sábado, 15 de outubro de 2005

UM MODO DE FAZER POLÍTICA...

O Príncipe...


...De Maquiavel é um exemplo de como homens aparentemente comuns, semelhantes a nós, produzem obras de génio, que marcam uma época e se imortalizam. Com a sua leitura parece que saímos para fora do tempo, juntamente com o criador. Dele retenho um ensinamento que partilho: o filósofo ensinou os políticos a fazer aquilo que eles deveriam recomendar que não se faça. Uma receita para jornalistas que também querem ser políticos e políticos que não dispensam os media. Sabemos que uma aliança entre ambos é sempre perniciosa para o povo.

Foi o único escritor cujo nome, adjectivado, designa um modo de fazer política, e, até, um modo de ser e de agir na esfera social.
Purificou o método da política, autonomizando-a da moral; evocou a razão de Estado, pela qual este deve obedecer a regras de acção próprias; e ensinou que os fins justificam os meios, mesmo que imorais ou configurem crimes.
O que Kissinger diria disto:
Subscreveria?
E Timor-Leste?
E o Chile de Allende e o mais?
Com Maquiavel também se aprende que se pode ser humano, sincero, misericordioso, religioso - como os restolhos e ex-ministros de Salazar que multiplicam ervas daninhas nas estruturas do sistema de educação superior por onde passam - e ser, ao mesmo tempo, a antítese daqueles valores, assumindo num ápice as qualidades opostas.
Numa mão levam a Bíblia e a palavra da conversão; na outra a espada e o veneno. São os velhos do Restelo luso-tropicais que ainda pululam na Lusitânia.
São os mesmos que têm destruído por dentro (de fora) o sistema educativo em Portugal.

Será O Príncipe um manual para estadistas?
Ou um manual para restolhos e gangsters, como dizia o maior filósofo do séc. XX - Sir Bertrand Russel - com licença do chato do sr. Doutor C. Espada - que vê em Popper - apenas porque o conheceu e o tocou na pele - o maior dos maiores. Coitado, só sabia de matemática social, Platão e Marx, de política e de história zero. Mas o Dr. Espada gosta muito de matemática, de Platão e de Marx.

Onde está a verità effetuale della cosa?
That´s the point.
Quando vejo Sócrates palrando ao lado de Lula do mensalão luso-brasileiro.
Quando vejo Almeida Santos abraçando Fátinha Felgueiras em Felgueiras - só me lembro (depois de vomitar e revomitar) dos ensinamentos de Nicolau.
Não que ele os apregoasse, mas porque o resultado político dos crimes cometidos para atingir os objectivos, faz com que O Príncipe deva praticar o bem quando possível e o mal sempre que necessário.
Em Portugal, desde Guterres e Barroso (Santana não conta, porque foi um lapso clamoroso) e, agora, com Sócrates, só nos lembramos do mal necessário.

Quantos governantes não tiveram de se demitir ou não foram destituídos por se ter descoberto que cometeram actos ilícitos ou fraudes ou até mesmo crimes?
Em Portugal poucos, de facto.
Mas isto só revela que Maquiavel ao separar a moral da política não impediu que aquela continuasse a interferir com esta.
Condicionando-a, civilizando-a.
Infelizmente, não tantas vezes como seriam desejáveis.

Em rigor, a importância do legado de Nicolau Maquiavel é, de facto, enorme.
Pois não se trata apenas de um livro técnico que ajuda o aspirante a capturar, a reforçar e, se possível, a manter o poder.
É muito mais do que isso.
Mas é a pretexto de narrar a forma como os governantes actuam uma vez no poder, que Nicolau também nos ensina a fazer aquilo que a boa razão e a melhor moral deveria recomendar que não fizessem.

Enfim, é um pouco como a manta do Bocage...
Se tapa os pés destapa a cabeça.
Se cobre a cabeça, destapa os pés.
Por isso, o ideal é compreender a ambivalência natural do homem: onde Maquiavel propõe uma política de poder, Erasmo de Roterdão (que falámos abaixo) propõe uma política de serviço.
Onde Nicolau faz o elogio da guerra, Erasmo faz a apologia da paz.
É nesta síntese - de conflito e cooperação - que encontramos a verdadeira natureza humana.

O desafio para todos nós, homens do séc. XXI, é fazer com que no fiel da balança predomine a cooperação e a paz em detrimento dos outros valores.
Seremos capazes?

Seja como fôr valeu a pena rever este espírito crítico que nos mostra o bem e o mal. Mesmo que este livro tenha sido feito à medida de Lourenço de Medecis, O Magnífico, de quem o autor procurava obter o favor de um emprego.
Quantos empregos seriam hoje necessários para levar um homem a produzir uma Obra de igual monta???

Será que na CGD, na GALP ou no Tribunal de Contas haverá cromo para tanto? Falem com o António Vitorino para o Prefácio que o Marcelo Rebello de Sousa apresenta e a turba compra...

Dedicamos este post a todos aqueles que amam a Vida.
Sobretudo, aqueles que nunca leram Maquiavel. E que acham que o homem não é, afinal, assim tão mau como isso.
É pior...

Bem haja Nicolau.
Ao menos eras sincero e não andavas calaftado, e se viesses cá hoje ou ias parar à CGD ou então eras arrumado na GALP.
Se tivesses tomates renunciarias a ambos e fazias um discurso à Padre António Vieira - e ias ali para as margens do rio Sôr botavas cá pra fora mais um Sermão:

O Sermão de António Guterres Dirão Sócrates a Cavaco.



Nota: Eu já tenho edição antiga. Por isso, não compro...

Pedro Manuel

2 Comments:

At 15 de outubro de 2005 às 20:35, Anonymous Margarido said...

O PRINCIPEZINHO

De Antoine Saint-Exupéry é uma permanente lição de vida.
Ressalto o valor da amizade e da necessidade, hoje mais do que nunca, de criarmos elos afectivos entre as pessoas.
Porém, a civilização de modernidade que criámos rouba-nos o tempo para olhar e estar com outro e fazer amigos.
Precisamos de segredos que nos cativem.
Quando cultivei esta via, verifiquei que a indiferença e a agressividade dos outros diminuiu para comigo.
Aparentemente, é um livro para crianças, mas são os adultos que colhem os seus benefícios. De facto, só vemos com o coração, os olhos servem para iluminar…

 
At 17 de outubro de 2005 às 09:00, Anonymous JUM said...

AS AVES DE CAPOEIRA DAS AUTARQUIAS E DA BOLA

Não deixa de ser curioso que muitos dos que indignam com a eleição de candidatos autarcas que são arguidos em processos judiciais esquecem os seus valores noutros domínios da sua vida, e, em particular, no desporto.
Como nos poderemos admirar que os pontessorenses, tenham escolhido o Taveira Pinto, felgueirenses tenham escolhido a Fátima Felgueiras ou em Oeiras tenha sido escolhido o Isaltino se muito dos puritanos que por aí se indignam não têm qualquer pejo em fazer de conta de que não sabem a origem de algumas fortunas se estas servirem para ajudar o seu clube de futebol a chegar ao título?
Num dia ficamos indignados com a escolha de um autarca e no dia seguinte ficamos empolgados porque o presidente do nosso clube conseguiu contratar uma estrela do futebol, ou porque um árbitro não assinalou uma grande penalidade que todos vimos.
Na verdade o poder económico dos novos patos bravos (que bom seria se apanhasse a gripe das aves…) manifesta-se aos mais diversos níveis e em muitas dezenas de concelhos deste país; o facto de eles ou os seus homens de mão serem eleitos para as autarquias não é mais do que a evidência de que o seu poder económico se converteu em poder político, porque a ineficácia das nossas instituições, designadamente dos tribunais, permite tal descaramento.
Os eleitores que os escolhem não fazem mais do que muitos de nós fazemos no dia a dia em relação aos clubes de futebol

 

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