quarta-feira, 27 de agosto de 2008

POBRE POVO NAÇÃO DOENTE

Está uma batalha lá fora e os políticos não encontram melhor forma de reconhecimento do que se passa senão com dizer coisas sem sentido. A violência está a mudar (mudou) a nossa sociedade e põe em causa não apenas a face social do País como favorece a emergência de ataques à liberdade, em nome da segurança. As primeiras páginas dos jornais, os alinhamentos dos noticiários televisivos não se baseiam em princípios abstractos: a gestão do medo traduz a realidade do medo, e uma falta de confiança na avaliação dos políticos.

Impressionamo-nos com a crueza das imagens de brutalidade mas, a seguir, admitimo-las porque nos resignámos. Criou-se a mentalidade difusa, volatilizada, de que esta realidade é a concepção subjacente da modernidade. Oculta-se a verdadeira razão: o capitalismo contemporâneo criou um indivíduo que recusa e resiste a qualquer forma de compromisso. Os laços sociais foram destruídos e o homem moderno encerra-se em si próprio, indiferente não só ao outro como relapso aos assuntos públicos.

As esferas estão demarcadas. Se, num lado, os guetos não ocultam a injustiça e são alfobres de ressentimento, resultantes das deformações sociais, no outro lado estão os condomínios fechados, que multiplicam as fronteiras entre dois mundos distintos. O que se entrevê como protecção transforma-se em couraça.

As classes dirigentes alteraram, dramaticamente, os espaços de aproximação afectiva. Vivemos num país, numa sociedade, que ignora o conceito de comunidade e de partilha para se converter numa massa esvaziada de substância.

A prevenção do crime está certa. Mas as declarações nesse sentido, proferidas por responsáveis da segurança, desembaraçam-se de qualquer desejo de análise e de racionalidade. Mais polícia é paliativo; não é solução. A desumanização social, a deformidade e a abjecção que se encontram na natureza do sistema ganharam raízes na cultura dominante. A desigualdade na distribuição da riqueza é afrontosa. Os jornais informam que aquele multimilionário superou, em fortuna acumulada, aqueloutro; que gestores auferem reformas sumptuárias após meia dúzia de meses de exercício de funções; que a fuga aos impostos é uma prática só possível, e permitida, aos ricos - como se o valor de uma pessoa fosse, claramente, inferior ao de outra.

Dostoievski ensinou que o crime compensa. Raskolnikov é, unicamente, castigado pelo remorso. Sentimento que me não parece muito comum entre aqueles indicados. Henri Michaux, poeta de que gosto muito, autor, aliás, de um pequeno livro, Equador, este, sim, maior, escreveu: Só lutamos bem por causas que nós próprios modelamos e com as quais nos queimamos ao identificarmo-nos com elas."

O português não é mobilizado porque é constantemente desprezado.

B.B.

Etiquetas:

2 Comments:

At 27 de agosto de 2008 às 19:21, Anonymous J.U.M. said...

Quando discutimos as causas dos nossos males acabamos invariavelmente por nos queixarmos da qualidade das nossas elites, a elite política é o que se sabe, a elite económica só o é à custa da mão de obra barata (o mesmo é dizer à custa da exploração no seu sentido puro e duro), a elite cultura é um feira de vaidades, etc., etc.. Já aqui se debateu várias vezes a questão sob esta perspectiva, mas cada vez tenho mais dúvidas de que temos elites no verdadeiro sentido na palavra, o que temos é uma casta.

O fenómeno não é novo, já no tempo do salazarismo e do marcelismo o país era governado por uma casta, em torno dessa casta dirigente sobreviviam vários grupos que a troco de não fazerem “ondas” viviam tranquilamente à custa do regime. Com o 25 de Abril assistiu-se a um período de confusão, uma boa parte da casta do regime fugiu, os mais ricos para o Brasil, Europa e EUA, os mais pobres para a África do Sul e outras paragens. Entretanto, surgiram novas caras e as cartas foram baralhadas, mas passados trinta anos o país volta a ser dominado por uma casta.

Nos partidos não há grandes roturas e quando acontecem sucede aquilo a que recentemente se assistiu no PSD, a velha casta aproveita a oportunidade para repor a ordem. Em torno do poder criou-se uma casta que não precisa de se esforçar muito para viver bem, para além dos números cargos do Estado e em empresas participadas existem os bancos que acolhem os filhos dessa casta, fundações como a Luso Americana asseguram elevados níveis de rendimentos os seus beneficiários, instituições como o Banco de Portugal distribuem pensões vitalícias aos seus responsáveis.

A existência dessa casta significa que os seus membros têm sempre o futuro assegurado, se alguma coisa corre mal há sempre uma mão amiga que resolve o problema, há sempre um alto cargo bem remunerado e que é pouco exigente intelectualmente, são lugares de direcção nas muitas fundações, são os cargos de administradores não executivos, membros das assembleias gerais ou dos conselhos fiscais dos muitos bancos e grandes empresas, são uma infinidade de cargos que se alimentam à custa da riqueza nacional. Se um filho chega ao mercado de trabalho há sempre uma vaga de assessor de um secretário de Estado ou de um director de um banco onde o rebento adquire a experiência necessária para novos voos.

Até já se arranjaram esquemas para assegurar tranquilidade à casta, para além de uns cruzamentos matrimoniais entre as diversas facções da casta, há acordos de cavalheiros, leis não escritas que asseguram uma distribuição equitativa dos cargos mais apetitosos. O provedor é do partido da oposição, a CGD e o Banco de Portugal são entregues a facções opostas, enfim, está tudo muito bem dividido.

Isso significa que as nossas elites não precisam de se esforçar muito, não precisam de desenvolver uma cultura de competitividade, entre dividir as patacas entre os amigos e atribuir os cargos aos mais capazes, a primeira solução é a mais confortável. É por isso que é mais próprio falar de casta do que de elites, se tivéssemos elites isso significava que o sistema premiava os mais capazes.

 
At 29 de agosto de 2008 às 18:45, Anonymous L. said...

«Leonel Carvalho aconselha segurança privada a bancos.»
a desbravar caminho para mais uma bela negociata e para a privatização das polícias... e mais tarde com, mais um jeitinho ou com mais uma bem engendrada "onda de crimes" - violentos, pois claro - dá-se a essa segurança privada a possibilidade de usar armas e outros artefactos actualmente reservados ao uso das polícias...

 

Enviar um comentário

<< Home