segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

AGOSTINHO DA SILVA 1906-1996



Agostinho da Silva é dos mais paradoxais pensadores portugueses do séulo XX.
O tema mais candente da sua obra foi a cultura de língua portuguesa, num fraternal abraço ao Brasil e aos países lusófonos. Todavia, a questão das filosofias nacionais não é para si decisiva, parecendo-lhe antes uma questão académica: «Não sei se há filosofias nacionais, e não sei se os filósofos, exactamente porque reflectem sobre o geral, se não internacionalizam desde logo».

O problema de que parte é a procura de uma razão de ser para Portugal: o que eu quero é que a filosofia que haja por estes lados arranque do povo português, faça que o povo português tenha confiança em si mesmo», entendendo por «povo português» não apenas os portugueses de Portugal, mas também os do Brasil, laçados de índios e negros, os portugueses de África, tribais e pretos, como também os da Índia, de Macau e de Timor.

Embarcando num sonho universalista em que os portugueses que vivem apenas para Portugal não têm razão de ser, apresentou-se aos olhos tantas vezes desconcertados dos seus leitores como um cavaleiro do Quinto Império, um reinado do Espírito Santo, respirando um misto de franciscanismo e de joaquimismo e, em todo o caso, obra mais de cigarras que de formigas como era próprio das crianças: «Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do império», o que é dizer que o primeiro passo dos impérios está sempre no espírito dos homens, aptos para servir, como os antigos templários ou os cavaleiros da Ordem de Cristo.

Um império sem clássicos imperadores, que leve aos povos do mundo uma filosofia capaz de abranger a liberdade por que se bate a América, a segurança económica conseguida pela União Soviética, e a renúncia aos bens que depois de ter estado na filosofia de Lao-tsé, diz estar também na de Mao-tsé, mas uma filosofia que as três possam corrigir, purgando a primeira de imperialismos, a segunda da burocracia, e a terceira de catecismos.

É esta uma filosofia que, como gostava de dizer, não parte imediatamente de uma reflexão sobre as ciências exactas, como em Descartes ou Leibniz, mas da fé, como em Espinosa. Partir de crenças como ponto vital e tomar como símbolo preferido que a palavra «crer» parece ter a mesma origem que a palavra «coração», fazendo depois como o Infante, abrindo-se à ciência dos seus pilotos, astrónomos e matemáticos. Tudo dito e defendido com a tranquilidade de quem sabe que até hoje ninguém desvendou os mistérios do mundo e conhece por isso os limites das soluções positivas.

Assim, seria possível valorizar aquilo que a seu ver nos distinguiria como povo e como cultura: um povo e uma cultura capazes de albergar em si «tranquilamente, variadas contradições impenetráveis, até hoje, ao racionalizar de qualquer pensamento filosófico».

Império do futuro precavido e purgado dos males que arruinaram os quatro anteriores, sem manias de mando, ambições de ter e de poder, sem trabalho obrigatório, sem prisões e sem classes sociais, sem crises ideológicas e metafísicas. Esse já não era o império europeu, dessa Europa ávida de saber e de poder, e por isso esgotada como modelo para os outros 80% da humanidade, menos ávida de poder e mais preocupada com o ser.

Trazer por isso o mundo à Europa, como outrora levámos a Europa ao mundo, tal a missão da cultura de língua portuguesa, construindo o seu domínio com uma base espiritual e sem base em terra, porque a propriedade escraviza e só não ter nos torna livres.

Obras
Sentido histórico das civilizações clássicas, 1929; A religião grega, 1930; Glosas, 1934; Sete cartas a um jovem filósofo, 1945; Diário de Alcestes, 1945; Moisés e outras páginas bíblicas, 1945; Reflexão, 1957; Um Fernando Pessoa, 1959; As aproximações, 1960; Educação de Portugal, 1989; Do Agostinho em torno do Pessoa; Dispersos, 1988.

Bibliografia
António Quadros, Introdução à Filosofia da História, Lisboa, 1982.

Pedro Calafate

4 Comments:

At 13 de fevereiro de 2006 às 13:26, Anonymous Anónimo said...

Dados biográficos de Agostinho da Silva


George AGOSTINHO Baptista da SILVA nasceu no Porto em 13 de Fevereiro de 1906.

Fez os estudos secundários e universitários naquela cidade, licenciando-se e doutorando-se (1929) em Filologia Clássica, na Faculdade de Letras.

Após o encerramento compulsivo dessa Faculdade, frequentou em Lisboa a Escola Normal Superior e trabalhou como bolseiro na Sorbonne e no Collège de France (1931/33).

Mandado regressar a Portugal, foi colocado no Liceu de Aveiro, vindo a ser demitido do ensino oficial, por motivos políticos, em 1935.

Depois de uma passagem pelo, “Centro de Estudos Históricos”, de Madrid, como bolseiro da “Junta de Relaciones Exteriores” espanhola, residiu em Lisboa até 1944, vivendo de aulas particulares e empenhando-se em diversas actividades de produção e difusão culturais. Manteve entretanto, desde os seus tempos do Porto, relações com o grupo da Seara Nova e, numa segunda fase, mais em particular com António Sérgio.

Em 1944, emigra para o Brasil, onde se fixa, depois de breves passagens pelo Uruguai e pela Argentina (1945-47). A sua permanência no Brasil aparece ligada a todo um notável conjunto de realizações culturais em sentido amplo, nomeadamente, a fundação do Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, da estação ecológica do Parque Itatiaia e a criação pioneira de universidades em zonas afastadas dos grandes centros (Paraíba, Santa Catarina), do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses na Universidade de Brasília e do Centro de Estudos Africanos e Orientais, na Baía. Leccionou nas Universidades de Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais, St. Catarina, Baia e Brasília.

Regressa a Portugal em 1969, prosseguindo aqui e na Galiza a sua actividade cultural.

A obra publicada de Agostinho da Silva reparte-se por diversos domínios: estudos clássicos (Breve ensaio sobre Pérsio, Sentido histórico das civilizações clássicas, A religião grega), tradução e apresentação de textos clássicos e modernos (Sófocles, Platão, Aristófanes, Lucrécio, Plauto, Terêncio, Teócrito, Catulo, Salústio, Suetónio, Tácito, Montaigne), biografias (Pestalozzi, Francisco de Assis, Franklin, Lamennais, Miguel Angelo, Pasteur, Lincoln, Robert Owen, Washington, Leopardi, Leonardo da Vinci, Montaigne), pedagogia (Sanderson e a Escola de Oundle, 0 Método Montessori), divulgação cultural, artística e científica (os Cadernos Iniciação, textos para a juventude, etc.), ensaísmo (Glossas, Conversa com Diotima, Parábola da mulher de Loth, Considerações, Sete Cartas a um Jovem Filósofo, Reflexão à margem da literatura portuguesa, Um Fernando Pessoa, As Aproximações), ficção (Herta - Teresinha - Joan). Além das obras publicadas em volume, precedentemente resenhadas sem pretensões de exaustividade, deve assinalar-se uma abundante produção de artigos esparsos por revistas e jornais, como A Águia, Dyonisos, Seara Nova, Revista de Portugal, Pensamento, 0 Instituto, Boletim de Filologia, 57, Espiral, Tempo Presente, 0 Tempo e o Modo, Cultura Portuguesa, Nova Renascença, Vida Mundial, Noticia, etc.

In “Entrevista com Agostinho da Silva” (entrevista conduzida por António Braz Teixeira, João Lopes Alves, Joel Serrão, José Pedro Serra e Nuno Nabais), Filosofia, nº 2, Dezembro de 1986, pp. 149-183.

 
At 13 de fevereiro de 2006 às 13:32, Anonymous Pedro Manuel said...

Quando tentamos esboçar uma linha que reflicta o pensamento de Agostinho da Silva sobre o que quer que seja, defrontamo-nos com uma imensa frustração. Que decorre de tentar arrumar um conjunto complexo de coisas com uma teoria. Como a teoria não é elástica muita coisa fica de fora. De fora da teoria e das nossas pobres mentes. Daí a frustração dessa empreitada.
Da ideia de Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e sua concretização política e cultural à escala global; da ideia de gerar sistemas económicos e de propriedade alternativos à pura economia de mercado capitalista; à ideia de liberdade e de tolerância; à ideia de lei, de coacção, de Estado, de Poder e até de Império (essa tal força da eternidade – revisitando Vieira e Pessoa – que alargaram o conceito de império); à ideia de representação política, de partidos políticos e praxis política; de resolução pacífica dos conflitos – integrada na questão maior da Paz e da Guerra entre as nações; à ideia de educação política/cidadania, pedagogia e quadros culturais, Organizações internacionais (ONU e outras).
Enfim, como os assuntos tratados por Agostinho da Silva foram imensos, é natural que a racionalização dos recursos intelectuais sobre toda essa miríade de temas não seja nada fácil de organizar.

No seu caso, fez apelo aos mais ilustres poetas e intelectuais portugueses para sublinhar que para além da Terra, uno se mostrou o Mar. De Portugal e da sua Nação, disse que devia ser o mais livre possível dos tropeços de Estado, animada por missionários e peregrinos, marcando agora como lugares sagrados todos os elementos de universo, quer do concreto quer do pensado, e sabendo que o acesso a eles não o garantem as armas, mas todos os esforços culturais que tendam, sem perder o que é próprio, a entender todo o alheio e a exaltar o diferente acima do igual – e por amor e alegria da diferença. Há aqui muito do legado de Camões, Vieira, Pessoa..

Como é que isto se fazia? Ou se fez? Transportando Portugal a sua concepção globalizadora para o Mundo? Utilizou o conhecimento (náutico) de que dispunha tendo em vista exclusivamente a sua utilidade económica? Ou, ao invés, recorreu a outra técnica ou método para descobrir os contornos da globalização em curso na sociedade global? A tal globalização positiva, de face humana que hoje falta.

Basta atentarmos no pensamento de Agostinho da Silva vertida na sua Reflexão - para identificamos alguns pressupostos daquela questões:

“Talvez haja uma ciência verdadeiramente humana, de uma descoberta do mundo como a praticaram os nossos pilotos e exploradores dos Descobrimentos, uma ciência de irmãos para irmãos, uma ciência que não põe acima de tudo não o prever, não o poder, mas o admirar, o maravilhar-se diante dos novos céus, dos novos climas.... dos novos animais, dos novos homens, dos novos costumes e, para além de tudo isso, do infinito poder criador de Deus, uma ciência que sabe chegar aos outros, aos que não participaram na descoberta, uma ciência que vai ao encontro de uma filosofia de procedimento, uma filosofia que se faz proverbial e não discursiva. Uma ciência de um povo de homens livres” .


A dada altura perdemo-nos para organizar tudo isto, uma vez que a aparelhagem matemática e os ensinamentos das ciências "duras" começam a entrar na sua equação de pensamento. Embora a capacidade de prever - no pensamento agostiniano - se encaminhe claramente não para as questões do Mando e do Poder e da Potência - como em muitos sociólogos da modernidade (recordo Max Weber, por ex.,) mas para as questões ligadas à resolução de problemas de conforto, problemas de produção e de educação gerados na economia capitalista.
Também aqui - na relação da Ciência, do Conhecimento e do Saber com o Poder - Agostinho da Silva andou à frente do tempo. Já que cedo compreendeu a possibilidade do tal Poder instrumentalizar essa ciência, esse conhecimento e essa sabedoria.
No fundo, Agostinho conhecia bem o símbolo do doutor Fausto, que acabará vendendo ao Diabo a alma da humanidade, se outras forças não puderem ou não souberem intervir. E Agostinho da Silva interveio, e fê-lo quase sempre na adversidade, dentro e fora de portas.

 
At 13 de fevereiro de 2006 às 13:35, Anonymous Anónimo said...

Este poema do Professor Agostinho da Silva diz tudo:

Meu País foi Portugal, e nessa altura
Casado com Império, morta depois;
Viúvo, há pouco tempo quis ser dois
E, após, muita ilusão, muita procura,
Namora Espanha, moça de arrebique;
Por mim me enamorei do que é Brasil
E por fim me casei com sua terra.
Ora cá ora lá, eventos mil,
Por entre os quais um certo mês de Abril,
mar e rio me levam, vale e serra;
Quero, porém, ter alvo a que dedique
O que ainda me resta em força pura:
Penso terei por filho Moçambique,
Me encantará o vê-lo gatinhar
E meu sonho será seu pé firmar.
Talvez desperte seu Avô um dia
Lhe fale do passado gosto de viver,
Ao futuro o anime e o livre de morrer
Naquele esquecimento em que sumia.

 
At 14 de fevereiro de 2006 às 10:08, Anonymous Pedro Manuel said...

Ontem a TSF fez mais um fórum para homenagear o filósofo português mais importante da 2ª metade do séc. XX - Agostinho da Silva.
Tive pena de não intervir.
Mas verifiquei que a linha do programa arrancou logo com uma ligação directa a um velho do Restelo que referiu um conjunto de banalidades e atribuiu, de forma algo unidimensional, ao pensador o título de pedadogo; um fransciscano despojado, um utópico e mais umas coisas sobre o conceito estratégico blá, blá, blá. Só faltou recitar a encíclica de Roma e de mais umas cruzes vaticanais com tom solene depois de esfregar as mãosinhas e invocar Chardin, que Agostinho da Silva achava um grande vigarista intelectual. Enfim, ódios antigos de antigos que nos escapam. Depois os seguintes intervenientes, curiosamente, reportavam todos ao apelido do 1º interveniente e logo pensei que a marosca estava pré-feita, quero dizer, combinada.
Até tentei ouvir melhor não fora eu estar enganado e o dito programa estar vocacionado mais para homenagear os vivos e esquecer o homenageado.
Mas tudo bem, ficámos a conhecer o importante legado de Agostinho da Silva como sendo o de um grande pedagogo que mobilizou a juventude.
Ah, e ainda segundo a douta opinião do 1º interveniente, sofreu também o estímulo da figura socrática.
Aqui fiquei maravilhado, maieuticamente maravilhado. E a roda descobriu-se, o eixo dela também girava e fez-se lux e todos os candeiros do Restelo e arredores se apagaram.
Mas retomemos o essencial:
Ou seja, de Agostinho da Silva - que nunca fez jogo duplo tentando servir o diabo (leia-se, a ditadura) e Deus (a democracia superveniente), como inúmeros restolhos que transicionaram para a democracia pluralista dando a entender à turba - que os acolheu - que sempre foram democratas e pluralistas quando, na realidade, a maior frustração que ostentam hoje é a de viverem sem terem sido presidente(s) do concelho, ou seja, não terem podido substituir o velho "botas", o grande e durável Salazar. E alguns ministros do ancien regime até deixaram de se falar por serem dois galos a querer disputar a mesma capoeira, perdão, o mesmo poleiro.
Refiro-me, em bom português, porque este blog não é de meias tintas nem sonso, nem hipócrita nem segue a política do cagaço institucionalizada por Freitas:
Adriano Moreia e o já falecido historiador e ensaista Alberto Franco Nogueira.
Davam-se bem especialmente quando não se viam. E quando não se viam odiavam-se cordialmente, santamente, piamente, encíclicamente.
Mas esta estória não se prende apenas às babas dos velhos do Restelo, sob pena de nunca se ter realizado as Descobertas, ou melhor, a Navegações, que jamais poderá ser creditada aos restolhos que ainda pululum por aí, ou andam por aí.
O que procuro significar é que vejo Agostinho da Silva como um guia que ensinava muita coisa a muita gente.
De facto, ele não foi apenas um pedagogo.
Assim, como alguns ministros de Salazar, uns foram muito piores e outros muito maus. E outros ainda, tinham as mãozinhas em duas plataformas e depois deixavam a mãosinha sobrantes na plataforma que fosse elevatória para, desse modo, ascenderem à Democracia dos vencedores. E hoje são uns verdadeiros democratas, emboram a cara, o estilo, os tiques, os gestos sejam todos, mas todos mesmo do ancien regime.


Agostinho, de facto, queria tudo para todos. Pretendia que todos vivessem em plenitude: na cultura, na economia, na sociedade e na política. Era um homem duma bondade inexcedível: sem arrogância, sem soberba, sem tiques erráticos de personalidade auto-convencida, sem traumas, sem desvios, sem hipersensibilidades, sempre coerente com o que pensava e fazia. Nele, ao invés dos restolhos mal formados - que deixaram nos corredores das faculdades toda uma geração de doutores e de catedráticos psicológicamente marcados, e, hoje, ainda sofrem os vícios comportamentais dessas marcas genético-desviantes - como quem reproduz a violência psicológica de que foi alvo (eis o raciocínio: se eu fui maltratado também vou maltratar os outros), o altruísmo de Agostinho era a regra, o seu solidarismo o padrão, a cooperação o automatismo desejado. Agostinho da Silva nunca deixava ninguém "pendurado", e por vezes o motorista era o 1º a ser cumprimentado. Nele, ao invés dos restolhos salazarengos do costume
- a imagem batia certo com a sua autenticidade. De modo que ir a casa dele durante anos a fio foi um prazer e um privilégio incomensuráveis.
- Era como ir a casa do mestre dos mestres beber uma taça de chá. Só que o chá vinha para a mesa e Agostinho (como que) enchia a taça do seu visitante e, depois, continuava a "festa" até a coisa transbordar..
- Vai daí o visitante só podia observar: ó professor páre lá com esse emborcamento desregrado porque está a entornar tudo e a desperdiçar o chá. Não vê que não cabe mais nada na taça!!!
- A surpresa vinha depois, como sempre em Agostinho da Silva: tal como esta taça, dizia: ó rapaz estás cheio das tuas própias opiniões e conjecturas. E assim como poderei eu revelar-te o Zen que queres aprender, se antes não esvaziares a tua taça? Ou melhor, a tua cabeça...

 

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