quinta-feira, 21 de agosto de 2008

NÚMEROS PARA QUE VOS QUERO

Ouvindo dizer que desde o início desta legislatura foram criados mais 133 mil postos de trabalho, muitos portugueses terão concluído que o jackpot sai sempre aos outros. E, se calhar, devem ter-se perguntado: Se, diz o INE, no 1.º trimestre de 2005 (início da legislatura) havia 412 600 desempregados e, no 1.º trimestre de 2008, havia 427 mil (isto é, mais 14 400), o que aconteceu aos tais 133 mil postos de trabalho?
A única resposta aritmeticamente possível é que, entretanto, terão sido descriados 147 400 (133 mil + 14 400)…
Acontece algo parecido com a inflação.

Enquanto o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor era, em 2005, de 2,1% e, em Março de 2008, 3,1%, raro é o mês em que não surgem notícias da diminuição dos números da inflação homóloga, sendo que nem uns nem outros batem certo com os números da conta do supermercado (e da água, e da luz, e do passe…).
Talvez os portugueses devessem aproveitar as férias para ler How to lie with statistics (Como mentir com as estatísticas), de Darrell Huff.
Já que têm a prática, não lhes fazia mal nenhum ficarem também com a teoria.

M.A.P.

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1 Comments:

At 21 de agosto de 2008 às 22:48, Anonymous J.U.M. said...

No nosso concelho há portugueses que ganham menos do que muitas famílias que recebem o rendimento mínimo, vivem em casas bem piores do que aquelas a que alguns designam por guetos e nunca lhes passou pela cabeça que o Estado lhes poderia dar dinheiro.
Estou a referir-me a muita gente que insistem em viver nas nossas aldeias, cuja actividade é fundamental para assegurar o que resta do equilíbrio ecológico deste país e conseguem manter viva uma agricultura que os nossos ministros desconhecem.

Ou seja, o Estado subsidia muita gente que não quer trabalhar e esquece aqueles que desempenham trabalhos essenciais ao país, mas que há muito que não proporcionam o rendimentos que lhes proporcionem um mínimo de dignidade.
Seria interessante fazer as contas e comparar quanto investe o Estado numa família urbana que depende de subsídios e de habitação do Estado com uma das muitas famílias das nossas aldeias.

O dualismo económico sempre foi uma realidade da nossa economia e apesar de ter deixado de constar da agenda dos nossos políticos, tem vindo a agravar-se.
O aprofundar da globalização e uma política agrícola desenhada a partir dos mercados mais competitivos condenou uma boa parte do nosso meio rural à marginalização.
A título de exemplo, quanto investiu o Estado na população que insiste em viver no interior do Alentejo?
Estamos a falar de populações fundamentais para que uma parte do Alentejo não se transforme em deserto.

Trata-se de gente que não recorre a subsídios de desemprego quando não há trabalho agrícola para fazer, que não beneficia dos investimentos em auto-estradas ou TGV, que não têm acesso aos modernos hospitais inaugurados a pensar nos calendários eleitorais, que não beneficiam de bairros sociais e de outras benesses feitas a pensar no voto urbano. Morre-se de uma coisa e os filhos têm de andar muitos quilómetros de “camioneta” para irem à escola.

Não recebem quase nada ou mesmo do Estado mas asseguram um dos raros bens deste país, o ambiente. Plantam ou asseguram a manutenção das florestas que permitem às nossas grandes indústrias negociar quotas de CO2, vivem em parques ecológicos que respeitam apesar de terem que respeitar metas que lhes tornam a vida num inferno. Produzem riqueza invisível, acabando por receber os magros rendimentos de uma agricultura pouco produtiva e desprezada pelos sucessivos ministros da Agricultura. E como se tudo isso não bastasse ainda vem a ASAE dizer-lhes que devem obedecer aos mais elevados padrões tecnológicos que se quiserem produzir dois presuntos, meia dúzia de queijos ou uns garrafões de azeite.
Dão muito e nada recebem.

Talvez seja tempo de assegurar que estas populações recebam do Estado o que merecem, que até nem seriam subsídios já que corresponderiam ao que produzem em termos ambientais mas que não tem valor de mercado. E nem estamos a falar de subsídios, se as grandes empresas podem comprar e vender quotas de CO2 faz todo o sentido remunerar os que permitem a existência dessas quotas, que asseguram o equilíbrio ecológico do país e garantem a sobrevivência dos parques ambientais de que tanto se fala nas grandes cidades.

 

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