sexta-feira, 21 de abril de 2006

POBRE PAÍS O NOSSO...[parte III]

Porque saiu Campos e Cunha


O último boletim do Banco de Portugal é arrasador para o Governo e mau para o país.
Diz uma coisa simples: apesar dos esforços exigidos aos portugueses e do aumento da receita fiscal, a despesa pública continuou a derrapar em 2005, agravando a situação orçamental.

Enquanto o desemprego crescia e a competitividade diminuía.
Pior ainda: a despesa deverá superar o orçamentado para este ano.
É óbvio que faltam oito meses e há que ter fé.
É aliás o que resta a um Governo que já está dependente do que acontecer à economia mundial.
Para melhor se perceber as razões deste desastre deve-se recuar no tempo.
Quando o ministro das Finanças que Sócrates apresentou ao país decidiu deixar o Governo.
Campos e Cunha intuiu rapidamente o que se veio a confirmar: a coragem do primeiro-ministro exerce-se numa interminável apresentação de planos para todos os sectores da actividade nacional.
Quando o problema, a verdadeira doença, reside no peso excessivo da máquina administrativa no Orçamento do Estado, exigindo cortes significativos na despesa. E isso faz-se de uma única forma: diminuindo os serviços públicos e dispensando funcionários.
Campos e Cunha saiu, o actual ministro das Finanças desvaloriza a análise do Banco de Portugal.
A propaganda vai continuar.


Raúl Vaz

1 Comments:

At 21 de abril de 2006 às 12:34, Anonymous A. Macedo said...

Os relatórios do Banco de Portugal e do Fundo Monetário Internacional parecem notícias velhas, mas não são. O país vai mal. Talvez não tenha emenda.

Já pensaram na qualidade das toalhas de banho portuguesas? Depois de ler um belíssimo e extenso artigo sobre o assunto no “Wall Street Journal”, todos os dias de manhã, quando meto o pé fora do duche, medito sobre a questão. É verdade, o tema não tem grande espessura intelectual, nem doutrina escrita, nada que o torne digno destas páginas cor de salmão. No entanto, é este o único assunto politicamente aceitável nos dias que correm.

Explico-me. Um dia depois de o boletim de Primavera do Banco de Portugal ter deixado bem claro que o Governo de José Sócrates terá muitas dificuldade em cumprir o défice prometido (4,6% do PIB); e horas depois de o FMI ter escrito a lápide do cadáver – a economia portuguesa será, em 2007, a mais desequilibrada do mundo desenvolvido – todas as notícias servem de salva-vidas para a depressão colectiva que nos ataca.

Não há dúvida: a vida corre-nos mal. Na verdade, a vida continua a correr-nos muito mal. Já ninguém ousa pedir que o IVA volte ao normal, que o IRC se torne mais competitivo, que o IRS o acompanhe ou que a nossa orla marítima se torne mais bonita. Para que conste, são tudo assuntos fora da agenda, assuntos para rico, assuntos que hoje não podem ocupar os esforços e a atenção do Governo. Ontem, hoje, amanhã e nos próximos anos o país continuará com a corda ao pescoço, sem espaço para respirar, sufocado pelas dívidas, acossado pelos compromissos com Bruxelas, perdido no meio dos números. Assim, não se vive, sobrevive-se. Assim, não há saída: estamos em saldo.

Evidentemente, há quem não esteja. No domingo, o presidente do Governo espanhol deu uma longa entrevista de cinco horas e dez páginas ao jornal “El Mundo”. Quanto espaço dedicou Zapatero à economia? Alguns parágrafos, não mais do que três, o suficiente para dizer algumas generalidades que confirmam o que já se sabia: o crescimento da espanhol mantém-se forte, acima da média europeia e com boas perspectivas de crescimento. Palavras sábias que resumem o essencial e deixam espaço para que se discuta o resto. O resto é tudo o que sobra além da economia. Ou seja, o presente e o futuro de Espanha, da Europa e do Mundo.

Tem José Sócrates tempo para estas trivialidades filosóficas. Impossível. Sócrates – como Durão Barroso e Santana Lopes antes dele – anda de lapiz atrás da orelha a fazer contas à vida da nação. Em Espanha discutem-se as autonomias, procura-se uma trégua com a ETA, debate-se o casamento homossexual. Em Portugal, fala-se do défice público, do desemprego, das previsões do FMI, das baldas dos deputados, dos cortes nas viagens dos ministros. E daqui não saímos. Daqui não podíamos sair: não nos podemos dar a esse luxo, não o podemos sustentar.

É por isso que o assunto das toalhas é o último recurso: ele toca no essencial. As toalhas ‘Woolfson’ fabricadas em Portugal e elogiadas pelo “Wall Street Journal”, são o que Portugal não é: competitivo nos mercados estrangeiros, apreciado pela qualidade. Numa palavra: viável.

 

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