quarta-feira, 16 de abril de 2008

LIBERDADE SEM MEDO

Ainda tive a remota esperança de que o episódio do telemóvel na Escola Carolina Micaelis levasse as escolas a adoptar a atitude inteligente de depositar no caixote do lixo os seus extensos regulamentos internos. Até porque devia estar vedada a profissão de professor a todas as pessoas que precisassem de ler um regulamento interno para saber quais os direitos e deveres de professores, alunos e funcionários.

Agora o que eu nunca esperei é que se proibissem os alunos de levar o telemóvel para a sala de aula. Mas como dizia Einstein, só há no mundo duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana.

Seguindo o mesmo raciocínio, provavelmente não tardará muito que se comece a defender nas nossas escolas que os alunos sejam algemados às carteiras para não se levantaram sem autorização do professor ou que lhes sejam colocadas uma palas no rosto para não olharem para o lado.

Atribuir a culpa ao telemóvel é não perceber a causa do problema. Fui professor durante vinte e cinco anos. Nunca proibi nenhum aluno de levar telemóveis para a sala de aula, nunca fiz uma participação disciplinar de um aluno e nunca nenhum aluno me faltou ao respeito.

Tenho 1,92 m de altura, sou cinturão negro de karaté, castanho de judo e fui 1º classificado do curso de oficiais milicianos. Ou seja, tenho autoridade. Porque a autoridade não é nada mais nada menos do que ter meios para impor, se necessário for pela força, a ordem na sala de aula. Isto é que é autoridade. E porque os alunos reconheciam que eu tinha meios para impor a ordem, sempre me respeitaram sem que eu tivesse alguma vez tido necessidade de recorrer à força.

É óbvio que uma pessoa de sessenta anos, com 1,60m de altura e 50 Kg de peso também tem o direito a ser professora e de ser respeitada. Mas os alunos têm de saber que aquela mulher também tem meios para impor, se necessário for pela força, a ordem na sala de aula. Só que eles sabem que ela não tem e que se se virarem a ela não há ninguém na escola, professor ou funcionário, que a socorra. Este é que é o problema.

A escola, infelizmente, reflecte hoje uma sociedade cada vez mais refém dos gangs, dos marginais e das máfias, onde ao cidadão cumpridor apenas lhe resta comer e calar. Mas a escola também não pode ter por modelo os regimes autoritários. Só as ditaduras têm medo das novas tecnologias. Pior do que permitir a entrada dos telemóveis na sala de aula é proibir a sua entrada.

A sala de aula deve ser um espaço democrático de liberdade e respeito mútuo. É importante, por isso, que as regras na sala de aula sejam negociadas entre o professor e os alunos e em cada disciplina (as pessoas são diferentes e os alunos têm de se habituar a viver num mundo assim). Mas não basta, obviamente, que os alunos participem na fixação das regras, é necessário, depois, que o professor disponha de meios para as poder impor a quem não as queira cumprir. Ou seja, as regras podem ser negociadas, mas o seu cumprimento já não.

Não sou favorável, obviamente, a que se bata nos alunos. Mas, em situações extremas, sobretudo no ensino básico, não se pode excluir isso até para evitar que os alunos sejam sovados pelos seus colegas. Aliás, o próprio A.S. Neil, defensor das pedagogias não directivas, defendia que a palmada na hora certa era a melhor solução e a que causava menos traumas aos alunos.

Veja-se o caminho onde isto nos está a levar: proibiu-se a bofetada preventiva, porque traumatizava os alunos, e agora tratam-nos como se fossem criminosos, entregando-os e denunciando-os no Ministério Público… Isto, pelos vistos, já não é traumatizante. Hipócritas!

Mais importante do que a autoridade física, é, no entanto, a autoridade moral.

Como pode um país indignar-se com o facto de um aluno não desligar o telemóvel na sala de aula quando, em reuniões de notas, na missa, em conferências e acções de formação, professores, juízes, advogados, médicos, etc. atendem os seus telemóveis, apesar de saberem que os devem ter desligados?

E como pode uma escola castigar um aluno que filmou aquela autêntica palhaçada quando os telejornais exibem todas as noites gravações de teor idêntico para denunciar crimes, guerras, violência (doméstica, na sala de aula, etc), acontecimentos escandalosos ou polémicos, transformando em heróis os repórteres que têm a ousadia de registar o momento?

Sem esquecer que aquela gravação, quer se queira, quer não, foi relevante para retratar e denunciar o estado degradante a que chegou o sistema de ensino em Portugal. E quem denuncia o que tem de ser denunciado não pode ser castigado
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REXISTIR

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2 Comments:

At 16 de abril de 2008 às 22:22, Anonymous J.P.G. said...

Condenada por la agresividad de su hijo
La Audiencia de Sevilla encuentra culpable a una madre por su “laxitud y tolerancia” a la actitud violenta de su vástago
EFE - Sevilla - 22/03/2008

La Audiencia de Sevilla ha condenado a una mujer a pagar 14.000 euros de multa por una agresión de su hijo en el Instituto de Secundaria en el que estudia. El tribunal considera que la “laxitud y tolerancia” de la mujer a la hora de educar al menor han motivado el comportamiento violento del adolescente.

La multa pagará el tratamiento para recomponer los dientes de otro menor, compañero de Instituto Castilla de Castilleja de la Cuesta, Sevilla. En el juicio, la mujer intentó desviar la responsabilidad hacia el centro educativo por no hacer “labores suficientes de vigilancia” de los alumnos, pero la sentencia estima que los adolescentes no necesitan una vigilancia tan rígida, sino que “la brutalidad e intensidad” de la agresión evidencian “una falta de inculcación o asimilación de educación y moderación de costumbrse en el agresor para la convivencia en valores”.

La Audiencia confirma así el primer fallo judicial que hablaba de una “incorrecta educación”, que los jueces equiparan a aquellas situaciones en las que los progenitores “permiten o no se preocupan de controlar que sus hijos no lleven al centro escolar objetos que puedan resultar en sí mismos peligrosos”.

El País

Isto é em Espanha. Por cá, neste baldio à beira mar esquecido, a mesma coisa faz-se de forma muito mais original e, por assim dizer, criativa: atira-se ao mensageiro. Descubra as diferenças

2008-04-11 21:06:25 DREN insurge-se contra uso público de vídeo de telemóveis
A Direcção Regional de Educação do Norte considera que as imagens exibidas por alguma imprensa são ilegais e violadoras da privacidade, pelo que fez uma queixa ao Ministério Público e à Entidade Reguladora da Comunicação Social.

RTP

Estas coisas custam-me a entender, confesso.

Os telemóveis, que tanto abespinham a DREN (ou, digamos, alguém que de momento fala pela DREN), tornaram-se uma ferramenta pedagógica indispensável; um único destes aparelhos faz mais, dentro de uma sala de aula, do que um gorila, três capangas ou, vá lá, não exageremos, uma unidade completa da Polícia de Choque. É este, de facto, o admirável mundo novo de que falava o velho Huxley, já antecipando de certa forma o futuro que outro velho, George Orwell, profetizou com amargura e pessimismo em “1984″. Afinal, pelo que vemos, o que nos tocou não foi nem a vidinha super-organizada e catita do primeiro, nem a sociedade programada debaixo do terror obsidiante do Grande Irmão, do segundo. Não, nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário, aquilo que temos é um engraçado misto de ambos os modelos: Orwell acertou na parte do Grande Irmão, mas falhou na programação; já o outro foi capaz de adivinhar com precisão o catitismo a que hoje em dia chegamos, mas espalhou-se ao comprido na mesma coisa, a maldita organização.

Portanto, como temos de viver com aquilo que temos, por mais que isso custe aos franco-pensadores do regime, o que sobra é uma coisa aborrecida a que se convencionou chamar “realidade”: a bandalheira total completamente vigiada ou, como dizem alguns mais realistas, o caos virtualmente controlado. Em suma, e há que aproveitar enquanto se pode, o que temos é uma sociedade que deixará para a posteridade todas as imagens e os registos mais completos das suas próprias decadência e anarquia.

É esta maravilha, é este prodígio de simbiose entre a evolução técnica e a mais completa estupidez, que pretendem liquidar à cabeça meia dúzia de pretensas sumidades, em especial as duas ou três ligadas ao chamado “fenómeno educativo” e mais especificamente a tal senhora da mencionada repartição pública. Onde já se viu, não é?

 
At 17 de abril de 2008 às 13:04, Anonymous Anónimo said...

Quanto a aprender judo e karaté poderemos todos tentar, agora em relação à altura, os saltos altos não ajudam nada e doutra forma não sei como é que o pessoal se vai safar.

 

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