terça-feira, 7 de março de 2006

10 ANOS DE SAMPAIO


O tigre de Sampaio inspirado em Visconti

Já é um lugar comum afirmar que O Leopardo de Luchino Visconti, de 1963, representa a queda da aristocracia e a emergência da burguesia.
O filme tem como pano de fundo a história da Sicília centrada no século XIX, quando era dominada pelo ramo espanhol dos Bourbons.
O Príncipe de Salina Don Fabrizio (soberbamente interpretado por Burt Lancaster, no papel que o consagrou) começa a perceber que a actuação de Garibaldi iria alterar de forma inexorável a estrutura de poder então dominante na Sicília e, por extensão, na aristocracia local.

• Quando acontece o desembarque na Sicília e a ameaça se torna iminente, Tancredi (Alain Delon), sobrinho do príncipe, sussurra para ele a fórmula mágica: "se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude", um pouco como hoje... Só mudam as moscas, mas m... e a mesma.

• Assim, ele também participa da luta pela unificação da Itália, garante a continuidade da influência da família no poder e, ao mesmo tempo, a sua própria sobrevivência social, casando-se com a filha (Claudia Cardinale) do latifundiário local.
Era a velha aristocracia aliando-se à força ascendente da nova época: a burguesia. Visconti retrata com fidelidade os antecedentes que geraram a decadência da nobreza siciliana e sua adaptação aos novos tempos.
Eis a estória que hoje me recorda a finalização do mandato de Sampaio em Belém após uma década de discursos vazios, de muitas lágrimas e de tudo, ou quase tudo, por fazer.



• Ora é dentro dessa história que se desdobra uma outra estória.
A qual se pode hoje confundir com o decénio de Sampaio no poder - em que praticamente nada fez, senão tornar este Portugal um País ainda mais inerte, apático, omisso quanto ao essencial da nossa identidade, cultura e competitividade.
A Sampaio, portanto, aplica-se que nem uma luva aquele adágio que ficou, como o Toyota, ventilado pelo Gato Fedorento: ele fala, fala, fala mas não faz nada - e que o Montepio Geral pagou a peso d' ouro e cujo Kapital já encaixou o retorno, dado que milhares de famílias entretanto se endividaram para comprar casa à pala dessa conversa mole que as sopeiras da década de 70 cantavam quando lavavam as roupas dos patrões nos tanques do costume.
Nessa altura ainda não havia eco fundamentalistas, ou se os havia ainda andavam de cueiros - para retomar a terminologia Freitista do Palácio das Necessidades, ou infelicidades... segundo versão dos cueiros e dos meninos-topete do CDS-Pum-Pum.

• Por isso, a três dias de deixar Belém a melhor homenagem que se pode prestar ao ainda PR é recordar esta estória que é, no fundo, a sua própria estória que marcou estes 10 anos de Portugal paralítico (há quem diga tetraplégico...):
o Portugal do de 1996-2006.

• Que representa o fim do poder de um estilo verboroso, redondo, obscuro - tal como dizia Marcelo R. de Sousa - "o homem nada diz se não estiver a ler um papel" (sic) - e a ascensão de um estilo pragmático e vocacionado para a resolução concreta dos problemas da nação, ié, o estilo Cavaco.

• Neste paralelismo Sampaio, se quisermos, representa uma certa nobreza decadente que não sabe bem o que lhe está a suceder, por ente imensas sestas ao ombro de Marx e de Engels. E como não sabe bem o que lhe está a suceder só comete dilates. Veja-se a sua mais recente declaração quando diz: "não quero mais regressar a Belém."...
Estaria ele a referir-se a Jerusalém, berço de Jesus Cristo - onde Este aportou a cavalo num burro!!!???
Não o sabemos, porque insondáveis e múltiplos são os dilates do Sampaio.
Uma coisa é certa: um fraco Rei faz fraca a forte gente, como ensinara Camões no seu poema épico...

• Razão por que afirmámos aqui - infra - que o seu legado se resumirá às melhores intenções, eivadas de boa vontade, muito altruísmo, muita choramingueira e, certamente, de muita compaixão que o povo passou a nutrir por este presidente.
Até pelas operações que teve de fazer no decurso do seu mandato - daqui resultando a tal empatia (ou compaixão - de que Guterres, aliás, também beneficiou por causa da morte de sua mulher).
Veremos por quanto mais tempo se estende o estado de graça de Sócrates.
Se lhe falece o canário, está tudo perdido...
Ou não!!!

• Mas, infelizmente, e por amor aos factos e à verdade deles, cremos que Sampaio ficará na história de Portugal como o PR que salvou as gémeas de Mafômedes e as colocou a estudar na Universidade de Coimbra e, também, por ter sido o autor, na linha das acusações de Marcelo Rebello de Sousa, daqueles tais discursos que serão, por certo, um enorme contributo para o estudo da ciência da semântica e semiótica a quem assenta que nem uma luva a fórmula que fez carreira no filme de Visconti - quando, precisamente, Alain Delon - segreda - se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude...

• Em suma:
olhar para Portugal antes de Sampaio e olhar para Portugal depois dele - é ver uma imagem desfocada no tempo, envelhecida, enfraquecida, desnutrida, desclassificada um pouco como aquelas radiografias amolgadas que com o tempo já nem podem ser aproveitadas pelas farmácias para extrair a prata ou abrir portas antes de chamar as chaves do Areeiro.

Até ao render da guarda é vindima, ié, até 5ª feira ainda haverá muita medalha para mandar ao Tejo, muitas palmas por bater, muitas lágrimas por chorar, muita mise en scéne, muita pose, multidões de actos e de gestos gratuitos e sem sentido - um pouco como os milhares de discursos ditos e reditos sem uma única finalidade ou mais-valia para a nação. E perante isto só me lembro de Luís Vaz - quando dizia que um fraco rei faz ainda mais fraco o povo que aquele era suposto elevar.
No mundo material nada ganhámos neste decénio;
No mundo moral confrontamo-nos hoje com um estado psicológico altamente negativo e paralisado que deixa a economia de rastos e extremamente dependente do exterior. E nem aqui o peso da história grandiosa e a dimensão dos mitos nos parece querer ajudar.
Cavaco representa, de facto, essa réstia de esperança cujo mensageiro promete trazer boas novas e romper com o véu de bruma que vem do passadismo desta última década perdida.
Palmas, discursos, lágrimas - tudo isso para quê...
Resta-nos o esprit de Mafômedes que ainda será elevado à tela da 7ª Arte pelo realizador Manuel de Oliveira quando este fizer 110 anos.
Fica a promessa, a partir do Norte, carágú...


Pedro Manuel

1 Comments:

At 7 de março de 2006 às 14:08, Anonymous Anónimo said...

OS ÓSCARES

Melhor Filme

"Casa Pia"

Melhor Realizador

Souto Moura – "Casa Pia"

Melhor Actor

Cavaco Silva, em "Regresso a Belém"

Melhor Actor Secundário

Manuel Alegre, em "Regresso a Belém"

Melhor Actriz

Maria Cavaco Silva, em "Regresso a Belém"

Melhor Actriz Secundária

Catalina Pestana, em "Casa Pia"

Melhor Filme de Animação

"Vou andar por aí", de Pedro Santana Lopes

Melhor Direcção Artística

Jorge Coelho, "O Logro"

Melhor Fotografia

Vítor Constâncio, "O Logro"

Melhor Guarda-roupa

"Regresso a Belém", Maria Cavaco Silva

Melhor Documentário

"A Sondagem", de Pinto Balsemão

Melhor documentário em Curta-Metragem

"O Comunicado", de Freitas do Amaral

Melhor Edição

"Casa Pia", Bagão Félix

Melhor Filme Estrangeiro

"Cruzeiro no Mediterrâneo", com Durão Barroso

Melhor Maquilhagem

"Assalto à Autarquia", Fátima Felgueiras

Melhor Banda Sonora Original

"Deram-me três facadas nas costas", em "Vou andar por aí", música de Pedro Santana Lopes e letra de Dias Loureiro

Melhor Música Original

"O Envelopes número 9", em "Casa Pia", Jorge Sampaio

Melhor Curta-Metragem de Animação

"O Pensionista", de Luís Cunha

Melhor Curta-Metragem

"O Regresso", Mário Soares

Melhor Montagem de Som

"O Logro", António Vitorino

Melhor Mistura de Som

"O Logro", Fernando Gomes e Armando Vara

Melhores Efeitos Especiais

"Regresso a Belém", Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa.

Melhor Argumento Adaptado

"O Logro", argumento de José Sócrates, a partir da famosa obra "programa eleitoral do PS"

Melhor Argumento Original

"Casa Pia", Paulo Portas.

 

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