quinta-feira, 24 de abril de 2008

25 DE ABRIL


Baptista-Bastos chamou-lhe um predador com asas de anjo, um ser cada vez mais raro. E Joaquim Letria assinala-lhe a franqueza de quem nunca foi hipócrita e é sensível às coisas importantes da vida. Os amigos, todos eles, e até os inimigos, sabem que é verdade. Nasceu em Lubango, Angola, cresceu no Alentejo, e viveu a maior parte da vida no Parque Mayer, cujos segredos conhece como poucos. Antifascista irredutível, militante do sarcasmo e heterossexual assumido, habituou-se a praticar o humor e o amor com igual intensidade e o mesmo empenhamento.
Quando, no início dos anos 70, alguns autores tentaram uma renovação do teatro de revista, ele lá estava: É o fim da macacada, primeiro, É Pró Menino e Prá Menina e Tudo a Nu, logo a seguir, foram pedradas no charco da produção teatral desse tempo. Mas, antes e depois disso, as aventuras deste pintor anarco-surrealista decilitrante e indomável foram todas as que possam imaginar-se: lavou pratos na Holanda, foi bolseiro de Beatriz Costa na Academia Grande Chaumière de Paris e pauliteiro de Miranda em digressão pela Turquia, praticou a coreografia do amor de todas as maneiras e nos lugares mais impróprios, meteu-se em brigas – sempre atento e frontal como já não se usa.

O que se segue é uma conversa ao sabor da brisa da noite, numa esplanada de Lisboa, em que o mote abrilista acabou por ser apenas o ponto de partida para uma pequena acção guerrilheira. Uma punitiva, das antigas, que o Mário Alberto não pede licença a ninguém para dizer o que lhe vai na alma, e não é um homem fácil: fala em tons fortes e não teme ser excessivo como os personagens dos seus quadros. Exagera?
Talvez, mas o exagero não é senão uma forma eficaz de realçar a verdade, que é o alimento e a essência da sátira – como explica outro grande mestre do humor, José Vilhena.

Não se espantem, pois, com as respostas eventualmente chocantes da cavaqueira que se segue.

À cautela, e para evitar eventuais danos pelos quais o autor não se responsabiliza, os mais respeitadores da moral de Abril e dos bons costumes de Novembro deverão passar adiante e fazer de conta que não está aqui ninguém...




Ainda te lembras do 25 de Abril?




– Então não lembro? Foi o dia mais feliz da minha vida!

E de que é que te lembras mais?


– Eh pá!, tenho saudades daquelas coisas todas com que nós sonhamos, e que se frustaram...

O que é que foi o 25 de Abril para ti?


– Foi uma grande esperança, um grande triunfo da esquerda, dos gajos como nós, que sempre estivemos na oposição. Mas agora o 25 de Abril é uma coisa amorfa, uma tristeza...

E por onde é que ele anda?


– Eu acho que está na gaveta, segundo a versão de um político do PS, que foi Presidente da República...

Esse foi o dr. Mário Soares e o que ele meteu na gaveta foi o socialismo...


– Meteu o socialismo e o 25 de Abril. Era uma época diferente, havia o Carlucci, um revolucionário americano que estava aqui exilado. Ri-te, ri-te...

Isto está a dar para o torto, já percebi...


– Eu acho que isto está a dar para o direito. Isto é muito engraçado: o professor Freitas do Amaral, correlegionário do Dr. Oliveira Salazar, hoje é um tipo da extrema-esquerda. Isto é o país real, pá! O 25 de Abril... Eu digo-te, agora acho graça. Eu acreditei, e fui um privilegiado. Apareceu o 25 de Abril e gozei, uns dias... Mas agora...

Foi um sonho lindo que acabou?

– Exactamente. Foi um sonho lindo, como dizia o meu admirado José Mário Branco, homem de grande talento. O Zeca Afonso, hoje, se fosse vivo também estava muito triste. Quem mais é que podia ficar triste? A Natália não, isso era uma burlona, uma aldrabona... Depois diziam que era poetisa. Uma aldrabona, pronto. Poeta era o patrício dela, lá o açoriano, das palavras, o professor...


Vitorino Nemésio...

– Sim. Era um homem que ninguém sabia se era católico, se era de esquerda... Católico parece que sim. Agora isto está uma pouca-vergonha. Oh, Viriato!, isto agora só lá vai agora com banhos de semicúpios... Ou com pachos de borato de sódio nos colhões: colhão da esquerda, colhão da direita, vira para a esquerda, vira para a direita... Eh, pá!, isto é a realidade política!



Isso quer dizer que estás desencantado?

– Porra, se estou! Isto foi muito grave, o que se passou! A gente estava à espera, e depois o Otelo... O grande gajo da revolução – chamemos-lhe revolução – foi o Salgueiro Maia, o outro é um charlatão, fez-se prender para ser herói, estás a perceber? Isto está muito mau, acredita! Tu és muito novo, não te dou conselhos, mas hás-de chegar a uma conclusão, daqui por mais dez anos que isto foi uma grande vigarice, o 25 de Abril foi uma grande burla. Olha, tem uma coisa boa: o restaurante lá em cima, no Bairro Alto, a Associação 25 de Abril...

Quando tu dizes que o 25 de Abril foi uma burla, vamos lá a ver: o 25 de Abril foi um movimento de libertação...

– Eh pá!, de libertação relativa… Acabaram as guerras coloniais, isso tudo. Mas depois… Isto fez jeito à América, ao Salazar...

O Salazar já tinha morrido...

– Pois, é defunto, mas o espírito dele ainda anda por aqui. Pergunta ao Marcelo Rebelo de Sousa se não anda. O rival do Santana Lopes. Comentaristas...

Comentaristas sérios, não é?

– Patuscos...

No 25 de Abril, tu ainda não tinhas cinquenta anos...

– Sim, para aí...

E entretanto viveste mais trinta, como todos nós. Disso tudo, o que é que ficou?

– Pouca coisa. Vou-te explicar: ficou o triunfo do futebol, dos treinadores, dos balúrdios. O que é que ficou mais? A censura já existe outra vez na imprensa... O que é que ficou mais? Um parlamento amorfo... Olha, é um parlamento que o Camilo Castelo Branco chegava lá e desancava aquilo tudo à paulada! O que é que ficou? Pouca coisa, pá...

Mas houve uma mudança de mentalidades, apesar de tudo, ou não?

– Havia mentalidades que eram de direita e de repente diziam-se da esquerda...

Tu foste sempre um libertário, um tipo fora das normas instituídas.

– Procurei estar sempre.

E, naturalmente, isso reflectiu-se na tua vida pessoal...

– Em relação ao trabalho, por exemplo: eu abandonei o teatro com fortes razões. Evidentemente que o 25 de Abril acabou com a censura, já foi uma grande benesse. Eu tive quadros em revistas do Parque Mayer – não fiz só Parque Mayer, fiz teatro universitário, fiz teatro amador – e a censura cortava, por dá cá aquela palha cortava. Portanto, claro que ganhámos uma liberdade, mas também ganhámos muita estupidez, sabes o que é? Eu vou dar-te um exemplo, deixa-me pensar para não dizer disparates. A televisão, no estado em que está não é melhor nem pior do que a que havia. Uns concursos miseráveis, os mesmos gajos que manobram os concursos, aquela mulher – esqueço-me do nome dela – que faz interrogatórios aos presos que saem da prisão, deves saber como se chama: teve um programa em que entrevistava os presos, tratam-na também por doutora...

A Júlia Pinheiro?

– Essa, a Júlia Pinheiro. O 25 de Abril também dá Julias Pinheiros, dá Teresas Guilhermes, quem mais?

Mas também há coisas positivas, ou não?

– Há, isso há. Olha, há um gajo bom, que escreve bem, é um cronista notável... Um gajo que é do Porto, e doente do Futebol Clube do Porto...

O Miguel Sousa Tavares?

– Sim. É um gajo bom, a gente vê o que ele escreve, vale a pena ler. A sério, é um tipo com tomates. Depois, o que é que há mais? O Partido Comunista, que eu apoio – não sou militante, mas apoio – está muito amorfo. Quer dizer, não é carne nem é peixe, estão para ali...

Queres tu dizer na tua que o país ficou cinzento…

– Cinzento escuro. Muito escuro!

E pode mudar de cor?

– Acho muito difícil, a América não o deixa mudar de cor. Tu vês as cores que há na América Latina, os americanos é que mudaram a cor àquilo, eles põem a cor que querem, são uns cabrões! Tu sabes o que é ferrar vacas e bois? Eles põem as estrelinhas da Cat'rina, e está tudo fodido! É verdade! O que se tinha que fazer aqui era, primeiro que tudo, acabar com a América. Não é a América dos índios, percebes tu?, não é a América do partido comunista americano, que existe. Mas a América à maneira do Carlucci, do chewing-gum, das Madonnas... A América ia p'rò caralho, toda! Um tremor de terra na América...

Mesmo depois do 11 de Setembro?

– O 11 de Setembro foi uma brincadeira... Eu estava na Figueira da Foz, com um amigo meu e teu, o António Macêdo. Estávamos em casa do Lucas Serra, um apartamento que ele nos cedeu, e estávamos ali a preparar um almoço, uns carapaus de escabeche. E o filho do Macêdo telefonou, pai, pai, liga a televisão. Ainda vimos aqueles bombardeamentos, foi uma alegria! Mas foi pouco. Eu acho que a América devia ser toda bombardeada de baixo para cima, de cima para baixo... Norte, Sul, Este e Oeste, tudo!

Mas, coitados, os americanos não têm culpa...

– Têm. Têm culpa porque são americanos. E só é americano quem quer. Eu sou de Angola. Tu és americano?

– Não...

– Tu és de Ílhavo, a terra do Castrim. Porra!, e eu sou de Angola, eu nunca quis ser americano. Só é americano quem quer.

Achas que os americanos querem ser americanos?

– Querem. Eles são doidos, têm borbulhas na cara... Casam virgens, aqueles filhos-da-puta, estás a perceber? É um país idiota, analfabeto. Ora, quem tens tu de jeito na América? Os não americanos. Os grandes realizadores de cinema não eram americanos. Americano, naturalizado, foi aquele filho-de-puta, o Elia Kazan, que denunciou a esquerda americana, lembras-te? Eu acho que a América era para experiências nucleares. Com crianças e tudo. E tu dirás: ah, mas se há guerra as crianças morrem. Pois, mas então não se fazem guerras. Eu acho que se fazem as guerras até para matar crianças...

Aliás, estão a morrer no Iraque...

– Aí é que já fico muito perturbado... Quem está a matar as crianças no Iraque é o sacana do imperialismo americano. Isso é que já me faz dor de dentes...

Voltemos ao nosso 25 de Abril: o que é que faltou?

– Faltou um acordo, penso eu. O Partido Socialista foi inventado à pressão pelo Willy Brandt e pelo Mário Soares, que ficaram impressionados pela única força concorrente e organizada, que era o Partido Comunista Português... Faltou uma unidade que não houve. Depois seguimos os piores exemplos, até nos slogans – El pueblo unido jamas será vencido – de revoluções falhadas, como a do Chile. E havia aí uns gajos que em vez de gritarem unidade, unidade, diziam humidade, humidade... Tu, que és um tipo muito mais novo do que eu, deves ficar um bocado desiludido com estas minhas atitudes. Mas isto é verdade. E mais tarde chegas lá, tu és um gajo duma esquerda progressista...

Mas, vamos lá a ver, nem tudo é assim tão mau...

– Não, há gente que eu admiro muito: olha, ao nível do cancioneiro, por exemplo, gosto muito do Fausto, do Zé Mário Branco, do Sérgio... Do Zeca então nem se fala.

Mas há mais...

– Deixa cá ver... Depois, de mulheres, já viste?, é só merda! Há aí uma Não-sei-quê Veiga, uma gaja roufenha, que não sabe cantar, é uma desgraça! Olha, pronto, é o país real... Eu acho que este país está a precisar de uma chuva de merda, mas não é merda raleira, é uma coisa que rompesse guarda-chuvas, volumétrica...

Isso é uma grande merda!

– Tu brincas, Viriato, porque ainda és um optimista. Tens fé, esperança e caridade, mas eu não.

Não estás optimista...

– Não. Só à bomba! Até o Alentejo está morto. Está podre como as espigas de trigo, as papoilas saltitantes que o Piçarra cantava, foi o hino do Glorioso. O que é que a gente há-de dizer mais disto? Isto é um país que só lá vai à pedrada!

Em todo o caso estás disponível para outro 25 de Abril?

– Ah! Mas desta vez era a sério. Eu juro-te uma coisa: eu não sei nada de armas, mas agora, se me dessem uma, ia logo à caça dos malandros. Palavra de honra! Ia à caça desses gajos, pá! E ainda pode haver um outro 25 de Abril...

Achas que sim?

– Começa a haver fome, não há habitação, o serviço hospitalar é uma merda, como tu sabes. Se amanhã tens uma gripe, vais ao hospital e dão-te uma aspirina; mas depois apanhas uma pneumonia e estás fodido, já tens que ir aos tubarões! Uma cáfila! Salazaristas. O que é que a gente pode dizer mais deste país?

Perdeu-se a esperança?

– A esperança, a fé e a caridade. Olha o Benfica: ser benfiquista é ser bom chefe de família. Eu acho que isso não está a resultar muito. O Sporting também tem a mesma filosofia...

Se calhar até o Porto...

– E o Porto, pois. Mas o Porto é uma instituição, porra! Eu acho que o dr. Pinto da Costa é que dava um bom Presidente da República. Depois do mandato do... Como é que ele se chama?

Sampaio. Jorge Sampaio.

– Eu acho que o sucessor dele, mas assim já numa linha mais progressista, era o Pinto da Costa.

Portanto votavas no Pinto da Costa...

– Eu já voto. Quando vou votar, de quatro em quatro anos, eu escrevo lá Pinto da Costa. É um voto inútil, mas merecido. O Pinto da Costa é o grande descobridor, um cientista... Depois dele, há um outro rapaz no desporto que fala muito bem, o Octávio, um gajo de Palmela: um português muito civilizado, nada agressivo... De quem é que a gente pode falar mais?

Viriato Teles
In: Contas à Vida

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5 Comments:

At 25 de abril de 2008 às 18:00, Anonymous JAM said...

Ontem não comentalizei os meus sentimentos neste blogue, dado que as minhas obrigações de funcionário público me obrigaram a aturar as memórias sessentonas de um antigo director-geral que ainda pensa que vai ser ministro, perante o reverencialismo graxista de uma fileira de carreiristas à espera de promoção. Daí que não pudesse preparar as minhas comemorações do 25-A que passariam por uma reflexão sobre os falecimentos de dois protagonistas do nosso último meio século, o cónego Melo e o Francisco Martins Rodrigues, dois tipos de fibra, entre o tudo e o seu nada, que bem representam as nossas duas faces da Maria da Fonte.

Por isso é que, perante a aparição de Otelo Saraiva de Carvalho na RTP, fiquei agarrado à nossa "folle du logis" e quase encantado por aquele velhote de quem sempre me senti adversário. Porque, parafraseando uma clássica frase de Xico Martins Rodrigues, segundo a qual um bom revolucionário nunca pode ser um bom humanista, Otelo, com aquele estilo de gajo porreiro nunca poderia ser Fidel de Castro e mandar-me fuzilar se tivesse vencido o 25 de Novembro, contra Eanes e Melo Antunes. Ora, como estes também sabiam prezar a camaradagem e a amizade, foi desse sincrético, mais humanista do que revolucionário, que o nosso regime paradoxal foi felizmente delineado.

Por isso gostei ontem de ver a Ana Drago, a assumir-se como aluna do Boaventura Sousa Santos, tal como achei bem esgalhada a intervenção do Nuno Melo. Já os representantes do PCP e do PS no programa perderam quando se vestiram de aparelhísticos, ao serviço do respectivo politicamente correcto, enquanto o Marco António do PSD teve a intuição de praticar o espírito do 25 de Abril e do 25 de Novembro, especialmente quando comunicou que a respectiva faceta do menezismo mantinha o espírito PPD e se assumia contra Santana Lopes, preferindo Pedro Passos Coelho.

Infelizmente, ao ler os jornais do dia, passo os olhos pela intervenção de um operacional das espionagens caseiras e ibéricas e, como um dos conhecedores dos meandros desse falso científico, prefiro recordar como, ainda há uns anos, nessas mesmas salas, se recebia o Francisco Martins Rodrigues, com a minha presença moderadora. Daí que tenha decido comemorar hoje o 25 de Abril, no silêncio das minhas reflexões. Vou reler as memórias do meu querido amigo António César Gouveia de Oliveira (1941-1997), Os Anos Decisivos. Portugal 1962-1985. Um Testemunho, Lisboa, Editorial Presença, 1993.

Porque aí volta este país de sol a rodos, quando as sementes de inverno já iam crescendo. Aí permanece a luz deste nosso lugar comum, feito daquele penseé du midi a que se referia por Albert Camus. O tal Sul da Europa onde não entram as névoas do norte, a tal luz e sombra que nunca se deu bem com a penumbra dos calculistas.

Esta luz voltada para o Atlântico, que vai pelo Atlântico a caminho do Sul e que também se não confunde com o mediterrânico sentimento. Algo que tem o seu epicentro naquela linha que vai além do trópico e da Taprobana, nesse meridiano que os portugueses semearam nos corpos da saudade, entre a guerra e a paz.

Só que, para sermos inteiros, nesta procura, temos, de vez em quando, que peregrinar as raízes da Beira. Ir ao profundo interior dos planaltos, refrescar-nos nos castanheiros e nas cerejeiras, ir à nascente dos rios, aos glaciares antigos, subir às serras e recordar-nos dos míticos pastores que nos deram impulso.

E aí, nesses pequenos riachos da invernia, por entre as pedras, nesse mais alto que nos faz ir por dentro de quem somos. Nesses riachos que descem das oliveiras paras as águas de rios que nos dão mar. Nessas terras pontuada de pedras, com o nevoeiro lá em cima. E peregrinando tempo fora, tempo dentro, chegamos sempre à nossa serra-mãe, a essas pedras escuras de xisto castanho e oliveiras antiquíssimas, às pequenas leiras no fundo dos vales, com árvores correndo em desfilada, na contramão.

Tal como o César, também eu chamo provinciano a outras coisas, como ao falso urbanismo de província, a essa cópia feia de outros urbanos exóticos que procura desajeitadamente sair do rural, agredindo a província profunda que o cerca, mas da qual parece ter vergonha.

São tão provincianos como os novos politicamente correctos, pensados pelos que lêem semanários de fim-de-semana em vez de jornais desportivos. Provincianos são os tiques escleróticos do medo que se opõe ao contramedo, esse fundo salazarento em que assenta o facciosismo, de muitos ares de idiota pendurados num cabide de fatos elegantes, este país instalado, de castas orgânicas empedernidas que continua a querer manter-nos numa espécie de prisão.

Tenho pena que César não chegasse a emitir o necessário manifesto anti-Dantas, capaz de proclamar revolta. Tenho pena que não pudesse ter seguido até ao fim o seu próprio fim, como transparece nalguns papéis de cumplicidade que destruiu ou naquela conversa que me contou do africano que à beira de um desesperante Tejo lhe deu alento, partilhando com ele um pedaço de pão e aconselhando-o a olhar de frente a vida, para além da morte. Apenas vos convoco para que releiam Os Anos Decisivos, num rompante, notando como nele continuam desfraldadas as bandeiras vermelhas do ser do contra e as angústias quanto à procura do ser cultural português. Aí César permanece vivo, nesse lado humano assente na permanecente raiz rural, onde ainda nos comovem as descrições que faz do tempo de guerra e da morte de um filho.

Os beirões são assim: não deixam de ser o mesmo, apesar de passarem a professores, perdidos em bibliotecas ou emitindo aulas. E em César há um português que permanece, e que faz da pátria uma federação de amigos. Obrigado pelo teu exemplo. Tentarei cumprir fidelidade. Até sempre e para sempre.

 
At 25 de abril de 2008 às 18:02, Anonymous J.E.R. said...

Passados 34 anos desde o 25 de Abril de 1974 os portugueses não só ainda não se entenderam com esta data da sua história, como não lhe deram a devida projecção porque preferem considerá-la como o ponto de partida ou o fim dos seus projectos. Uma boa parte da direita ainda não se recompôs da necessidade de ter ido a eleições de vez em quando, a esquerda persiste em considerar que o 25 de Abril é um momento indissociável do seu projecto político.

A esquerda que foi apanhada de surpresa pelos acontecimentos tem dificuldade em perceber que o 25 não foi o resultado de uma luta de décadas desta ou daquela organização política. A direita foi surpreendida e de repente achou que tudo poderia ter sido de outra forma, quando nada fez para que assim fosse.

Hoje alguns vão festejar tentando fazer crer que o 25 de Abril genuíno foi o dos acontecimentos que se lhe seguiram, outros, como um conhecido blogger, sentem-se mal na cidade e dizem que vão o mais longe possível, para junto da fronteira, talvez porque sinta o conforto da memória do franquismo, uma das ditaduras mais assassinas da história da Europa, talvez a memória dos bombardeamentos de Guernika os façam sentir bem com a sua consciência política.

É preciso libertar o 25 de Abril de quem não é capaz de perceber a sua dimensão universal, a grandeza de um movimento que teve a grandeza de perdoar aos facínoras do regime derrubado ou a sua importância na história da humanidade. O 25 de Abril é muito mais do que o das gaivotas de Vasco Gonçalves ou das atoardas idiotas do major Saraiva de Carvalho, é tudo isso e muito mais, é tudo o que se fez e o que ficou por fazer, foi um processo em que um povo se embebedou com a liberdade e construiu uma democracia. Talvez não seja perfeita, talvez os seus protagonistas posteriores não tenham sido os melhores, mas é uma democracia que nos orgulha enquanto povo.

Uma democracia que levou Chico Buarque a pedir-nos que lhe mandássemos um cheirinho de alecrim para um Brasil a viver em ditadura, uma democracia que ajudou a vencer o franquismo, uma democracia que ajudou a libertar uma boa parte de África.

É preciso libertar o 25 de Abril das nossas incapacidades, da tentativa de o converter em num chavismo europeu ou de aprisionar a projectos políticos que foram ultrapassados pelos acontecimentos de Abril e, mais tarde, pela própria história. É preciso que o 25 de Abril seja de todos os portugueses para que um dia seja de todos os europeus ou de todos os africanos, porque nessa data começou a sua liberdade.

 
At 25 de abril de 2008 às 18:08, Anonymous M. said...

Que há para festejar?...
Quando o Jardim se perfila como rei do PSD e os comentadores oficiais aceitam a aberração como normal e natural.
Quando o abjecto Santana é a alternativa, em oposição à Ferreira Leite.
Quando o Governo dito "Socialista" se posiciona, no entender de insuspeitos peritos, na extrema-direita dos partidos portugueses.
Quando a televisão apresenta o Dr. Mário Soares como "vítima" do fascismo e "obreiro" da queda do fascismo.

Quando a mentira substitui a história, quando o socialismo serve de cobertura a um governo de extrema-direita, quando somos espoliados dos nossos direitos sociais mais básicos, sem mandato nem compensação, quando somos tratados como consumidores acéfalos da porcaria que os enriquece, quando as crianças da Casa Pia continuam sem justiça e o "ballet rosa" rodopia, quando a corrupção e o tráfico de influencias se tornaram coisa "normal" e acima da lei, quando o estado de direito se afunda sob carradas de legislação inútil e falaciosa... que há para festejar?

Foi para isto, a revolução?

Durante todo o ano, "respeitáveis" cidadãos de TODAS as orientações políticas, pactuam "democraticamente" com o regresso ao antigamente, degradam os valores sociais que são fundamento da cidadania, praticam a desumanidade, descem ao nível dos animais, manipulam as corporações para transformar o crime em normalidade, para atingir os seus reles objectivos pessoais, para matar Abril.

É vê-los agora, de braço no ar, a atirar foguetes, a proclamar a liberdade, a fraternidade e o fim do fascismo.

É a festa do Cinismo e da Mentira!

 
At 25 de abril de 2008 às 18:10, Anonymous P.S. said...

Já que fala nisso
Cavaco Silva foi hoje ao Parlamento criticar a qualidade da democracia e o alheamento dos jovens pela política, resultando na "indiferença que muitos jovens têm pelo futuro do seu País”. Curioso. Da última vez que reparei, o Presidente da República tinha acabado de chegar da Madeira, onde elogiou o trabalho de Alberto João Jardim, e era contra a realização do referendo ao Tratado de Lisboa, questionando o conhecimento de causa dos cidadãos para decidir o seu futuro.

 
At 27 de abril de 2008 às 22:03, Anonymous J.M.M. said...

Devo ao MFA - Movimento das Forças Armadas - não ter ido combater em África.

O 25 de Abril de 1974 apanhou-me quase a fazer 17 anos.

Se não fosse a Revolução eu teria ido para os Fuzileiros ou para a Força Aérea, voluntário.

Seguiria os passos do meu querido irmão que em 1962, com 17 anos foi voluntário para as Forças Armadas .

Aos 20 anos já ele estava a combater em Angola.

Eu teria ido . Era assim na minha família. Orgulhosos do Império Colonial não fugiria. E era tão fácil fugir, porque o meu irmão depois de cumprir o Serviço Militar emigrou para França em 1970, onde está agora sepultado.

Mas ainda bem que houve o 25 de Abril de 1974. Era inevitável a descolonização.Salazar sabia-o. Marcelo Caetano sabia-o.

A França perdera a Argélia, as outras colónias dos grandes países europeus foram adquirindo a Independência. As nossas também seguiriam o mesmo caminho.

É a história.

Agora que conheço África, sinto com mais força a grandeza histórica de Portugal.

E a felicidade que é visitar as antigas colónias, de ver bocados enormes de Portugal que ali ficaram e que nos unirão sempre. Na paz, na liberdade, na cooperação e na amizade entre Povos que estão ligados por valores, por tradições, e onde somos extraordinariamente bem tratados.

Foi bom. Nunca esquecei quando em 1965 fui "levar" o meu irmão ao cais da Rocha de Conde de Óbidos para embarcar no Vera Cruz.

Foram dois anos de sofrimento enorme, de medo de perder o meu irmão. Dois anos de tristezas, de sobressaltos, de medo enorme. Dois anos durante os quais foram chegando à minha terra, caixões com amigos do meu irmão mortos em combate, outros paralíticos por rebentamento de minas.

Bem hajam os militares de Abril.

 

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