quinta-feira, 27 de abril de 2006

EM ABRIL, TRINTA E DOIS ANOS DEPOIS...


Portugal desigual


A exclusão e a desigualdade social, situações que de um dia para o outro saltaram para a agenda portuguesa, são o resultado de uma opção política e de políticas sectoriais.

É uma situação conhecida e mensurável: dois milhões e meio de pobres, a maior disparidade da Europa entre ricos e pobres e as maiores assimetrias regionais, as maiores taxas europeias de analfabetismo funcional e de abandono e insucesso escolares, o maior peso da precaridade no trabalho, as maiores desigualdades salariais entre homens e mulheres, etc.

Mas para além da irremediável exclusão social que deriva das políticas governamentais, há também, e com as mesmas raízes, a auto-exclusão. Os portugueses são os europeus que menos participam na vida política e cívica, não cultivam uma opinião pública esclarecida e influente, não desenvolvem movimentos cívicos actuantes e combativos, têm as taxas de sindicalização mais baixas da Europa e os sindicatos com menor poder negocial e reivindicativo que desgastaram e banalizaram o recurso a formas de luta constitucionalmente consagradas. Sendo dos europeus que se manifestam mais infelizes com a vida que levam, os portugueses são também os mais resignados com as diferenças e injustiças sociais, o que tem um pesado fundo de herança histórica e cultural mas também um novo lastro de egoísmo, conformismo, indiferença e descrença.

Neste quadro, o apelo para fazer da inclusão uma causa e um desígnio nacionais, só é previsível que tenha um efeito: deixar os excluídos à espera que a inclusão lhes caia do céu e os demais portugueses absolutamente indiferentes. Mas também ninguém estaria à espera que os portugueses, inspirados por esse apelo, por essa causa e esse desígnio, empunhassem a bandeira da inclusão e saíssem à rua, como os franceses na luta contra o Contrato do Primeiro Emprego.


João P. Guerra

1 Comments:

At 27 de abril de 2006 às 14:57, Anonymous Rui Pedro Batista said...

Os lucros da banca e a crise económica

O petróleo é uma espécie de trovoada da economia mundial. Os políticos só se lembram dele quando eleva a voz e pede mais dinheiro, secando ao mesmo tempo as carteias dos eleitores.

1. Os bancos ganham sempre mais dinheiro?

Não é preciso ser um espectador atento da economia, para perceber que os lucros dos bancos que actuam no mercado nacional continuam a subir. E muito. Ano após ano, trimestre após trimestre, os resultados líquidos das instituições financeiras registam crescimentos de dois dígitos. Aparentemente, indiferentes à falta de animação da economia nacional.

Olhe-se desde logo para os primeiros números relativos a 2006. Neste primeiro trimestre do ano, mantém-se a tendência crescente que, aliás, já tinha se tinha verificado em exercícios anteriores. O Banco Comercial Português, que tinha fechado 2005 com um crescimento de 24,2% conseguiu aumentar os lucros, nos primeiros três meses do ano em 44%. Os accionistas do BES alcançaram um ganho nos resultados líquidos superior a 33% face ao período homólogo.

Estes valores mais recentes, acentuam a tendência verificada nos últimos exercícios. Os quatro maiores bancos privados a operar no mercado português, o BCP, o Santander Totta, o BES e o BPI, lucraram 1,625 mil milhões de euros em 2005. Feitas as contas, estamos perante um crescimento médio de 31%.

A taxa de crescimento dos lucros contrasta ainda mais se levarmos em linha de conta que a economia nacional melhorou quase nada, em torno dos 0,3%, segundo a última previsão do Banco de Portugal. O que levanta desde logo uma primeira pergunta: conhece mais algum sector da economia nacional, onde a média de crescimento dos lucros de cerca de 90% das empresas que o compõem suba nesta dimensão?

2. Como se cria uma máquina de fazer dinheiro

Se quisermos responder com objectividade, deixando de lado preconceitos políticos ou económicos, à questão temos de dar a mão à palmatória e reconhecer que o sector financeiro português é de facto um dos poucos que consegue ombrear com o que melhor existe a nível mundial.

Partindo quase todos da mesma base, ou tendo o Estado como patrão recente, ou nascendo de raiz, os actuais bancos que actuam no mercado nacional conseguiram impor um modelo de competitividade, produtividade e agressividade comercial que compara com as melhores práticas internacionais.

Não esquecendo o papel determinante do Banco de Portugal (evitando qualquer situação de risco para alguma instituição, para o sistema e em última análise para a economia nacional), as instituições financeiras nacionais, em pouco mais de duas décadas sofreram uma verdadeira revolução.

Note-se que, por exemplo, a nível de inovação, os bancos nacionais estão entre os melhores da Europa. Falando de produtividade, a banca portuguesa é das mais elevadas na Europa. Isto apesar de pequena dimensão do mercado e de níveis de concentração comparáveis.

Esta é a primeira verdade. O sector não é protegido, existe concorrência e as equipas de gestão são de elevadíssima qualidade.

Em segundo lugar é justo dizer que para chegar a estes lucros, a banca contou também com o endividamento das famílias e das empresas. Quando um banco como o BCP (obviamente pela dimensão referência para qualquer análise que se faça) regista um aumento do crédito à habitação em base consolidada, superior a 20% ou mesmo os quase 10% registados no BES, do outro lado estão famílias que devem mais. Que acabaram de assumir mais compromissos. Mas também é justo deixar uma nota sobre o crédito malparado. É verdade que tem crescido, mas também é notável a qualidade média da carteira de crédito das instituições.

3. E o Sol vai continuar a brilhar?

Mas se nos últimos anos o cenário em que actua o sector se pode traçar com a cores atraentes atrás pinceladas, o que é certo é que nos próximos tempos as instituições de crédito vão sofrer um duplo impacto que mais uma vez colocará à prova a sua capacidade de adaptação: a subida das taxas de juro e o inevitável desaparecimento de muitas empresas que não vão conseguir competir. O que desde logo provocará um crescimento do desemprego, redução ou contenção dos ordenados e claro está e por consequência, perda do poder de compra.

E talvez por isso mesmo os principais bancos portugueses perceberam que se quiserem continuar a crescer a dois dígitos nos próximos anos têm de encontrar, fora das fronteiras nacionais, negócio que por cá começa a escassear.

O BCP quer, até 2008, superar a fasquia dos mil milhões de euros de lucros, com um crescimento anual superior a 20%, sendo que tanto o negócio grego como o polaco apresentaram margens de crescimento superiores à da banca em Portugal, pelo que se podem esperar surpresas. Já o BPI tem vindo a expandir a sua actividade em Angola e em Moçambique, mercados que caracteriza como de «grande potencial» e onde pretende assegurar uma maior fonte de rendimento no curto prazo, pelo que as perspectivas de crescimento dos resultados parecem animadoras.

Do BES espera-se o desenvolvimento da actividade de corporate, onde tem vindo a desempenhar um papel de relevo a nível ibérico, para além do bom desempenho no Brasil. Planos de expansão só no mercado espanhol, mas a exposição que tem em várias empresas de relevo, como a EDP, que também estão em expansão, poderão trazer ganhos interessantes sob a forma de dividendos.

O mais limitado em termos de crescimento parece ser o Santander Totta, que por ser a sucursal do Grupo Santander para Portugual, só se pode apoiar no crescimento do mercado nacional. Contudo, tem previstas a abertura de 100 agências até 2008, e pretende reduzir o cost-to-income para uma percentagem próxima dos 40%. Se o conseguir poderá voltar a surpreender em 2006.

 

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