sexta-feira, 20 de março de 2009

ELE NÃO QUER OUVIR O BARULHO DA RUA

Duzentas mil pessoas a protestar na rua parece não ter incomodado, por aí além, o eng. José Sócrates. Ele o disse, com enfadonha soberba. Mário Soares, velho sábio, advertiu o Governo de que o impressionante número de descontentes, a juntar àqueles que se presume, é de molde a suscitar apreensões. Se não muda de rumo, acentuou Soares, percebe-se, latente, grande agitação social, de resultados imprevisíveis. Sócrates está-se marimbando.

Queira-se ou não, o pulsar da rua é um indício muito mais tremendo do que o ruído que provoca. E quando Sócrates, com aquele infeliz argumento procedente do antigamente da vida, regouga que por detrás da mole humana estão o PCP e o Bloco de Esquerda, aí, então, o desatino atinge a aleivosia. Sócrates faz-nos de tolos.

É evidente que nem o PCP, nem o Bloco de Esquerda dispõem de tanto estrénuo militante, e que a poderosa manifestação agregou muita gente de todos os partidos. Repito: de todos os partidos. E sei do que falo.

A maioria de que este Governo dispõe, para dispor, a seu bel-prazer, dos nossos destinos colectivos, torna a arrogância uma crispação totalitária. Repito: totalitária. Aquela gente não ouve ninguém, sobretudo não ouve a voz da razão e do bom-senso. Basta escutar o ministro Santos Silva ou o apenas concebível Vitalino Canas para nos apercebermos da extensão de um comportamento indesculpável.

A rua sempre foi um sinal de alerta e uma demonstração de cívica coragem. Estou à vontade: participei, no tempo do fascismo, em quase todos protestos de rua. Não falhei um 5 de Outubro, um Primeiro de Maio ou qualquer outra data a que nos mandavam estar presente. Sabíamos muito bem o que nos estava reservado. Mas sabíamos, também, que estar era, já em si, o bastante. Estou cheio de histórias de que fui modesto protagonista ou espectador irado. Confesso, hoje, que, ao relembrar certos episódios me surpreendo pelo desassombro e pela ingenuidade.

O Rossio era o local da concentração. O boca-a-boca funcionava, assim como a imprensa clandestina. Sempre critiquei a escolha do sítio. A polícia política e a outra fechava as saídas e era um vê se te avias a pancadaria que levávamos. Levávamos e dávamos: a partir de certa altura alguns de nós, contrariando as recomendações, levaram consigo tubos de borracha, e defendíamos conforme podíamos. Podíamos pouco, ante o aluvião de agentes à paisana e a brutalidade da repressão. Salientava-se, neste caso o capitão Maltez, cuja selvajaria era conhecida.

Num desses anos, estava com o Fernando Lopes-Graça e outros amigos, à entrada da Rua do Carmo. A multidão gritava: Abaixo o fascismo! ou Morte à PIDE!, e o desagrado durou poucos minutos. Eis que surge o capitão Maltez de má memória e, de cassetête em punho agride quem à sua frente aparecesse. O homem parecia cego de ódio e de raiva. Agrediu Lopes-Graça uma vez; da segunda, coloquei-me à frente dele, tentei cobri-lo com o meu corpo (eu era um homem muito mais corpulento do que sou hoje, e mesmo agora…) e levei com as bastonadas destinadas ao meu velho amigo. Depois, sempre tapando o Graça, e quase o transportando, corri pela rua do Carmo, sempre com o Maltez a dar-me. As escadas estavam fechadas, o Graça tinha levado com uma bastonada na cabeça e partido os óculos, corria-lhe um fio de sangue pelo rosto, até que consegui que alguém me abrisse uma porta.

Quero dizer com isto que vale sempre a pena estar onde é preciso estar. E que a rua, por muito que os detentores do poder digam o contrário, causa amolgadelas e dá resultado, mais tarde ou mais cedo. A rua não é, somente, uma demonstração de indignação sindical, política e cívica - é, sobretudo, um argumento moral, contra a inexistência de moral dos governantes.

Os duzentos mil que desceram à rua sabiam muitíssimo bem o que os unia, o que os une. É a recusa da rendição ante o desaforo de uma política que sova os mais desfavorecidos e enche de prebendas e de favores os mais favorecidos. Não há nenhuma explicação (pelo menos daquelas que nos foram dadas e foram dadas atabalhoadamente) para os milhões de milhões distribuídos pela banca, num prémio sem remissa àqueles que cometeram fraudes, que prevaricaram, que roubaram, que enriqueceram às nossas custas.

Olhamos para o panorama geral e parece que uma onda de corrupção, de iniquidades, de falta de palavra, de carência de ética, de valores e de padrões invadiu a esfera do capitalismo. O capitalismo contém, em si mesmo, os embriões de tudo o que é mau e de tudo o que é bom disse Keynes. O pior é que, até agora, só o mau se tem revelado. E de que maneira!

Torna-se cada vez mais evidente que o Executivo Sócrates não possui nem força, nem capacidade e, acaso, nem competência para, ao menos amenizar a crise em que nos mergulharam. Os duzentos mil protestatários significaram uma pesada advertência. E, como no tempo do fascismo, o peso das multidões acaba por querer dizer alguma coisa. Infelizmente, parece que José Sócrates está cada vez mais afastado da realidade.


B.B.

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2 Comments:

At 20 de março de 2009 às 22:29, Anonymous D.A. said...

(Uns poucos têm cotação na bolsa. Pelos menos 200 mil têm cotão no bolso. Decerto os mesmos que, quando olham um ministro de carro, vêem um sinistro-auto. Os próprios que ainda não confundem tanta pomba com Santa Comba. Os tais que, por ousarem manifestar-se, um dia destes não acordam na cama mas na cana.)

Para me entreter enquanto a mulher não chega a casa para irmos ao Lídle comprar atum de Marrocos, azeitonas da Grécia, gasosas de Espanha e arroz da Coreia do Norte, vou rabiscando uns trocadilhos a ver se a raiva me não espuma todo. Raiva de quê, de quem? Ora, desta pandilha, súcia, cáfila, quadrilha, vara, tribo, seita, mòlhada, troika, comandita. De quem e do quê? Ora, deste bando, gang, conclave, conselho, grupelho, sínodo, conluio, rancho, sarrabulho, partido.

Que me adiantará não ceder a ser súcubo ante o Primeiro Íncubo? Como poderei eu (mais 199 mil 999) depor o Possidónio-Mor cujo comboio eléctrico em pequenino já era um têgêvê a pilhas, cujos aviões de papel ardiam a gasolina de isqueiro, cujas gavetas do bacalhau eram forradas a jornalistas, cujo triciclo era mono como no circo e como agora?

O que não posso, não me adianta. Mas adianto, à mesma, o que posso: posso muito rir-me muito. Do poeta do milhão de votos. Dos manos Portas. Do coiso da Madeira. Da bagunça bancária. Da tropa. Da coisa de Felgueiras. Da reforma que não vou ter quando não chegar a velho. Do Lobo Antunes a fazer de Nobel e do Nobel a fazer de Saramago. Dos lobos do rugby e dos cordeiros da Páscoa. E de mim e dos outros 199 mil 999, já agora, que também somos gente.

(Que ruído foi este na porta? É a mulher que chega. Ela assim para mim: "Então sempre vens comigo ao Lídle?" E eu assim para ela: "Olha, amor, inventei agora uma muita gira sobre a cotação na bolsa.")

 
At 22 de março de 2009 às 17:23, Anonymous R.V. said...

O homem que se vitimiza dizendo-se vítima de uma campanha negra e queixando-se de ser insultado na "rua" é o mesmo que classifica como "birra" o facto do PSD não concordar com o PS na questão do Provedor de Justiça. Viva a coerência da gelatina.

 

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