quinta-feira, 25 de agosto de 2005

O FOGO E AS MÃOS

Fogos, fogos, fogos. Os incêndios que alumiam a nossa angústia desde que ligamos o televisor à hora dos telenoticiários pareceram, por uns dias, irem finalmente reduzir-se; mas logo reapareceram mal regressaram o calor, o vento, e como que um terceiro factor que não sabemos qual, que provavelmente nem sequer existe, mas que pressentimos como se estivesse lá, algures, emboscado. Quanto às estações de TV, bem sabemos todos que muitas vezes parecem gostar deles, dos incêndios, não apenas porque são matéria noticiosa em tempo de real ou suposta penúria de notícias, mas também porque as imagens dos fogos fazem um bonito efeito nos ecrãs, sobretudo se filmadas à noite e com os enquadramentos certos. Poderá supor-se que é injusto e excessivo escrever-se isto, que a TV gosta dos fogos. Mas o caso é que dificilmente se encontra explicação para a frequente imagem dos incêndios na noite, projectada por detrás do pivot dos noticiários, mesmo quando é evidente que aquela imagem não corresponde a qualquer incêndio que esteja a ser reportado em directo, mesmo quando de momento não está a acontecer nenhum incêndio com a dimensão que nos está a ser dada a ver, só como imagem/emblema do assunto que vem dominando a actualidade nacional. E é verdade que a imagem do fogo recortado na noite cumpre sempre o objectivo de emocionar o espectador, de exercer sobre ele um fascínio que se entrelaça com o sentido da tragédia que está a acontecer. Dizem alguns, parece que com sólidas razões, que aquelas imagens do fogo, poderosas, terríveis, fascinantes, podem desencadear em certas criaturas mecanismos psicológicos que desembocam em apetites pirómanos. Houve mesmo um apelo para alguma contenção, mas bem se sabe que isto das contenções que colidem com o interesse jornalístico, o dever de informar e o apetite das e pelas audiências, é uma questão muito difícil de gerir. Uma coisa é certa: as imagens aí têm estado todos os dias e todas as noites, e não está provado nenhum efeito de causa e efeito entre tais imagens e supostos pirómanos, pelo que no mínimo as imagens devem ser absolvidas por falta de provas. Registe-se apenas que a absolvição por falta de provas é um veredicto frequente quando a TV é ré ou arguida de prosseguir práticas nocivas. O caso mais frequentemente em debate é de provável nexo entre as diversas formas de violência na televisão e formação psicológica das gerações de que a TV ser tornou baby sitter. Mas tudo indica que esse caso, porventura exemplar, já transitou em julgado sem que dele tenha resultado nenhuma condenação, ainda que leve.

Dúvidas, sombras

Resta, no que aos fogos da floresta portuguesa diz respeito, um dado concreto que, de resto, não tem tido grande relevo no conjunto das informações que a televisão nos presta: haverá já umas dezenas de indivíduos condenados pelo crime de fogo posto, outras dezenas arguidos pelo mesmo motivo e sujeitos a medidas de coacção diversas. Deixemos estes últimos, já que os seus processos se encontram em curso e provavelmente vão demorar uns tempos, e falemos dos já condenados, isto é, daqueles cujo crime se provou. A pergunta que quanto a estes me apetece fazer, e não será esta uma apetência só minha, é se foram apuradas as razões, os motivos, os eventuais estímulos, que desembocaram no acto criminoso. Da minha profunda ignorância que será a da generalidade das gentes, imagino que em muitos casos terá havido perturbação mental. Mas, inevitavelmente, imagino também outras coisas, que nisto de imaginar todos podemos ser abastados. Assim, imagino que alguns, não sei se muitos se poucos, podem ter posto fogo a matas e bosques a mando de terceiros. E, chegado aqui, pergunto-me naturalmente se esses terceiros foram identificados, se pelo menos se sabe o que os levou à prática incendiária por mãos alheias. É sabido que por aí se murmura, talvez injustamente, de negociatas, aliás de diversas áreas. Talvez seja apenas má-língua, talvez não; talvez seja o sentimento difuso de que desgraças tamanhas hão-de ter raízes não-insignificantes. Mas, de qualquer modo, não posso impedir-me de pensar que a TV, e é claro que não apenas ela, devia pelo menos esforçar-se por dar alguma resposta a estas dúvidas. Não há sequer indícios de que o faça. E, porque é assim, parece-me por vezes que as imagens dos fogos adquirem aspectos ainda mais sinistros, projectam sombras ainda mais inquietantes. Imaginação minha, já se vê. Mas bem se sabe que por vezes as sabedorias começam pela imaginação.


Correia da Fonseca

3 Comments:

At 25 de agosto de 2005 às 15:15, Anonymous Fernando Sobral said...

Portugal parece, cada vez mais, uma mercearia decadente.
É gerido, dia após dia, em busca de dinheiro para pagar as contas. Busca receitas extraordinárias como se fossem oxigénio extra para que a sobrevivência seja garantida.
Somos um país curioso.
Vivemos amarrados por uma burocracia que destrói qualquer tentativa de criar ou inovar.
Temos leis feitas para não serem cumpridas. O que importa, para os serviços, é que a coima seja aplicada.
O país sufoca com os fogos.
Mas, apesar de proibidos, os fogos de artifício, continuam a conquistar autarquias e populações.
Mesmo que a festa esconda a desgraça que se espalha à volta. Uma coima resolve tudo.
O Estado cala-se.
Os serviços fecham a boca.
E continuamos em festa.
O Brasil pensa que é o país do Carnaval.
Está enganado: Portugal já açambarcou esse estatuto.
Vivemos num desfile idiota de marchas.

Portugal é o sítio da festa permanente.
Com festas, com défice, com dívidas superiores às receitas.
O Euro’2004 só adocicou o problema. Fizeram-se estádios. As Câmaras endividaram-se por causa disso e de tantas outras coisas. Estas estão a caminhar para a forca por causa disso.
Mas todos parecem não entender onde está o abismo.
Continuamos a viver em festa.
A dançar à beira do abismo.
E nem as Câmaras reconhecem isso.

 
At 25 de agosto de 2005 às 15:17, Anonymous Luísa Bessa said...

Portugal está em alta na imprensa internacional. Nos últimos dias, canais globais como a BBC ou a CNN e os principais jornais europeus têm dado lugar de destaque à cobertura dos incêndios.
Por uma vez, não nos podemos queixar de falta de notoriedade. Pena que seja negativa.

O ministro Manuel Pinho, que não resistiu a deixar a sua marca num novo programa - mais um - de promoção das áreas de excelência nacionais, pode até começar por aqui a nova campanha «Portugal marca». É que marca mesmo. Indelevelmente.

O problema não é a tragédia dos fogos em 2005, com os já cerca de 180 mil hectares de área ardida. Uma enormidade em valor absoluto, que o Governo continua a desdramatizar. Recorrendo a todos os argumentos, desde o técnico ministro da Agricultura, Jaime Silva, a dizer que se trata «apenas» de 3% da floresta nacional, ao discurso mais político de José Sócrates, repetindo, à exaustão, que ainda estamos muito longe dos valores recordes de 2003.

É verdade que estamos - nesse ano foram 425 mil hectares - mas a forma como os políticos olham para o problema, sobretudo preocupados em evitar chamuscar os dedos, roça a imoralidade.

José Sócrates já fica satisfeito por Durão Barroso ter sido pior do que ele. Os portugueses têm direito de estar insatisfeitos com todos eles.

Olhando para o quadro que regista a evolução dos incêndios a partir da 1980, há algo difícil de explicar. Porque é que no início dos anos 80 as áreas ardidas não iam além de 40/50 mil hectares anuais e uma década mais tarde é raro o ano em que ficam abaixo dos 100 mil? E porque é que não foi possível, desde então, estabelecer padrões que garantissem o regresso a valores mais razoáveis?

Entrados na época dos fogos, as atenções centram-se a juzante, na eficácia do combate. No final, faz-se balanço e nomeia-se uma comissão para preparar a época seguinte. Nos factores a montante, como a desertificação do mundo rural, a política de ordenamento florestal e a prevenção, fala-se muito mas ninguém mexe. Porque outros poderes mais altos se levantam.

Assim sendo, Portugal vai continuar a marcar pelas piores razões.

 
At 25 de agosto de 2005 às 17:40, Anonymous Antonio Balbino Caldeira said...

Programa Portugal-Sahara 2015


O Governo prepara-se para anunciar o Programa Portugal-Sahara 2015, composto de uma dúzia de medidas eficazes de combate aos incêndios florestais:
1. Atribuir a cada português um ramo de eucalipto - o instrumento que as TVs estrangeiras mostraram ao mundo ser o meio mais frequente de apagar fogos em Portugal
2. Dotar cada português de um balde de água de dez litros
3. Fornecer uma t-shirt nova a cada bombeiro
4. Cortar todas as árvores da floresta portuguesa para evitar que ardam
5. Enviar todos os cidadãos das aldeias isoladas, e os habitantes da cidade de Coimbra, para safaris no Quénia durante o mês de Agosto, de modo a prevenir que possam ser carbonizados pelas chamas
6. Expropriar os proprietários que não cuidem da sua floresta, começando desde logo pelo próprio Estado (ex. Mata Nacional de Vale de Canas, em Coimbra)
7. Construir, através de um projecto europeu lançado por este governo, dois aviões de grande capacidade, ou de pequena capacidade - tanto faz!... -, para apagar fogos, em vez dos ineficentes Canadair que os demais países europeus têm comprado, para operar já na época de 2015 (deste projecto será encarregado o ministro António-Está-Tudo-Controlado-Costa)
8. Introduzir na Constituição da República mais um artigo que proíba o Governo de pedir ajuda internacional, por forma a impedir que o executivo possa ser acusado de negligência no combate à calamidade dos incêndios
9. Vender a frota de aviões Hercules C-130 e de helicópteros Puma para anular denúncias absurdas de desperdício de equipamentos disponíveis nas forças armadas para combate aos fogos
10. Decretar a proibição de envolvimento dos bombeiros profissionais no combate aos incêndios florestais, criando em alternativa um programa para o seu entrenimento, com exercícios de relaxamento e jogos florais, nos meses de Verão
11. Encarregar os militares da vigilância dos espaços florestais dos seus quartéis, limitando o seu empenho em desnecessárias operações de monitorização da floresta portuguesa
12. Proibir os media de reportar fogos ou de falar em calamidade - "se não mostram, nem contam, não aconteceram, pois já dizia o nosso antecessor Salazar que «politicamente, só existe o que o povo sabe que existe»!..."

 

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