domingo, 28 de janeiro de 2007

DEBATE DE PONTE DE SOR DÁ PROCESSO

Médicos pela Escolha processam judicialmente Alentejo pelo Não

O movimento Médicos pela Escolha (MMPE) vai processar judicialmente o movimento Alentejo pelo Não (MAPN), bem como os seus mandatários, na sequência de uma nota de imprensa enviada às redacções por parte do MAPN e que consideram "caluniosa".

O Alentejo pelo Não acusa o médico Bruno Maia, do MMPE, que recentemente participou em Ponte de Sor na Biblioteca Municipal num debate sobre a IVG e que, segundo o MAPN, durante a sua intervenção, terá dito que "caso o 'sim' ganhe, a solução para dar resposta à situação de filas de espera nos hospitais seria proceder não ao aborto cirúrgico de sucção do feto mas a um procedimento médico que levaria à prescrição do Citotec e/ou Ru486 para que as próprias mulheres os colocassem, não implicando internamento e que só caso fosse necessário uma raspagem, então recorreriam ao hospital".

Segundo o MAPN, "perante esta postura de total desconsideração pela vida das mães e seus filhos ocorre dizer que ao representante dos MMPE caiu-lhe o véu".

"Vamos processar esses senhores, neste momento os nossos advogados já estão em campo. É uma acusação que prejudica a credibilidade do médico Bruno Maia", disse ao DN Sérgio Vitorino, do movimento MMPE.

"Em primeiro lugar são falsas essas palavras, nunca disse isso", sublinha por sua vez Bruno Maia. "Durante o debate expliquei os procedimentos do aborto médico, mas nunca nesse contexto que o MAPN refere nessa nota de imprensa", sublinha.

Por seu turno, Pedro Paixão, um dos mandatários do MAPN, reafirma a posição do movimento neste processo e atesta que as declarações de Bruno Maia "estão gravadas, não temos nada a temer".

No debate de Ponte de Sor, onde Bruno Maia é acusado de ter proferido essas declarações, participou ainda Cláudia Muller, da Plataforma Não Obrigada, que disse ao DN que "assim foi dito pelo doutor Bruno Maia". "Fico satisfeita pelo facto de o senhor reagir e que tenha recuado na sua postura", sublinha. O caso segue para os tribunais.


Hugo Teixeira

5 Comments:

At 28 de janeiro de 2007 às 22:07, Anonymous Anónimo said...

Contingência e abortamento

Uma vez, uma aluna levantou, num "trabalho", esta pergunta: "Onde estão todos aqueles que poderiam ter sido e não são?" Talvez uma daquelas perguntas inúteis, aparentemente preguiçosas, mas que não deixam de obrigar a pensar.

Afinal, se A, em vez de ter casado com B, tivesse casado com C, não existiriam aqueles filhos que há, mas outros. O encontro de dois seres humanos em ordem à paternidade e maternidade está dependente de tantas variáveis que a possibilidade do aparecimento de um ser humano concreto (este homem ou esta mulher) é tendencialmente nula. Porque a realidade desses dois seres humanos também não estava predeterminada: aconteceu, mas podia não ter acontecido. Mesmo no acto de geração de cada ser humano, há milhões de possibilidades e geralmente só uma se concretiza: há um espermatozóide que corre mais...

É quando pensamos nestes cruzamentos que de facto aconteceram, mas que pura e simplesmente podiam não se ter dado, que tomamos consciência da nossa radical contingência. Da nossa e da da História. Porque se A não tivesse existido, também B não teria podido existir. E, sem B, não existiria C nem D nem E. Faltando E, faltariam F, H, I, J. Estenda-se esta contingência até ao começo do aparecimento dos homens e das mulheres e às possibilidades de encontros e desencontros, multiplicadas indefinidamente, e ver-se-á como se é confrontado com a estupefacção de uma História que narramos como se estivesse pré-escrita algures, mas que poderia ser completamente outra, individual, colectiva e mundialmente.

Como seria o mundo sem Buda, sem Platão, sem Aristóteles, sem Euclides, sem Júlio César, sem Jesus, sem Maomé, sem Galileu, sem Lutero, sem Miguel Ângelo, sem Watt, sem Einstein, sem os matemáticos, os físicos, todos os cientistas e inventores e artistas e operários e políticos e generais, mas todos e cada um com nome próprio, mesmo os anónimos, que poderiam não ter existido?

Realmente, há a Filosofia, a Matemática, a Física, a Química, a Música, todos os saberes e artes, mas passando tudo por indivíduos concretos. A Matemática manifesta-se em matemáticos, como a Física em físicos, a Filosofia em filósofos, a Humanidade em homens e mulheres, os que houve, de facto, e não outros possíveis.

Toda esta consideração põe-nos em sobressalto frente à radical contingência que atinge cada homem e cada mulher. O enigma é este: cada ser humano existiu, existe ou existirá, mas de tal modo que a possibilidade de ter existido, de existir ou de vir a existir é tendencialmente zero. No passado, poderiam ter existido outros; no presente, podiam existir outros; no futuro, exactamente a mesma coisa, tanto mais quanto o presente e o futuro dependem das possibilidades realizadas no passado, que foram umas e não outras.

A contingência radical atinge, portanto, cada homem e cada mulher, mas, como escreveu o filósofo e teólogo R. Panikkar, precisamente assim: contingência deriva do latim cum tangere, com o sentido de que "tocamos (tangere) os nossos limites" e "o ilimitado toca-nos (cum tangere) tangencialmente". Cada ser humano existente é contingente, mas, existindo, é digno de respeito, pois tem dignidade inviolável. Essa dignidade assenta na presença nele do Infinito, que se manifesta essencialmente na liberdade e na autonomia moral.

A gravidez é o sinal da visita possível de uma alteridade enigmática, que nenhum ser humano domina. O abortamento é um drama, pois é a possibilidade de um ser humano que é apagada do mundo. Segundo o filósofo E. Lévinas, é frente a essa alteridade misteriosa, porque irredutível, exigindo a nossa responsabilidade, que Deus vem à ideia: não demonstra a existência de Deus, mas mostra o sentido dessa palavra.

Nesta magna questão, há níveis diferentes de debate, concretamente o jurídico-penal e o moral. Sem esquecer os aspectos biológicos, o problema moral e as suas raízes filosóficas e religiosas, o que se pergunta é se a mulher que aborta, num determinado quadro legal - se cumprida, a actual lei bastaria -, deve ser penalizada.

No seu drama, em lugar de uma punição penal, do que ela precisa sobretudo é de solidariedade. Estão a sociedade e a lei dispostas a apoiar eficazmente a mulher e, concretamente, a grávida?

Este apoio tem de traduzir-se em educação, prevenção, aconselhamento, combate à pobreza e exclusão, co-responsabilização do homem, incentivos à família e à natalidade. Também para que despenalização se não confunda com liberalização nem se torne método contraceptivo.

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
In: Diário de Noticias

 
At 28 de janeiro de 2007 às 22:09, Anonymous Anónimo said...

Creio que é compatível o voto na despenalização e ser - por pensamentos, palavras e obra - pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O "SIM" à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, embora haja sempre doidos e doidas para tudo. Frei Bento Domingues,
In:Público.

 
At 28 de janeiro de 2007 às 22:12, Anonymous Daniel Oliveira said...

Vale tudo

Um desses movimentos que na realidade são secções regionais de movimentos (Alentejo pelo "Não") divulgou hoje uma nota em que garantia que o médico Bruno Cruz Maia (dos Médicos pela Escolha) teria defendido na quinta-feira, num debate em Ponte de Sôr, que, caso o Sim ganhasse, a solução para dar resposta à situação de filas de espera nos hospitais seria a prescrição do Citotec e/ou Ru486 para que as próprias mulheres os colocassem. A resposta do próprio médico e do Movimento Pela Escolha:


«Como é evidente, o que tem vindo a ser defendido pelo Movimento Médicos Pela Escolha - e foi defendido pelo dr. Bruno da Cruz Maia no referido debate - é absolutamente o oposto: a necessidade de acabar com a clandestinidade do aborto para que termine a venda de drogas como o Citotec no mercado negro, realidade que tem levado ao falecimento de várias mulheres por utilização indevida das mesmas sem qualquer tipo de acompanhamento médico.» O movimento considera que a acusação é «uma tentativa inqualificável mas perigosa de colocar em causa o bom nome, o brio profissional, a ética e a integridade de um óptimo profissional de Saúde que sempre lutou para que não mais seja necessário às mulheres recorrerem ao aborto num contexto de ausência de enquadramento médico.»

O dr. Bruno da Cruz Maia, que para lá desta campanha tem uma vida profissional e uma carreira, apresentou uma queixa judicial por difamação e um pedido de indemnização por danos morais e atentado ao bom nome de um cidadão contra os elementos Pedro Faria Paixão, Pedro Giões e Maria Teresa Chaves, mandatários do movimento Alentejo pelo Não , que subscrevem em conjunto um comunicado enviado hoje à imprensa.

Conhecendo o médico em questão nem hesito em distinguir um profissional rigoroso de gente que por má-fé, falta de escrúpulos ou pura falta de neurónios reescreve o que ouve.

 
At 30 de janeiro de 2007 às 11:39, Anonymous Anónimo said...

Eu estava lá. Eu vi. Bruno Maia disse que a solução era receitar um remédio e pô-las a abortar em causa. Disse.

Se não tivesse dito, eu não o escreveria... porque não minto. Mas disse.

Devo aliás, dizer, em abono da verdade, que antes do debate da Biblioteca tinha pensado votar "sim", mas hoje estou indeciso...

 
At 30 de janeiro de 2007 às 23:49, Anonymous V.A. said...

Mais abortos

Na caixa de correio deparo-me com uma brochura do Movimento Acção Família. Nela fico a saber que:

- Nossa Senhora de Fátima chora por milhares de inocentes que podem perder a vida antes mesmo de dar o primeiro gemido

- Dizer sim é permitir que se matem inocentes, indefesos e pequeninos, que aguardam apenas o momento de vir ao mundo

- Que o referendo por si só já constitui uma ofensa a Deus

- Dar uma quantia em dinheiro em troca de um terço para rezar e participar da grande súplica nacional a Nossa Senhora, não é uma compra é uma doação.

E assim de repente, lembrei-me de uma história da Bíblia em que Deus pede a Abraão para sacrificar um dos filhos e quando o punhal tá quase a cortar as goelas ao puto, o grande chefe aparece e diz: "Atão maluco? Nã vês que estava a brincar contigo, pá! Isto era só para testar a tua fé!"

Epá os católicos são uma barrigada de riso!

 

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