoas assassinadas pela Igreja e o seu Santo Ofício.

Do lado do "Sim" também não faltam os penetras, com os deputados do BE a tentarem transformar o debate do referendo numa guerra privativa entre os seus deputados e a extrema-direita, ou uma senhora que aproveitou a apresentação do seu movimento para fazer interpretações da Bíblia.

São mais os votos decididos por intervenções desastrosas do que por opiniões fundamentadas, quem está a decidir este referendo são mesmo os penetras.

 
At 27 de janeiro de 2007 às 19:47, Anonymous JUM said...

Antes de mais devo esclarecer que uso a palavra aborto sem preconceitos, é-me indiferente que lhe chamem aborto, IVG ou mesmo o termo mais usado pelo povo que é desmancho.
Sou contra o aborto e quero que sejam feitos no menor número possível.
A realidade é que o aborto clandestino não só é um mal condenável como deve ser combatido com firmeza e neste momento o debate já não está entre a vida e a morte, o haver ou não abortos, o que os partidários do "Não" têm vindo a dizer é que o aceitam e não querem prender as mulheres, desde que seja mantido na clandestinidade.

Deixo aqui as dez razões que me levam a votar "Sim" no referendo:

1.Porque os partidários do “Não” estiveram tempo suficiente no poder para fazerem prova da sinceridade das suas propostas.

2.Porque as leis são para aplicar e se for mantida uma pena de prisão é essa que os juízes devem aplicar. A solução do “Nim” apenas serve para liberalizar o aborto clandestino.

3.Porque os custos psicológicos e físicos de um abordo clandestino, perseguido judicialmente e condenado socialmente são infinitamente maiores.

4.Porque se os custos do aborto clandestino forem todos contabilizados (custos administrativos da polícias e tribunais, custos do tratamentos no SNS, perdas de horas de trabalho, etc.) são superiores ao do legal.

5.Porque não me cabe a mim condenar uma decisão que à mulher diz respeito e muito menos impor as minhas convicções éticas ou religiosas não aceites pela generalidade da sociedade como padrão do direito penal.

6.Porque o aborto clandestino estimula a criminalidade e favorece a evasão fiscal. Admitir o aborto clandestino ao sugerir que se mantenha a lei e fechem os olhos é alimentar o mercado paralelo da saúde.

7.Porque desejo que o aborto clandestino seja combatido sem que as vítimas desse combate sejam as mesmas vítimas dessa má solução.

8.Porque considero que manter a lei à custa da sua ineficácia serve para estimular o aborto mantendo-o à margem da sociedade.

9.Porque é mais fácil tratar problema no SNS do que fazendo de conta que não existe. É mais fácil ajudar uma mulher atendendo-a no SNS do que mandando-a para a clandestinidade ou sugerindo-lhe que se dirija às instituições de caridade (onde muito dos partidários do “Não” usam para redimir os seus pecados).

10.Porque não quero que o meu voto seja uma sentença condenatória para mulheres que não tenho o direito de mandar para a prisão, e muito menos que essa prisão sirva apenas para meu conforto condenando pessoas que não conheço em função dos meus conceitos e preconceitos religiosos.
Quem sou eu para atirar a primeira pedra?

 
At 27 de janeiro de 2007 às 19:50, Anonymous Pedro Manuel said...

A posição de D. José POlicarpo naquela enfadonha entrevista à RTP1

Antes de mais quero declarar que adormeci três vezes a ver o anafadinho D. Policardo debitando lugares comuns, sem memória, trapalhão, redundante, esquecido, amplamente banal tentando fazer a quadratura do círculo.
Tentou fazer o pleno em matéria de Aborto: Sim, Não, Talvez, ou seja, o Nim.
D.Policarpo foi para a mesa com Judite de Sousa animado duma só ideia: não apartar a Igreja daqueles milhares que são pelo SIM ao Aborto só para não perder votos e fiéis no rebanho geral da Igreja. Não quis desgradar, por isso fez aquele contorcionismo em que a Igreja é milenarmente cínica e sabuja, dizendo que o Aborto é um recuo civilizacional mas, por outro lado, que é visível na sociedade portuguesa milhares de apoios ao Sim.
Mas cínica e até hipócrita foi aquela passagem em que disse que a Igreja não se envolveria directamente na campanha, e talvez por isso o Papa-frio e insolente que é este Bento XVI - não venha a Portugal, tal o seu desagrado pela nossa posição maioritária sobre o aborto.

Com a Igreja é assim: quando sabem antecipadamente que a vitória está assegurada o Papa vem ao encontro de Portugal e converte mais umas almas para o rebanho universal, quando os ventos sopram contra o Papa manda dizer ao Policarpo que naquela data o Bento XVI não tem agenda.

Depois uma outra coisa que me chocou e torna a Igreja numa organização velha, decadente, de gente gorda e sem energia que deveria imediatamente ceder o lugar a outros mais competentes e vigorosos: Sua santidade vai fazer 80 anos... E, alegadamente, por essa razão já não tem idade nem energia para viajar...
Ora porra para este argumento e mais para o D. Policarpo!!!
A Igreja, em inúmeros aspectos ainda é pior do que o Politburo ao tempo da Guerra Fria, em que os dirigentes comunistas tinham uma média de idade na casa dos 70 anos. Isto não é só mau para a Igreja, como é mau para o mundo.
Um mundo que pouco ou nada se revê nestes homens, nestas instituições e nas suas ideias decadentes, que parecem apontar para a sua barriguinha gorda e pançuda.
Já não é só o governo português que carece de urgentes reformas, mas também o Estado do Vaticano.

Ainda alguém um dia me haverá de explicar porque razão os padres ficam todos com aquela pança...
Há quem diga que não é só das gorduras que ingerem...

 
At 28 de janeiro de 2007 às 14:54, Anonymous JUM said...

UM TESTEMUNHO PELO "SIM"

Vindo do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim:

«Dezasseis anos depois, a voz de Alexandra (nome fictício) ainda fica embargada quando fala sobre aquela ida à Costa de Caparica. O ano de 1992 tinha entrado há menos de uma semana. Alexandra, 17 anos, estava desesperada com a gravidez indesejada, fruto de um namoro conturbado com um luso-francês de 24 anos. “Ele queria que eu fosse viver com ele para Paris”. Mas Alexandra tinha outros planos: acabar o liceu, entrar para a faculdade e estudar direito. O casamento era algo tão distante quanto a capital francesa.

Quando sentiu os primeiros enjoos ligou para Paris e contou ao namorado. “Ele confessou que tinha furado o preservativo. Disse-me que agora eu não tinha saída. Tinha que ir para França e casar com ele porque não admitia que eu matasse o filho dele”, recorda.

Aflita, Alexandra correu para casa. “Passou-me tudo pela cabeça, até cortar os pulsos”. A mãe, divorciada, estava na cozinha a fazer o jantar. “Contei-lhe o que se estava a passar e ela levou-me ao médico de família que nos recomendou uma parteira na margem sul”. Mais tarde, descobriu que o médico recebia uma comissão por cada mulher que abortava naquelas condições.»
In:Expresso

Dê-se conhecimento ao cardeal e ao diácono de Castelo de Vide, para os devidos efeitos.

 
At 28 de janeiro de 2007 às 15:05, Anonymous JER said...

Estamos todos de acordo
No debate do referendo chegou-se a uma unanimidade de opiniões, desde os mais fanáticos defensores do abordo até aos cristãos mais fundamentalistas todos concordam que a mulher que aborta não deve ser condenada, até vimos um bispo a dar cambalhotas para explicar que votaria sim se não fosse a forma como a pergunta está formalizada.
O problema deixou de ser a defesa da vida ou o défice orçamental, passou a ser uma questão gramatical. Talvez a suspensão do TLEBS venha a ajuda alguns dos mais fervorosos defensores do não a perceber melhor a pergunta.

 
At 28 de janeiro de 2007 às 22:21, Anonymous Daniel Oliveira said...

É sempre a mesma cantiga

O texto de Pacheco Pereira é o retrato do próprio Pacheco Pereira. Não tem bem posições, paira sobre as posições.
Não é uma Paula Teixeira da Cruz, que decide e bate-se por pelo o que decide.
Nem um (valha-me Deus) Rui Rio. Não.
Pacheco Pereira não tem causas políticas que o movam a não ser ele próprio.
Afasta-se de tudo e está em tudo ao mesmo tempo.
Não quer pagar o preço da independência, nem o preço do comprometimento.
Odeia a arrogância com arrogância, é mesquinho na vingança que mascara com frieza.
Pacheco Pereira não é um analista, não é um político, não é um independente, não é um militante.
Pacheco Pereira tem uma causa: a sobrevivência de Pacheco Pereira.

No seu blogue de professor primário de aldeia porta-se como em todo o lado: vive de uma provinciana arrogância fingindo que vê de alto só porque se põe em bicos de pés. Exibe a arte como um novo-rico exibe um quadro valioso.
Nem com ela se compromete.
Debita apenas.

O texto de Pacheco Pereira é um retrato de Pacheco Pereira.
Pacheco atira-se à campanha mas não a faz.
Atira-se ao "tom" da campanha mas nem se dá ao trabalho de explicar ao que se está a atirar realmente. Está a atirar-se a uma parte dos actores da campanha do “sim”.
Não aos seus argumentos, que neste referendo têm sido os mesmos no PSD, no PS ou no BE.
Apenas ao "tom".
Porque tem de ser.
Porque é o que sobra a Pacheco Pereira.
Ele precisa.
É estruturalmente sectário.

Pacheco Pereira acha que falta serenidade neste debate. Mas quando se quer moderar ou acalmar um debate dá-se argumentos moderados e ponderados. Não se grita "tenham calma!". Mas não espanta. Seja qual for o assunto o assunto de Pacheco Pereira é outro, porque nenhum de nós está bem a ver qual é o assunto. E no fundo o assunto é sempre Pacheco Pereira.

 
At 28 de janeiro de 2007 às 22:25, Anonymous Ricardo de Araújo Pereira said...

MANIFESTO PRÓ-PACHECO PEREIRA: Amaldiçoado seja o palerma que anda entretido a piratear o Abrupto – ou, se a maleita do blogue é devida a erro informático, maldito seja então esse amontoado defeituoso de zeros e uns. Que arda no Inferno a besta – humana ou cibernética – que ofereceu ao Pacheco Pereira a sua última glória: o martírio. Alguém quer calar o Pacheco Pereira. Porquê? Ninguém sabe. O Pacheco Pereira incomoda. Quem? Ninguém diz. Mas o bravo Pacheco Pereira persistiu, agarrado ao leme do blogue, e depois de tremer três vezes escreveu este post veemente. Veementemente escrito a negrito, para percebermos que o autor vocifera, e sublinhado a amarelo veementemente, para percebermos que o autor investe. Sobre quem? Ninguém percebe. Mas o leitor que não esteja preparado para tanta veemência em tão poucas linhas não deixará de se comover. Trata-se de um pequeno mas lancinante grito de insurreição em que a preposição “desde” (a mais insurrecta das preposições) é protagonista. “Desde o momento em que não sei quê”, principia Pacheco Pereira. Mas “desde o início da tarde que não sei que mais”, prossegue depois. Pelo meio recebeu mensagens de conforto, o que aproveita para agradecer “desde já”. No fim, a promessa que nenhum homem decente conseguirá ler sem que os olhos se lhe encham de água: “podem ter a certeza de que aconteça o que acontecer o Abrupto continuará. Não será por esta via que acabam com ele.” “Acabam”, diz ali. O sujeito permanece indeterminado, mas agora temos um plural. Eles. Ah, perniciosa matilha. Quem serão? Os comunistas, os socialistas, os próprios sociais-democratas? Os jornalistas, os informáticos, os benfiquistas? Os bombeiros, os travestis, os profissionais do sector dos lacticínios? Ninguém arrisca um palpite. E, de facto, que se saiba, o blog prossegue como dantes, de modo que não chegamos a perceber se é a mordaça que é reles e barata ou se é a boca do censurado que de modo nenhum se deixa amordaçar, tão forte é a verdade das suas palavras. Também pouco importa, que o mal está feito. Apetece sair para a rua e escrever nas paredes “Ninguém há-de calar a voz do Pacheco Pereira”. Perder o acesso ao Abrupto seria, para nós, pecadores do século XXI, perder o contacto com a santidade. Porque o Pacheco Pereira é uma espécie de Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, mas de âmbito mais alargado: observa todos os males do Mundo. E, assim como não há toxicodependentes no Observatório Europeu, também não há mal do Mundo que toque, sequer de raspão, em Pacheco Pereira. Há males nos blogues – mas não no de Pacheco Pereira. Há males na política – mas não na que Pacheco Pereira faz. Há males nos jornais – mas não nas páginas em que Pacheco Pereira escreve. Muito santo tem um homem de ser para passar impoluto num mundo tão indecente. E, no entanto, abre-se o blog do Pacheco Pereira e fica-se com o computador a cheirar a éter. O Pacheco Pereira é um desses semideuses de que fala o Álvaro de Campos no “Poema em Linha Recta”. Nunca levou porrada, nunca foi ridículo, nunca fez vergonhas financeiras. O Pacheco Pereira não se espanta, não se aleija, não tropeça, não duvida, não hesita, não ri. O Pacheco Pereira não faz um gesto que não o enobreça, não tem um prazer que não o edifique, não cede a um vício que não seja, vendo bem, uma virtude.
O Pacheco Pereira nunca escreve com as mãos sujas.
O Pacheco Pereira é um homem carregado de sentido.
Eu gostaria de adquirir uma viatura em segunda mão ao Pacheco Pereira.
O Pacheco Pereira cheira magnificamente da boca.
O Pacheco Pereira nu é belíssimo.
O Pacheco Pereira é de tal forma superlativo que já merecia ser elogiado no Abrupto pelo Pacheco Pereira.
O Pacheco Pereira publica opiniões de leitores: uns gostam imenso do que o Pacheco Pereira escreve; outros gostam ainda um pouco mais.
O Pacheco Pereira propõe discussões que normalmente envolvem a elaboração de listas. E os leitores discutem e elaboram.
De manhã, à hora a que a generalidade dos homens está a fazer a barba, o Pacheco Pereira está a pendurar poemas no blogue. E pendura-os com a mesma burocracia nos gestos com que os outros homens fazem a barba. Os homens não fazem comentários à barba e o Pacheco Pereira também não comenta os poemas. Os homens não se emocionam com a cara escanhoada e o Pacheco Pereira também não se emociona com os versos. Deus livre o Pacheco Pereira de ser tomado por uma das emoções humanas. O Pacheco Pereira exibe poemas como aqueles senhores, na rua, exibem os genitais. Abre a gabardina e mostra um soneto. Baixa as calças e revela uma ode.
Os poemas são escolhidos pelo Pacheco Pereira, mas há quem diga que podiam ser escolhidos por uma máquina, sem diferenças no resultado final. Sinceramente, duvido. Não creio que a máquina conseguisse escolhê-los tão automaticamente.

 

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